{"id":615,"date":"2011-04-18T15:54:59","date_gmt":"2011-04-18T18:54:59","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/?p=615"},"modified":"2011-04-19T11:19:49","modified_gmt":"2011-04-19T14:19:49","slug":"quando-eu-estive-em-vieira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/2011\/04\/18\/quando-eu-estive-em-vieira\/","title":{"rendered":"Quando eu estive em Vieira"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2011\/04\/lagrima.jpg\" class=\"lightview\" data-lightview-group=\"group-615\" data-lightview-options=\"skin: 'dark', controls: 'relative', padding: '10', shadow: { color: '#000000', opacity: 0.08, blur: 3 }\" data-lightview-title=\"lagrima\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-617\" title=\"lagrima\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2011\/04\/lagrima.jpg\" alt=\"\" width=\"237\" height=\"350\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2011\/04\/lagrima.jpg 339w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2011\/04\/lagrima-203x300.jpg 203w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2011\/04\/lagrima-101x150.jpg 101w\" sizes=\"auto, (max-width: 237px) 100vw, 237px\" \/><\/a>Eu conheci Patr\u00edcia e Djalma.<\/p>\n<p>T\u00eanis branco n\u00e3o foi uma boa id\u00e9ia. Pensei que nessas horas, isso \u00e9 o que menos importa.<\/p>\n<p>Por rastros de barro novamente molhado, foi que desci por uma das ruas de Vieira, ansiosa para que meus olhos encontrassem logo um port\u00e3o onde eu pudesse parar. Ent\u00e3o, vi tr\u00eas pessoas que olhavam em minha dire\u00e7\u00e3o. Que bom. Eu s\u00f3 precisava disso. Patr\u00edcia me recebeu com um sorriso educado. Bonito e aberto. Como quem diz: Seja bem-vinda. E numa conversa pouca, ela me contou o que a sua lembran\u00e7a guardava daquela noite a qual nunca mais vai esquecer.<\/p>\n<p>Eu sabia que ela continuaria a sorrir se eu dissesse que seu nome era bonito. Patr\u00edcia, chama ela. Assim o fiz. Ela sorriu. Gosto de fazer isso. Casada com Djalma, um homem jovem, de olhar afetuoso e trabalhador, ela diz que toda fam\u00edlia trabalha na lavoura. \u201cAqui, todo mundo ajuda todo mundo!\u201d, fala a filha de 12 anos. Esperta e sabida, me quis a menina fazer atravessar o rio.<!--more--> Sem medo, quase me convenceu. E planta-se alface, cebolinha e toda esp\u00e9cie de cheirinhos e verdes que conhecemos. Vieira tem cheiro mesmo \u00e9 de salada. Isso \u00e9 um belo trabalho, eu disse ao Sr\u00ba Djalma, que completou: \u201cMas tudo ficou mais dif\u00edcil pra n\u00f3s. A \u00e1gua levou nossos material tudo. [&#8230;] Uma caixa de alface eu vendo por quinze reais. A\u00ed eles revendem, e essa pessoa \u00e9 quem passa pros mercados onde voc\u00eas v\u00e3o. A gente aqui da ro\u00e7a \u00e9 explorado demais. Explorado demais. [&#8230;]\u201d<\/p>\n<p>Em Vieira, as casas parecem pontos pequenos entre as montanhas. N\u00e3o h\u00e1 sinal do governo, ou tipo algum de assist\u00eancia que os cabe por direito. H\u00e1, sim, uma s\u00e9rie de volunt\u00e1rios e amigos bem intencionados, que fazem parte de um rod\u00edzio humano desde que tudo isso come\u00e7ou. Seja para acalentar ou disfar\u00e7ar o remorso, registrar a dor da perda alheia na mem\u00f3ria ou mesmo por entender que, \u00e9 no estender das m\u00e3os que eu sou mais do que um cumpridor de tarefas: Eu sou a extens\u00e3o do amor que habita em mim. E ao falar das dificuldades, Patr\u00edcia engasgou um choro guardado pra gente. (Sobre a dor, ela me incomoda e me faz sentir estranha. N\u00e3o sei consolar. \u00c9 um desconforto que nos pertence, se realmente soubermos o que fomos fazer ali. Afinal, o que n\u00f3s realmente fomos fazer naquele lugar?) Seu sogro, um senhor j\u00e1 de idade, cunhados e sobrinhos, n\u00e3o estavam mais l\u00e1 para nos contar tamb\u00e9m o acontecido. Nos contar como, \u00e0s vezes &#8211; nem sempre &#8211; a gente consegue fazer algo para salvar algu\u00e9m. Convidando-me pra ir at\u00e9 a varanda de tr\u00e1s de sua casa, eu ouvi o barulho pesado do rio e ela lembrou assim:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cTudo que eu mais queria e pedi pra Deus, foi que o dia amanhecesse logo pra que eu pudesse ver. [&#8230;]\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>\u201cT\u00e1 vendo aquelas pedras ali? Elas n\u00e3o estavam l\u00e1. A \u00e1gua trouxe tudo. Aquele peda\u00e7o de concreto, v\u00ea? \u00c9 da ponte que foi carregada tamb\u00e9m. L\u00e1 do outro lado do rio \u00e9 onde a gente trabalha. A gente atravessa o rio todo dia, por dentro da \u00e1gua mesmo, pra ir l\u00e1. N\u00e3o tem como fazer de outro jeito. Tem que plantar ! Na noite do dia onze, parecia que tava chovendo dentro do nosso quarto. Eu levantei e falei: Djalma, acende uma vela e vai l\u00e1 fora ver isso. Mas a gente n\u00e3o via nada. Tava tudo escuro e s\u00f3 os rel\u00e2mpagos clareava aqui. N\u00e3o tinha luz aqui. Depois o menino veio pedindo nossa ajuda. Foi quando a gente viu que tava acontecendo alguma coisa. Eles tavam l\u00e1 embaixo pedindo socorro, mas o barulho do rio e da chuva n\u00e3o deixava a gente escutar. A gente gritava daqui e eles n\u00e3o ouviam a gente. Tudo que eu mais queria e pedi pra Deus, foi que o dia amanhecesse logo pra que eu pudesse ver. [&#8230;]\u201d Patr\u00edcia conta que pela manh\u00e3, tudo havia mudado e prosseguiu: \u201cA gente conseguiu salvar minha sogra que n\u00e3o foi levada n\u00e3o. Mas a S\u00f4nia e seu marido&#8230; Eu gostava tanto dela. Passava na casa dela todo dia pra gente conversar. Eu jurava que ela ia sair da casa, menina. Mas ela n\u00e3o saiu.[&#8230;]\u201d<\/p>\n<p>Falou de sua f\u00e9 em Deus. Disse que s\u00f3 com Ele consegue e nos mostrou paz ao dizer: \u201cEu sei que tem coisas que nunca vou saber e que s\u00f3 Ele sabe.\u201d E insistiu com a sua f\u00e9. Nos mostrou o cachorro da fam\u00edlia que, curiosamente, afirmam os donos que ele gosta de andar de moto. Ela contou tamb\u00e9m da sua vontade de estudar sobre inform\u00e1tica e que s\u00f3 tinha sa\u00eddo de Vieira, para fazer um curso com a sua igreja em Nova Igua\u00e7u. \u201cQueria mesmo conhecer Copacabana. L\u00e1 \u00e9 lindo, n\u00e9? Mas eu gosto de viver aqui.\u201d, diz olhando pro rio passando atr\u00e1s de sua casa. Estava chovendo na hora. Sr. Djalma espera Deus aben\u00e7oar para comprar um caminh\u00e3o. Patr\u00edcia \u00e9 uma mulher como qualquer outra de qualquer lugar do mundo. \u00c9 bonita, \u00e9 simples e sabe amar muito bem. Eu n\u00e3o, Patr\u00edcia. Eu sei nada da dor que voc\u00ea sente. Mas estou de luto com voc\u00ea. Pelas S\u00f4nias, Jo\u00e3os e Filipes. Pelos nove de uma casa s\u00f3 por e tantos outros. Voc\u00ea \u00e9 uma pessoa forte. Obrigada. Eu vi que, apesar de tudo, voc\u00ea \u00e9 uma mulher feliz.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/euleioaline.blogspot.com\/\" target=\"_blank\">Aline Moreira<\/a> tem 24 anos e trabalha com a JOCUM &#8211; Rio de Janeiro. Ela produziu este relato a partir de uma visita \u00e0 regi\u00e3o serrana do Rio. Vieira foi uma das cidades afetadas pela cat\u00e1strofe.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu conheci Patr\u00edcia e Djalma. T\u00eanis branco n\u00e3o foi uma boa id\u00e9ia. Pensei que nessas horas, isso \u00e9 o que menos importa. Por rastros de barro novamente molhado, foi que desci por uma das ruas de Vieira, ansiosa para que meus olhos encontrassem logo um port\u00e3o onde eu pudesse parar. 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