{"id":5351,"date":"2016-10-05T12:15:18","date_gmt":"2016-10-05T15:15:18","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/?p=5351"},"modified":"2016-10-05T12:15:18","modified_gmt":"2016-10-05T15:15:18","slug":"nesse-mundo-de-passagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/2016\/10\/05\/nesse-mundo-de-passagem\/","title":{"rendered":"Nesse mundo, de passagem"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #ff6600;\"><em>\u201cQuem de voc\u00eas, por mais que se preocupe, pode acrescentar uma hora que seja \u00e0 sua vida?\u201d (Mateus 6:27)<\/em><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-5352\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2016\/10\/Israel-Sundseth-Unsplash-300x200.jpg\" alt=\"Foto: Israel Sundseth. Fonte: Unsplash\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2016\/10\/Israel-Sundseth-Unsplash-300x200.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2016\/10\/Israel-Sundseth-Unsplash-768x511.jpg 768w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2016\/10\/Israel-Sundseth-Unsplash-1024x681.jpg 1024w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2016\/10\/Israel-Sundseth-Unsplash-150x100.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>Quando um Focus preto cruzou seu caminho, n\u00e3o resistiu \u00e0 sedu\u00e7\u00e3o da buzina. Seus bra\u00e7os paralisaram, tensos, enquanto o ador\u00e1vel ru\u00eddo ecoava, deixando clara sua insatisfa\u00e7\u00e3o. Quando a m\u00e3o voltou ao volante, pensou raivoso na vida que provavelmente tinha o \u201ccara do Focus\u201d: uma casa bonita em condom\u00ednio, com piscina, tev\u00ea na cozinha e na sala, com pacote <em>pay-per-view<\/em> dos jogos de futebol, filhos na melhor escola da cidade, um cargo gerencial em uma grande empresa&#8230;<\/p>\n<p>Estacionou o Celta duas portas em uma vaga apertada, abriu a porta, cauteloso, se espremeu entre os carros, sujando a lateral de sua camisa. Foi mal fazer ranger a cadeira do escrit\u00f3rio e viu o chefe avan\u00e7ar pelos corredores, driblando os estagi\u00e1rios, mirando-o com olhos de predador. Lembrou-se imediatamente de que o relat\u00f3rio que prometera para o dia anterior ainda n\u00e3o havia sido redigido e preparou sua armadura de desculpas.<\/p>\n<p>Durante o almo\u00e7o, via os gols da rodada enquanto esquentava o frango de ontem. Amaldi\u00e7oou o zagueiro que n\u00e3o cortara o ataque, o goleiro que sa\u00edra na hora errada e o capit\u00e3o do time que errara um p\u00eanalti.<\/p>\n<p>No caminho para casa, pegou o tr\u00e2nsito das seis somado a uma obra emergencial na marginal. Suportava com torturante paci\u00eancia a demora at\u00e9 que come\u00e7ou a Voz do Brasil. Desligou imediatamente o r\u00e1dio e lan\u00e7ou m\u00e3o na companheira buzina, cuja m\u00fasica sempre o acalmava.<\/p>\n<p>Em casa, viu a esposa e os filhos rindo na cozinha. N\u00e3o imaginavam o que era ter uma vida de trabalhador como a dele. Passou de cara fechada, murmurou algumas palavras e cobrou os filhos por terem deixado os sapatos na sala. Enfiou-se nos corredores, tirando a gravata. Fechou a porta do quarto e j\u00e1 ia se jogando \u00e0 cama quando viu, ao lado da poltrona, uma B\u00edblia. Ajoelhou-se, tomou um tempo de sil\u00eancio e orou. Sonhou ouvir uma voz distante que lhe dizia serem seus \u00faltimos momentos de vida. Vinte e quatro horas, confirmava.<\/p>\n<p><!--more-->A voz n\u00e3o lhe sa\u00eda da cabe\u00e7a. Quando acordou no dia seguinte e percebeu que a camisa do dia estava amassada, ousou zangar-se, mas lembrou: \u201csou passante\u201d e estranhamente a raiva parecia-lhe in\u00fatil. A tampa do pote de caf\u00e9 tamb\u00e9m n\u00e3o ocupava seu lugar de direito \u2013 e dever. Uma voz lhe dizia para atirar o pote na parede, mas a outra lhe impediu, sussurrando: \u201csou passante\u201d.<\/p>\n<p>Quando o \u201ccara do Focus\u201d parou na sua frente no sem\u00e1foro, pensou em tirar satisfa\u00e7\u00e3o. Mas, as palavras repetiam-se, insistentemente: \u201csou passante, sou passante\u201d. E martelavam seu cora\u00e7\u00e3o hora a hora, minuto a minuto, o dia inteiro: \u201csou passante&#8230; passante&#8230; pass&#8230; paz&#8230;\u201d. N\u00e3o se importava mais com os gritos do chefe, ou com os gols perdidos de um atacante bem pago. O tr\u00e2nsito lhe parecia mais calmo e at\u00e9 a Voz do Brasil soava diferente.<\/p>\n<p>Chegando em casa, ouviu as risadas da fam\u00edlia e seu cora\u00e7\u00e3o se encheu de risos. Notou os sapatos na sala, mas foi direto \u00e0 cozinha. Abra\u00e7ou-lhes, beijou-lhes. Quis saber do seu dia, ouvir as piadas e dar conselhos. Enquanto observava cada tra\u00e7o da fisionomia deles, agradecia de olhos abertos os \u00faltimos instantes que lhe foram concedidos. Renovou-lhes os beijos, desejou boa noite e foi para o quarto. Compreendeu: sempre fora passante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ul>\n<li><strong> Levi Agreste<\/strong>, 24 anos,\u00a0graduado em Letras pela Unicamp, leciona em tr\u00eas escolas da regi\u00e3o metropolitana de Campinas, faz parte da coordena\u00e7\u00e3o da ONG Soprar e escreve no blog\u00a0<a href=\"http:\/\/umanovaviagem.blogspot.com.br\/search?updated-min=2012-01-01T00:00:00-02:00&amp;updated-max=2013-01-01T00:00:00-02:00&amp;max-results=8\">umanovaviagem<\/a>.<\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cQuem de voc\u00eas, por mais que se preocupe, pode acrescentar uma hora que seja \u00e0 sua vida?\u201d (Mateus 6:27) &nbsp; Quando um Focus preto cruzou seu caminho, n\u00e3o resistiu \u00e0 sedu\u00e7\u00e3o da buzina. Seus bra\u00e7os paralisaram, tensos, enquanto o ador\u00e1vel ru\u00eddo ecoava, deixando clara sua insatisfa\u00e7\u00e3o. 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