{"id":3315,"date":"2014-04-25T11:03:29","date_gmt":"2014-04-25T14:03:29","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/?p=3315"},"modified":"2014-04-25T16:45:40","modified_gmt":"2014-04-25T19:45:40","slug":"o-filme-ela-e-nossos-corpos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/2014\/04\/25\/o-filme-ela-e-nossos-corpos\/","title":{"rendered":"O filme \u201cEla\u201d e nossos corpos"},"content":{"rendered":"<p>Por Gabriel Brisola<\/p>\n<div id=\"attachment_3316\" style=\"width: 275px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2014\/04\/UltJovem_25_04_14_Ela_cartaz_nacional.jpg\" class=\"lightview\" data-lightview-group=\"group-3315\" data-lightview-options=\"skin: 'dark', controls: 'relative', padding: '10', shadow: { color: '#000000', opacity: 0.08, blur: 3 }\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-3316\" class=\"size-full wp-image-3316\" alt=\"Cartaz do filme &quot;Ela&quot;\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2014\/04\/UltJovem_25_04_14_Ela_cartaz_nacional.jpg\" width=\"265\" height=\"391\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2014\/04\/UltJovem_25_04_14_Ela_cartaz_nacional.jpg 265w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2014\/04\/UltJovem_25_04_14_Ela_cartaz_nacional-203x300.jpg 203w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2014\/04\/UltJovem_25_04_14_Ela_cartaz_nacional-101x150.jpg 101w\" sizes=\"auto, (max-width: 265px) 100vw, 265px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3316\" class=\"wp-caption-text\">Cartaz do filme &#8220;Ela&#8221;<\/p><\/div>\n<p>\u201cEla\u201d \u00e9 um filme curioso. Levou o Oscar de melhor roteiro e angariou algumas dezenas de pr\u00eamios em festivais. Est\u00e1 rodando em alguns cinemas no Brasil por essas semanas. Apesar de ainda estar no espectro hollywoodiano de narrativa &#8211; o desfecho n\u00e3o mente &#8211; e no que parece ser a absor\u00e7\u00e3o do \u201cindie\u201d pela ind\u00fastria &#8211; os personagens n\u00e3o mentem -, \u201cEla\u201c levanta quest\u00f5es fabulosas. A\u00ed est\u00e1 o trunfo do filme: ele \u00e9 mais feliz em levantar quest\u00f5es do que resolv\u00ea-las, como aparentemente faz. Minha fun\u00e7\u00e3o aqui n\u00e3o \u00e9 fazer uma cr\u00edtica do trabalho, mas sim pensar as quest\u00f5es suscitadas e ver como elas atingem nossa f\u00e9. Mas antes, um resumo:<\/p>\n<p>Theodore trabalha em uma empresa escrevendo cartas para pessoas que n\u00e3o t\u00eam tempo h\u00e1bil: ele escreve para a esposa enquanto o marido est\u00e1 em uma viagem de neg\u00f3cios, para o anivers\u00e1rio de um ente querido&#8230; Ele n\u00e3o transcreve cartas, ele as escreve como se fosse\u00a0<span style=\"line-height: 1.5em;\">mesmo\u00a0<\/span>o remetente que o contratou para tal. Em uma rotina solit\u00e1ria, ele se v\u00ea pensando na ex-mulher e em como agora est\u00e3o em processo de div\u00f3rcio. Ele sente falta da ex e parece n\u00e3o lidar muito bem com o fato. Evita encontros com os amigos e se v\u00ea sozinho em seu apartamento jogando v\u00eddeo game ou \u00e0 noite fazendo sexo a dist\u00e2ncia por um dispositivo de \u00e1udio com alguma desconhecida aparentemente solit\u00e1ria.<\/p>\n<p>\u00c9 a\u00ed que uma novidade aparece: ele compra um sistema de intelig\u00eancia artificial, \u201cmais que um sistema, uma consci\u00eancia\u201d. E assim ele come\u00e7a uma rela\u00e7\u00e3o com Samantha, um sistema operacional altamente desenvolvido que, como o comercial diz, \u00e9 uma consci\u00eancia. Pensa, processa as situa\u00e7\u00f5es, os dados e os sentimentos. E, como era de se esperar, Theodore come\u00e7a um relacionamento amoroso com Samantha, que aparentemente preenche todas as suas necessidades e sonhos de mulher.<\/p>\n<p>Samantha sente e responde aos sentimentos suscitados pelo protagonista e por ela mesma. A narrativa se desenrola sob essa perspectiva: uma rela\u00e7\u00e3o com um ser completo, mas desprovido de corpo.<\/p>\n<p>\u00c9 significativo que o p\u00f4ster do filme tenha como imagem Theodore. E \u00e9 significativo que a primeira rela\u00e7\u00e3o sexual do personagem com Samantha seja id\u00eantica \u00e0 rela\u00e7\u00e3o que ele manteve com outra mulher, por \u00e1udio. Creio que n\u00e3o estamos longe de nos relacionarmos com Samantha. Na verdade, n\u00f3s j\u00e1 nos relacionamos com ela.<!--more--><\/p>\n<p>Nossas conversas no Skype, por telefone, por Facebook, WhatsApp e etc, flertam com a ideia de que estamos conversando com n\u00f3s mesmos &#8211; a hip\u00f3tese do filme &#8211; ou com a ideia do outro em n\u00f3s. O outro \u00e9 sempre feito de uma proje\u00e7\u00e3o intensa e isso n\u00e3o \u00e9 novidade, mas talvez o modo como nos comunicamos tem potencializado essa proje\u00e7\u00e3o. Conhecer e se relacionar com o outro \u00e9 sempre um horizonte, nunca um lugar de chegada.\u00a0E parece que falar consigo mesmo vai continuar sendo a regra no futuro pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>Posso parecer pessimista, mas a promessa das redes em unir as pessoas nunca me soou uma embarca\u00e7\u00e3o muito segura. Creio n\u00e3o estar sendo nost\u00e1lgico nem sublinhando discursos conservadores. Os meios de comunica\u00e7\u00e3o realmente nos trouxeram coisas fabulosas &#8211; sou o primeiro a atestar -, mas n\u00e3o sou muito esperan\u00e7oso em rela\u00e7\u00e3o a certos aspectos.<\/p>\n<p>E aqui gostaria de apontar um outro horizonte para pensar a quest\u00e3o. \u00c9 relevante que nas Escrituras o corpo tenha um lugar importante. O \u201cverbo se fez carne\u201d para andar entre n\u00f3s, Cristo ressurgiu em corpo, o corpo \u00e9 habita\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo, Paulo ensinando que o sexo \u00e9 a uni\u00e3o de dois corpos, o corpo de Cristo na ceia, o pregador falando da decad\u00eancia do corpo na velhice em Eclesiastes&#8230; Mais que uma nega\u00e7\u00e3o do corpo, como nosso Cristianismo tem feito, a B\u00edblia aponta a import\u00e2ncia do mesmo.<\/p>\n<p>O corpo \u00e9 porta para o conhecimento e contato com o mundo e o outro. Existe um mist\u00e9rio no corpo, no entrar em contato com o mundo, as coisas e os outros, com e atrav\u00e9s do corpo. Quem j\u00e1 sentiu saudades, depress\u00e3o, euforia, amor, sabe exatamente onde a sensa\u00e7\u00e3o se encontra no corpo. E mais ainda, existe um mist\u00e9rio do qual os m\u00edsticos e santos falam: do corpo em contato com Deus.<\/p>\n<p>Talvez o corpo seja mesmo importante nas nossas rela\u00e7\u00f5es. Creio eu que sim. E talvez necessitemos de um novo pensamento ou um resgate do pensamento b\u00edblico em rela\u00e7\u00e3o ao corpo. N\u00e3o cabe mais pensar o corpo apenas como adjac\u00eancia, mas agora como uma esta\u00e7\u00e3o a partir da qual a vida orbita. Espero que possamos cumprir com essa responsabilidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2022<b>\u00a0<\/b><strong>Gabriel Brisola<\/strong>\u00a0tem 24 anos, \u00e9 formado em jornalismo e fot\u00f3grafo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Gabriel Brisola \u201cEla\u201d \u00e9 um filme curioso. Levou o Oscar de melhor roteiro e angariou algumas dezenas de pr\u00eamios em festivais. Est\u00e1 rodando em alguns cinemas no Brasil por essas semanas. 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