{"id":6921,"date":"2018-07-17T11:30:41","date_gmt":"2018-07-17T14:30:41","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/?p=6921"},"modified":"2018-07-06T11:41:42","modified_gmt":"2018-07-06T14:41:42","slug":"o-medo-daquela-frase-de-tres-palavras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/2018\/07\/17\/o-medo-daquela-frase-de-tres-palavras\/","title":{"rendered":"O medo daquela frase de tr\u00eas palavras"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Maur\u00edcio Avoletta J\u00fanior<\/em><\/p>\n<p><em><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-6922\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/Ult_Jovem_17_07_18_-3palavras-200x300.jpg\" alt=\"\" width=\"235\" height=\"353\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/Ult_Jovem_17_07_18_-3palavras-200x300.jpg 200w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/Ult_Jovem_17_07_18_-3palavras-683x1024.jpg 683w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/Ult_Jovem_17_07_18_-3palavras.jpg 730w\" sizes=\"auto, (max-width: 235px) 100vw, 235px\" \/>Amar \u00e9 sempre ser vulner\u00e1vel. Ame qualquer coisa e certamente seu cora\u00e7\u00e3o vai doer e talvez se partir. Se quiser ter a certeza de mant\u00ea-lo intacto, voc\u00ea n\u00e3o deve entreg\u00e1-lo a ningu\u00e9m, nem mesmo a um animal. Envolva-o cuidadosamente em seus hobbies e pequenos luxos, evite qualquer envolvimento, guarde-o na seguran\u00e7a do esquife de seu ego\u00edsmo. Mas nesse esquife \u2013 seguro, sem movimento, sem ar &#8211; ele vai mudar. Ele n\u00e3o vai se partir \u2013 vai tornar-se indestrut\u00edvel, impenetr\u00e1vel, irredim\u00edvel. A alternativa \u00e0 trag\u00e9dia ou pelo menos ao risco de uma trag\u00e9dia \u00e9 a condena\u00e7\u00e3o. O \u00fanico lugar al\u00e9m do c\u00e9u onde se pode estar perfeitamente a salvo de todos os riscos e perturba\u00e7\u00f5es do amor \u00e9 o inferno.<\/em><\/p>\n<p>&#8211; C. S. Lewis em Os Quatro Amores<\/p>\n<p>Certa vez li algo que me chamou bastante aten\u00e7\u00e3o. Em uma das cr\u00f4nicas do padre Brown, Chesterton nos mostra um dos muitos momentos no qual o padre, em meio a situa\u00e7\u00f5es inusitadas, nos traz reflex\u00f5es mais inusitadas ainda a respeito da natureza humana.<\/p>\n<p>Certa vez, Padre Brown foi o \u00fanico a descobrir um crime que nem mesmo Sherlock Holmes conseguiu desvendar. Todos pensavam nas mais mirabolantes resolu\u00e7\u00f5es para o crime, mas ningu\u00e9m a n\u00e3o ser o padre Brown ateve-se ao \u00f3bvio. Diante disso o padre diz: &#8220;hoje em dia, as pessoas morrem de medo, um medo espec\u00edfico de cinco palavras: &#8216;o Verbo se fez carne'&#8221;. As pessoas buscam solu\u00e7\u00f5es e respostas absurdas para quest\u00f5es muitas vezes extremamente complexas, quando na verdade as solu\u00e7\u00f5es s\u00e3o \u00f3bvias, mas extremamente inc\u00f4modas.<\/p>\n<p>Ao analisar essa cr\u00f4nica de Chesterton, o fil\u00f3sofo sloveno Slavoj Zizek mostra que a encarna\u00e7\u00e3o de Cristo traz um desconforto para a humanidade, pois a ideia de um Deus que se esvazia de si mesmo \u00e9 assustadora, no entanto, a teologia nos mostra que essa era a solu\u00e7\u00e3o l\u00f3gica e \u00f3bvia para resolver o problema da humanidade. Em nossas cabe\u00e7as, acreditamos que uma simples interven\u00e7\u00e3o divina que alterasse a hist\u00f3ria, desde o \u00c9den, seria mais f\u00e1cil. A meu ver, isso \u00e9 um grande alerta para nossa terr\u00edvel falta de poesia.<\/p>\n<p>Embora eu concorde com Chesterton a respeito do nosso medo dessa frase de cinco palavras, acredito que temos medo tamb\u00e9m de outra frase um pouco menor, uma frase de tr\u00eas palavras&#8230;<!--more--><\/p>\n<p>Por que temos tanto medo de amar? Bom, nosso amigo Lewis (sim, o de N\u00e1rnia), disse sabiamente em <em>Os Quatro Amores<\/em>, que amar \u00e9 ser vulner\u00e1vel. Aos poucos,\u00a0venho entendendo cada vez mais o que \u00e9 ser vulner\u00e1vel, e, consequentemente, estou entendendo cada vez mais o que \u00e9 amar. Amar \u00e9 relacionar-se, relacionar-se \u00e9 deixar se tornar conhecido por outra pessoa, e isso \u00e9 entregar-se \u00e0 vulnerabilidade e \u00e0 possibilidade real do sofrimento.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 estranho, n\u00e3o \u00e9? Amar uma pessoa te leva a desejar que essa outra pessoa n\u00e3o sofra, contudo, quanto mais amor, mais palp\u00e1vel se torna aquele sofrimento, mais poss\u00edvel de se materializar. Acredito tamb\u00e9m\u00a0que essa possibilidade se torne ainda maior caso exista reciprocidade.<\/p>\n<p>O fil\u00f3sofo anal\u00edtico Nicholas Wolterstorff, em seu livro <a href=\"http:\/\/www.ultimato.com.br\/loja\/produtos\/lamento\"><em>Lamento<\/em><\/a> (s\u00e9rio, leia esse livro!), percebe que Deus \u00e9 amor e por isso Ele sofre. Woltertorff compreende \u00e0 duras penas que amar \u00e9 comprometer-se com outra pessoa que, mais cedo ou mais tarde, n\u00e3o estar\u00e1 mais conosco. Amar \u00e9 entregar-se \u00e0 incerteza do futuro, mesmo sabendo que nosso futuro est\u00e1 bem seguro nas m\u00e3os daquele que o escreveu.<\/p>\n<p>N\u00e3o escrevo esse texto para dizer a voc\u00ea que relaxe e tenha calma, pois Deus sabe que isso \u00e9 exatamente o\u00a0que todo mundo faz. Sei que isso n\u00e3o s\u00f3 seria o certo a se dizer, como seria o certo a fazer. Mas venhamos e convenhamos: isso nunca acontece. Como dizem, &#8220;se conselho fosse bom, a gente vendia&#8221;. Esse texto, no final das contas, trata sobre se entregar \u00e0 vulnerabilidade.<\/p>\n<p>A Tradi\u00e7\u00e3o Crist\u00e3 nos ensina que a imagem e semelhan\u00e7a de Deus no homem, embora esteja emba\u00e7ada por causa do pecado original, ainda \u00e9 refletida em n\u00f3s, mais ou menos como o espelho que S\u00e3o Paulo, o ap\u00f3stolo, cita em 1 Cor\u00edntios 13. Pensando assim, assim como Deus \u00e9 amor (1 Jo 4:8), n\u00f3s, como reflexos de Deus, amamos. Contudo, devemos buscar amar como Cristo amou,\u00a0at\u00e9 as \u00faltimas consequ\u00eancias, pois nisso consiste o verdadeiro amor: amar ao ponto de dar a vida pelos amigos (Jo 15:13).<\/p>\n<p>Devemos amar, at\u00e9 que o sofrimento nos abrace. E pode ter certeza, mais cedo ou mais tarde, ele nos dar\u00e1 um abra\u00e7o inesperado. Gandalf (\u00e9, o mago do Senhor dos An\u00e9is), disse que a \u00fanica tarefa verdadeiramente importante que temos \u00e9 a de decidir o que fazer com o tempo que nos \u00e9 dado. Com todo respeito por Gandalf, o Branco, mas gostaria de parafrase\u00e1-lo e dizer que a \u00fanica tarefa importante que temos \u00e9 a de decidir o que fazer com o sofrimento que nos \u00e9 dado.<\/p>\n<p>Se somos filhos de Deus, devemos perder o medo dessa frase de tr\u00eas palavras. Isso n\u00e3o quer dizer que a lan\u00e7aremos a bel prazer, como se n\u00e3o carregasse nenhum significado. Contudo, n\u00e3o tenha medo de amar &#8211; nem de sofrer! Meu amigo C. S. Lewis tratou de nos lembrar o que acontece com aqueles que buscam se privar dos sofrimentos do amor. Se privar da dor do amor \u00e9 privar-se em alguma medida do pr\u00f3prio Deus; privar-se de Deus, \u00e9 abra\u00e7ar o inferno e \u00e9 l\u00e1 o \u00fanico lugar, sem ser o c\u00e9u, onde podemos estar livres de todos os males do amor.<\/p>\n<ul>\n<li><strong>Maur\u00edcio Avoletta Junior, 23 anos<\/strong>. Congrega na Igreja Batista Fonte de Sicar (SP). Formado em Teologia pela Mackenzie, estudante de filosofia e literatura (por conta pr\u00f3pria); apaixonado por livros, cinema e m\u00fasica; escravo de Cristo, um pessimista em potencial e um futuro \u201cseja o que Deus quiser\u201d.<\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Maur\u00edcio Avoletta J\u00fanior Amar \u00e9 sempre ser vulner\u00e1vel. Ame qualquer coisa e certamente seu cora\u00e7\u00e3o vai doer e talvez se partir. Se quiser ter a certeza de mant\u00ea-lo intacto, voc\u00ea n\u00e3o deve entreg\u00e1-lo a ningu\u00e9m, nem mesmo a um animal. 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