{"id":4843,"date":"2016-04-07T11:15:17","date_gmt":"2016-04-07T14:15:17","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/?p=4843"},"modified":"2016-04-07T11:15:17","modified_gmt":"2016-04-07T14:15:17","slug":"intolerancia-virtual-e-o-cha-nosso-de-cada-dia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/2016\/04\/07\/intolerancia-virtual-e-o-cha-nosso-de-cada-dia\/","title":{"rendered":"Intoler\u00e2ncia virtual e o ch\u00e1 nosso de cada dia"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_4844\" style=\"width: 368px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-4844\" class=\"size-full wp-image-4844\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2016\/04\/UltJovem_07_04_16_Xicara_cha.jpg\" alt=\"Oliver Gruener \/ Freeimages.com\" width=\"358\" height=\"269\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2016\/04\/UltJovem_07_04_16_Xicara_cha.jpg 358w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2016\/04\/UltJovem_07_04_16_Xicara_cha-300x225.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2016\/04\/UltJovem_07_04_16_Xicara_cha-150x113.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 358px) 100vw, 358px\" \/><p id=\"caption-attachment-4844\" class=\"wp-caption-text\">Oliver Gruener \/ Freeimages.com<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Por Daniel Theodoro<\/em><\/p>\n<p>Em meio \u00e0 efervescente intoler\u00e2ncia virtual nas redes sociais, tomei um tempo. Prometi para mim n\u00e3o dar muita aten\u00e7\u00e3o para conversinhas.<\/p>\n<p>Por isso, larguei de lado o celular e o computador, e botei a \u00e1gua para ferver, iniciando o ritual. Tirei do arm\u00e1rio o saco de flores secas de camomila comprado recentemente pela minha esposa no armaz\u00e9m e, perplexo, me dei conta de que n\u00e3o sabia preparar o ch\u00e1. Triste chegar \u00e0 casa dos trinta anos e descobrir que n\u00e3o sei sintetizar meu pr\u00f3prio narc\u00f3tico.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que s\u00f3 recorri \u00e0 planta desidratada porque as pr\u00e1ticas caixinhas com sach\u00eas haviam sido consumidas ao longo do estressante m\u00eas. Azar meu. N\u00e3o s\u00f3 isso, azar nosso. Percebi o quanto a humanidade se tornou ref\u00e9m dos saquinhos de ch\u00e1 industrializado. Por culpa de algum marqueteiro, acreditamos que a paz transcendental contida em um ch\u00e1 est\u00e1 acess\u00edvel ao p\u00fablico apenas nas g\u00f4ndolas do supermercado, quando na verdade \u00e9 poss\u00edvel cultiv\u00e1-la em qualquer vasinho ou t\u00ea-la em qualidade superior comprando a flor desidratada.<\/p>\n<p>Acho que no tempo de vov\u00f3 era diferente. Os saquinhos tinham pouca chance. Afinal, sempre tinha um p\u00e9 de camomila, hortel\u00e3 ou capim cidreira no jardim. A paz estava logo ali, ao alcance das m\u00e3os. Talvez seja por isso que naquela \u00e9poca as pessoas eram menos estressadas. Eram mais felizes porque tinha ch\u00e1 <em>in natura<\/em> no terreiro e nenhuma rede social para causar indigest\u00e3o ou gastrite nervosa.<\/p>\n<p>Pois bem, como n\u00e3o tenho jardim e fa\u00e7o parte da gera\u00e7\u00e3o que confunde quintal com sacada de apartamento, me restou procurar na internet a receita de ch\u00e1 de flor de camomila desidratada.<\/p>\n<p>Ao leitor mais exigente, minha preocupa\u00e7\u00e3o pode parecer tola. Antecipo, n\u00e3o \u00e9. Tenho um amigo que sofreu as consequ\u00eancias de buscar libertar-se da ditadura dos sach\u00eas de ch\u00e1. Sem ter conhecimento da dose ideal, exagerou na hora de colocar a camomila na \u00e1gua quente. Resultado: desconforto estomacal e visitas frequentes ao banheiro em curt\u00edssimo espa\u00e7o de tempo, al\u00e9m de um sono sobrenatural.<\/p>\n<p>Na internet, a receita aparece do seguinte jeito: uma colher de flor de camomila seca para meio litro de \u00e1gua, cinco minutos de infus\u00e3o e depois a\u00e7\u00facar &#8211; caso queira. \u201cS\u00f3 isso?\u201d, pensei alto. Imposs\u00edvel segurar a revolta quando li! Acredito que f\u00f3rmulas naturais essenciais \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o do equil\u00edbrio humano n\u00e3o deveriam deixar de ser transmitidas \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es. A receita do ch\u00e1 de camomila natural, por exemplo, deveria ser patrim\u00f4nio familiar, repassado cuidadosamente aos filhos. Ao inv\u00e9s de presentear o filho com um tablet, seria muito melhor dar um vasinho de camomila.<\/p>\n<p>Em tempos de conflito b\u00e9lico virtual e linchamento nas redes sociais, receita de ch\u00e1 de flor de camomila deveria estar no trending topics do Twitter. Ou, quem sabe, alguma boa alma poderia fazer um v\u00eddeo mostrando como prepar\u00e1-la <em>in natura<\/em> e divulg\u00e1-lo no Facebook. Com certeza, eu compartilharia. No entanto, no lugar preferimos publicar raiva, curtir ignor\u00e2ncia e bloquear bom-senso. Como consequ\u00eancia, substitui-se cada vez mais a receita de ch\u00e1 de camomila pela receita de Rivotril.<\/p>\n<p><strong><br \/>\n\u2022 Daniel Theodoro,<\/strong> 32 anos. Crist\u00e3o &#8220;em reforma&#8221; e membro nascido na Igreja Presbiteriana Maranata de Santo Andr\u00e9 (SP). Casado com a Fernanda. Formado em Jornalismo e estudante de Letras.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Por Daniel Theodoro Em meio \u00e0 efervescente intoler\u00e2ncia virtual nas redes sociais, tomei um tempo. Prometi para mim n\u00e3o dar muita aten\u00e7\u00e3o para conversinhas. Por isso, larguei de lado o celular e o computador, e botei a \u00e1gua para ferver, iniciando o ritual. 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