{"id":3236,"date":"2014-03-05T14:43:36","date_gmt":"2014-03-05T17:43:36","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/?p=3236"},"modified":"2014-03-05T15:01:01","modified_gmt":"2014-03-05T18:01:01","slug":"sobre-a-palavra-de-carl-theodor-dreyer-e-nos-homens-de-pouca-fe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/2014\/03\/05\/sobre-a-palavra-de-carl-theodor-dreyer-e-nos-homens-de-pouca-fe\/","title":{"rendered":"Sobre \u201cA Palavra\u201d, de Carl Theodor Dreyer, e n\u00f3s, homens de pouca f\u00e9"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2014\/03\/Ordet_filme.jpg\" class=\"lightview\" data-lightview-group=\"group-3236\" data-lightview-options=\"skin: 'dark', controls: 'relative', padding: '10', shadow: { color: '#000000', opacity: 0.08, blur: 3 }\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-3237\" alt=\"Ordet_filme\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2014\/03\/Ordet_filme.jpg\" width=\"236\" height=\"325\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2014\/03\/Ordet_filme.jpg 236w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2014\/03\/Ordet_filme-217x300.jpg 217w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2014\/03\/Ordet_filme-108x150.jpg 108w\" sizes=\"auto, (max-width: 236px) 100vw, 236px\" \/><\/a>Por Gabriel Brisola<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"center\">&#8220;Meu nome \u00e9 Jesus de Nazar\u00e9&#8221;, irrompe Johannes, o p\u00e1lido e l\u00e2nguido Johannes de olhos parados e fala carregada.<\/p>\n<p>O filme \u00e9 &#8220;A Palavra&#8221; (Ordet, no original) de 1955, dirigido por Carl Theodore Dreyer, um dos \u00edcones do cinema mundial. Assistir ao filme me trouxe grandes surpresas.<\/p>\n<p>\u201cJesus. Mas como voc\u00ea pode provar?\u201d, pergunta o pastor luterano. \u201cTu homem de f\u00e9, a quem pr\u00f3prio falta f\u00e9! As pessoas acreditam no Cristo morto, mas n\u00e3o no vivo. Elas acreditam nos meus milagres de dois mil anos atr\u00e1s, mas n\u00e3o acreditam em mim agora! Eu retornei para dar testemunho de meu Pai, que est\u00e1 nos c\u00e9us, e operar milagres.\u201d<\/p>\n<p>\u201cMilagres n\u00e3o acontecem mais\u201d, o pastor pontua. Johannes finaliza: \u201cAssim fala minha igreja na terra, essa igreja que me faltou, que me assassinou em meu pr\u00f3prio nome&#8230;\u201d. O pastor fica estarrecido. Como pode algu\u00e9m falar tais palavras em uma \u00e9poca como a nossa? A pergunta nada deve a Nicodemos.<\/p>\n<p>O irm\u00e3o mais velho entra na sala. O visitante, ainda em estado de choque, pergunta o que havia acontecido com Johannes. Havia ficado assim depois de estudar teologia, explica o irm\u00e3o. Fora algo que o havia abalado, um caso amoroso talvez? N\u00e3o, responde o irm\u00e3o mais velho, fora S\u00f8ren Kierkegaard.<!--more--><\/p>\n<p>Kierkegaard, o mal fadado te\u00f3logo dinamarqu\u00eas! Talvez voc\u00ea tenha ouvido falar de seu existencialismo, de suas crises emocionais, de seus questionamentos sem resposta. Foi ele quem me ensinou sobre f\u00e9. Alguns usam o termo para vender artigos religiosos sob a marca de um escudo, outros para efetuar atos de grande proveito monet\u00e1rio ou \u201catos prof\u00e9ticos\u201d. A f\u00e9 \u00e9 usada, mas nada \u00e9 t\u00e3o equivocado quanto usar a f\u00e9.<\/p>\n<p>Ter posse da f\u00e9 \u00e9 a coisa mais absurda que algu\u00e9m pode querer. Ela se recusa a ser usada. \u00c9 como \u00e1gua, que ao tentarmos pegar escorre pelos dedos. Mas \u00e9 fato que nossas igrejas, h\u00e1 tempos, tentam tornar a f\u00e9 artefato de explica\u00e7\u00e3o e manuseio. E \u00e9 triste que nossas denomina\u00e7\u00f5es tenham substitu\u00eddo a incerteza de Kierkegaard por modelos fechados de entendimento da f\u00e9 e de Deus.<\/p>\n<p>A f\u00e9, segundo a pr\u00f3pria B\u00edblia, foi o motor para que um pai levasse seu filho ao sacrif\u00edcio, em obedi\u00eancia a uma ordem de Deus. Um pai que em in\u00fameros momentos orou em afli\u00e7\u00e3o a um deus ainda desconhecido, pedindo pela vida de seu \u00fanico filho, ao qual fora feita a promessa de um povo mais numeroso que as estrelas no c\u00e9u. Um pai que subiu calado o monte, engolindo sua pr\u00f3pria dor, raiva e tristeza, ouvindo o filho perguntar qual seria o sacrif\u00edcio. Abra\u00e3o obedeceu \u00e0 ordem de maneira cega, passando por cima de multid\u00e3o de sentimentos e pensamentos. O sacrif\u00edcio seria suprido pelo pr\u00f3prio Deus. Abra\u00e3o, o pai da f\u00e9.<\/p>\n<p>Jeremias, mesmo tendo acusado Deus de engan\u00e1-lo e tra\u00ed-lo, levantava cedo todos os dias e ia \u00e0 porta da cidade, acusar o povo de ter abandonado o Deus de seus pais e ter esquecido a causa do \u00f3rf\u00e3o, da vi\u00fava e do estrangeiro. Jeremias foi jogado em po\u00e7os, preso, espancado e finalmente exilado. Pela f\u00e9, ele foi entregue ao abatedouro, dia ap\u00f3s dia, e exp\u00f4s-se ao rid\u00edculo no meio do povo. Jeremias, o profeta angustiado, viveu s\u00f3 e foi exilado por f\u00e9.<\/p>\n<p>Um grupo de figuras eclesi\u00e1sticas vai aben\u00e7oar manifestantes na linha de frente na Ucr\u00e2nia, um pastor decide largar os v\u00edcios do mercado religioso, um pai decide abandonar seus preconceitos e reconciliar-se com a filha que engravidou durante a adolesc\u00eancia, Martin Luther King, Gandhi, Dostoievski, Carl Theodor Dreyer&#8230; F\u00e9.<\/p>\n<p>Como diria um professor da faculdade, em que fomos nos meter? Entregar-se \u00e0 f\u00e9 \u00e9 precipitar-se em um abismo. Ela exige que nos precipitemos, de uma vez por todas. Em tempos de manuseio e engessamento, a f\u00e9, essa sim, \u00e9 muito perigosa para nossas vidas seguras e est\u00e1veis.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2022<strong> Gabriel Brisola<\/strong> tem 24 anos e \u00e9 formado em jornalismo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Gabriel Brisola &#8220;Meu nome \u00e9 Jesus de Nazar\u00e9&#8221;, irrompe Johannes, o p\u00e1lido e l\u00e2nguido Johannes de olhos parados e fala carregada. O filme \u00e9 &#8220;A Palavra&#8221; (Ordet, no original) de 1955, dirigido por Carl Theodore Dreyer, um dos \u00edcones do cinema mundial. Assistir ao filme me trouxe grandes surpresas. \u201cJesus. 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