{"id":9156,"date":"2022-08-09T09:24:07","date_gmt":"2022-08-09T12:24:07","guid":{"rendered":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/?p=9156"},"modified":"2022-08-09T09:24:07","modified_gmt":"2022-08-09T12:24:07","slug":"sem-anos-de-indigenismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/2022\/08\/09\/sem-anos-de-indigenismo\/","title":{"rendered":"Sem anos de indigenismo"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Sandra Terena<\/em><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"imagemdireita\" src=\"https:\/\/www.ultimato.com.br\/image\/revistas\/ult%20322\/home_40.jpg\" alt=\"\" width=\"134\" height=\"151\" align=\"right\" border=\"0\" \/>Meu nome \u00e9 Sandra e sou \u00edndia do povo terena. Na minha tribo me chamam de Alyet\u00e9, que quer dizer pessoa meiga. Este ano o Brasil comemora cem anos de indigenismo. Um marco hist\u00f3rico. No entanto, esses anos n\u00e3o foram suficientes para desenvolver pol\u00edticas p\u00fablicas que atendessem de forma satisfat\u00f3ria a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena brasileira. Tamb\u00e9m, pudera. Antes das pol\u00edticas de Rondon, o pioneiro indigenista, foram 400 anos em que o Brasil ignorou a presen\u00e7a do nosso povo, tratando-nos como um empecilho ao progresso.<\/p>\n<p>De l\u00e1 para c\u00e1, muitas coisas mudaram. Hoje, existem tratados internacionais de direitos humanos e o Brasil tem at\u00e9 um estatuto do \u00edndio, escrito em 1973, que j\u00e1 \u00e9 considerado retr\u00f3grado e em muito n\u00e3o se aplica. A Conven\u00e7\u00e3o 169 da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho, sancionada por meio de decreto pelo Presidente Lula em 2004, na teoria, assegura muitos direitos aos povos ind\u00edgenas. O principal problema \u00e9 levar esses direitos ao conhecimento dos nossos jovens. Uma caravana itinerante nas aldeias para oferecer cursos e oficinas sobre o assunto seria um bom come\u00e7o.<\/p>\n<p>Para mudar esse quadro, precisamos de uma base educacional melhor em nossas aldeias. Desde a prepara\u00e7\u00e3o de professores at\u00e9 uma boa estrutura nas escolas. A partir do momento em que tivermos um ensino de qualidade, teremos mais for\u00e7a e legitimidade para lutar por nossos direitos j\u00e1 previstos e para reivindicar outros, de acordo com as nossas necessidades. A garantia do ensino superior para os jovens ind\u00edgenas seria fundamental para isso. Assim, formar\u00edamos m\u00e9dicos, enfermeiros, advogados e muitos outros profissionais para atuar em suas aldeias de origem.<\/p>\n<p>Por muito tempo vivemos uma pol\u00edtica integracionista. As pessoas achavam que os \u00edndios tinham de se integrar \u00e0 sociedade ou viver de forma isolada. A palavra de ordem agora n\u00e3o \u00e9 mais integra\u00e7\u00e3o, mas sim intera\u00e7\u00e3o. Hoje temos plena capacidade de decidir o que \u00e9 melhor para n\u00f3s. Se o \u00edndio quiser viver na floresta, virar um grande ca\u00e7ador e seguir com suas pr\u00e1ticas religiosas ele tem esse direito. Se ele quiser professar outra religi\u00e3o, ir para a cidade, fazer uma faculdade, por exemplo, n\u00e3o deixar\u00e1 de ser \u00edndio. De acordo com dados do IBGE, desde o ano 2000, quase metade da popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena brasileira j\u00e1 vive em centros urbanos. Por\u00e9m, apesar de a forte presen\u00e7a ind\u00edgena nas cidades grandes ser uma realidade, muitas vezes esses \u00edndios vivem \u00e0 margem de duas sociedades. N\u00e3o h\u00e1 pol\u00edticas p\u00fablicas que atendam as necessidades dos \u00edndios urbanos e o pior: quando v\u00e3o buscar aux\u00edlio em \u00f3rg\u00e3os indigenistas, muitas vezes n\u00e3o s\u00e3o reconhecidos como \u00edndios &#8212; uma grande arbitrariedade.<\/p>\n<p>Em nossas aldeias fomos acostumados com pol\u00edticas assistencialistas. Em muitas, j\u00e1 n\u00e3o temos ca\u00e7a e pesca suficiente. Em outras tribos, o plantio \u00e9 proibido por restri\u00e7\u00f5es governamentais das terras. Infelizmente, fomos acostumados a viver de doa\u00e7\u00f5es de cestas b\u00e1sicas e roupas usadas. Para que possamos ter uma vida digna, precisamos de projetos que visem a sustentabilidade. At\u00e9 l\u00e1, ainda viveremos sem anos de indigenismo, independente das comemora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Hoje, somos cerca de 227 povos no Brasil. Cada um com suas peculiaridades, l\u00edngua e costumes. Quero desafiar os jovens a fazerem algo pr\u00e1tico pelos povos ind\u00edgenas brasileiros. Desde ir \u00e0s aldeias at\u00e9 enviar um simples e-mail, o que faz muita diferen\u00e7a quando h\u00e1 resist\u00eancia pol\u00edtica no Congresso.<\/p>\n<p>Publicado originalmente na <a href=\"https:\/\/www.ultimato.com.br\/revista\/artigos\/322\/sem-anos-de-indigenismo\">edi\u00e7\u00e3o 322<\/a> da revista <strong>Ultimato<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>\u2022 Sandra Terena<\/strong>, 39 anos, \u00e9 jornalista, especialista em comunica\u00e7\u00e3o audiovisual e vice-presidente da ONG Aldeia Brasil (para saber mais sobre o indigenismo ou se tornar parceiro, escreva para <a class=\"link\">contato@aldeiabrasil.org<\/a>).<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Saiba mais:<\/strong><br \/>\n\u00bb\u00a0<a class=\"link\" href=\"https:\/\/www.ultimato.com.br\/revista\/artigos\/322\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Somos coadjuvantes nessa hist\u00f3ria?<\/a>, por Jeverton \u201cMagr\u00e3o\u201d Ledo<br \/>\n\u00bb <a class=\"link\" href=\"https:\/\/www.ultimato.com.br\/revista\/artigos\/322\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Identidade, diversidade e di\u00e1logo<\/a>, por Thiago Machado<br \/>\n\u00bb <a class=\"link\" href=\"https:\/\/www.ultimato.com.br\/revista\/artigos\/322\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Pol\u00edtica: crian\u00e7a e adolescente tamb\u00e9m participa?<\/a>, por Paulo Roberto dos Santos<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Sandra Terena Meu nome \u00e9 Sandra e sou \u00edndia do povo terena. 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