{"id":3823,"date":"2015-02-19T13:05:19","date_gmt":"2015-02-19T16:05:19","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/?p=3823"},"modified":"2015-02-20T09:52:59","modified_gmt":"2015-02-20T12:52:59","slug":"dando-um-jeito-no-jeitinho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/2015\/02\/19\/dando-um-jeito-no-jeitinho\/","title":{"rendered":"Dando um jeito no \u201cjeitinho\u201d"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Marlon Teixeira<\/em><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2015\/02\/UltJovem_19_02_15_Trilhos.jpg\" class=\"lightview\" data-lightview-group=\"group-3823\" data-lightview-options=\"skin: 'dark', controls: 'relative', padding: '10', shadow: { color: '#000000', opacity: 0.08, blur: 3 }\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-3824\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2015\/02\/UltJovem_19_02_15_Trilhos.jpg\" alt=\"UltJovem_19_02_15_Trilhos\" width=\"274\" height=\"412\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2015\/02\/UltJovem_19_02_15_Trilhos.jpg 274w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2015\/02\/UltJovem_19_02_15_Trilhos-199x300.jpg 199w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2015\/02\/UltJovem_19_02_15_Trilhos-99x150.jpg 99w\" sizes=\"auto, (max-width: 274px) 100vw, 274px\" \/><\/a>\u00c9 mat\u00e9ria-prima do labor de muitos letrados desta na\u00e7\u00e3o, a concep\u00e7\u00e3o do que \u00e9, de fato, o &#8220;jeitinho brasileiro&#8221;. Na verdade, todos j\u00e1 ouviram falar do &#8220;jeitinho&#8221;, seja aqui pelo vi\u00e9s acad\u00eamico, lendo um bom livro como o &#8220;O que faz o brasil, Brasil?&#8221; de Roberto DaMatta, ou acol\u00e1, escutando diariamente, sem se dar conta, as in\u00fameras alcunhas carinhosas que o &#8220;jeitinho&#8221; recebeu com o tempo: \u201cFulano tem o contato\u201d; \u201cBeltrano arrumou um peixe\u201d; \u201cVou lhe passar a senha\u201d; \u201cEu conhe\u00e7o o canal\u201d. E ainda: \u201cN\u00e3o tem nada a ver, o sistema \u00e9 injusto mesmo!\u201d; \u201cQuem n\u00e3o \u00e9 visto, n\u00e3o \u00e9 lembrado!\u201d; \u201cAh! se todo mundo faz, n\u00e3o sou eu quem vai mudar o mundo\u201d. Falo, portanto, n\u00e3o da resili\u00eancia brasileira em resolver seus problemas com gambiarras e t\u00e9cnicas n\u00e3o convencionais, mas do sentido pejorativo do \u201cjeitinho\u201d, aquele que faz de seus manuseadores sujeitos potencialmente corruptos.<\/p>\n<p>\u00c9 isto mesmo. Infelizmente, a aus\u00eancia de politiza\u00e7\u00e3o e o \u00f3bito gradativo de conceitos relevantes para a consci\u00eancia cidad\u00e3 que permeou o Brasil no processo de forma\u00e7\u00e3o de sua identidade pol\u00edtica permitiram que o senso \u00e9tico elementar se prostitu\u00edsse com a no\u00e7\u00e3o equivocad\u00edssima de que o indiv\u00edduo s\u00f3 pode fazer ou deixar de realizar algo se a lei lhe permitir ou lhe proibir. Esta acep\u00e7\u00e3o vingou e agora nutre o inconsciente coletivo brasileiro com comportamentos pra l\u00e1 de anti\u00e9ticos. E foi ao identificar este dist\u00farbio hist\u00f3rico, que nossos governos passados conclu\u00edram que para inibir a sua perpetua\u00e7\u00e3o, eles precisariam criar uma legisla\u00e7\u00e3o que agasalhasse todos os fatos sociais poss\u00edveis, a fim de n\u00e3o deixar nenhuma brecha. Acabaram apagando fogo com gasolina.<\/p>\n<p>Veja: nossa Carta Magna possui 250 artigos e 84 emendas, enquanto a Constitui\u00e7\u00e3o dos EUA possui 7 artigos e 27 emendas, mesmo tendo sido promulgada 101 anos antes da nossa. E por que esta discrep\u00e2ncia? Ora, porque em pa\u00edses de origem anglo-sax\u00f4nica, a cosmovis\u00e3o jur\u00eddica \u00e9 a <em>Common Law, <\/em>que, com o pressuposto da maturidade cidad\u00e3, conduz as senten\u00e7as mediante a jurisprud\u00eancia, os usos e costumes, a razoabilidade cultural, enfim, a sensatez \u00e9 mais preponderantemente relevante que a pr\u00f3pria lei. Isto enaltece o senso de responsabilidade c\u00edvica, inclina os vastos padr\u00f5es morais para a supremacia do direito p\u00fablico em detrimento do privado e desafia os indiv\u00edduos a se tornarem cada vez mais l\u00facidos diante dos complexos conceitos de <strong>certo<\/strong> e <strong>errado<\/strong>.<!--more--><\/p>\n<p>J\u00e1 no nosso Brasil, a conversa \u00e9 outra. O regime que adotamos \u00e9 o <em>Civil Law<\/em>, que, como supracitado, procurar abranger todos os fatos sociais conhecidos e regul\u00e1-los mediante cl\u00e1usulas e artigos expressamente absolutos. Acontece que, embora pare\u00e7a mais eficiente, este sistema \u00e9 o mais absurdo entre ambos, visto que, como n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel lograr \u00eaxito na tarefa que ele mesmo prop\u00f5e, o efeito de tentar legislar sobre tudo acaba tornando-se uma anu\u00eancia para que as realidades ainda n\u00e3o abordadas fiquem a merc\u00ea da conveni\u00eancia particular, o que, com o tempo, faz com que todos percebam uma falsa normalidade em manobrar pelas lacunas inevit\u00e1veis que o sistema produziu, adulterando, assim, os ju\u00edzos razo\u00e1veis de valor que seriam desenvolvidos se t\u00e3o maldosa tenta\u00e7\u00e3o n\u00e3o os tivesse tolhido.<\/p>\n<p>Foi atrav\u00e9s deste conjunto de fatos que o \u201cjeitinho\u201d se ratificou oficialmente, embora n\u00e3o tenha permanecido restrito \u00e0 esfera legal. Ele se expandiu para as vinhetas mais triviais do cotidiano, manifestando-se em todas as rela\u00e7\u00f5es humanas, da boca de fumo ao interior da igreja, da barraca da esquina ao atendimento no banco, da fila pra merenda \u00e0s vagas do estacionamento, do balc\u00e3o da farm\u00e1cia \u00e0 declara\u00e7\u00e3o de impostos, enfim, o modo vil dos brasileiros acessarem seus desejos mais inacess\u00edveis &#8211; legalmente, em curto prazo e a pre\u00e7o baixo &#8211; consiste em deflagrar a ordem, a verdade e a raz\u00e3o das coisas serem como s\u00e3o, ou seja, em ignorar o senso comum, por\u00e9m, factual, de que \u201conde termina o seu direito, come\u00e7a o meu\u201d.<\/p>\n<p>As pessoas p\u00f5em cones nas ruas para guardarem vagas que n\u00e3o podem ser guardadas, compram antenas ileg\u00edtimas para roubarem sinal de TV a cabo (afinal de contas, passarinho solto tem dono?), realizam a tarefa celestial de doar sangue com o \u00fanico objetivo de faltarem do trabalho, batizam e comercializam a gasolina e outros l\u00edquidos com fim \u00faltimo de &#8220;render mais&#8221;, furtam vertiginosa e peremptoriamente as cargas de caminh\u00f5es que tombam na pista, realizam processos seletivos para ocuparem vagas para as quais j\u00e1 tem pessoas determinadas que as ocupar\u00e3o, driblam o pagamento de tributos com maquiagem empresarial e um pouquinho da &#8220;boa contabilidade&#8221;, falavam e encerravam (n\u00e3o porque mudaram, mas porque as operadoras aprenderam o golpe) a liga\u00e7\u00e3o antes de 3 segundos para n\u00e3o gastarem o cr\u00e9dito dispon\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>Mas como dar um jeito neste &#8220;jeitinho&#8221; nesta cat\u00e1strofe cultural que nos envolveu por inteiro?<\/strong><\/p>\n<p>Bem, os rem\u00e9dios para tal desastre s\u00e3o escassos e seus efeitos s\u00e3o transgeracionais. Todavia, tudo come\u00e7a, progride e termina com a educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>1. Primeiro, \u00e9 necess\u00e1rio mostrar \u00e0 popula\u00e7\u00e3o que a corrup\u00e7\u00e3o que ela atribui exclusivamente aos pol\u00edticos em vigor, reside nela mesma, de modo que n\u00e3o \u00e9 o sistema pol\u00edtico que corrompe os pol\u00edticos, mas exatamente o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>2. Segundo, o ideal \u00e9 faz\u00ea-la visualizar que, num macroprocesso \u201ctoma l\u00e1, d\u00e1 c\u00e1\u201d, todos, uma hora ou outra, saem perdendo com as indevidas vantagens auferidas pelos outros.<\/p>\n<p>3. Terceiro, \u00e9 preciso fortalecer as institui\u00e7\u00f5es conservadoras da sociedade para que suas abordagens \u00e9ticas sejam disseminadas entre a juventude.<\/p>\n<p>4. Quarto, ter\u00e1 que existir campanhas de como\u00e7\u00e3o nacional para que, assim como &#8220;jogar lixo no ch\u00e3o&#8221; e &#8220;parar de fumar&#8221; tornaram-se pr\u00e1ticas ultrapassadas, o &#8220;jeitinho&#8221; caminhe na mesma dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>5. Quinto, n\u00e3o h\u00e1 m\u00e1gica plat\u00f4nica de mudan\u00e7as estruturais. Cada um precisa erguer-se, endireitar a espinha e convencer-se: \u201ceu n\u00e3o farei mais isto\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u2013 Marlon Teixeira<\/strong>, 22 anos, \u00e9 de Ipatinga, MG.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Marlon Teixeira \u00c9 mat\u00e9ria-prima do labor de muitos letrados desta na\u00e7\u00e3o, a concep\u00e7\u00e3o do que \u00e9, de fato, o &#8220;jeitinho brasileiro&#8221;. 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