{"id":7187,"date":"2019-01-10T15:03:02","date_gmt":"2019-01-10T18:03:02","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/?p=7187"},"modified":"2019-01-10T15:22:44","modified_gmt":"2019-01-10T18:22:44","slug":"tolkien-lewis-as-festas-cristas-e-o-paganismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/2019\/01\/10\/tolkien-lewis-as-festas-cristas-e-o-paganismo\/","title":{"rendered":"Tolkien, Lewis, as festas crist\u00e3s e o paganismo"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Lucas Gon\u00e7alves<\/em><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-7188\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/UltJovem_10_01_18_festas-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/UltJovem_10_01_18_festas-300x200.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/UltJovem_10_01_18_festas.jpg 660w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>J\u00e1 estamos em janeiro e o Natal n\u00e3o \u00e9 mais pauta das nossas leituras, conversas e debates, eu sei. As decora\u00e7\u00f5es j\u00e1 foram desmontadas e os restos infind\u00e1veis da Ceia encontraram seu fat\u00eddico fim. Por\u00e9m, sem demora a P\u00e1scoa chegar\u00e1, trazendo consigo o mesmo debate anual, do qual o Natal tamb\u00e9m \u00e9 alvo e protagonista: a influ\u00eancia pag\u00e3 em ambas as festas.<\/p>\n<p>Visto que nos encontramos num per\u00edodo, por assim dizer, de entressafra das grandes comemora\u00e7\u00f5es crist\u00e3s, creio que seja um momento menos passional e, portanto, prop\u00edcio para pensarmos sobre o tema.<\/p>\n<p>Para muitas pessoas, essa influ\u00eancia pag\u00e3 \u00e9 um grande problema e coloca em d\u00favida a credibilidade das comemora\u00e7\u00f5es crist\u00e3s. Ao meu ver, o que se d\u00e1 \u00e9 justamente o oposto. Saber que os n\u00f3rdicos comemoravam o Yule em dezembro, por exemplo, ou que os germ\u00e2nicos celebravam festas \u00e0 deusa Eostre por volta de mar\u00e7o\/abril, me traz ainda mais convic\u00e7\u00e3o em comemorar, respectivamente, o nascimento de Cristo ou o seu sacrif\u00edcio.<\/p>\n<p>Perceba, nessas duas referidas festas, que n\u00e3o s\u00e3o exemplos \u00fanicos, j\u00e1 que diversos outros povos antigos tamb\u00e9m as comemoravam, quais os pontos que est\u00e3o em quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Muitos povos, principalmente os que se localizavam no hemisf\u00e9rio norte do planeta, passavam (e ainda passam, na verdade) longos per\u00edodos de escurid\u00e3o durante o inverno. \u00c9 claro que isso se desdobrava em muitas dificuldades e desafios. Por\u00e9m, em um determinado momento, as trevas da noite eram vencidas pela luz do dia. Isto \u00e9, o solst\u00edcio de inverno chegava, por volta do dia 25 de dezembro, e, com ele, o cumprimento da promessa de dias mais longos: a luz subjugara as trevas; a humanidade fora liberta da escurid\u00e3o.<!--more--><\/p>\n<p>Continuando o exerc\u00edcio, agora se imagine experimentando um longo e violento inverno. Suas planta\u00e7\u00f5es est\u00e3o mortas, assim como os seus animais, a \u00e1gua \u00e9 escassa e sobreviver \u00e9 realmente um grande desafio. Por\u00e9m, por volta do final de mar\u00e7o e come\u00e7o de abril, a primavera surge, trazendo consigo a fertilidade, a possibilidade tang\u00edvel de vida. As hortas renascem, frutas e flores surgem por todos os cantos e os animais se reproduzem: a abund\u00e2ncia subjugando a escassez; a humanidade sendo liberta da morte.<\/p>\n<p><strong>C.S. Lewis e as sombras do cristianismo<\/strong><\/p>\n<p>J.R.R. Tolkien, um crist\u00e3o fervoroso, via no cristianismo o mito real. No decorrer de \u201cSobre Contos de Fadas\u201d lemos que enquanto as demais hist\u00f3rias, lendas e mitos seriam proje\u00e7\u00f5es da realidade, a f\u00e9 crist\u00e3 \u00e9 o mito que aconteceu no tempo e no espa\u00e7o. Segundo o professor:<\/p>\n<blockquote><p>Os Evangelhos cont\u00eam um conto de fadas, ou uma hist\u00f3ria de tipo maior que engloba toda a ess\u00eancia dos contos de fadas. Cont\u00eam muitas maravilhas \u2013 peculiarmente art\u00edsticas, belas e emocionantes, \u201cm\u00edticas\u201d no seu significado perfeito e encerrado em si mesmo; e entre as maravilhas est\u00e1 a maior e mais completa eucat\u00e1strofe conceb\u00edvel. Mas essa hist\u00f3ria entrou para a Hist\u00f3ria e o mundo prim\u00e1rio; o desejo e a aspira\u00e7\u00e3o da subcria\u00e7\u00e3o foram elevados ao cumprimento da Cria\u00e7\u00e3o. [&#8230;] A Lenda e a Hist\u00f3ria encontraram-se e se fundiram. (2013, p. 69-70).<\/p><\/blockquote>\n<p>Em analogia, o cristianismo seria o objeto s\u00f3lido que se projeta como sombra nas demais religi\u00f5es e hist\u00f3rias. Foi, em partes, com esse argumento que Tolkien persuadiu o seu igualmente famoso amigo, C.S. Lewis, a abra\u00e7ar o cristianismo.<\/p>\n<p>Em \u201cSurpreendido pela Alegria\u201d vemos os efeitos desse argumento. Lewis, ao relatar o seu processo de convers\u00e3o, conta como, dentre tantas religi\u00f5es, escolheu seguir o cristianismo. Lewis escreveu:<\/p>\n<blockquote><p>A quest\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o era encontrar a \u00fanica religi\u00e3o simplesmente verdadeira entre mil religi\u00f5es simplesmente falsas. Era, antes: &#8220;Onde a religi\u00e3o atingiu a verdadeira maturidade? Onde as sugest\u00f5es de todo paganismo foram cumpridas, se \u00e9 que foram?&#8221;. (2015, p. 209).<\/p><\/blockquote>\n<p>Basicamente, ele n\u00e3o buscou a cren\u00e7a \u201cverdadeira\u201d, como se as outras fossem falsas. Ele procurou por uma f\u00e9 madura; uma f\u00e9 que cumprisse plenamente as expectativas das demais.<\/p>\n<p><strong>Gra\u00e7a comum e a nossa natureza<\/strong><\/p>\n<p>A quest\u00e3o em que me prendo quando reflito sobre isso gira em torno de dois eixos principais: Salmo 19 e Romanos 1. A cria\u00e7\u00e3o revela o seu Criador, e elementos das verdades divinas est\u00e3o expostas diante de todos os olhos. Mesmo aqueles povos que n\u00e3o olharam diretamente para Cristo, mas viram apenas as sombras da verdade, possuem uma profunda no\u00e7\u00e3o de que h\u00e1 um mal no mundo e comemoram quando a luz vence as trevas.<\/p>\n<p>E por que ser\u00e1 que as trevas nos incomodam tanto a ponto de comemorarmos a sua derrota? Por que a viabilidade da vida deve ser t\u00e3o festejada? Bom, G\u00eanesis nos diz que fomos feitos seres viventes segundo a imagem de Deus; por sua vez, a primeira carta de Jo\u00e3o nos diz que Deus \u00e9 Luz. Por l\u00f3gica simples, podemos inferir que as trevas nos incomodam por que fomos feitos para viver a Luz de Deus, e n\u00e3o para as trevas da morte de nossa rebeli\u00e3o caprichosa, que nos afastou dele.<\/p>\n<p>A dor, a tristeza, a doen\u00e7a e a morte nos s\u00e3o estranhas pois s\u00e3o contr\u00e1rias \u00e0 nossa natureza que, mesmo sendo corrompida pelo pecado, \u00e9 derivada da divina. N\u00e3o funcionamos nas trevas por que Deus \u00e9 Luz. N\u00e3o fomos feitos para morrermos na escurid\u00e3o; fomos feitos para vivermos na luz de Deus. Quando a Luz vence as Trevas, portanto, comemoramos. Quando a vida se torna poss\u00edvel, festejamos.<\/p>\n<p><strong>Natal e P\u00e1scoa, enfim<\/strong><\/p>\n<p>O Natal, assim como a P\u00e1scoa, possuem elementos e influ\u00eancias pag\u00e3s em sua composi\u00e7\u00e3o, por\u00e9m isso n\u00e3o \u00e9 de forma alguma dem\u00e9rito para as festas crist\u00e3s, visto que ambas s\u00e3o o cumprimento pleno da maior expectativa de toda a humanidade: o fim da escurid\u00e3o, da dor, da tristeza e da morte.<\/p>\n<p>Assim como os n\u00f3rdicos e tantos outros povos comemoravam o fim das noites longas com a chegada do solst\u00edcio de inverno, n\u00f3s comemoramos o fim das nossas trevas com a chegada da Luz de Cristo. Igualmente, assim como os germ\u00e2nicos e tantos outros festejavam a fertilidade de Eostre, n\u00f3s festejamos, na P\u00e1scoa, a possibilidade de vida eterna que o sacrif\u00edcio perfeito de Cristo nos proporcionou.<\/p>\n<p>Existem elementos pag\u00e3os nas comemora\u00e7\u00f5es crist\u00e3s? Sim, \u00e9 claro que sim. Todavia, isso se deve ao fato de que o anseio que o cristianismo sacia \u00e9 inerente ao ser humano, independentemente de sua \u00e9poca ou localiza\u00e7\u00e3o. O cristianismo \u00e9 o mito que se tornou Hist\u00f3ria para redimir todos os demais mitos humanos.<\/p>\n<p>Jesus Cristo, o verdadeiro &#8220;deus-Sol&#8221;, o verdadeiro &#8220;deus da fertilidade&#8221;, encarnou e nasceu em um lugar espec\u00edfico no tempo e no espa\u00e7o; ele, historicamente, viveu, morreu e ressuscitou em carne e osso. Por conta desses fatos, toda a cria\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m renasce e uma nova realidade se torna dispon\u00edvel a n\u00f3s. De fato, a luz divina sobrepuja as nossas trevas, a vida plena subjuga a morte, e essas coisas, sem d\u00favida alguma, devem ser muito comemoradas.<\/p>\n<ul>\n<li><strong>Lucas Gon\u00e7alves, 29 anos.<\/strong> Seminarista na Igreja Presbiteriana Vinhedo. Formado em Publicidade e Propaganda e em Teologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Se dedica ao estudo de cosmovis\u00e3o crist\u00e3 aplicada \u00e0 literatura fant\u00e1stica<strong><br \/>\n<\/strong><\/li>\n<\/ul>\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS:<\/strong><\/p>\n<p>LEWIS, C.S. Surpreendido pela Alegria. Vi\u00e7osa, MG: Ultimato, 2015.<\/p>\n<p>TOLKIEN, J.R.R. \u00c1rvore e Folha. S\u00e3o Paulo, SP: WMF Martins Fontes, 2013.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Lucas Gon\u00e7alves J\u00e1 estamos em janeiro e o Natal n\u00e3o \u00e9 mais pauta das nossas leituras, conversas e debates, eu sei. As decora\u00e7\u00f5es j\u00e1 foram desmontadas e os restos infind\u00e1veis da Ceia encontraram seu fat\u00eddico fim. 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