{"id":3380,"date":"2014-06-09T09:31:45","date_gmt":"2014-06-09T12:31:45","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/?p=3380"},"modified":"2014-06-13T12:58:20","modified_gmt":"2014-06-13T15:58:20","slug":"cinema-praia-do-futuro-e-a-busca-pelo-outro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/2014\/06\/09\/cinema-praia-do-futuro-e-a-busca-pelo-outro\/","title":{"rendered":"Cinema: \u201cPraia do Futuro\u201d e a busca pelo outro"},"content":{"rendered":"<p>Por Gabriel Brisola<\/p>\n<p>\u201cPraia do futuro\u201d \u00e9 um filme que permite v\u00e1rias entradas. Como boa experi\u00eancia cinematogr\u00e1fica que \u00e9, nos abre portas, nos mostra caminhos diversos nos quais caminhar. Experi\u00eancias do tipo s\u00e3o raras, aprofundam nossa rela\u00e7\u00e3o com a realidade, nos fazem perceber novos lados de um real que \u00e9 ao mesmo tempo nosso e exterior a n\u00f3s. Talvez venha da\u00ed minha dificuldade em escrever sobre o filme, uma obra que me oferece tantos n\u00f3s, formando uma constela\u00e7\u00e3o de imagens que por sua vez me levam a outras e a sentimentos t\u00e3o bem guardados dentro do peito. Karim A\u00efnouz \u00e9, por essa e muitas outras raz\u00f5es, considerado o maior diretor brasileiro em atividade atualmente.<!--more--><\/p>\n<p>Dividido em tr\u00eas cap\u00edtulos, o filme conta a hist\u00f3ria de Donato, um salva-vidas, em sua rela\u00e7\u00e3o com um turista alem\u00e3o, quando o salva de um afogamento na praia do futuro, em Fortaleza. O turista, Konrad, acaba perdendo seu amigo nesse incidente. O filme segue com Donato indo para Berlim e, anos ap\u00f3s o ocorrido, seu irm\u00e3o mais novo segue a procura dele.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2014\/06\/UltJovem_09_06_14_Praia_futuro_cartaz.jpg\" class=\"lightview\" data-lightview-group=\"group-3380\" data-lightview-options=\"skin: 'dark', controls: 'relative', padding: '10', shadow: { color: '#000000', opacity: 0.08, blur: 3 }\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-3381\" alt=\"UltJovem_09_06_14_Praia_futuro_cartaz\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2014\/06\/UltJovem_09_06_14_Praia_futuro_cartaz.jpg\" width=\"297\" height=\"331\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2014\/06\/UltJovem_09_06_14_Praia_futuro_cartaz.jpg 297w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2014\/06\/UltJovem_09_06_14_Praia_futuro_cartaz-269x300.jpg 269w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2014\/06\/UltJovem_09_06_14_Praia_futuro_cartaz-134x150.jpg 134w\" sizes=\"auto, (max-width: 297px) 100vw, 297px\" \/><\/a>Creio que h\u00e1 n\u00facleos comuns no filme de Karim: seus personagens, em sua maioria, est\u00e3o em alguma fase de passagem e precisam passar por uma travessia para chegar ao outro lado, seja no sentido emocional e\/ou f\u00edsico. No caminho encontram o outro, no qual podem se apoiar, dividir, encontrar novas perspectivas. Ao serem abandonados, os personagens precisam abandonar o passado, o que n\u00e3o lhes \u00e9 mais \u00fatil, o que n\u00e3o faz mais sentido no momento.<\/p>\n<p>Donato e Konrad fazem esse movimento. O alem\u00e3o encontra no brasileiro apoio quando seu amigo morre afogado, for\u00e7a pra fazer a travessia. Posteriormente \u00e9 Konrad quem vai ser o apoio de Donato, quando este vai a Berlim. As mudan\u00e7as s\u00e3o bruscas, dolorosas: \u00e9 no olhar o outro, no ver-se com o outro e no outro que a travessia \u00e9 feita. Nunca sozinho, nunca isolado, o outro faz parte do mecanismo de movimento do ser. Em \u201cViajo porque preciso, volto porque te amo\u201d, o protagonista fotografa e conversa com prostitutas, numa tentativa de completar a travessia. N\u00e3o sei dar nome a isso, mas a verdade est\u00e1 posta: s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel conhecer-se no outro.<\/p>\n<p>Mas o passado assombra. O passado \u00e9 sempre atualizado, tal qual nossas voltas para a casa da inf\u00e2ncia. A travessia quase nunca \u00e9 feita sem percal\u00e7os, e em nossas tentativas de passagem h\u00e1 a marca indel\u00e9vel da debilidade e fraqueza humana. Donato some sem deixar vest\u00edgios. Vira um fantasma para a fam\u00edlia e agora fala alem\u00e3o. Seu irm\u00e3o, Ayrton, vai em busca dessa sombra, e \u00e9 confrontado com sua pr\u00f3pria travessia: a busca para entender o irm\u00e3o e seus motivos tamb\u00e9m \u00e9 uma busca por si. Donato e Ayrton s\u00e3o quase o mesmo: calejados, brigam para alargar os caminhos estreitos que a vida oferece. E no confronto de irm\u00e3os, existe apenas aquilo que n\u00e3o \u00e9 dito, que nunca foi dito, por estar enterrado fundo no peito, na dor, no confronto.<\/p>\n<p>A vida se encarrega de tornar expresso aquilo que n\u00e3o cabe em n\u00f3s, e n\u00e3o \u00e9 diferente para Donato e Ayrton. No embate h\u00e1 conhecimento, no outro h\u00e1 conhecimento, constru\u00e7\u00e3o, mesmo que doa, mesmo que sangre. Dizem por a\u00ed que a praia do futuro \u00e9 um lugar lindo, mas ao mesmo tempo suas \u00e1guas s\u00e3o muito perigosas.<\/p>\n<p>As entradas continuam, as possibilidades do filme n\u00e3o se esgotam t\u00e3o r\u00e1pido: \u00e9 um filme que nos eleva. Entrei por uma porta nesse texto e espero que quem assista entre por outras. Um \u00faltimo coment\u00e1rio: n\u00e3o citei em lugar algum a homossexualidade do casal retratado no filme. Antes de tudo, creio ser um filme sobre pessoas em suas buscas e travessias pela vida. Pessoas, gente de carne e osso, como eu e voc\u00ea. Espero que o carimbo \u201chomossexual\u201d n\u00e3o marque o filme de maneira negativa, como tenho visto acontecer.<\/p>\n<p>Entristece-me profundamente os crentes terem facilidade e at\u00e9 prazer em assistir Capit\u00e3o Nascimento torturar um morador de favela, mas condenar \u201cPraia do futuro\u201d por ter o mesmo ator em cenas de sexo com outro homem. Tal atitude e pensamento, que considero mesquinho, os privar\u00e3o de um dos melhores filmes do ano.<\/p>\n<p>Tendo dito essas coisas, considero os elementos levantados pelo filme como sendo profundamente relevantes para n\u00f3s, crist\u00e3os ou n\u00e3o. E por que n\u00e3o dizer que os elementos s\u00e3o, em si, profundamente crist\u00e3os?<\/p>\n<p>\u2022<b>\u00a0<strong>Gabriel Brisola<\/strong><\/b>\u00a0tem 24 anos, \u00e9 formado em jornalismo e fot\u00f3grafo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Nota da reda\u00e7\u00e3o:<\/strong><br \/>\nO texto acima \u00e9 um resenha sobre um filme e foca a discuss\u00e3o sobre as rela\u00e7\u00f5es humanas. O autor convidado n\u00e3o escreveu um texto sobre a quest\u00e3o da homossexualidade. Este n\u00e3o era seu foco. Vale informar que a Editora Ultimato \u00e9 contra a pr\u00e1tica da homossexualidade, mas n\u00e3o apoia a homofobia. Para saber a posi\u00e7\u00e3o da Ultimato sobre a homossexualidade, clique <a href=\"http:\/\/www.ultimato.com.br\/conteudo\/os-homossexuais-a-biblia-e-os-nervos-aflorados\" target=\"_blank\">aqui<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Gabriel Brisola \u201cPraia do futuro\u201d \u00e9 um filme que permite v\u00e1rias entradas. 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