{"id":4515,"date":"2015-11-06T09:36:29","date_gmt":"2015-11-06T12:36:29","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/?p=4515"},"modified":"2015-11-06T09:36:29","modified_gmt":"2015-11-06T12:36:29","slug":"poderas-pescar-com-anzol-o-leviata","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/2015\/11\/06\/poderas-pescar-com-anzol-o-leviata\/","title":{"rendered":"Poder\u00e1s pescar com anzol o Leviat\u00e3?"},"content":{"rendered":"<p><em><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2015\/11\/Ult_Jovem_06_11_15_leviata_pq.jpg\" class=\"lightview\" data-lightview-group=\"group-4515\" data-lightview-options=\"skin: 'dark', controls: 'relative', padding: '10', shadow: { color: '#000000', opacity: 0.08, blur: 3 }\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-4516 alignright\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2015\/11\/Ult_Jovem_06_11_15_leviata_pq.jpg\" alt=\"Ult_Jovem_06_11_15_leviata_pq\" width=\"243\" height=\"357\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2015\/11\/Ult_Jovem_06_11_15_leviata_pq.jpg 243w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2015\/11\/Ult_Jovem_06_11_15_leviata_pq-204x300.jpg 204w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2015\/11\/Ult_Jovem_06_11_15_leviata_pq-102x150.jpg 102w\" sizes=\"auto, (max-width: 243px) 100vw, 243px\" \/><\/a>Por Gabriel Brisola<\/em><\/p>\n<p><strong>CINEMA<\/strong><\/p>\n<p>J\u00f3 era um homem temente a Deus. Tinha riquezas, filhos, posses e andava de modo reto na terra. Certa feita, em um encontro improv\u00e1vel, Satan\u00e1s lan\u00e7a um desafio a Deus: a fidelidade do homem \u00e9 prec\u00e1ria, fr\u00e1gil, basta tocar em J\u00f3 que ela se esvai, perdida em dor e trag\u00e9dia. Satan\u00e1s andava perambulando pela terra, talvez se aproveitando dos caminhos tortuosos do homem, encontrando oportunidade para disseminar sofrimento e morte atrav\u00e9s daqueles que habitam as cidades. Talvez a fidelidade de J\u00f3 fosse em decorr\u00eancia de Deus t\u00ea-lo aben\u00e7oado; caso Deus permitisse a mis\u00e9ria, J\u00f3 poderia mostrar-se infiel e v\u00e3o como todos os outros homens.<\/p>\n<p>Satan\u00e1s tomou tudo o que era dele, sua fam\u00edlia, suas posses e sua sa\u00fade. Entregando-se ao p\u00f3, J\u00f3 rasgou suas vestes e raspou a cabe\u00e7a, em sinal de luto. N\u00e3o haveria de culpar Deus nem mesmo sua pr\u00f3pria sorte. N\u00e3o havia motivos aparentes para tal destino em sua vida. J\u00f3 n\u00e3o tem escolha, a n\u00e3o ser encarar o abismo em que sua vida se tornou.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Leviathan \u00e9 um filme russo, de 2014. Concorreu aos principais pr\u00eamios do cinema e foi considerado um dos melhores filmes do ano passado. Como \u00e9 de costume, recebemos a obra com um pouco de atraso, ap\u00f3s a passagem por festivais mundo a fora.<!--more--><\/p>\n<p>Kolya \u00e9 um mec\u00e2nico que mora com sua segunda esposa, Lilya, e seu filho Roma, em uma pequena cidade no interior da R\u00fassia. O prefeito da cidade quer expropriar sua casa para, aparentemente, erigir uma torre de comunica\u00e7\u00e3o. Ao que parece, Kolya e seus familiares erigiram a casa com suas pr\u00f3prias m\u00e3os e o protagonista n\u00e3o abre m\u00e3o do trabalho de sua fam\u00edlia. Dima, advogado e amigo do protagonista, v\u00eam de Moscou para cuidar do caso, que toma propor\u00e7\u00f5es enormes, tendo em vista a press\u00e3o vinda das autoridades locais sobre Kolya.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil falar mais acerca da hist\u00f3ria: qualquer detalhe revelado pode estragar a surpresa dos acontecimentos, que s\u00e3o muitos no filme. Por\u00e9m, algumas coisas podem ser ditas brevemente acerca do que efetivamente acontece na hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>A narrativa exp\u00f5e alian\u00e7as nefastas entre o prefeito, a pol\u00edcia, o judici\u00e1rio e a igreja. Tais conex\u00f5es s\u00e3o claras, como quando o protagonista vai \u00e0 pol\u00edcia, junto a seu advogado, para denunciar um ataque pessoal do prefeito e, chegando, n\u00e3o encontra oficial algum que possa atend\u00ea-lo, muito menos algu\u00e9m que possa auxili\u00e1-lo nesse momento. As figuras de autoridade s\u00e3o pe\u00e7as no jogo do prefeito e seus capangas. Ao mesmo tempo, quando chamado ao tribunal para ouvir o veredito sobre sua propriedade, \u00e9 tomado por uma enxurrada de termos t\u00e9cnicos jur\u00eddicos, pronunciados em velocidade burocr\u00e1tica e mec\u00e2nica: o sistema passa por cima das pessoas de forma cruel. Nesse jogo, a igreja age como legitimadora dessas for\u00e7as, o sacerdote aconselhando o prefeito a exercer a for\u00e7a que vem, supostamente, do pr\u00f3prio Deus.<\/p>\n<p>Mas ainda h\u00e1 outro lado da hist\u00f3ria. Nessa cidade, entre os amigos de Kolya e os moradores subempregados, as mulheres s\u00e3o tratadas de forma cruel e machista, o protagonista sendo um desses que vive uma rela\u00e7\u00e3o de desprezo por sua pr\u00f3pria esposa, tratando-a como objeto em diversos momentos. A viol\u00eancia \u00e0s mulheres est\u00e1 enraizada nesse vilarejo e o espectador se surpreender\u00e1 com a sensibilidade com que o diretor trata essa tem\u00e1tica.<\/p>\n<p>A cidade parece um lugar esquecido por Deus e dominado pelos homens em sua for\u00e7a e alian\u00e7as com a igreja e o capital. Um lugar que, infelizmente, parece um tanto com nosso Brasil.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria de J\u00f3 encontra um final inesperado. Ap\u00f3s as discuss\u00f5es com seus \u201camigos\u201d, recha\u00e7ando-os um ap\u00f3s o outro, que o acusam de pecado e outras coisas do tipo, Deus se manifesta a ele. J\u00f3 \u00e9 concedido uma audi\u00eancia com Deus: coberto de cinza e com as vestes rasgadas, encontra Deus.<\/p>\n<p>J\u00f3 tinha boas raz\u00f5es, penso eu. Compartilho de suas queixas, apesar de n\u00e3o fazer ideia da imensid\u00e3o de seu sofrimento. Deus, ao inv\u00e9s de responder suas perguntas, escolhe outra abordagem. \u201cJ\u00f3, levante, agora \u00e9 minha vez de lhe inquirir.\u201d Em um discurso que revela a grandeza e a soberania de Deus sobre todas as coisas, J\u00f3 \u00e9 confrontado com sua pr\u00f3pria pequenez diante de um Deus que n\u00e3o se faz surdo ao grito do miser\u00e1vel. N\u00e3o lhe \u00e9 dada a sabedoria das coisas misteriosas e profundas, como a fonte de seu sofrimento ou o prop\u00f3sito de sua dor. Tais coisas s\u00e3o demais para J\u00f3, s\u00e3o demais para n\u00f3s.<\/p>\n<p>Kolya perde tudo. N\u00e3o estrago o filme ao contar esse fato. O protagonista \u00e9 enredado em uma trag\u00e9dia como poucas, fruto da maldade do homem. Ao andar pelo vilarejo, bebida em m\u00e3os, desconsolado, encontra um piedoso sacerdote que carrega p\u00e3es para distribuir aos pobres. Questiona o religioso acerca de Deus e de seu sofrimento, se ser crente o livraria de tal sina. O homem evoca os versos de J\u00f3 (41:1-2,34): \u201cVoc\u00ea consegue pescar com anzol o Leviat\u00e3 ou prender sua l\u00edngua com uma corda? Consegue fazer passar um cord\u00e3o pelo seu nariz ou atravessar seu queixo com um gancho? (&#8230;) Com desd\u00e9m olha todos os altivos; reina soberano sobre todos os orgulhosos\u201d. O sacerdote o aconselha a resignar-se ao seu destino, afinal J\u00f3 ainda viveu para ver as gera\u00e7\u00f5es de sua fam\u00edlia florescer.<\/p>\n<p>Mais cedo no filme, Roma, filho do protagonista, foge de casa e sai correndo pela costa, encontrando o esqueleto de um grande peixe, ao lado qual se p\u00f5e a chorar. O Leviat\u00e3 foi finalmente morto. Tudo o que atraca naquela terra inf\u00e9rtil torna-se p\u00f3. Quais for\u00e7as a maldade do homem n\u00e3o consegue subjugar?<\/p>\n<p>J\u00f3, por fim, viu a Deus e seu encontro com Ele trouxe paz a sua vida. A mera presen\u00e7a de Deus, e aqui digo num sentido concreto, n\u00e3o espiritualizado da coisa, traz descanso e al\u00edvio ao sofrimento de J\u00f3. O pr\u00f3prio Deus mostra suas feridas aos homens, caminhando ao lado deles, mesmo em seus piores destinos. N\u00e3o \u00e9 explicado o sentido do sofrimento, mist\u00e9rio muito profundo para qualquer ser humano. Ao inv\u00e9s disso, Deus oferece a si pr\u00f3prio como consolador das mazelas humanas.<\/p>\n<p>Kolya, ao que parece, n\u00e3o encontra Deus no final de sua jornada. Encontra dor, profunda dor de ter sido privado de tudo o que lhe era mais valioso. Encontra um sistema que o massacra, e um deus que apoia os poderosos no exerc\u00edcio do poder e na servid\u00e3o ao capital. A \u00fanica liberdade est\u00e1 no mar, aonde o Leviat\u00e3 pode viver em liberdade; mas assim que coloca os p\u00e9s nesse ch\u00e3o, s\u00f3 a mis\u00e9ria e a trag\u00e9dia o acompanham.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria de Kolya, e tamb\u00e9m de J\u00f3, nos deixa atormentados. Deus se op\u00f5e aos projetos de poder, sejam eles em nome da Igreja ou em nome de Satan\u00e1s. Em meio ao sofrimento de uma realidade cruel e desigual, aonde os poderosos enriquecem a custa dos mais fracos, Deus mostra suas feridas e nos encoraja a confiar e a caminhar com Ele. Que tais hist\u00f3rias nos levem a buscar a \u201cShalom\u201d de Deus, na esperan\u00e7a de ver o Reino estabelecido aqui e nos cantos mais miser\u00e1veis dessa terra. Que nosso sil\u00eancio em meio \u00e0 dor possa ser acompanhado por uma esperan\u00e7a ativa, que proclama a justi\u00e7a e a verdade de um Deus justo e sofredor.<\/p>\n<p><strong>\u2022 Gabriel Brisola<\/strong> tem 24 anos, \u00e9 formado em jornalismo e atua como fot\u00f3grafo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Gabriel Brisola CINEMA J\u00f3 era um homem temente a Deus. Tinha riquezas, filhos, posses e andava de modo reto na terra. Certa feita, em um encontro improv\u00e1vel, Satan\u00e1s lan\u00e7a um desafio a Deus: a fidelidade do homem \u00e9 prec\u00e1ria, fr\u00e1gil, basta tocar em J\u00f3 que ela se esvai, perdida em dor e trag\u00e9dia. 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