{"id":6231,"date":"2017-09-05T12:03:08","date_gmt":"2017-09-05T15:03:08","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/?p=6231"},"modified":"2017-09-05T12:03:08","modified_gmt":"2017-09-05T15:03:08","slug":"me-tornei-aquilo-que-adoro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/2017\/09\/05\/me-tornei-aquilo-que-adoro\/","title":{"rendered":"Me tornei aquilo que adoro"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Maur\u00edcio Avoletta J\u00fanior<\/em><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-6232\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/Ult_Jovem_05_09_17_adoro-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/Ult_Jovem_05_09_17_adoro-300x200.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/Ult_Jovem_05_09_17_adoro-732x489.jpg 732w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/Ult_Jovem_05_09_17_adoro.jpg 750w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>Era uma quarta-feira normal. J\u00e1 era noite e eu voltava da faculdade. Havia passado o dia por l\u00e1 fazendo as pesquisas, assim como planejado. Quando estava no meio do caminho da volta para casa, sobe um homem no \u00f4nibus. Tinha por volta dos quarenta anos de idade e estava nitidamente b\u00eabado. Entrou, cumprimentou o motorista, cumprimentou todos no \u00f4nibus, um por um, mas n\u00e3o passou a catraca. Cumprimentou apenas de longe, at\u00e9 que finalmente, quando se cansa de ningu\u00e9m dar aten\u00e7\u00e3o a ele, se senta no banco preferencial. Como j\u00e1 \u00e9 de praxe da maioria dos b\u00eabados, ele come\u00e7ou a contar diversas hist\u00f3rias, quase todas completamente desconexas entre si. Mas uma delas me chamou aten\u00e7\u00e3o. \u00c9 ela que relato aqui.<\/p>\n<p>\u201cEle veio e me pediu ajuda. A m\u00e3e dele estava descontando os problemas nele, o pai havia sa\u00eddo de casa h\u00e1 mais ou menos uma semana, a namorada o havia deixado. Ele veio me pedir ajuda e eu ajudei. Eu disse o que qualquer pastor diria: \u2018confia em Jesus e n\u00e3o transa antes do casamento que vai dar tudo certo, porque se Jesus voltar e voc\u00ea estiver pecando, voc\u00ea fica\u2019. Qualquer pastor diria isso. Eu tentei ajudar ele e eu realmente achei que tinha ajudado. Mas da\u00ed, umas semanas depois, eu recebo a mensagem de que a ajuda n\u00e3o tinha adiantado muita coisa: o desgra\u00e7ado se matou! Como ele pode se matar? Eu falei pra ele o que tinha que falar: \u2018obede\u00e7a! N\u00e3o peque!\u2019 O que mais eu tinha que dizer? Eu era s\u00f3 um pastor, n\u00e3o um psic\u00f3logo ou um te\u00f3logo ou qualquer outro \u2018\u00f3logo\u2019 da vida\u201d.<\/p>\n<p>O \u00f4nibus deu uma parada um tanto brusca devido a uma crian\u00e7a no meio da rua. Todos no \u00f4nibus se manifestaram agressivamente. O b\u00eabado ficou calado. Ap\u00f3s o \u00f4nibus voltar a andar, todos se calaram novamente e o homem voltou a falar.<\/p>\n<p>\u201cSabe, agora eu n\u00e3o sou mais pastor, ent\u00e3o eu n\u00e3o preciso mais me preocupar em mentir pros outros. Se eu ainda fosse pastor, iam me encher o saco s\u00f3 porque bebi um pouquinho\u201d.<\/p>\n<p>Algumas pessoas no \u00f4nibus riram quando ele disse \u201cum pouquinho\u201d. Ele parou de falar, com um ar de quem n\u00e3o havia aprovado as risadas, mas logo deu de ombros e voltou a contar sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>\u201cMas j\u00e1 que eu n\u00e3o sou, ent\u00e3o n\u00e3o tem problema. Ah, como me divirto com esses puritaninhos! Querem fugir do inferno, mas pra isso transformam a vida dos outros em inferno. Tem problemas com bebida? S\u00f3 falar que beber \u00e9 pecado, que voc\u00ea se safa! Tem problema com sexo? S\u00f3 falar que quem transa vai pro inferno, que voc\u00ea se safa! Tem problema com cigarro? Simples, fala que \u00e9 passaporte pro inferno. J\u00e1 \u00e9 f\u00e1cil saber o que eles v\u00e3o falar, eles nem precisam abrir a boca. Todo mundo fala que \u00e9 santo, mas na verdade \u00e9 santarr\u00e3o. Cara lavada e m\u00e3o encardida. Ningu\u00e9m nunca explica porque as coisas s\u00e3o erradas, simplesmente repetem como rob\u00f4s o que ouviram de androides\u201d.<\/p>\n<p>Ao ouvir esse homem desabafando, eu n\u00e3o soube o que fazer. Ele nitidamente estava machucado. Eu conhecia a cura, mas neguei ajuda. Por que eu neguei ajuda\u2026? Como seria a vida dele se nenhum desses seus problemas tivesse acontecido?<!--more--><\/p>\n<p>Ele voltou a falar, mas agora, sua voz estava tr\u00eamula, como quem est\u00e1 prestes a chorar.<\/p>\n<p>\u201cEu fiz tudo o que me mandaram, exatamente da forma como me disseram para fazer. Eu tentei ajudar!\u201d<\/p>\n<p>Nesse momento, ele d\u00e1 um grito que faz com que um clima de tens\u00e3o extremamente desconfort\u00e1vel se instale no \u00f4nibus. Depois de alguns segundos quieto, ele volta a falar.<\/p>\n<p>\u201cSe voc\u00eas soubessem o que sinto, n\u00e3o ficariam a\u00ed apenas me ouvindo falar e fingindo que n\u00e3o estou aqui. EU EXISTO, embora muitos de voc\u00eas ajam como se fosse exatamente o contr\u00e1rio&#8230; Sabe por que eu n\u00e3o mudo? Porque eu n\u00e3o quero! Fa\u00e7o porque quero, e sofro porque sou preso \u00e0s minhas vontades. Eu n\u00e3o quero mais ficar aqui! Eu n\u00e3o quero mais! Eu queria ter a coragem que aquele rapaz teve, queria poder arrancar minha vida e acabar com essa culpa, mas minha covardia n\u00e3o deixa. Ao menos ela n\u00e3o me abandonou\u2026\u201d<\/p>\n<p>Ao terminar de falar, ele levantou uma garrafinha de pl\u00e1stico com um l\u00edquido transparente. Ele olhava aquela garrafa com tanta paix\u00e3o e ao mesmo tempo com tanta tristeza\u2026 Depois disso, ele se levantou, andou at\u00e9 o motorista e disse: \u201cSeu \u2018motor\u2019, meu ponto \u00e9 o pr\u00f3ximo, mas acho que t\u00f4 sem dinh\u2026\u201d O homem logo foi interrompido pelo motorista, que parou bruscamente a alguns metros do ponto e disse: \u201cDesce logo e n\u00e3o me enche o saco. Da pr\u00f3xima voc\u00ea vai descer no ponto final!\u201d<\/p>\n<p>Assim que o homem saiu, o clima de tens\u00e3o que predominava no \u00f4nibus saiu junto. Todos voltaram suas aten\u00e7\u00f5es para seus celulares. Alguns comentaram com as pessoas ao lado sobre o acontecimento, mas nada que durasse mais de 30 segundos. No final, todos voltavam para os seus mundos particulares. Eu n\u00e3o fui completamente diferente, embora n\u00e3o tenha conseguido permanecer no celular, fiquei pensando o porqu\u00ea de todos agirmos dessa forma: est\u00e1vamos diante de um ser humano com problemas e o abandonamos. O que nos leva a sermos t\u00e3o ap\u00e1ticos com um aparente alco\u00f3latra e sermos transfigura\u00e7\u00f5es divinas diante de crian\u00e7as e cachorrinhos que moram na rua? Por que deixamos a est\u00e9tica interferir na nossa compaix\u00e3o?<\/p>\n<p>Creio que ficou \u00f3bvio que dei uma romanceada nesse acontecimento, contudo, n\u00e3o romanceei tanto quanto muitos v\u00e3o imaginar. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o direi o que \u00e9 mentira e o que \u00e9 verdade. O importante na minha hist\u00f3ria n\u00e3o foi o que aconteceu naquele \u00f4nibus, mas o que aquela situa\u00e7\u00e3o gerou em mim.<\/p>\n<p>Sei que em certo ponto sou um hip\u00f3crita, assim como aqueles a quem critico, pois me calei igualmente diante do necessitado. E n\u00e3o vou terminar dizendo que depois desse dia eu nunca mais fiz isso, porque fiz e ainda fa\u00e7o. A diferen\u00e7a \u00e9 que agora consigo controlar melhor essa indiferen\u00e7a com as pessoas e ajudar mais quem est\u00e1 a minha volta.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-6183\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/selo_Deus.jpg\" alt=\"\" width=\"238\" height=\"150\" \/><\/p>\n<p>Se um dia eu reencontrar este homem \u2013 isso se eu me lembrar do rosto dele -, eu gostaria de fazer diferente, mas infelizmente, n\u00e3o sei se faria. Descobri que me tornei aquilo que abomino, e isso me torna pior do que um homem que se afoga na bebida. Na verdade, me tornei aquilo que adoro: eu mesmo. Meu \u00eddolo me possuiu e, assim como ele, n\u00e3o ando, n\u00e3o falo e n\u00e3o sinto.<\/p>\n<p>Ainda bem que sou sustentado por um Deus iconoclasta que destr\u00f3i todos os \u00eddolos que construo.<\/p>\n<p>Infelizmente, dessa vez o \u00eddolo sou eu. Deus tenha piedade de n\u00f3s\u2026<\/p>\n<p><strong>\u2022 Maur\u00edcio Avoletta Junior, 22 anos<\/strong>. \u00c9 membro da Igreja Presbiteriana do Tucuruvi (SP). Formado em Teologia pela Mackenzie, estudante de filosofia e literatura (por conta pr\u00f3pria); apaixonado por livros, cinema e m\u00fasica; escravo de Cristo, um pessimista em potencial e um futuro \u201cseja o que Deus quiser\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Maur\u00edcio Avoletta J\u00fanior Era uma quarta-feira normal. J\u00e1 era noite e eu voltava da faculdade. Havia passado o dia por l\u00e1 fazendo as pesquisas, assim como planejado. Quando estava no meio do caminho da volta para casa, sobe um homem no \u00f4nibus. 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