{"id":4605,"date":"2015-12-14T07:00:53","date_gmt":"2015-12-14T10:00:53","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/?p=4605"},"modified":"2015-12-11T16:12:32","modified_gmt":"2015-12-11T19:12:32","slug":"o-que-os-olhos-nao-veem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/2015\/12\/14\/o-que-os-olhos-nao-veem\/","title":{"rendered":"O que os olhos n\u00e3o veem"},"content":{"rendered":"<p><em><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2015\/12\/Ult_jovem_15_12_15_olhos.jpg\" class=\"lightview\" data-lightview-group=\"group-4605\" data-lightview-options=\"skin: 'dark', controls: 'relative', padding: '10', shadow: { color: '#000000', opacity: 0.08, blur: 3 }\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-4606\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2015\/12\/Ult_jovem_15_12_15_olhos.jpg\" alt=\"Ult_jovem_15_12_15_olhos\" width=\"358\" height=\"240\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2015\/12\/Ult_jovem_15_12_15_olhos.jpg 358w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2015\/12\/Ult_jovem_15_12_15_olhos-300x201.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2015\/12\/Ult_jovem_15_12_15_olhos-150x101.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 358px) 100vw, 358px\" \/><\/a>Por Paula Mazzini<\/em><\/p>\n<p><em>&#8212; Como voc\u00ea perdeu a vis\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p><em>&#8212; Antes de nascer. Nunca vi nada neste mundo.<\/em><\/p>\n<p><em>&#8212; Quanto voc\u00ea pagaria para enxergar por dez minutos?<\/em><\/p>\n<p><em>&#8212; Por dez minutos? Nem um tost\u00e3o furado. Eu me tornaria uma pessoa insuport\u00e1vel. Ter algo e depois perder me transformaria em um revoltado.<\/em><\/p>\n<p>Esse foi o di\u00e1logo entre um vendedor de amendoim e um desertor de guerra no filme \u201cCold Mountain\u201d (2003). Depois da inesperada resposta, o desertor desistiu de achar no cego cumplicidade para seus desamores e sua revolta com o mundo.<\/p>\n<p>A cegueira humana tamb\u00e9m causou certo impacto em Jos\u00e9 Saramago. E ele d\u00e1 pistas de que se trata de algo que vai muito al\u00e9m da cegueira f\u00edsica: \u201cPor que foi que cegamos? N\u00e3o sei. Talvez um dia se chegue a conhecer a raz\u00e3o [\u2026]. Penso que n\u00e3o cegamos, penso que estamos cegos. Cegos que veem, cegos que, vendo, n\u00e3o veem\u201d.<\/p>\n<p>H\u00e1 v\u00e1rias formas de cegueira. A mais \u00f3bvia, a cegueira f\u00edsica, tem feito o mundo se adaptar. H\u00e1 livros e placas de elevadores em braile, ch\u00e3o com texturas, auxiliares no metr\u00f4 e sinais de tr\u00e2nsito com campainhas especiais. Ainda falta muito para que um cego se sinta confort\u00e1vel, mas j\u00e1 demos um passo.<!--more--><\/p>\n<p>E as outras cegueiras? O que temos feito com elas? A cegueira da alma, do cora\u00e7\u00e3o, a cegueira de si e dos outros? O vendedor de amendoim nunca havia visto nem uma cor sequer. A palavra \u201camarelo\u201d n\u00e3o significava nada para ele. Quando fico cega de mim, n\u00e3o percebo mais as nuances da minha alma. O que \u00e9 branco? O que \u00e9 marrom? O que \u00e9 encardido? Confundo tudo. Fico insens\u00edvel e obstinada. Meu cora\u00e7\u00e3o endurece. E, com a dureza, cresce a revolta por n\u00e3o conseguir mais enxergar o belo. Torno-me justamente o que o velho n\u00e3o queria ser e pela mesma raz\u00e3o: insuport\u00e1vel, por ter algo e depois perder.<\/p>\n<p>Um cego pode pensar que est\u00e1 indo para casa e acabar no abismo. S\u00f3 uma pessoa que enxerga pode ajud\u00e1-lo. Ainda bem que, quando a cegueira da alma me atinge, sempre h\u00e1 por perto pessoas que enxergam al\u00e9m do que meus olhos feridos s\u00e3o capazes de enxergar. Elas me tiram dos emaranhados em que me meti e me colocam de volta nos trilhos.<\/p>\n<p>A cegueira \u00e9 uma met\u00e1fora e tanto. Al\u00e9m de Saramago, Jesus tamb\u00e9m percebeu isso. E quando ele, que sempre foi bom em figuras de linguagem, diz que veio trazer vista aos cegos (Lc 4.18), n\u00e3o est\u00e1 falando s\u00f3 da cegueira f\u00edsica, embora tenha curado muitos cegos. Est\u00e1 falando das traves que me impedem de ver quem sou. Que enganam, que oprimem, que tiram o brilho das coisas, que desbotam as cores e transformam tudo o que vejo em n\u00e9voas. Talvez seja por isso que o hino que marca muitas convers\u00f5es tamb\u00e9m fale de cegueira: \u201cOh qu\u00e3o cego andei e perdido vaguei\u201d.<\/p>\n<p>Depois de ser livre da cegueira completa, preciso lidar com outras distor\u00e7\u00f5es da vista. Preciso me livrar da miopia, do astigmatismo, da vista cansada, da fotofobia, do estrabismo de mim.<\/p>\n<p>Para que eu veja as flores, mas tamb\u00e9m os espinhos. Para que eu me olhe no espelho e me admire, mas tamb\u00e9m perceba as distor\u00e7\u00f5es. Para que eu veja quanta beleza h\u00e1 por a\u00ed. Afinal, como disse Saramago, \u201ca cegueira tamb\u00e9m \u00e9 isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperan\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p><strong>\u2022 Paula Mazzini Mendes <\/strong>\u00e9 formada em letras e atualmente estuda no semin\u00e1rio do Ex\u00e9rcito de Salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Publicado originalmente na se\u00e7\u00e3o Altos Papos da Revista Ultimato, <a href=\"http:\/\/www.ultimato.com.br\/revista\/artigos\/338\/o-que-os-olhos-nao-veem\">edi\u00e7\u00e3o 338<\/a>.<\/p>\n<p>Foto: <a href=\"http:\/\/www.freeimages.com\/photo\/eye-1439559\">Mirko Delcaldo\/Freeimages<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Paula Mazzini &#8212; Como voc\u00ea perdeu a vis\u00e3o? &#8212; Antes de nascer. Nunca vi nada neste mundo. &#8212; Quanto voc\u00ea pagaria para enxergar por dez minutos? &#8212; Por dez minutos? Nem um tost\u00e3o furado. Eu me tornaria uma pessoa insuport\u00e1vel. Ter algo e depois perder me transformaria em um revoltado. 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