{"id":3441,"date":"2014-07-14T13:42:34","date_gmt":"2014-07-14T16:42:34","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/?p=3441"},"modified":"2014-07-14T13:53:57","modified_gmt":"2014-07-14T16:53:57","slug":"cinema-a-grande-beleza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/2014\/07\/14\/cinema-a-grande-beleza\/","title":{"rendered":"Cinema: \u201cA grande beleza\u201d"},"content":{"rendered":"<p><i><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2014\/07\/UltJovem_14_07_14_Grande_beleza_Gabriel.jpg\" class=\"lightview\" data-lightview-group=\"group-3441\" data-lightview-options=\"skin: 'dark', controls: 'relative', padding: '10', shadow: { color: '#000000', opacity: 0.08, blur: 3 }\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-3442\" alt=\"UltJovem_14_07_14_Grande_beleza_Gabriel\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2014\/07\/UltJovem_14_07_14_Grande_beleza_Gabriel.jpg\" width=\"603\" height=\"322\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2014\/07\/UltJovem_14_07_14_Grande_beleza_Gabriel.jpg 603w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2014\/07\/UltJovem_14_07_14_Grande_beleza_Gabriel-300x160.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2014\/07\/UltJovem_14_07_14_Grande_beleza_Gabriel-150x80.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 603px) 100vw, 603px\" \/><\/a><\/i><\/p>\n<p><i>Por Gabriel Brisola<\/i><\/p>\n<p>Entrei na \u00faltima sess\u00e3o de cinema de uma quinta-feira, perto das onze horas da noite. O cal\u00e7ad\u00e3o apenas com os moradores de rua, as luzes amareladas dos postes. Era um cinema de rua, desses que n\u00e3o se acha mais. A sala com cheiro de mofo, as poltronas antigas e meio duras, uma meia d\u00fazia de gente perdida pra assistir um filme fora do circuito comercial num projetor sem foco e sem manuten\u00e7\u00e3o desde quando eu entrei na faculdade&#8230; Foi assim que eu assisti \u201cA grande beleza\u201d.<\/p>\n<p>Na juventude, enquanto seus amigos diziam ser a vagina o que mais gostavam na vida, Jep Gambardella dizia ser \u201co cheiro das casas dos velhos (&#8230;) Eu estava destinado \u00e0 sensibilidade\u201d. Ao fazer 65 anos, percebe que passou a vida mergulhado em c\u00edrculos intelectuais, festas, mulheres e apar\u00eancias, e que havia perdido o senso de beleza e maravilhamento. Sente-se cansado das coisas, vivendo a sombra de seu \u00fanico livro publico h\u00e1 40 anos, uma obra-prima da literatura italiana. N\u00e3o escreveu mais nada depois desse livro, apenas reportagens e entrevistas.<\/p>\n<p>Em narrativa epis\u00f3dica, o filme mostra Jep como aquele que v\u00ea, que busca olhar. As coisas se descortinam diante de seus olhos e o mist\u00e9rio do mundo come\u00e7a a tomar conta dele quando decide entrar em contato consigo mesmo. Observa as freiras e as crian\u00e7as na rua, chora com um desconhecido que foi marido de seu amor de juventude, anda pelas ruas de Roma sem rumo certo, come\u00e7a a namorar uma stripper de quase 50 anos, para o espanto e descren\u00e7a de seus amigos intelectuais, deixa-se levar por uma exposi\u00e7\u00e3o de fotos&#8230;<\/p>\n<p>Aos 65 anos, Jep decide viver e reencontrar-se consigo mesmo: talvez isso lhe d\u00ea raz\u00f5es, motivos para voltar a escrever, acordar, olhar para o teto de seu quarto e ver o mar (como ele de fato v\u00ea, no filme), reencontrar beleza. Beleza! Que palavra pequena para coisa t\u00e3o grande: ultrapassa os quesitos est\u00e9ticos, formais, morais. Beleza que visita os monumentos, beleza que visita os bord\u00e9is, os museus, as maldades. N\u00e3o obedece a regras, n\u00e3o tem morada fixa, n\u00e3o tem onde recostar a cabe\u00e7a. Beleza que surge com a desgra\u00e7a, que resiste \u00e0 dor, \u00e0 ordem, ao que \u00e9 por decreto dos homens, beleza marginal, resiliente. Que desgra\u00e7a o reto e enche de gra\u00e7a o torto. Mist\u00e9rio dos mist\u00e9rios: encontrar-se com a vida que pulsa nas ruas.<\/p>\n<p>Ao encontrar-se consigo mesmo, com o vazio e com as for\u00e7as que arrastavam Jep pela vida, ele depara-se n\u00e3o com o abandono, mas com o acolhimento de um mundo que \u00e9 pulsante de vida e gra\u00e7a. Olhar-se com desprendimento e perd\u00e3o \u00e9 olhar o mundo com leveza e amor, \u00e9 encontrar o que est\u00e1 escondido nos muros de concreto, escondido, mas sempre \u00e0 vista. \u201cEstamos todos \u00e0 beira do desespero, tudo que podemos fazer \u00e9 nos olhar no rosto, nos fazer companhia, contar uma piada \u00e0s vezes&#8230; Ou n\u00e3o?\u201d<\/p>\n<p>\u00c9 preciso aprender a ver as coisas. Renovar os olhos, a mente, o cora\u00e7\u00e3o para olhar os lampejos de beleza (novamente, uma palavra pequena) ao redor do entulho que se acumula ao nosso redor e em n\u00f3s mesmos. N\u00e3o se trata de aliena\u00e7\u00e3o, mas de alimentar a vida com arte, de olhar o mundo com os olhos da gra\u00e7a, do perd\u00e3o e do amor. Nascer, de novo.<\/p>\n<p>O filme acabou, a pel\u00edcula roda em falso no projetor. Na sala ainda escura, a luz branca enche a tela. Permane\u00e7o sentado na poltrona, minha alma em sil\u00eancio e rever\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cQuero assistir ao sol nascer<br \/>\nVer as \u00e1guas dos rios correr<br \/>\nOuvir os p\u00e1ssaros cantar<br \/>\nEu quero nascer<br \/>\nQuero viver\u201d<\/p>\n<p>(Cartola)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2022<b>\u00a0<strong>Gabriel Brisola<\/strong><\/b>\u00a0tem 24 anos, \u00e9 formado em jornalismo e fot\u00f3grafo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Gabriel Brisola Entrei na \u00faltima sess\u00e3o de cinema de uma quinta-feira, perto das onze horas da noite. O cal\u00e7ad\u00e3o apenas com os moradores de rua, as luzes amareladas dos postes. Era um cinema de rua, desses que n\u00e3o se acha mais. 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