{"id":8324,"date":"2020-10-07T13:30:06","date_gmt":"2020-10-07T16:30:06","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/?p=8324"},"modified":"2020-10-09T11:59:44","modified_gmt":"2020-10-09T14:59:44","slug":"wakanda-para-sempre-uma-teologia-da-cidade-a-partir-do-pantera-negra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/2020\/10\/07\/wakanda-para-sempre-uma-teologia-da-cidade-a-partir-do-pantera-negra\/","title":{"rendered":"Wakanda para sempre: uma teologia da cidade a partir do Pantera Negra"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Vinnicius Almeida<\/em><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-8325 alignright\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2020\/10\/pantera2-300x171.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"171\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2020\/10\/pantera2-300x171.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2020\/10\/pantera2-768x437.jpg 768w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2020\/10\/pantera2-732x417.jpg 732w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2020\/10\/pantera2.jpg 1000w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>Antes de ir para o cinema, o Pantera Negra fez diversas apari\u00e7\u00f5es em programas de televis\u00e3o, s\u00e9ries e desenhos animados. No filme, entre o bel\u00edssimo elenco composto por Michael B. Jordan, Lupita Nyong\u2019o, Letitia Wright, Forest Whitaker, o Pantera Negra \u00e9 interpretado por Chadwick Boseman (in memoriam). E esse \u00e9 um texto em sua homenagem\u2026<\/p>\n<p>As primeiras estatuetas do Oscar para a Marvel Studios s\u00e3o frutos da produ\u00e7\u00e3o de <em>Pantera Negra<\/em>. O filme atingiu a marca de tr\u00eas premia\u00e7\u00f5es na conhecida cerim\u00f4nia de gala e venceu nas categorias de Melhor Trilha Sonora, Melhor Figurino e Melhor Dire\u00e7\u00e3o de Arte. Embora n\u00e3o seja o primeiro filme de um her\u00f3i negro como protagonista \u2014 valendo lembrar que <em>Blade<\/em> vem das HQ\u2019s do universo Marvel \u2014 Pantera Negra incorpora uma aut\u00eantica representatividade, quando a sociedade contempor\u00e2nea (ainda) \u00e9 afetada por m\u00faltiplas express\u00f5es de viol\u00eancia, desigualdade e racismo (infelizmente, essas palavras se repetem na sociedade e neste texto).<!--more--><\/p>\n<p>Com isso, torna-se compreens\u00edvel o fen\u00f4meno que influenciou uma gera\u00e7\u00e3o de seguidores da cultura pop, que responde com empenho o sucesso atingido por assistir a um filme de her\u00f3i, que para al\u00e9m do protagonista ser negro (e o her\u00f3i), possui uma profunda trama que envolveu um elenco de negros, combinando um roteiro que concentrou aspectos deslumbrantes da cultura e est\u00e9tica africana. Faz todo sentido a devida visibilidade.<\/p>\n<h4><strong>Pantera Negra: Dos quadrinhos para a tela, sem deixar de lado a realidade<\/strong><\/h4>\n<p>Com a mudan\u00e7a na lei para o fim do regime de segrega\u00e7\u00e3o racial, os primeiros her\u00f3is negros surgem nos universos Marvel e DC. Ent\u00e3o, Pantera Negra (1966), Falc\u00e3o (1969), Lanterna Verde (1971), Luke Cage (1972), Tempestade (1975), Tyroc (1976) e Raio Negro (1977) come\u00e7aram a aparecer nas hist\u00f3rias em quadrinhos, a princ\u00edpio na condi\u00e7\u00e3o de pap\u00e9is coadjuvantes ou em parceria de outros her\u00f3is j\u00e1 conhecidos. Posteriormente, estes personagens passam a protagonizar e conquistam suas pr\u00f3prias s\u00e9ries e hist\u00f3rias.<\/p>\n<div id=\"attachment_8326\" style=\"width: 216px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-8326\" class=\"size-medium wp-image-8326\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2020\/10\/pantera1-206x300.jpg\" alt=\"\" width=\"206\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2020\/10\/pantera1-206x300.jpg 206w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2020\/10\/pantera1-702x1024.jpg 702w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2020\/10\/pantera1-768x1120.jpg 768w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2020\/10\/pantera1-1053x1536.jpg 1053w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2020\/10\/pantera1-732x1068.jpg 732w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2020\/10\/pantera1.jpg 1131w\" sizes=\"auto, (max-width: 206px) 100vw, 206px\" \/><p id=\"caption-attachment-8326\" class=\"wp-caption-text\">&#8220;O Pantera Negra!&#8221; Fantastic Four #52-53, 1966, por Stan Lee e Jack Kirby<\/p><\/div>\n<p>T\u2019Challa, que foi o primeiro super-her\u00f3i negro a adentrar o universo dos quadrinhos teve sua vers\u00e3o criada por Stan Lee e Jack Kirby em 1966, meses antes da funda\u00e7\u00e3o do grupo militante Partido Pantera Negra<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>. Evidentemente, o personagem e o partido terem o mesmo nome tecem uma interessante rela\u00e7\u00e3o nas edi\u00e7\u00f5es que seguem ap\u00f3s a surpreendente coincid\u00eancia. Ali\u00e1s, seus criadores tentaram evitar tal acontecimento. Temendo problemas, alteraram o nome do her\u00f3i para <em>Leopardo Negro<\/em>. No entanto, em fun\u00e7\u00e3o da popularidade que atingia o Partido dos Panteras Negras, a desaprova\u00e7\u00e3o dos leitores fez com que fosse retomado e mantido o t\u00edtulo original do quadrinho.<\/p>\n<p>A estreia do personagem Pantera Negra veio como coadjuvante nas edi\u00e7\u00f5es 52 e 53 de <em>Fantastic Four<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup><strong>[2]<\/strong><\/sup><\/a><\/em>, em 1966. Novamente sobre coincid\u00eancias ou genialidade dos quadrinhos, o her\u00f3i surge em meio ao cen\u00e1rio pol\u00edtico da \u00e9poca e isso ocorre exatamente um ano depois da morte de Malcolm X.<\/p>\n<p>Neste quadrinho, a estreia do her\u00f3i cooperando nas p\u00e1ginas de Quarteto Fant\u00e1stico no ano de 1966 com a equipe de Lee e Kirby, onde a dupla elabora um personagem africano, rei de uma na\u00e7\u00e3o pr\u00f3spera e altamente tecnol\u00f3gica e que em momento algum, se mostra inferior aos her\u00f3is da aventura. A estreia e o enredo do Pantera Negra, parece t\u00e3o atual como nunca. Assim que a hist\u00f3ria de T&#8217;Challa, l\u00edder do reino de Wakanda que ganha os poderes de Pantera Negra para proteger o seu povo, conquistou elogios do p\u00fablico e da cr\u00edtica especializada n\u00e3o somente pela trama, mas tamb\u00e9m pela excel\u00eancia est\u00e9tica.<\/p>\n<p>O filme aborda a trajet\u00f3ria do pr\u00edncipe T\u2019Challa &nbsp;\u2014&nbsp; incrivelmente interpretado por Chadwick Boseman \u2014&nbsp; \u00e0 sua terra natal, a secreta e pr\u00f3spera na\u00e7\u00e3o de Wakanda. Situada no continente africano, o reino fict\u00edcio \u00e9 o mais avan\u00e7ado da Terra, possuindo alt\u00edssima tecnologia, ci\u00eancia, poder militar e organiza\u00e7\u00e3o social em raz\u00e3o de possuir um recurso exclusivo, o metal Vibranium, que possibilitou \u00e0 Wakanda se manter escondida e protegida do resto do mundo, evitando dessa forma, a interven\u00e7\u00e3o dos povos europeus, que acontecia em larga escala pelo resto do continente.<\/p>\n<p>Com a morte do rei T\u2019Chaka, v\u00edtima de um atentado terrorista \u2013 retratado no terceiro filme do Capit\u00e3o Am\u00e9rica em 2016 \u2013 agora T\u2019Challa est\u00e1 de volta ao lar para ser coroado o novo soberano. A cena p\u00f3s-cr\u00e9ditos de <em>Guerra Civil<\/em> se passa em Wakanda e uma escultura gigantesca de uma Pantera Negra \u00e9 vista no local. Detalhe: as imagens do pa\u00eds africano liderado por T&#8217;Challa foram filmadas em terras brasileiras, a saber, nas Cataratas do Igua\u00e7u.<\/p>\n<p>O vil\u00e3o Killmonger, de Michael B. Jordan, apresenta uma interpreta\u00e7\u00e3o convincente acerca de seus prop\u00f3sitos e ideais, que leva o p\u00fablico \u00e0s principais reflex\u00f5es do filme, despertando a&nbsp; aten\u00e7\u00e3o para o drama real, afinal, seu personagem \u00e9 oriundo das violentas ruas de Oakland e sofre todas o conjunto de desigualdades e express\u00f5es da quest\u00e3o social que afetam os negros dos Estados Unidos, sobretudo os mais pobres. Sendo essa a primeira cena do filme, a escolha do local \u00e9 profundamente significativa. Oakland, \u00e9 uma cidade localizada no estado da Calif\u00f3rnia e foi o ber\u00e7o do movimento do Partido dos Panteras Negras, que emerge como uma resposta diante da repress\u00e3o policial contra a popula\u00e7\u00e3o negra (Parece at\u00e9 2020, n\u00e3o?).<\/p>\n<p>Por este prisma, o personagem apresenta uma revolta fundamentada na realidade. Em meados do s\u00e9culo 20, diversos estados norte-americanos sustentaram as leis de discrimina\u00e7\u00e3o racial, semelhantes \u00e0s praticadas pelo regime branco sul-africano do <em>Apertheid<\/em> ou das primeiras leis segregacionistas da Alemanha nazista. Nesse per\u00edodo, at\u00e9 os anos 1960, as salas de aula, os assentos do transporte coletivo e bebedouros p\u00fablicos eram divididos para a popula\u00e7\u00e3o branca e para a popula\u00e7\u00e3o negra<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[3]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Desta forma, o longa mesmo possuindo a din\u00e2mica Marvel, possui um aspecto positivo ao articular o enredo com um dilema sociopol\u00edtico contempor\u00e2neo, pois trata-se de um vil\u00e3o n\u00e3o apenas em busca de uma vingan\u00e7a <em>per si<\/em>, mas que almeja atrav\u00e9s da for\u00e7a, revolucionar e promover a transforma\u00e7\u00e3o dos povos negros.<\/p>\n<p>O grande desafio \u00e9 posto no filme quando Wakanda na condi\u00e7\u00e3o de na\u00e7\u00e3o mais rica e pr\u00f3spera se mostra cada vez mais amea\u00e7ada. O povo e suas lideran\u00e7as se subdividem entre os que consideram necess\u00e1rio se defender para tentar manter as tradi\u00e7\u00f5es e a seguran\u00e7a de um lado, e os que compreendem ser necess\u00e1rio sair das bases fechadas e intervir diante dos acontecimentos que oprimem os povos negros nos demais pa\u00edses do mundo.<\/p>\n<p>Justapostas, as perspectivas entre T\u2019Challa e Killmonger s\u00e3o lan\u00e7adas. N\u00e3o apenas o trono e o poder o Pantera Negra, mas projetos societ\u00e1rios para a cidade a partir do que \u00e9 considerado sagrado para o her\u00f3i ou o vil\u00e3o. Inclusive, uma refer\u00eancia \u00e0 espiritualidade africana tradicional, que tem a ancestralidade como um tra\u00e7o marcante, na qual torna constitui a jornada dos personagens de aspectos como a for\u00e7a e a sabedoria. A sociedade da informa\u00e7\u00e3o precisa recuperar as virtudes antigas e a sabedoria que n\u00e3o se encontra num tutorial.<\/p>\n<p>Para Killmonger, Wakanda deve usar seu poderio com a finalidade de intervir nas demandas dos negros atrav\u00e9s de sua superioridade tecnol\u00f3gica e militar. Contr\u00e1rio senso, T\u2019Challa, j\u00e1 com o poder do Pantera Negra, articulando o papel de guerreiro e rei, compreende que a atua\u00e7\u00e3o de Wakanda deve ser ben\u00e9fica para todas as na\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Com isso, e, aos da f\u00e9, indagamos que o filme levanta a seguinte pergunta: qual a perspectiva de \u201cteologia p\u00fablica\u201d para a cidade, visto que a din\u00e2mica da f\u00e9 convive num espa\u00e7o-tempo e implica projetos humanos, como o do pantera Negra e o de Killmonger para a mesma Wakanda. Temos as nossas prefer\u00eancias\u2026 mas, qual \u00e9 o projeto de Deus para a cidade?<\/p>\n<h4><strong>Wakanda como modelo da justi\u00e7a e shalom<\/strong><\/h4>\n<p>A cidade de Wakanda possibilita uma perspectiva para recuperar a rela\u00e7\u00e3o entre a espiritualidade judaico-crist\u00e3, a constitui\u00e7\u00e3o da vida urbana e as tecnologias, a partir do conceito de justi\u00e7a e shalom (Schuurman, 2016, p.7). A justi\u00e7a b\u00edblica, compreendida enquanto a condi\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00e3o necess\u00e1rias para garantir o bem viver, frutificar e florescer toda a cria\u00e7\u00e3o de Deus.<\/p>\n<p>No Antigo Testamento, a palavra hebraica traduzida como justi\u00e7a \u00e9 a palavra<em> mishpat<\/em>. O termo \u00e9 associado frequentemente com a palavra <em>tsedeqa<\/em>, que \u00e9 traduzida como \u201cretid\u00e3o\u201d. Juntas, <em>mishpat<\/em> e <em>tsedeqa<\/em> s\u00e3o traduzidas como \u201cjusti\u00e7a e retid\u00e3o\u201d no Antigo Testamento e simplesmente como \u201cretid\u00e3o\u201d no Novo Testamento (KELLER, 2013, 30-31). Logo, a shalom \u00e9 a palavra hebraica para a paz e plenitude, de maneira que, onde houver justi\u00e7a, haver\u00e1 shalom.<\/p>\n<p>A narrativa da cria\u00e7\u00e3o presente no livro de G\u00eanesis fornece aspectos complementares em rela\u00e7\u00e3o a Deus e a humanidade. No mandato cultural, o ser humano \u00e9 criado \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de divina tem a ordenan\u00e7a de seu criador para desenvolver a cultura. Wright (1991, p. 71) lembra que Deus \u00e9 senhor e definitivo de todas as coisas criadas, de tal forma que a posse econ\u00f4mica do ser humano, seja ela coletiva ou individual est\u00e1 subordinada ao direito divino, do qual deriva uma proposta \u00e9tica e social.<\/p>\n<p>A compreens\u00e3o do Pantera Negra acerca da espiritualidade \u00e9 encontrada no personagem de Zuri (no filme, interpretado por Forest Whitaker), que serve como o homem santo, cuja presen\u00e7a sacerdotal \u00e9 necess\u00e1ria para a leg\u00edtima transfer\u00eancia de poder do rei Tchaka para o rei T&#8217;Challa, porque entende o mundo espiritual articulado com o mundo pol\u00edtico. (E n\u00f3s ainda falando de dualismo rs). O papel do xam\u00e3, sacerdote e m\u00e1gico, ou ainda curandeiro, \u00e9 comum na cosmologia africana, porque essas pessoas podem exercer fun\u00e7\u00f5es de cronistas e os guardi\u00f5es da hist\u00f3ria e da mem\u00f3ria comunal.<\/p>\n<p>Agora, se o rei T\u2019Challa consultasse ou um crist\u00e3o da Eti\u00f3pia (porque l\u00e1 o cristianismo \u00e9 milenar) e este lhe apresentasse os textos dos profetas do Antigo Testamento b\u00edblico, encontraria nesse profetismo b\u00edblico o entendimento de que \u201co rei \u00e9 justo quando interv\u00e9m para socorrer os mais fracos, os pobres que n\u00e3o t\u00eam ningu\u00e9m para fazer respeitar seus direitos\u201d (FERRY, 2007, p. 43). Todavia, o rei n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico a realizar a justi\u00e7a e os relacionamentos corretos na vida di\u00e1ria. O livro do profeta Isa\u00edas estende esse dever a todo israelita (Is 5.1-7).<\/p>\n<p>Sobre o dilema levantado em Wakanda em mant\u00ea-la em segredo ou sair em miss\u00e3o com o <em>vibranium<\/em> para aux\u00edlio de outros povos, Wright (1991, p. 72) mostra como a terra e seus recursos s\u00e3o compreendidos na \u00e9tica b\u00edblica: \u201cconsiderando que a terra foi dada a toda a humanidade, o acesso a ela e o uso dos seus recursos devem ser partilhados por todos e devem estar dispon\u00edveis a todos\u201d.<\/p>\n<p>Goudzwaard (2019, p. 258), que produz uma cr\u00edtica sobre as potencialidades e limita\u00e7\u00f5es do modo de produ\u00e7\u00e3o da economia vigente, apresenta uma alternativa valendo-se de uma filosofia crist\u00e3, onde a responsabilidade humana demanda empenho de cidad\u00e3os, pol\u00edticos, empres\u00e1rios, gestores e outras lideran\u00e7as que busquem, para al\u00e9m de uma l\u00f3gica utilitarista e egoc\u00eantrica, encontrar sentidos no trabalho, na economia e no progresso, um novo horizonte de felicidade. Tanto em Wakanda como nas cidades da B\u00edblia, \u00e9 poss\u00edvel perceber a rela\u00e7\u00e3o entre tecnologia, arquitetura e artes (Gn. 4; 11).<\/p>\n<p>Outro ponto que pode responder os desafios e que s\u00e3o condizentes com os princ\u00edpios de Wakanda \u00e9 o entendimento b\u00edblico de que cidade significa maior diversidade, como rememora Keller (2014, p. 164) que no Novo Testamento, a igreja de Antioquia, registrada no cap\u00edtulo 13 do livro de Atos dos Ap\u00f3stolos, possu\u00eda lideran\u00e7as de diferentes grupos \u00e9tnicos. Assim, quanto mais o evangelho era compartilhado nas cidades, mais as igrejas e as cidades tornavam-se plurais em termos raciais e culturais.<\/p>\n<p>No Apocalipse de Jo\u00e3o (22.19) \u00e9 feito um contraste entre a Babil\u00f4nia, que \u00e9 a grande cidade, e a cidade de Deus, Jerusal\u00e9m. Enquanto uma recebe o julgamento divino porque promove opress\u00e3o, viol\u00eancia e morte, a outra \u00e9 acolhida pela b\u00ean\u00e7\u00e3o e a salva\u00e7\u00e3o, com o dom da vida eterna.<\/p>\n<h4><strong>Considera\u00e7\u00f5es Finais<\/strong><\/h4>\n<p>Considerando que h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica entre a teologia, a cidade e as decis\u00f5es de Wakanda, fundamentadas inicialmente na HQ, mas tamb\u00e9m sustentadas no longa, pode-se afirmar que a op\u00e7\u00e3o em servir \u00e0 cidade revela amor, mas tamb\u00e9m a identidade constitu\u00edda da miss\u00e3o. Aqui, \u00e9 poss\u00edvel eclipsar tal compreens\u00e3o n\u00e3o somente na jornada do Pantera Negra e do povo de Wakanda que partilha do vibranium \u00e0s outras na\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m na Igreja de Cristo, que leva a mensagem da boa nova ao mundo.<\/p>\n<p>No personagem de Killmonger, h\u00e1 um anseio existencial por um lugar de retorno, um desejo de pertencimento, na condi\u00e7\u00e3o de como um afro-americano que s\u00f3 conheceu a vida sob a opress\u00e3o, a viol\u00eancia e a injusti\u00e7a, que geram marcas t\u00e3o profundas e reais por um racismo que permanece at\u00e9 os nossos dias. Killmonger faz sua jornada espiritual \u00e0 Wakanda, um lugar ao qual ele pertence, em raz\u00e3o de seu sangue real, mas tamb\u00e9m um lugar que \u00e9 estranho para ele, porque seu projeto &#8211; diferente da Cidade de Wakanda &#8211; \u00e9 da \u201cCidade dos Homens\u201d [lembrando aqui de Agostinho], baseado em outro prop\u00f3sito. Disto, h\u00e1 uma tens\u00e3o em Wakanda que o qualifica como forasteiro, aquele que instrumentaliza do sagrado para outros fins. Os cap\u00edtulos de 4 a 11 do livro de G\u00eanesis falam dos edificadores da cidade como aqueles que s\u00e3o os descendentes de Caim. Por outro prisma, assim como a cidade pode ser o territ\u00f3rio, o lugar e o espa\u00e7o que mostram a rebeli\u00e3o humana, \u00e9 tamb\u00e9m o <em>l\u00f3cus <\/em>da hist\u00f3ria da reden\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Dessa forma, enquanto a Babil\u00f4nia \u00e9 constru\u00edda nos valores individualistas, da viol\u00eancia e da opress\u00e3o, Wakanda se aproxima da cidade de Deus, em que o rei T&#8217;Challa, sendo o pr\u00f3prio Pantera Negra, todos os cidad\u00e3os, seus recursos e tecnologia s\u00e3o convocados a buscarem a paz, fazer o bem, e, nesse sentido, aben\u00e7oar seu povo e as na\u00e7\u00f5es promovendo a justi\u00e7a. Isso envolve tamb\u00e9m combater o racismo que oprime, violenta e mata a popula\u00e7\u00e3o negra.<\/p>\n<p>Quem \u00e9 de Wakanda ou da Cidade de Deus, assim como Chad ou T\u2019Challa, est\u00e1 alinhado com essa perspectiva de cidade.<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-<\/p>\n<p><em>Agradecimentos ao bel\u00edssimo trabalho de Chadwick Boseman, por nutrir o imagin\u00e1rio de crian\u00e7as e jovens que se viram representados em tempos onde o racismo ainda \u00e9 um mal a ser aniquilado; ver beleza, arte e esperan\u00e7a no Pantera Negra, protetor de Wakanda nos faz lembrar o projeto de cidade de Deus.<\/em><\/p>\n<p><em>Sigamos at\u00e9 o amor e a verdade se encontrarem e a justi\u00e7a e a paz se beijarem (Salmo 85.10).<\/em><\/p>\n<p><em>Chad, descanse e corra alegre no Vale Verde&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>Wakanda para sempre!<\/em><\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Cf.: The Black Panthers: Vanguard of the Revolution. Dire\u00e7\u00e3o de Stanley Nelson. EUA: NETFLIX, 2014. Document\u00e1rio (159 min.). Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.netflix.com\">http:\/\/www.netflix.com<\/a>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> O <em>Fantastic Four <\/em>traduzido por Quarteto Fant\u00e1stico, tamb\u00e9m \u00e9 cria\u00e7\u00e3o de Stan Lee e Jack Kirby em 1961. O grupo \u00e9 formado por Reed Richards (Senhor Fant\u00e1stico), Sue Storm (Garota Invis\u00edvel), Ben Grimm (Coisa), e Johnny Storm (Tocha Humana).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[3]<\/sup><\/a> \u00c9 vasta a filmografia que aborda a situa\u00e7\u00e3o da segrega\u00e7\u00e3o racial nos EUA. Acerca do que foi mencionado, Cf. o filme HIST\u00d3RIAS CRUZADAS. The Help (original). Dire\u00e7\u00e3o de Tate Taylor. EUA: produzido pela DreamWorks Pictures, 2011.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas:<\/strong><\/p>\n<p>FERRY, Jo\u00eblle. H\u00e1 justi\u00e7a econ\u00f4mica nos profetas? In: MIES, Fran\u00e7oise [org.]. B\u00edblia e economia: servir a Deus ou ao dinheiro. Tradu\u00e7\u00e3o de Maria Stela Gon\u00e7alves. S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es Loyola, 2007.<\/p>\n<p>GOUDZWAARD, Bob. <a href=\"https:\/\/www.ultimato.com.br\/loja\/produtos\/capitalismo-e-progresso\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Capitalismo e Progresso: um diagn\u00f3stico da sociedade ocidental<\/a>. Tradu\u00e7\u00e3o de Leonardo Ramos. Vi\u00e7osa: Ultimato, 2019.<\/p>\n<p>HUDLIN, Reginald; ROMITA JR, John. Black Panther: who is the Black Panther?. Tradu\u00e7\u00e3o de Caio Lopes, Dorival Vitor Lopes &amp; Helcio de Carvalho. S\u00e3o Paulo: Ed. Salvat, 2014.<\/p>\n<p>KELLER, Timothy. Igreja centrada: desenvolvendo em sua cidade um minist\u00e9rio equilibrado e centrado no evangelho. Tradu\u00e7\u00e3o: Eul\u00e1lia Pacheco Kregness. S\u00e3o Paulo: Vida Nova, 2014.<\/p>\n<p>KELLER, Timothy. Justi\u00e7a Generosa: a gra\u00e7a de Deus e a justi\u00e7a social. Tradu\u00e7\u00e3o: Eul\u00e1lia Pacheco Kregness. S\u00e3o Paulo: Vida Nova, 2013.<\/p>\n<p>LEE, Stan; KIRBY, Jack. Fantastic Four: the Black Panther. Ed: Marvel comics, v. 1, #52,1966.<\/p>\n<p>MARVEL STUDIOS, 2018. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.marvel.com\/movies\/black-panther\">https:\/\/www.marvel.com\/movies\/black-panther<\/a>.<\/p>\n<p>WRIGHT, Christopher, J. Povo, Terra e Deus. Tradu\u00e7\u00e3o de Yolanda Mirdsa Krievin. S\u00e3o Paulo: ABU, 1991.<\/p>\n<p>SCHUURMAN, Egbert. Crist\u00e3os em Babel. Tradu\u00e7\u00e3o: Breno Oliveira Perdig\u00e3o e Pedro Felipe Gon\u00e7alves Silva. Bras\u00edlia, DF: Monergismo, 2016 (E-book).<\/p>\n<blockquote><p>Publicado originalmente no <a href=\"https:\/\/medium.com\/coletivotangente\/wakanda-para-sempre-1352ecd3b836\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>Medium do Coletivo Tangente<\/strong><\/a>. Reproduzido com permiss\u00e3o.<\/p><\/blockquote>\n<ul>\n<li><strong>Vinnicius Almeida <\/strong>\u00e9 assistente social e te\u00f3logo, membro do Projeto 242 em S\u00e3o Paulo. Casado com a Ale, anda de skate quando pode e tem trocado uma ideia no Manifeste Podcast, da Miss\u00e3o Steiger Brasil.<\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Vinnicius Almeida Antes de ir para o cinema, o Pantera Negra fez diversas apari\u00e7\u00f5es em programas de televis\u00e3o, s\u00e9ries e desenhos animados. No filme, entre o bel\u00edssimo elenco composto por Michael B. Jordan, Lupita Nyong\u2019o, Letitia Wright, Forest Whitaker, o Pantera Negra \u00e9 interpretado por Chadwick Boseman (in memoriam). 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