{"id":7578,"date":"2019-08-02T07:47:54","date_gmt":"2019-08-02T10:47:54","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/?p=7578"},"modified":"2019-07-31T21:53:14","modified_gmt":"2019-08-01T00:53:14","slug":"as-respostas-da-igreja-a-duvida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/2019\/08\/02\/as-respostas-da-igreja-a-duvida\/","title":{"rendered":"As respostas da igreja \u00e0 d\u00favida"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Maur\u00edcio Avoletta J\u00fanior<\/em><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-7579\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2019\/07\/UltJovem_02_08_19_duvida-200x300.jpg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2019\/07\/UltJovem_02_08_19_duvida-200x300.jpg 200w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2019\/07\/UltJovem_02_08_19_duvida.jpg 531w\" sizes=\"auto, (max-width: 200px) 100vw, 200px\" \/>Eu estava aqui ponderando sobre o que escrever e acabei por notar que, fora minha bio no final dos textos, nunca me apresentei formalmente. N\u00e3o que exista uma real necessidade para que eu me apresente, mas, para ser bem sincero, tive a ideia de usar essa minha apresenta\u00e7\u00e3o como trampolim para o que eu realmente quero falar. N\u00e3o pense que sou um eg\u00f3latra que se acha importante o bastante para ter sua vida exposta na internet. N\u00e3o \u00e9 esse o caso. Mas, acredito que eu possa servir de exemplo para a cr\u00edtica que quero fazer&#8230;. Bom, vamos direto ao ponto.<\/p>\n<p>Meu nome \u00e9 Maur\u00edcio Avoletta J\u00fanior e, no momento em que escrevo este texto, tenho 24 anos. Vou \u00e0 Igreja j\u00e1 h\u00e1 quase 19 anos, mas me converti mesmo apenas em 2010. De modo bastante curioso, talvez pelo fato de ser muito novo e imaturo, antes de 2010 nunca tive alguma crise de f\u00e9 ou algo parecido. Nunca havia questionado a exist\u00eancia de Deus ou sua bondade. Obviamente, tudo tem uma primeira vez.<\/p>\n<p>Em 2010, algumas situa\u00e7\u00f5es inesperadas aconteceram em minha vida, indo da morte de um amigo pr\u00f3ximo ao fim de uma amizade at\u00e9 ao quase t\u00e9rmino do casamento dos meus pais. Minha rea\u00e7\u00e3o diante de todos esses problemas, que me surpreenderam como uma avalanche, foi a de, pela primeira vez, questionar Deus. \u201cSe realmente existe um Deus, ent\u00e3o, com toda a certeza do mundo, ele \u00e9 um Deus mal. Por que um Deus que dizia me amar, permitiria que eu sofresse tanto?\u201d<\/p>\n<p><strong>Eu era apenas um adolescente que n\u00e3o sabia nada da vida e estava fazendo as vezes de J\u00f3<\/strong>, questionando e quase culpando a Deus pelo desastre que era minha vida \u2013 que nem estava t\u00e3o desastrosa assim. Hoje em dia, pensando em tudo isso, sei que havia uma boa dose de drama juvenil l\u00e1, mas n\u00e3o adianta pensar no que poder\u00edamos ter feito em situa\u00e7\u00f5es que j\u00e1 aconteceram. As possibilidades em nossa mente nunca v\u00e3o alterar a realidade.<!--more--><\/p>\n<p>Todos esses acontecimentos acabaram me aproximando mais de Deus. <strong>Minhas d\u00favidas e questionamentos fizeram despertar em mim uma f\u00e9 outrora adormecida<\/strong>. De 2010 em diante, passei a tomar gosto pelos estudos, o que fez minha m\u00e3e ficar levemente brava comigo. Lembro-me de, certa vez, ouvi-la dizer: \u201cQuando era crian\u00e7a, viviam me chamando na escola porque voc\u00ea n\u00e3o estudava e era ruim nas mat\u00e9rias. Chegou at\u00e9 a esconder as li\u00e7\u00f5es de casa embaixo do sof\u00e1! E agora, fica gastando dinheiro em livro e estudando sozinho. Por que n\u00e3o fazia isso antes? Ia ter ajudado um pouco!\u201d \u00c9, certas coisas s\u00e3o imprevis\u00edveis. Mas, continuemos com o texto, pois ainda n\u00e3o cheguei ao ponto importante.<\/p>\n<p>Essa paix\u00e3o pelos estudos levou-me a ingressar na faculdade de teologia, onde dediquei meu tempo \u00e0 pesquisa da teodiceia, ou seja, o problema do mal. Aquela cl\u00e1ssica quest\u00e3o: <strong>se Deus \u00e9 perfeitamente bom, totalmente poderoso e totalmente justo, por que o mal existe?<\/strong> Acabou que, no meio das pesquisas, me apaixonanei por literatura e passei a buscar na literatura a resposta do problema do mal que a teologia fornecia. Aquilo me deixou apaixonado! Havia um novo mundo a ser explorado e cada vez ele crescia mais um pouco.<\/p>\n<p>Ao terminar a faculdade, n\u00e3o muito tempo depois, arrumei um emprego na editora em que hoje trabalho e que, por sinal, \u00e9 onde estou escrevendo este texto. Devo confessar que, embora eu seja apaixonado por livros e pelo conhecimento, trabalhar em uma livraria n\u00e3o era exatamente o meu trabalho dos sonhos, mas foi o que consegui. Gl\u00f3ria a Deus por isso. Sabe, no fundo, n\u00e3o \u00e9 um trabalho ruim, existem momentos que fazem ele valer a pena. Um desse momentos, no entanto, acabou me abalando bastante.<\/p>\n<p>Teve um dia espec\u00edfico em que tudo estava muito calmo na livraria. Todos estavam tranquilos e n\u00e3o havia muito trabalho a ser feito. T\u00ednhamos acabado de voltar de um feriado prolongado, ent\u00e3o tudo ainda estava em clima de feriad\u00e3o. De repente, na parte da tarde, uma mulher chega na livraria com um homem que provavelmente era seu marido. Eles entraram, ambos com um olhar cabisbaixo, e perguntaram se poderiam olhar os livros. Obviamente, disse que podiam. Mais do que depressa, me levantei e tentei puxar conversa. Num primeiro momento, eles n\u00e3o conversaram comigo, simplesmente respondiam minhas perguntas e voltavam a olhar os livros. Entretanto, havia algo neles que tinha me deixado preocupado. Talvez fosse o semblante triste, talvez n\u00e3o. Juro que n\u00e3o sei dizer o porqu\u00ea, mas eles me deixaram inquieto.<\/p>\n<p>Finalmente, eles resolveram conversar e as coisas come\u00e7aram a fluir. Perguntei qual era o tipo de livro de que eles gostavam, para saber se eu conseguiria ajud\u00e1-los. Me disseram que tinham muito interesse em filosofia e temas religiosos, o que para mim, foi um prato cheio. Peguei alguns livros e come\u00e7amos a conversar sobre eles quando, de repente, sem contexto algum, a mulher me fez uma pergunta que soou mais como um soco em meu est\u00f4mago. Parecia que minha capacidade de falar havia sumido.<\/p>\n<p><strong>\u201cMo\u00e7o, eu n\u00e3o consigo mais acreditar que Deus \u00e9 bom. Voc\u00ea acha que eu vou para o inferno?\u201d<\/strong><\/p>\n<p>\u201cQue raios de pergunta \u00e9 essa?\u201d, pensei. <strong>Sabe, a academia e a Igreja n\u00e3o nos preparam para encarar pessoas reais com sofrimentos reais.<\/strong> Diante de mim, havia uma mulher real e com problemas reais. Antes de tentar respond\u00ea-la, perguntei o porqu\u00ea de ela n\u00e3o achar que Deus era bom. Eu queria entender o que havia acontecido e deixei-a falando por mais ou menos 15 minutos. Foi a\u00ed que fiquei sabendo dos problemas que ela tinha com os pais por causa da sua filha que nasceu fora do casamento, dos problemas na par\u00f3quia que frequentava, onde todos se afastaram dela e da tentativa de abuso que ela sofreu da parte de um religioso.<\/p>\n<p>Cada palavra daquela mulher soava como uma chicotada em meu rosto. Quando ela finalmente parou de falar, no exato momento em que seus olhos foram dominados pelas l\u00e1grimas, o homem que estava com ela e que, a cada palavra, aparentava ficar mais triste, pediu licen\u00e7a e saiu da livraria para fumar.<\/p>\n<p>O que eu deveria fazer? Passei mais ou menos 5 anos da minha vida estudando o problema do mal. Eu tinha achado a resposta que eu precisava na teologia crist\u00e3, mais especificamente, no agostinianismo. Poderia, sem mod\u00e9stia nenhuma, dar uma aula para ela de teologia filos\u00f3fica e explicar de tr\u00e1s para frente toda a resposta crist\u00e3 para esse problema. Por\u00e9m, eu me vi diante de uma pessoa de verdade, um ser humano de carne e osso que n\u00e3o estava interessado em nenhuma resposta intelectual. Pela primeira vez, eu entendi, a duras penas, o que muitos te\u00f3logos querem dizer quando afirmam existir <strong>duas respostas para o problema do mal, uma intelectual e outra emocional<\/strong>.<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o se importava com a teologia ou a antropologia agostiniana, nem com a filosofia medieval ou alta literatura. Ela queria apenas acreditar no que eu acreditava, sem ter que ouvir uma aula de duas horas. Naqueles poucos minutos, vi tudo o que eu estudava j\u00e1 h\u00e1 algum tempo escorrendo ralo abaixo e mostrando-se in\u00fatil.<\/p>\n<p>Aos trancos e barrancos, consegui responder \u00e0quela mulher e acredito que, na medida do poss\u00edvel, consegui ajud\u00e1-la, muito embora eu nunca mais a tenha visto. Toda essa situa\u00e7\u00e3o me fez perceber <strong>o qu\u00e3o deficiente se tornou a nossa abordagem<\/strong>. N\u00f3s temos na ponta da l\u00edngua as respostas que os acad\u00eamicos nos fornecem, mas n\u00e3o temos a menor no\u00e7\u00e3o de como responder pessoas normais. Se nossa produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica n\u00e3o \u00e9 clara e relevante para os n\u00e3o acad\u00eamicos, ent\u00e3o nossa produ\u00e7\u00e3o \u00e9 in\u00fatil. <strong>Se nosso labor teol\u00f3gico n\u00e3o gera vida, ele ir\u00e1 gerar morte<\/strong>.<\/p>\n<p>H\u00e1 muito eu ou\u00e7o pessoas dizendo que a Igreja est\u00e1 morrendo. Discordo. <strong>A Igreja n\u00e3o est\u00e1 morrendo, ela est\u00e1 se matando<\/strong>. N\u00e3o h\u00e1, necessariamente, um algo externo matando-a aos poucos. Na verdade, n\u00f3s \u00e9 que estamos nos autodestruindo. \u00c9 urgente uma auto avalia\u00e7\u00e3o da Igreja. Precisamos, diante da sociedade, bater no peito e declarar <em>mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa<\/em>. H\u00e1 uma urg\u00eancia em retomarmos \u00e0 nossa hist\u00f3ria e aprendermos com os santos do passado. Os ricos exemplos que a Igreja do Nosso Senhor produziu durante a hist\u00f3ria podem nos ajudar a olhar para a nossa pr\u00f3pria \u00e9poca e para nossos pr\u00f3prios problemas e, com temor e tremor, buscar respostas para a sociedade, a fim de sermos a luz do mundo e o sal da terra.<\/p>\n<p>Como disse no in\u00edcio do texto, contar minha hist\u00f3ria foi apenas uma desculpa para expor um problema latente no dia a dia da Igreja. Devemos urgentemente aprender a nos comunicar com as pessoas que precisam ouvir a mensagem do evangelho. Precisamos nos lembrar de que, <strong>embora n\u00e3o sejamos do mundo, n\u00f3s estamos nele e, portanto, devemos nos comunicar com ele<\/strong>. Assim como o mundo, n\u00f3s estamos doentes. Por isso, antes de sairmos por a\u00ed levando a \u00e1gua da vida para os que est\u00e3o necessitados, devemos n\u00f3s mesmos saciar nossa sede. Antes de evangelizarmos o mundo, criemos a t\u00e3o falada <em>vergonha na cara<\/em> e evangelizemos a n\u00f3s mesmos. N\u00e3o padecemos por falta de palavra de Deus, mas por s\u00edndrome de ouvidos e cora\u00e7\u00e3o fechados.<\/p>\n<ul>\n<li><strong>Maur\u00edcio Avoletta Junior, 24 anos<\/strong>. Congrega na Igreja Batista Fonte de Sicar (SP). Formado em Teologia pela Mackenzie, estudante de filosofia e literatura (por conta pr\u00f3pria); apaixonado por livros, cinema e m\u00fasica; escravo de Cristo, um pessimista em potencial e um futuro \u201cseja o que Deus quiser\u201d.<\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Maur\u00edcio Avoletta J\u00fanior Eu estava aqui ponderando sobre o que escrever e acabei por notar que, fora minha bio no final dos textos, nunca me apresentei formalmente. 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