{"id":5108,"date":"2016-06-13T09:29:58","date_gmt":"2016-06-13T12:29:58","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/?p=5108"},"modified":"2016-06-13T09:29:58","modified_gmt":"2016-06-13T12:29:58","slug":"quem-e-voce-dentro-de-voce","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/2016\/06\/13\/quem-e-voce-dentro-de-voce\/","title":{"rendered":"Quem \u00e9 voc\u00ea dentro de voc\u00ea?"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Thales Rios<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-5109\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2016\/06\/UltJovem_13_06_16_quem-vc.jpg\" alt=\"UltJovem_13_06_16_quem-vc\" width=\"357\" height=\"243\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2016\/06\/UltJovem_13_06_16_quem-vc.jpg 357w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2016\/06\/UltJovem_13_06_16_quem-vc-300x204.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2016\/06\/UltJovem_13_06_16_quem-vc-150x102.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 357px) 100vw, 357px\" \/><\/em><strong><br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p>Num passado distante cientistas foram desafiados a criar um complexo sistema mundial de interliga\u00e7\u00e3o de computadores para troca de informa\u00e7\u00f5es \u00e0 dist\u00e2ncia. As possibilidades eram enormes: poderiam enviar informa\u00e7\u00f5es militares e cient\u00edficas de um continente a outro, acessar dados banc\u00e1rios, conversar com pessoas do outro lado do mundo, comprar e vender sem sair de casa. D\u00e9cadas mais tarde, c\u00e1 estou eu, me dedicando a gastar tempo nesse tal complexo sistema mundial de interliga\u00e7\u00e3o de computadores para fazer testes em que descubro qual seria meu Pok\u00e9mon na vida real.<\/p>\n<p>Por mais tonto que seja, \u00e9 muito divertido responder 5 perguntas e descobrir que no universo de Friends eu seria o Ross (droga, sempre quis ser o Chandler), que no Star Wars eu seria o Jar Jar Binks (o que \u00e9 indiscut\u00edvel, infelizmente) e que dentre as princesas da Disney eu seria a Branca de Neve (sim, eu j\u00e1 fiz esse teste mesmo). Os resultados s\u00e3o meio deprimentes, mas \u00e9 viciante demais pra parar com isso.<\/p>\n<p>Fora estes testes bisonhos de \u201cquem \u00e9 voc\u00ea na fila do p\u00e3o\u201d e \u201cquem \u00e9 sua alma g\u00eamea\u201d (nunca funciona, acreditem em mim), tem outros realmente interessantes por a\u00ed, alguns que d\u00e1 at\u00e9 pra botar certa f\u00e9 e parecem ter algum embasamento de psicologia por tr\u00e1s. Meus favoritos s\u00e3o aqueles em que voc\u00ea tem que imaginar um cen\u00e1rio com v\u00e1rios elementos e depois descobre que aquele deserto \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o da sua vida pat\u00e9tica e sem sentido, o cavalo rebelde \u00e9 sua pessoa amada que est\u00e1 pisando na \u00fanica flor do jardim, que representava seu \u00faltimo amigo. (Baseado em fatos bizarramente reais de um amigo meu esse exemplo.)<\/p>\n<p>Meu primeiro contato com testes assim foi na \u00e9poca em que a Internet ainda era tudo mato. Quando crian\u00e7a, conheci uma velhinha muito simp\u00e1tica que parecia ter poderes sobrenaturais. Ela estava em casa conversando com minha m\u00e3e e do nada me pediu pra desenhar uma estrada, \u00e1rvores e uma casa. Achei tonto da parte dela (e n\u00e3o disse isso porque eu era um menino muito educado), mas fiz l\u00e1 o tal desenho pra velhinha. Ela pegou o papel na m\u00e3o, abaixou os \u00f3culos de velha dela e come\u00e7ou a me descrever completamente se baseando no desenho: \u201cOlha, menino, estas \u00e1rvores inclinadas pra direita mostram que voc\u00ea gosta de imaginar muito as coisas antes de faz\u00ea-las; a cerca na estrada feita assim me diz que voc\u00ea tem muito medo de arriscar nas suas decis\u00f5es; o caminho com curvas deste jeito mostra que voc\u00ea \u00e9 muito desorganizado; e esta casa com telhado deste jeito e um cachorro na porta me indicam que voc\u00ea gosta muito de cachorro, porque eu nem pedi pra desenhar cachorro\u201d. Caramba! N\u00e3o lembro bem como foi que ela descreveu as coisas na verdade, mas ela parecia saber mais de mim do que eu mesmo! Em seguida pegou meu caderno da escola e descobriu pela minha letra que eu era impaciente, distra\u00eddo e sentia ci\u00fames da menina que gostava (o que era verdade mas neguei, obviamente). Depois de desnudar meus sentimentos e personalidade ela deu um sorrisinho, fez alguma piadinha sobre poderes m\u00e1gicos e me deixou anos pensando que ela era prima da Morgana ou algo do tipo.<!--more--><\/p>\n<p>Infelizmente, anos mais tarde eu soube que ela havia estudado algo relacionado a psicologia, o que fez a magia desaparecer um pouco, mas de qualquer maneira isso me fez ficar fan\u00e1tico por estes testes de personalidade.<\/p>\n<p>H\u00e1 um tempo atr\u00e1s eu vi em um site mais um destes testes em que se tem que imaginar um cen\u00e1rio, um animal, uma cabana e mais um monte de coisas. Entre estas coisas, devia imaginar uma caneca ou frasco que estava no fundo da tal cabana. Como ele \u00e9? Imaginei um frasco de vidro bem fino e fraco, todo emba\u00e7ado e com \u00e1gua suja parada. O que voc\u00ea faz com ele? Contrariando o que eu realmente faria na vida real, me imaginei pegando o frasco, jogando a \u00e1gua suja fora e depois fui em uma torneira, o lavei, sequei e levei comigo tomando todo o cuidado do mundo. No fim do teste eles explicavam que o frasco representava a minha rela\u00e7\u00e3o com a pessoa mais importante pra mim naquele momento. Mais tarde naquele dia liguei pra tal \u201cpessoa mais importante pra mim naquele momento\u201d, contei que fiz mais um daqueles testes tontos, falei que limpei o frasco porque n\u00e3o queria nenhum Aedes Aegypti por perto, rimos, nos desejamos boa noite e fomos dormir.<\/p>\n<p>Um m\u00eas depois ela me largou e voltou com o ex-namorado.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se Freud explica isso tamb\u00e9m, mas aquele teste fez sentido at\u00e9 demais pra mim. Era realmente um relacionamento fr\u00e1gil, cheio de sujeira acumulada de passados mal resolvidos. Tentei limpar com cuidado, mas na vida real acabou tudo despeda\u00e7ado.<\/p>\n<p>Este pode parecer um texto sobre p\u00e9 na bunda e seus pais falando \u201cPelo menos agora voc\u00ea sabe como faz pra pegar algu\u00e9m, n\u00e9?\u201d (e n\u00e3o, ainda n\u00e3o sei), mas n\u00e3o. Este texto \u00e9 apenas um devaneio sobre como carregamos tanta sujeira nesse nosso frasco chamado vida. Sobre como nossas atitudes s\u00e3o comandadas por coisas que nem percebemos que nos dominam e ditam nossa vida.<\/p>\n<p>O que somos e o que fazemos \u00e9, em sua maioria, resultado do que vivemos at\u00e9 ent\u00e3o, e a nossa linha do tempo \u00e9 o tempo todo agredida e entortada por pancadas que experimentamos todo santo dia. Cada pequena falha nossa ou do outro faz pingar mais uma gota no frasco, cada pecado cumpre sua fun\u00e7\u00e3o em aumentar a dist\u00e2ncia nos relacionamentos, cada trauma nos imputa medos que tornam opacas nossas decis\u00f5es e, quando menos esperamos, nosso frasco est\u00e1 transbordando sujeira e nos encontramos envoltos em tanto lodo que j\u00e1 n\u00e3o d\u00e1 mais pra ver do outro lado do vidro.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso limpar o que est\u00e1 ali dentro.<\/p>\n<p>Ignorar a sujeira que acumulamos conosco n\u00e3o a limpa, e nessa vida n\u00e3o se tem tapete suficiente pra varrer tudo pra debaixo dele. Cada trauma ignorado, cada falha arquivada, cada pecado engavetado v\u00e3o cobrar sua aten\u00e7\u00e3o um dia. \u00c9 preciso esvaziar nossos arm\u00e1rios para que as tra\u00e7as n\u00e3o corroam o que realmente importa. \u00c9 preciso tratar as velhas feridas, mesmo que seja pra aprender como tratar as que ainda est\u00e3o por vir. \u00c9 preciso enfrentar os velhos traumas para que eles n\u00e3o roubem sua liberdade de escolha na vida. \u00c9 preciso enterrar seus mortos, mesmo sabendo que parte de voc\u00ea ser\u00e1 enterrada junta. \u00c9 preciso se livrar da sujeira que acusa e te impede de se relacionar consigo mesmo, pois s\u00f3 assim pode-se se tornar livre pra se relacionar com o outro outra vez.<\/p>\n<p>Quantas amizades precisam ser desperdi\u00e7adas por medo de confian\u00e7a? Quantos amores precisam ser evitados por medo do abandono? Quantos cachorros precisam ser negados por medo da separa\u00e7\u00e3o? Quantos projetos precisam ser engavetados por medo do fracasso? Quantas festas, quantas comidas, quantas experi\u00eancias, quantas viagens, quantas roupas, quantos sorvetes, quantos abra\u00e7os, quantas dan\u00e7as, quantos prazeres?<\/p>\n<p>Quanta vida \u00e9 preciso deixar pra l\u00e1 por coisas que j\u00e1 deveriam ter sido deixadas pra l\u00e1?<\/p>\n<p>\u00c9 preciso esvaziar o velho eu para poder ser preenchido de uma nova vida.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 frasco que n\u00e3o possa ser lavado. N\u00e3o h\u00e1 passado que n\u00e3o possa ser deixado pra tr\u00e1s.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso aprender perdoar \u2013 a si mesmo, inclusive.<\/p>\n<p><strong>\u2022 Thales Rios<\/strong> tem 27 anos, \u00e9 designer gr\u00e1fico, professor de EBD e tenta ser engra\u00e7ado escrevendo para o blog\u00a0<a href=\"https:\/\/thalesdemuleta.wordpress.com\/\">Thales de Muleta<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Thales Rios Num passado distante cientistas foram desafiados a criar um complexo sistema mundial de interliga\u00e7\u00e3o de computadores para troca de informa\u00e7\u00f5es \u00e0 dist\u00e2ncia. 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