{"id":8318,"date":"2020-09-29T13:48:57","date_gmt":"2020-09-29T16:48:57","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/?p=8318"},"modified":"2020-11-03T09:45:18","modified_gmt":"2020-11-03T12:45:18","slug":"igreja-o-ultimo-lugar-pra-se-encontrar-racismo-e-o-primeiro-a-se-levantar-contra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/2020\/09\/29\/igreja-o-ultimo-lugar-pra-se-encontrar-racismo-e-o-primeiro-a-se-levantar-contra\/","title":{"rendered":"Igreja, o \u00faltimo lugar pra se encontrar racismo e o primeiro a se levantar contra"},"content":{"rendered":"<p><em>Por C\u00e1ssia de Oliveira<\/em><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-8319 alignright\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2020\/09\/UltJovem_29_09_20_racismo-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2020\/09\/UltJovem_29_09_20_racismo-300x200.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2020\/09\/UltJovem_29_09_20_racismo-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2020\/09\/UltJovem_29_09_20_racismo-768x512.jpg 768w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2020\/09\/UltJovem_29_09_20_racismo-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2020\/09\/UltJovem_29_09_20_racismo-2048x1365.jpg 2048w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2020\/09\/UltJovem_29_09_20_racismo-732x488.jpg 732w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2020\/09\/UltJovem_29_09_20_racismo-1140x760.jpg 1140w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>Quando os casos de viol\u00eancia policial nos EUA contra negros como George Floyd ganharam repercuss\u00e3o mais uma vez, revelando que a barb\u00e1rie teima em persistir mesmo em 2020, me lembrei do avivamento que movimentou a Rua Azuza em Los Angeles, na Calif\u00f3rnia, l\u00e1 por 1906.<\/p>\n<p>Considerado um dos maiores avivamentos do s\u00e9culo 20, o que mais impressionou na \u00e9poca n\u00e3o foi o car\u00e1ter efervescente dos cultos pentecostais com o falar em l\u00ednguas. O que mais chamava aten\u00e7\u00e3o era o car\u00e1ter multi\u00e9tnico dos seus participantes; nos encontros do pr\u00e9dio de madeira da Rua Azuza reuniam-se negros, brancos, hispanos, asi\u00e1ticos e imigrantes europeus.<\/p>\n<p>Aquela pequena e simples igreja pastoreada por William Seymour, filho de ex-escravos, era um dos poucos lugares na Am\u00e9rica segregada que reunia amistosamente brancos e negros. Ali n\u00e3o havia espa\u00e7o para discrimina\u00e7\u00e3o racial. At\u00e9 os jornais da \u00e9poca noticiaram com grande espanto o fato de brancos e negros congregarem juntos.<\/p>\n<p>Para os participantes do movimento pentecostal da Rua Azuza, a mistura \u00e9tnica era mais uma prova que o avivamento era genu\u00edno e provinha de Deus. Em um artigo do jornal A F\u00e9 Ap\u00f3st\u00f3lica, fundado por Seymour, da edi\u00e7\u00e3o de novembro de 1906, afirmava o que aquela comunidade eclesi\u00e1stica acreditava: \u201cNenhum instrumento que Deus possa usar \u00e9 rejeitado por motivo de cor, vestu\u00e1rio ou falta de cultura\u201d.<!--more--><\/p>\n<p>E assim, lembrando da hist\u00f3ria do Avivamento da Rua Azuza, refleti que a primeira esfera da sociedade a se levantar contra o racismo deve ser a igreja, porque, afinal, quebrar com os agrilh\u00f5es da discrimina\u00e7\u00e3o racial est\u00e1 na sua pr\u00f3pria raiz. O in\u00edcio da Igreja, atrav\u00e9s da descida do Esp\u00edrito Santo no Pentecostes, uniu todos os povos. Cada ap\u00f3stolo falou em uma l\u00edngua diferente em Jerusal\u00e9m, onde judeus e convertidos ao juda\u00edsmo de diversas nacionalidades estavam presentes para a festa de Pentecostes, dando um pequeno vislumbre de como seria o corpo m\u00edstico de Cristo: formado por toda l\u00edngua, povo e na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Entretanto, a igreja primitiva, em sua maioria formada por judeus convertidos, ainda n\u00e3o tinha entendido que o evangelho era universal e que Israel era a na\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria respons\u00e1vel por anunciar as boas novas \u00e0s demais na\u00e7\u00f5es. Embora j\u00e1 houvesse gentios se convertendo \u00e0 mensagem da cruz &#8211; como o caso do eunuco et\u00edope que foi evangelizado e batizado por Filipe e provavelmente era negro -, os ap\u00f3stolos eram resistentes \u00e0 prega\u00e7\u00e3o do evangelho aos gentios.<\/p>\n<p>Deus precisou dar a vis\u00e3o dos animais no len\u00e7ol para Pedro conseguir entender que seu plano de reden\u00e7\u00e3o era para todos os que cressem em Jesus e n\u00e3o apenas para o povo judeu. E o Senhor foi t\u00e3o estrat\u00e9gico que usou tamb\u00e9m Corn\u00e9lio, que era um comandante romano, para ensinar que o Senhor detestava a discrimina\u00e7\u00e3o. Quando o ap\u00f3stolo Pedro chega \u00e0 casa de Corn\u00e9lio, onde j\u00e1 estavam outros gentios reunidos o esperando, ele compreende o que Deus est\u00e1 lhe falando e recusa o gesto de rever\u00eancia do comandante romano ao se ajoelhar perante ele: \u201cFique de p\u00e9, pois eu sou apenas um homem como voc\u00ea\u201d.<\/p>\n<p>Foi nesse exato momento que os olhos de Pedro foram abertos para a igualdade e o preconceito se desfaz; aquele romano diante dele tamb\u00e9m era a imagem e semelhan\u00e7a do criador. Enfim, o pai da Igreja primitiva compreende que Deus trata a todos de modo igual e aceita todos os que o temem, seja qual for a sua ra\u00e7a.<\/p>\n<p>Quem sabe, em algumas vezes, Deus ter\u00e1 que tratar com n\u00f3s, a noiva de Cristo, da mesma forma que fez com Pedro. Ainda temos resqu\u00edcios da cultura escravista deixada em n\u00f3s e o velho homem cheio de iniquidade e orgulho que, de vez em quando, teima em ressuscitar, querendo nos convencer que a supremacia branca \u00e9 real e aceit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Ou talvez, nos trate como Saulo, um judeu legalista que foi inquirido pelo pr\u00f3prio Jesus acerca de sua persegui\u00e7\u00e3o contra aqueles que ele considerava inferiores, fora do alcance de Deus e de sua \u201creligi\u00e3o pura\u201d. Talvez o Senhor nos transforme, ironicamente, em \u201cap\u00f3stolos dos gentios\u201d para distantes viagens mission\u00e1rias fora da Judeia e de Samaria.<\/p>\n<p>A Igreja come\u00e7ou integrada, deixando bem claro que Deus n\u00e3o faz acep\u00e7\u00e3o de pessoas, abomina a discrimina\u00e7\u00e3o \u00e9tnica e espera que sua Igreja fa\u00e7a o mesmo. \u00a0Nossa \u00e9tica crist\u00e3 nos impele a condenar o racismo em qualquer \u00e9poca em que ele se manifestar, desde a igreja primitiva, passando por Azuza em 1906 at\u00e9 os dias de hoje quando ainda, inacreditavelmente, temos que gritar que vidas negras importam.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>\u201cAprendi que um homem s\u00f3 tem o direito de olhar o outro<br \/>\n<\/em><em>de cima para baixo para ajud\u00e1-lo a levantar-se.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez<\/p>\n<\/blockquote>\n<ul>\n<li><strong>C\u00e1ssia de Oliveira<\/strong>, Jornalista pela UFRGS e rep\u00f3rter da AD Gua\u00edba. Atua na \u00e1rea de comunica\u00e7\u00e3o crist\u00e3 e como colunista.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/jornalistacassiadeoli\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Noticiando boas novas.<\/a><\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por C\u00e1ssia de Oliveira Quando os casos de viol\u00eancia policial nos EUA contra negros como George Floyd ganharam repercuss\u00e3o mais uma vez, revelando que a barb\u00e1rie teima em persistir mesmo em 2020, me lembrei do avivamento que movimentou a Rua Azuza em Los Angeles, na Calif\u00f3rnia, l\u00e1 por 1906. 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