{"id":3820,"date":"2015-02-11T10:17:01","date_gmt":"2015-02-11T13:17:01","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/?p=3820"},"modified":"2015-03-13T14:41:08","modified_gmt":"2015-03-13T17:41:08","slug":"boyhood-ou-o-caminho-dos-lirios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/2015\/02\/11\/boyhood-ou-o-caminho-dos-lirios\/","title":{"rendered":"\u201cBoyhood\u201d ou o caminho dos l\u00edrios"},"content":{"rendered":"<p><em><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2015\/02\/UltJovem_13_03_15_Boyhood.jpg\" class=\"lightview\" data-lightview-group=\"group-3820\" data-lightview-options=\"skin: 'dark', controls: 'relative', padding: '10', shadow: { color: '#000000', opacity: 0.08, blur: 3 }\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-3881\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2015\/02\/UltJovem_13_03_15_Boyhood.jpg\" alt=\"UltJovem_13_03_15_Boyhood\" width=\"505\" height=\"284\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2015\/02\/UltJovem_13_03_15_Boyhood.jpg 505w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2015\/02\/UltJovem_13_03_15_Boyhood-300x168.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2015\/02\/UltJovem_13_03_15_Boyhood-150x84.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 505px) 100vw, 505px\" \/><\/a><\/em><\/p>\n<p><em>Por Gabriel Brisola<\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 alguns anos atr\u00e1s participei de um debate entre jovens cineastas acerca de seus primeiros filmes. Como estavam todos em in\u00edcio de carreira, puderam conversar sobre as tend\u00eancias vistas em seus pares e colegas rec\u00e9m-formados. Lembro-me de alguns com carinho, alguns com curta-metragens ganhadores de diversos pr\u00eamios em festivais ao redor do Brasil. Quanto \u00e0s suas pr\u00f3prias produ\u00e7\u00f5es, a quest\u00e3o era: por que nossos filmes refletem uma melancolia e descren\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vida, ao futuro e as pessoas? O termo cunhado por um deles em uma c\u00f4mica refer\u00eancia \u00e0 obra de Freud e Bauman, foi \u201co \u2018all star\u2019 na civiliza\u00e7\u00e3o\/p\u00f3s-modernidade\u201d.<\/p>\n<p>Alguns de n\u00f3s, gera\u00e7\u00e3o \u201call star\u201d tardia, temos certo desencantamento com o mundo, com nossos pr\u00f3prios futuros e com as pessoas. Claro que n\u00e3o busco aqui dizer que exista uma gera\u00e7\u00e3o, mas sim diversas, muitas, dif\u00edceis de categorizar. Mas vi em meus companheiros de comunica\u00e7\u00e3o, dentre os fot\u00f3grafos, cineastas, m\u00fasicos, uma resigna\u00e7\u00e3o caracter\u00edstica que hoje reconhe\u00e7o em olhares de vinte e poucos anos, vagando por exposi\u00e7\u00f5es, shows, bares e festivais de cinema. Olhares de classe m\u00e9dia que me lembram os sonhadores de Bertolucci em Maio de 68.<\/p>\n<p>Mas por que n\u00e3o fazemos filmes de outras perspectivas? Por que os filmes que conquistam as plateias s\u00e3o os malditos, tr\u00e1gicos, desesperan\u00e7ados? Pergunto-me a raz\u00e3o de Lars Von Trier ser t\u00e3o venerado. \u00c9 \u00f3bvio que o diretor dinamarqu\u00eas \u00e9 um g\u00eanio do cinema atual (que muito admiro) e talvez opor-se \u00e0s suas obras, como tenho visto em alguns meios crist\u00e3os, seja um erro infantil. Mas n\u00e3o deixo de me perguntar a raz\u00e3o de seu caos destruidor ser t\u00e3o apreciado por meus colegas. Deixo essa quest\u00e3o para os que entendem de juventude. Como algu\u00e9m que est\u00e1 dentro disso tudo, resta-me apenas observar e viver.<\/p>\n<p>\u201cBoyhood\u201d me fez pensar nessas coisas de uma outra perspectiva. O filme conta a inf\u00e2ncia e juventude de Mason: dos seus cinco anos at\u00e9 seu ingresso na universidade. O filme foi feito durante 12 anos, acompanhando o crescimento real dos personagens principais e suas mudan\u00e7as com o tempo. O Mason que vemos na tela quando crian\u00e7a \u00e9 o mesmo quando completa seus 18 anos. Estruturado em epis\u00f3dios que contam um per\u00edodo da hist\u00f3ria de Mason, vemos as transforma\u00e7\u00f5es em sua casa: sua m\u00e3e casando-se e divorciando, seu pai que est\u00e1 sempre o visitando, sua irm\u00e3 sempre a par das tend\u00eancias da moda, suas amizades, descobertas e desenvolvimento. A pel\u00edcula deixa escapar, por suas imagens, pequenos lapsos que d\u00e3o vida \u00e0 obra. No fundo, s\u00e3o quase tr\u00eas horas de nenhuma a\u00e7\u00e3o, de nenhum grande \u201cplot\u201d, de nenhuma reviravolta nem de objetivo profundo nenhum.<\/p>\n<p>Espanta-me que tenha conquistado t\u00e3o vasta audi\u00eancia: creio que ter sido feito com os mesmos atores, acompanhando o crescimento de cada um, tenha sido um apelativo que atraiu muitos pela curiosidade. Mas a experi\u00eancia diz que esse tipo de filme n\u00e3o sobrevive muito nas grandes audi\u00eancias. Onde est\u00e3o as explos\u00f5es, as mortes, o grande prop\u00f3sito que redime a narrativa? O grande prop\u00f3sito simplesmente n\u00e3o est\u00e1 l\u00e1. E, sinceramente, nunca esteve.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei quem criou essa hist\u00f3ria de sentido da vida. Papo chato, coisa insossa. Nossa cultura tem uma tara por sentido: qual foi o sentido dessa situa\u00e7\u00e3o, qual foi o objetivo dessa e daquela a\u00e7\u00e3o? Salom\u00e3o, como o homem cansado e melanc\u00f3lico que era, tem uma resposta muita boa pra isso: \u201c\u00e9 tudo correr atr\u00e1s do vento\u201d. Diria que essa hist\u00f3ria toda \u00e9 bobagem, besteira ficar querendo fechamento, moral da hist\u00f3ria. \u00c9 tudo vaidade. Coisa boa mesmo \u00e9 olhar os l\u00edrios, \u00e9 saber que h\u00e1 tempo pra tudo, e que tudo precisa ser desfrutado, o bem e o mal. Desfrutado, vivido, experienciado. N\u00e3o adianta fugir, encontrar subterf\u00fagios, a vida n\u00e3o \u00e9 facultativa. Mas, acima de tudo, \u00e9 preciso olhar os l\u00edrios.<\/p>\n<p>Assim disse Jesus, no auge de seu minist\u00e9rio. O mesmo Jesus do qual n\u00e3o sabemos nada antes de seu minist\u00e9rio, que desfrutou quase trinta anos como um an\u00f4nimo na regi\u00e3o da Galileia. Esse Jesus que era carpinteiro, que acordava todo dia cedo para fazer suas ora\u00e7\u00f5es, tomar caf\u00e9 da manh\u00e3, trabalhar, passear pela cidade, ir \u00e0 sinagoga aos s\u00e1bados. \u00c9 desse Jesus que n\u00e3o sabemos, mas que precisamos tanto ter em mente. O cotidiano \u00e9 t\u00e3o sagrado quanto o milagre, o cotidiano \u00e9 ressurei\u00e7\u00e3o, assim como a P\u00e1scoa. A quest\u00e3o que nos fica \u00e9: o que fazer com esses trinta anos de Jesus, com nossos tantos anos de enfado e cansa\u00e7o?<\/p>\n<p>Importa que olhemos os l\u00edrios, lembra Salom\u00e3o, Jesus e Mason. Os l\u00edrios n\u00e3o se importam com seu prop\u00f3sito de vida, eles reluzem ao sol e envergam com o vento, mas amanh\u00e3 s\u00e3o jogados na fornalha. Importa que nos lembremos da simplicidade das pombas e da ast\u00facia das serpentes, pois os tempos s\u00e3o maus. Importa olhar os olhos de quem te v\u00ea, tocar as m\u00e3os que lhe s\u00e3o estendidas, abra\u00e7ar aqueles que nos pedem abra\u00e7o. Pois eles, como n\u00f3s, morrem e matam.<\/p>\n<p>A vida carrega essas pequenas mortes que cometemos, assim como as vidas que reerguemos. O ciclo natural de vida e morte se reproduz em cada microcosmo em que habitamos. O movimento da ressurei\u00e7\u00e3o interrompe o ciclo e nos ensina a interromp\u00ea-lo; mas \u00e9 inevit\u00e1vel, carregamos o peso da morte em nossas costas, como j\u00e1 dizia Paulo em uma passagem de profundo realismo e sinceridade em Romanos 7. Mas gra\u00e7as a Deus por Cristo Jesus, que nos deu o dom da ressurei\u00e7\u00e3o e nos ensina, com miseric\u00f3rdia e amor, a sermos ressurei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As fissuras s\u00e3o parte da vida, s\u00e3o parte de n\u00f3s, as que ocasionamos e das quais somos feitos. Pura fragilidade. Nos resta a comunidade dos homens e mulheres igualmente fr\u00e1geis, procurando os l\u00edrios, perdoando e sendo perdoados, amando e sendo amados. Jesus, aquele que nos ajuda a limpar as feridas mostrando as suas, \u00e9 quem nos ensina o caminho dos l\u00edrios.<\/p>\n<p>\u201cTalvez eu tenha quebrado alguma promessa que eu nunca quis guardar, talvez eu dissera algumas coisas que eu n\u00e3o devia ter dito. Mas essa n\u00e3o ser\u00e1 a \u00faltima vez&#8230;\u201d, j\u00e1 dizia uma can\u00e7\u00e3o permeada pelas mem\u00f3rias do v\u00edcio, viol\u00eancia e dor.<\/p>\n<p>Lembro-me de um amigo que, ap\u00f3s uma reuni\u00e3o regada por egos, no trabalho, acerca de um aumento proporcional \u00e0 forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, sentou no sof\u00e1 com desinteresse. Um de seus colegas de trabalho, um pastor evang\u00e9lico, abalado pela tumultuada reuni\u00e3o, perguntou: \u201cVoc\u00ea vai entregar a documenta\u00e7\u00e3o para conseguir o aumento?\u201d. Meu amigo olhou para os olhos do colega e disse: \u201cMeu caro, meu reino n\u00e3o \u00e9 desse mundo. Eu prefiro a simplicidade dos l\u00edrios\u201d. E que assim seja.<\/p>\n<p><strong>\u2022 Gabriel Brisola<\/strong> tem 24 anos, \u00e9 formado em jornalismo e fot\u00f3grafo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Gabriel Brisola H\u00e1 alguns anos atr\u00e1s participei de um debate entre jovens cineastas acerca de seus primeiros filmes. Como estavam todos em in\u00edcio de carreira, puderam conversar sobre as tend\u00eancias vistas em seus pares e colegas rec\u00e9m-formados. 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