{"id":3553,"date":"2014-08-29T10:31:16","date_gmt":"2014-08-29T13:31:16","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/?p=3553"},"modified":"2014-08-29T11:20:01","modified_gmt":"2014-08-29T14:20:01","slug":"amantes-eternos-ou-a-permanencia-ou-persistencia-das-coisas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/2014\/08\/29\/amantes-eternos-ou-a-permanencia-ou-persistencia-das-coisas\/","title":{"rendered":"\u201cAmantes Eternos\u201d ou a perman\u00eancia (ou persist\u00eancia) das coisas"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2014\/08\/UltJovem_29_08_14_amantes_eternos.jpg\" class=\"lightview\" data-lightview-group=\"group-3553\" data-lightview-options=\"skin: 'dark', controls: 'relative', padding: '10', shadow: { color: '#000000', opacity: 0.08, blur: 3 }\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright  wp-image-3554\" alt=\"UltJovem_29_08_14_amantes_eternos\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2014\/08\/UltJovem_29_08_14_amantes_eternos.jpg\" width=\"355\" height=\"482\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2014\/08\/UltJovem_29_08_14_amantes_eternos.jpg 507w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2014\/08\/UltJovem_29_08_14_amantes_eternos-220x300.jpg 220w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2014\/08\/UltJovem_29_08_14_amantes_eternos-110x150.jpg 110w\" sizes=\"auto, (max-width: 355px) 100vw, 355px\" \/><\/a><em>Por Gabriel Brisola<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">O \u00faltimo filme de Jim Jarmusch \u00e9 uma grata surpresa. Talvez uma das maneiras de entender melhor \u201cAmantes eternos\u201d seja fazendo uma arqueologia do diretor e de suas influ\u00eancias.<\/span><\/p>\n<p>Jarmusch \u00e9 obcecado pela mesma ideia\/tem\u00e1tica h\u00e1 tr\u00eas d\u00e9cadas. Parece estranho, mas \u00e9 verdade: as ideias nos habitam, mais que n\u00f3s as habitamos, e elas duram muito mais tempo que esperamos. Foi assistente de Wim Wenders (Asas do Desejo, Paris,Texas), Nicholas Ray (Juventude Transviada, Johnny Guitar) e dirigiu, durante sua carreira, uma lista impressionante de atores e m\u00fasicos, todos com caracter\u00edsticas fortes em comum. Uma lista breve: Johnny Depp, Tom Waits, Bill Murray, Roberto Benigni, Steve Buscemi, Iggy Pop, Screamin\u2019 Jay Hawkins, John Lurie, Gena Rowlands (mulher de John Cassavetes, o pai do cinema independente americano), Winona Ryder, Jack White, entre outros, mais, ou menos, conhecidos.<\/p>\n<p>Se nenhum nome dessa lista faz algum sentido, basta voc\u00ea saber que todos esses relacionam-se com o cinema (quase) independente. Quase, pois Jarmusch migrou aos poucos para o mainstream. Nasceu no independente, leg\u00edtimo independente, e migrou, economicamente e (o que \u00e9 mais significativo) em termos est\u00e9ticos, para o mainstream. \u00c9 dif\u00edcil enquadr\u00e1-lo como cineasta independente, cabendo talvez chama-lo de um cineasta autoral, separando-o de Hollywood. Talvez o que o enquadre em um \u201coutro\u201d cinema seja a escolha por personagens e hist\u00f3rias fora do escopo, da ordem social. Jarmusch conta hist\u00f3rias de gente marginal, na sociedade, na alma, no corpo&#8230;<\/p>\n<p>Seus filmes versam sobre o universo marginal. \u00c9 l\u00e1 que, emprestando de Kerouac, est\u00e3o seus vagabundos iluminados. (Talvez um bom modo de entender melhor Jarmusch seja ouvir Tom Waits, figura recorrente em seus filmes&#8230;)<\/p>\n<p>Ap\u00f3s essa introdu\u00e7\u00e3o um pouco longa (perdoem-me), creio podermos abordar o filme de modo adequado. \u201cAmantes Eternos\u201d \u00e9 a tradu\u00e7\u00e3o meia boca de \u201cOnly Lovers Left Alive\u201d, algo como \u201cOs \u00fanicos amantes vivos\u201d. Trata-se da hist\u00f3ria de Adam e Eve, um casal de vampiros casado h\u00e1 s\u00e9culos, literalmente. Ele vive em Detroit, em um bairro abandonado, em uma casa meio abandonada, em clausura, compondo suas can\u00e7\u00f5es e colecionando instrumentos antigos. Ela em T\u00e2nger, no Marrocos, em um bairro aparentemente perif\u00e9rico e longe do centro.<\/p>\n<p>Adam \u00e9 \u201cherdeiro\u201d da tradi\u00e7\u00e3o dos poetas \u201cmalditos\u201d, como Byron e Baudelaire e durante os s\u00e9culos foi encontrando resson\u00e2ncias em diversos artistas. Em uma cena simb\u00f3lica, podemos identificar em sua parede retratos como o de Nicholas Ray, Jack White, Tom Waits, William Blake, Oscar Wilde, Emily Dickinson, Bach, Rimbaud, Poe&#8230; Adam despreza os humanos (chama-os de zumbis) por temerem a imagina\u00e7\u00e3o e por enredarem-se em caminhos que os distraem da arte e da beleza (e do amor, da paix\u00e3o&#8230;). Em uma cena paradigm\u00e1tica, Adam olha para uma instala\u00e7\u00e3o el\u00e9trica na parede, cheia de fios e conex\u00f5es, e reclama da estupidez dos homens ao complicar aquilo que \u00e9 simples. Apesar de compor m\u00fasica mesclando elementos cl\u00e1ssicos e com um tom meio p\u00f3s punk, anda deprimido pelo estado do mundo e das pessoas. (Tamb\u00e9m importante \u00e9 a cena em que ele mostra a Eve a casa em que Jack White, ex-vocalista do The White Stripes, cresceu, o s\u00e9timo irm\u00e3o de uma fam\u00edlia pobre.) \u00c9 um ser que despreza as prioridades mundanas, apesar de ter conseguido assimilar o presente de diversas maneiras, e assim isola-se, considerando at\u00e9 o suic\u00eddio.<\/p>\n<p>Eve, por sua vez, \u00e9 uma vampira mais branda, apesar de tamb\u00e9m rejeitar a ordem das coisas. \u00c9 versada em diversas l\u00ednguas e profunda conhecedora da literatura mundial em todas as \u00e9pocas. A diferen\u00e7a entre os dois \u00e9 clara: Eve utiliza um iphone para conversar com o marido, enquanto Adam utiliza um telefone dos anos 60 e uma televis\u00e3o de tubo conectada ao seu laptop antigo. Enquanto Adam veste um roup\u00e3o de mais de um s\u00e9culo, Eve veste-se de modo adequado aos nossos tempos. Ao saber que Adam n\u00e3o est\u00e1 bem, ela decide ir visit\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Algo os une de modo irremedi\u00e1vel, ambos se amam de maneira perp\u00e9tua e apaixonada, sendo imposs\u00edvel estarem separados pela dist\u00e2ncia. A imagem \u00e9 interessante: vampiros s\u00e3o imortais, e o casal mant\u00e9m a rela\u00e7\u00e3o h\u00e1 s\u00e9culos, um necessitando do outro, vivendo como um. Ambos vivendo e amando-se fora das regras e das demandas do mundo. Os \u00fanicos amantes na terra, como o t\u00edtulo sugere.<\/p>\n<p>Mas o embate \u00e9 eminente, Adam est\u00e1 \u00e0 beira do desespero e precisa achar outro modo de viver, de manter o amor por Eve e continuar a levantar-se quando o sol se p\u00f5e. Precisa encontrar outra maneira de encontrar m\u00e1gica no mundo, j\u00e1 que os homens abandonaram a paix\u00e3o e a imagina\u00e7\u00e3o. E contra os \u00edmpetos suicidas de Adam, Eve vem lhe mostrar que, apesar das mudan\u00e7as, as coisas que realmente importantes persistem, a paix\u00e3o, o amor, a originalidade, a arte: essas coisas n\u00e3o morrem, jamais. As ideias persistem e se renovam, n\u00f3s que desistimos de procura-las, julgando-as mortas. Como Eve diz a Adam: \u201cVoc\u00ea sempre coloca a culpa de seus problemas nos homens\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 quase um filme autobiogr\u00e1fico, em certo sentido. Jarmusch \u00e9 conhecido por n\u00e3o ter celular, e-mail, por escrever seus roteiros a m\u00e3o e por rodar todos seus filmes em pel\u00edcula. Esse \u00e9 seu primeiro filme em formato digital, acerca de um ser deprimido e enfatuado dos modos da sociedade e, no decorrer da hist\u00f3ria, mostra a jornada de amor entre Adam e Eve em busca das coisas que persistem.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">As coisas se renovam, reaparecem, n\u00f3s teimamos em permanecer no mesmo lugar. N\u00e3o sei se Paulo entrevia a real dimens\u00e3o do problema quando recomendou aos crentes de Roma que renovassem seu entendimento para que entendessem a perfeita e agrad\u00e1vel vontade de Deus (Rom 12:2).<\/span><\/p>\n<p>Talvez exista, sim, um mist\u00e9rio de dif\u00edcil compreens\u00e3o: \u00e9 no fundo que encontra-se a sa\u00edda, \u00e9 nas ru\u00ednas que encontra-se a nova vida. A l\u00f3gica da ressurei\u00e7\u00e3o atua no mundo de modos impercept\u00edveis.<\/p>\n<p>Certa vez pediram a Neil Gaiman para que resumisse a hist\u00f3ria de Sandman (esse fica pra outra hora), uma de suas publica\u00e7\u00f5es mais famosas, em poucas palavras. Depois de pensar bem, ele disse: \u201cO Mestre dos Sonhos aprende que uma pessoa deve mudar ou morrer, e toma sua decis\u00e3o\u201d. Mudar ou morrer. Talvez seja preciso mudar para continuar a ser o mesmo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">\u2022<\/span><b style=\"font-size: 13px;\">\u00a0<strong>Gabriel Brisola<\/strong><\/b><span style=\"font-size: 13px;\">\u00a0tem 24 anos, \u00e9 formado em jornalismo e fot\u00f3grafo.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Gabriel Brisola O \u00faltimo filme de Jim Jarmusch \u00e9 uma grata surpresa. Talvez uma das maneiras de entender melhor \u201cAmantes eternos\u201d seja fazendo uma arqueologia do diretor e de suas influ\u00eancias. Jarmusch \u00e9 obcecado pela mesma ideia\/tem\u00e1tica h\u00e1 tr\u00eas d\u00e9cadas. Parece estranho, mas \u00e9 verdade: as ideias nos habitam, mais que n\u00f3s as habitamos, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":19,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[10182],"tags":[],"class_list":["post-3553","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-boto-fe"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3553","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/wp-json\/wp\/v2\/users\/19"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3553"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3553\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3556,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3553\/revisions\/3556"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3553"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3553"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3553"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}