{"id":5115,"date":"2016-06-17T11:35:27","date_gmt":"2016-06-17T14:35:27","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/?p=5115"},"modified":"2016-06-17T11:35:27","modified_gmt":"2016-06-17T14:35:27","slug":"quando-aprendi-sobre-ressurreicao-na-casa-da-minha-avo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/2016\/06\/17\/quando-aprendi-sobre-ressurreicao-na-casa-da-minha-avo\/","title":{"rendered":"Quando aprendi sobre ressurrei\u00e7\u00e3o na casa da minha av\u00f3"},"content":{"rendered":"<p><em><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2016\/06\/UltJovem_17_06_16the-empty-tomb-george-richardson.jpg\" class=\"lightview\" data-lightview-group=\"group-5115\" data-lightview-options=\"skin: 'dark', controls: 'relative', padding: '10', shadow: { color: '#000000', opacity: 0.08, blur: 3 }\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-5116\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2016\/06\/UltJovem_17_06_16the-empty-tomb-george-richardson.jpg\" alt=\"UltJovem_17_06_16the-empty-tomb-george-richardson\" width=\"603\" height=\"295\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2016\/06\/UltJovem_17_06_16the-empty-tomb-george-richardson.jpg 603w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2016\/06\/UltJovem_17_06_16the-empty-tomb-george-richardson-300x147.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2016\/06\/UltJovem_17_06_16the-empty-tomb-george-richardson-150x73.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 603px) 100vw, 603px\" \/><\/a><\/em><\/p>\n<p><em>Por Daniel Theodoro<\/em><\/p>\n<p>Foi no despretensioso jardim da casa de minha av\u00f3 onde descobri o valor da ressurrei\u00e7\u00e3o. \u00c9 claro que, como crian\u00e7a nascida em ber\u00e7o crist\u00e3o reformado, j\u00e1 tinha tido contato com a abstrata palavra na Escola B\u00edblica Dominical e, em especial, durante a celebra\u00e7\u00e3o da P\u00e1scoa. Sabia que estava tudo bem documentado na B\u00edblia e bem representado nas cantatas. Por\u00e9m, foi naquele jardim rosado, cravado de hortel\u00e3s e violetas, onde o substantivo tornou-se verbo e habitou em minha mente.<\/p>\n<p>Na minha perspectiva pueril, a casa da v\u00f3 Dora era a materializa\u00e7\u00e3o da alegria. Afinal, as f\u00e9rias de dezembro se passavam l\u00e1. Tinha c\u00f4modos grandes, um quintal lateral espa\u00e7oso perfeito para partidas de futebol, sem contar a piscina no fundo, \u00fanico ambiente capaz de trazer algum refrig\u00e9rio ao corpo em plena quente Bauru, no interior de S\u00e3o Paulo. Tinha ainda uma sauna que fora transformada em dep\u00f3sito, em fun\u00e7\u00e3o da baixa demanda por quererem transpirar entre quatro paredes j\u00e1 que, a c\u00e9u aberto, o Sol provocava um suadouro danado na gente.<\/p>\n<p>Tinha ainda um feliz desarranjo familiar naquele lar: minha v\u00f3 se mudara para aquela casa ao se casar pela segunda vez, depois de passar anos vi\u00fava. A cerim\u00f4nia de casamento foi na pr\u00f3pria resid\u00eancia, uma festa com direito a comida, bebida, muita gente e at\u00e9 fogos de artif\u00edcio. Nesse dia, meus pais me explicaram que aconteceu um milagre: ap\u00f3s um simples sim, eu ganhei um av\u00f4, muitos primos e tios. Assim, minha conclus\u00e3o era que se tratava de uma casa incr\u00edvel, com capacidade de multiplicar vida e alegria.<!--more--><\/p>\n<p>Um dia, durante uma das minhas incurs\u00f5es no jardim da casa, apareceu um passarinho. N\u00e3o era um bicho esperto, aproximei e ele nem para sair voando. Deixasse, ficava o dia todo l\u00e1, acabrunhado. Imaginei que pudesse estar doente. Olhei para cima &#8211; \u201ctalvez tenha ca\u00eddo da \u00e1rvore\u201d -, s\u00f3 muitas folhas verdes, nenhum ninho. Corri para dentro da casa e peguei uma caixa de sapato para abrigar o passarinho. Alimentei a rolinha por algum tempo &#8211; minhoca, quirera e alpiste. Contudo, um dia ela amanheceu morta.<\/p>\n<p>Achei por bem enterr\u00e1-la ali mesmo no jardim, sem grande cerim\u00f4nia. \u00c0 \u00e9poca, encontrava-me no fim da inf\u00e2ncia e in\u00edcio da adolesc\u00eancia. Em outras palavras: j\u00e1 sabia um pouco a respeito de morte e despedida, mesmo que esses conceitos estivessem ligados, essencialmente, a antigos pets.<\/p>\n<p>Aconteceu que, outro dia, beliscado pela curiosidade, dei para desenterrar o bicho. Peguei uma colher e a coragem, e fui para o jardim. Na primeira tentativa, errei a pequena cova. Na segunda, devo ter chegado pr\u00f3ximo da diminuta fenda. Na terceira, lamentei o fato de n\u00e3o ter colocado uma cruz para identificar o local exato da vala. Segui nesse cavucar por um bom tempo. Parei antes de minha v\u00f3 reclamar da buraqueira. No final, nada da mat\u00e9ria aparecer. Resignado, aceitei conviver com a d\u00favida e imaginei que, por ter passado seus \u00faltimos dias naquela casa cheia de vida, a rolinha teria ressuscitado, voltou a bater asas e voou. \u201cQue nada! Gato \u00e9 bicho esperto, desenterra tudo\u201d, disse algum adulto, n\u00e3o lembro quem.<\/p>\n<p>Explica\u00e7\u00e3o besta. Para mim, aquilo s\u00f3 podia ser a tal da ressurrei\u00e7\u00e3o. Coisa que acontece quase nunca, mas a gente precisa crer sempre, sem dar ouvidos \u00e0 difama\u00e7\u00e3o. Afinal de contas, onde transborda vida, morte \u00e9 coisa rasa, s\u00f3 uma ins\u00edpida distra\u00e7\u00e3o para nossos olhos aqui na Terra.<\/p>\n<p><strong>\u2022 Daniel Theodoro,<\/strong> 32 anos. Crist\u00e3o \u201cem reforma\u201d e membro nascido na Igreja Presbiteriana Maranata de Santo Andr\u00e9 (SP). Casado com a Fernanda. Formado em Jornalismo e estudante de Letras.<\/p>\n<p>Pintura: Garden of the Empty Tomb\/ Linda Curley Christensen<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Daniel Theodoro Foi no despretensioso jardim da casa de minha av\u00f3 onde descobri o valor da ressurrei\u00e7\u00e3o. \u00c9 claro que, como crian\u00e7a nascida em ber\u00e7o crist\u00e3o reformado, j\u00e1 tinha tido contato com a abstrata palavra na Escola B\u00edblica Dominical e, em especial, durante a celebra\u00e7\u00e3o da P\u00e1scoa. 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