{"id":3730,"date":"2014-12-08T14:42:20","date_gmt":"2014-12-08T17:42:20","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/?p=3730"},"modified":"2014-12-08T14:44:04","modified_gmt":"2014-12-08T17:44:04","slug":"interstelar-nao-ha-nada-de-novo-na-terra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/2014\/12\/08\/interstelar-nao-ha-nada-de-novo-na-terra\/","title":{"rendered":"Interstelar: n\u00e3o h\u00e1 nada de novo na terra"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2014\/12\/interstellar.jpg\" class=\"lightview\" data-lightview-group=\"group-3730\" data-lightview-options=\"skin: 'dark', controls: 'relative', padding: '10', shadow: { color: '#000000', opacity: 0.08, blur: 3 }\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-3731\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2014\/12\/interstellar.jpg\" alt=\"interstellar\" width=\"350\" height=\"499\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2014\/12\/interstellar.jpg 500w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2014\/12\/interstellar-210x300.jpg 210w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2014\/12\/interstellar-105x150.jpg 105w\" sizes=\"auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px\" \/><\/a><\/p>\n<p>\u201cInterstelar\u201d \u00e9 a novidade do momento. N\u00e3o preciso citar cifras ou outros dados, \u00e9 s\u00f3 ouvir os corredores ou as vozes no Facebook e Twitter. O filme est\u00e1 sendo muito bem divulgado pela m\u00eddia e pelos pr\u00f3prios espectadores. E merece: pelos seus m\u00e9ritos visuais, cient\u00edficos e cinematogr\u00e1ficos. Voc\u00ea mesmo deve ter visto a obra e ter pensado ser ele um dos melhores filmes que voc\u00ea j\u00e1 viu. Bom, vamos pensar um pouco acerca disso. Primeiro os m\u00e9ritos.<\/p>\n<p><strong>M\u00e9ritos<\/strong><br \/>\n\u00c9 um filme de primor visual. Assistir ao filme \u00e9 um prazer enorme, o espa\u00e7o na tela \u00e9 a conquista da imagina\u00e7\u00e3o do espectador, \u00e9 a fascina\u00e7\u00e3o que o mist\u00e9rio exerce sobre o homem. A tecnologia nos proporciona aumentar as fronteiras do conhecimento e daquilo que podemos ver\/imaginar. O cinema \u00e9 parte dessa m\u00e1quina que desafia nossas vistas, nos ajudar a visar outros mundos\/realidades. O espa\u00e7o \u00e9 um desses lugares que o cinema gosta de investir para agitar nossa percep\u00e7\u00e3o, investindo no fant\u00e1stico para nos cativar. Mas ao inv\u00e9s de explorar a liberdade proveniente de nosso desconhecimento, Christopher Nolan, o diretor, decide ater-se \u00e0s descobertas da f\u00edsica de da ci\u00eancia, tornando o filme ainda mais interessante nesse aspecto.<\/p>\n<p>Diversos cientistas elogiaram o filme por sua fidelidade cient\u00edfica, o que p\u00f4de abrir novas perspectivas narrativas. Por incluir elementos da ci\u00eancia na obra, o diretor limita sua liberdade criativa (como a inclus\u00e3o de explos\u00f5es no espa\u00e7o), mas Nolan fez um \u00f3timo trabalho em explorar os elementos e descobertas da f\u00edsica. Tal \u00e9 o exemplo da passagem de tempo, quando alguns tripulantes da nave passam algo perto de uma hora em um planeta, e quando voltam \u00e0 nave passaram-se 23 anos para o tripulante que l\u00e1 permaneceu. Em suma, Nolan entrou no universo com a credencial da ci\u00eancia, algo que pouqu\u00edssimos filmes, sen\u00e3o nenhum na hist\u00f3ria de Hollywood fez. Podemos pensar em 2001, de Stanley Kubrick. Mas parece-me que Kubrick n\u00e3o fez um filme sobre explora\u00e7\u00e3o espacial. O espa\u00e7o \u00e9 apenas uma \u201cdesculpa\u201d para Kubrick desenvolver sua psicologia em personagens densos e multifacetados, ao passo que em \u201cInterstelar\u201d a explora\u00e7\u00e3o espacial \u00e9 um elemento piv\u00f4 para a narrativa.<\/p>\n<p>O primor visual, aliado \u00e0 representa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m visual e narrativa da ci\u00eancia, \u00e9 uma f\u00f3rmula muito inteligente. O presente que habitamos nos permite tais incurs\u00f5es. Seria impens\u00e1vel \u201cInterstelar\u201d ser filmado nos anos 60 ou 70 e ter a mesma intensidade que hoje. Para resumir, a analogia \u00e9 pr\u00f3xima do cinema 3D: os efeitos nos fascinam, nos hipnotizam, especialmente quando se tratando de realidades que desconhecemos. \u201cAvatar\u201d, de James Cameron, partiu desse princ\u00edpio e, j\u00e1 antecipando meu argumento, seu maior trunfo foi ao mesmo tempo sua condena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Soma-se ao primor visual uma narrativa intrincada, com reviravoltas e mist\u00e9rios intrigantes (a praga que assola a terra), teorias sob as quais nos debru\u00e7amos horas para decifrar e que norteiam o roteiro. Algu\u00e9m aqui lembra-se de \u201cA origem\u201d? Christopher Nolan fez a li\u00e7\u00e3o de casa e adora aplicar a f\u00f3rmula de maneira a nos iludir com a impress\u00e3o de novidade.<\/p>\n<p><strong>Superficialidade<\/strong><br \/>\nO espet\u00e1culo, por\u00e9m, \u00e9 raso. Perdoem-me, mas \u00e9 preciso dizer que \u00e9 fraco e superficial. Com isso n\u00e3o quero dizer que n\u00e3o gostei do filme nem me senti enfeiti\u00e7ado pelas notas lindas de Hans Zimmer; muito pelo contr\u00e1rio, o filme \u00e9 feliz em saber conduzir o espectador. A destina\u00e7\u00e3o final, apesar das promessas, \u00e9 o mesmo lugar de sempre. Nolan fez um filme com um personagem principal que desafia o mundo e a vida com suas pr\u00f3prias for\u00e7as, sai do lugar de obscuridade e vai para a gl\u00f3ria sem esfor\u00e7o nem terr\u00edveis perdas sentidas. Ele abandona sua filha como que sem conflito algum ou, como sugere a mitologia norte americana, como o her\u00f3i que supera seu mar de sentimentos e emo\u00e7\u00f5es em fun\u00e7\u00e3o da miss\u00e3o que lhe \u00e9 proposta, vencendo suas dores como um her\u00f3i da raz\u00e3o que domina totalmente a vida.<\/p>\n<p>Deixa o filho mais velho agindo de maneira t\u00edpica: \u201cVoc\u00ea, filho homem, \u00e9 forte, voc\u00ea entende a minha partida\u201d. O filme quase sabota sua pr\u00f3pria l\u00f3gica na cena em que os protagonistas assistem a 23 anos de grava\u00e7\u00f5es e veem a vida que perderam enquanto estavam em miss\u00e3o. Ainda assim, essa p\u00e9rola de cena \u00e9 logo esquecida e o filme volta \u00e0 mesma toada.<\/p>\n<p>Ele vence a vida e o universo com a atitude triunfante, contrariando m\u00e1quinas e emo\u00e7\u00f5es e, mesmo os desafios que o provam equivocado, s\u00f3 servem para prov\u00e1-lo como correto no final dos conflitos, como bem exemplifica a resolu\u00e7\u00e3o da narrativa. Sua parceira de viagem \u00e9 mais uma mulher que serve apenas de suporte para sua ascens\u00e3o na hist\u00f3ria e, apesar de muit\u00edssimo mais preparada que ele, j\u00e1 que o protagonista vivia h\u00e1 anos sem pilotar e sem exercer a profiss\u00e3o de engenheiro, \u00e9 ele quem a conduz e a ensina a encarar de maneira correta a miss\u00e3o.<\/p>\n<p>Prefigurando e perpetuando a velha hist\u00f3ria da ind\u00fastria do cinema: \u201cRaz\u00e3o <em>versus<\/em> Emo\u00e7\u00e3o\u201d, sendo que a vers\u00e3o contempor\u00e2nea do her\u00f3i, majoritariamente homem e branco, \u00e9 raz\u00e3o salpicada de emo\u00e7\u00e3o. Nos anos 40 e 50 o homem de fato desprezava a for\u00e7a da emo\u00e7\u00e3o, encarnada na mulher, corria atr\u00e1s de seus objetivos resolvendo os conflitos da narrativa, e voltava \u00e0 mulher como trof\u00e9u de suas conquistas. Hoje, essa configura\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel, de tal forma que \u00e9 preciso temper\u00e1-la para que as coisas continuem a ser exatamente como eram.<\/p>\n<p>Cabe aqui um par\u00eanteses. \u00c9 certo que o mote do filme, a famosa, cansativa e j\u00e1 batida \u201cfor\u00e7a do amor\u201d \u00e9 quem vence. Mesmo assim, tal conceito abstrato \u00e9 minorado na narrativa, n\u00e3o exercendo real mudan\u00e7a nem conflito profundo no personagem principal. Ao final, entendemos que passando por cima de todos os afetos e conflitos internos, foi preciso uma atitude racional e fria para salvar a equipe, mesmo que balizada pelo amor. O amor \u00e9 ferramenta, pretexto para continuarmos a fazer\/ser quem sempre somos. N\u00e3o h\u00e1 mudan\u00e7a afinal, o amor \u00e9 s\u00f3 mais uma raz\u00e3o para justificarmos nossas mesmas atitudes e posi\u00e7\u00f5es. Algu\u00e9m aqui pensou nos conflitos contempor\u00e2neos em que os Estados Unidos envolveram-se nos \u00faltimos 20 anos?<\/p>\n<p>Os personagens s\u00e3o fracos e muito, muito superficiais. A narrativa, apesar das teorias intrincadas, \u00e9 batida e incrivelmente simplista. O esp\u00edrito do filme \u00e9 o mesmo que o de 40 anos atr\u00e1s em Hollywood. Talvez \u201cInterstelar\u201d seja um triunfo visual, cient\u00edfico. Mas \u00e9 a mesma hist\u00f3ria de sempre, a mesma f\u00f3rmula que nos atrai.<\/p>\n<p>O que mais me intriga \u00e9 o sucesso de tais f\u00f3rmulas arrojadas e, ao mesmo tempo, simplistas. Somos fascinados pelas luzes, pelas explica\u00e7\u00f5es que nos fascinam, pelas novidades, pelo \u00faltimo livro de tal autor com Phd em alguma universidade americana de prest\u00edgio, prometendo descontruir as filosofias contempor\u00e2neas e os desvios da igreja moderna. Queremos sempre uma luz que ilumine todas as \u00e1reas da vida de maneira uniforme e poderosa, de tal forma que possamos entend\u00ea-la e subjugar o que se coloca em nossa frente: dominar, reduzir a realidade \u00e0s nossas ideias. N\u00f3s adoramos \u201cdeuses de palavras\u201d, adornamos Deus de ideias e conceitos que o fazem rir. Amamos coisas explic\u00e1veis, domin\u00e1veis e facilmente rotuladas.<\/p>\n<p>O que me estarrece \u00e9 a manuten\u00e7\u00e3o desses \u00eddolos em ambos os ambientes tradicional e pentecostal, a vontade de permanecer seguro e protegido por ideias ditas corretas, verdadeiras, puras e leg\u00edtimas. Substitu\u00edmos assim a complexidade e o perigo da vida pelos \u00eddolos. O que seria de Jac\u00f3, rebatizado como o que luta com Deus, se tivesse se apegado ao seu pr\u00f3prio \u00eddolo de certeza?<\/p>\n<p>\u00cddolos que nos escravizam, que nos fazem servos de sua luz e desejosos de suas respostas. Paulo advertiu contra tais \u00eddolos, dizendo, como na carta aos G\u00e1latas, que todo aquele que se submete a tais \u00eddolos de palavras desprezam a obra de Cristo. Pois o que parecia justi\u00e7a e verdade, no fundo era a mesma escravid\u00e3o na qual os judaizantes desejavam manter os gentios rec\u00e9m-convertidos. A circuncis\u00e3o, e a consequente viv\u00eancia debaixo da Lei, era uma seguran\u00e7a fenomenal, a certeza de pertencimento ao povo de Deus. Certeza, pertencimento, seguran\u00e7a: o que mais o homem deseja? Reduzir a confian\u00e7a de uma caminhada audaciosa por uma marca de certeza. Pura escravid\u00e3o travestida de novidade, uma bel\u00edssima destrui\u00e7\u00e3o em potencial.<\/p>\n<p>O Nazareno, ao contr\u00e1rio, era um imprevis\u00edvel que n\u00e3o tinha onde recostar sua cabe\u00e7a. Para Nicodemus &#8212; e para n\u00f3s &#8212; Ele continua sendo um mist\u00e9rio que deve ser seguido, pois nos conquista afetiva, racional e espiritualmente. Ele diz palavras que entendemos em princ\u00edpio, mas que logo ap\u00f3s se transformam em mist\u00e9rios insond\u00e1veis. Suas palavras s\u00e3o seguran\u00e7a e abrigo, mas ainda est\u00e3o nEle, e n\u00e3o podem ser possessas por ningu\u00e9m. Ele continua um mist\u00e9rio profundo, e n\u00f3s, um complexo indecifr\u00e1vel, fr\u00e1gil como os vasos de barro, valiosos como o tesouro que carregamos. E para o paradoxo da vida, a \u00fanica resposta \u00e9 a vida, nada a mais.<\/p>\n<p><strong><strong><br \/>\n&#8212; Gabriel Brisola <\/strong><\/strong>tem 24 anos, \u00e9 formado em jornalismo e fot\u00f3grafo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cInterstelar\u201d \u00e9 a novidade do momento. N\u00e3o preciso citar cifras ou outros dados, \u00e9 s\u00f3 ouvir os corredores ou as vozes no Facebook e Twitter. O filme est\u00e1 sendo muito bem divulgado pela m\u00eddia e pelos pr\u00f3prios espectadores. 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