{"id":2161,"date":"2012-10-08T09:23:14","date_gmt":"2012-10-08T12:23:14","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/?p=2161"},"modified":"2012-10-09T10:06:19","modified_gmt":"2012-10-09T13:06:19","slug":"vendo-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/2012\/10\/08\/vendo-deus\/","title":{"rendered":"Vendo Deus"},"content":{"rendered":"<p><em><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2012\/10\/vendo_Deus_img.jpg\" class=\"lightview\" data-lightview-group=\"group-2161\" data-lightview-options=\"skin: 'dark', controls: 'relative', padding: '10', shadow: { color: '#000000', opacity: 0.08, blur: 3 }\" data-lightview-title=\"vendo_Deus_img\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-2162\" title=\"vendo_Deus_img\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2012\/10\/vendo_Deus_img-300x300.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2012\/10\/vendo_Deus_img-300x300.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2012\/10\/vendo_Deus_img-150x150.jpg 150w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2012\/10\/vendo_Deus_img-80x80.jpg 80w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2012\/10\/vendo_Deus_img.jpg 320w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Por\u00a0Doroth de Assis<\/em><\/p>\n<blockquote><p><em>&#8220;Contudo explico, desentendo, procuro incansavelmente<\/em><br \/>\n<em>a ponta da meada de seda,<\/em><br \/>\n<em>o fundo da agulha de prata<\/em><br \/>\n<em>que borda a blusa de Deus<\/em><br \/>\n<em>que est\u00e1 no trono sentado<\/em><br \/>\n<em>com olhar compassivo e ardente cora\u00e7\u00e3o&#8221;<\/em><br \/>\n<strong><em>Ad\u00e9lia Prado<\/em><\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Era uma cinzenta manh\u00e3 de domingo. A chuva tamborilava insistente na janela. Dezenas de pingos brincavam de escorregar e ficavam num diz-que-diz sem parar. Em meio a todos os barulhos externos e internos, clamava silenciosamente para que Deus deixasse que eu ouvisse Sua voz. Mal sabia eu que o Le\u00e3o domesticado tinha mais em seus planos. Ele queria que eu o visse.<\/p>\n<p>E naquele dia, Ele era uma mulher da periferia. Seu olhar acidentalmente encontrou-se com o meu. Ela passou a m\u00e3o calejada pelo trabalho \u00e1rduo em seus cabelos emaranhados, rec\u00e9m-lavados com sab\u00e3o de coco, melhor que muito xampu de gringo, me diria mais tarde. Seu sorriso revelava for\u00e7a e supera\u00e7\u00e3o de sobra, embora nele faltassem alguns dentes. Decido que em poucas vezes vi uma mulher t\u00e3o bonita. Sua beleza transcendia todos os padr\u00f5es culturais. N\u00e3o pedia autoriza\u00e7\u00e3o para pulsar. Ela simplesmente existia, e n\u00e3o havia cirurgi\u00e3o pl\u00e1stico que pudesse retoc\u00e1-la.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Deus, naquele domingo, cal\u00e7ava chinelos de dedo e vestia bermuda e camiseta. Tomando um caf\u00e9 rec\u00e9m-coado, ela me contaria sua hist\u00f3ria. Marido fugira de casa por outra mulher, abandonando-a com seis filhos pequenos. Nesse meio tempo, ela fez de tudo. Perdeu dentes, olhos, costurou, lavou, fez doce, artesanato, faxina. Suas m\u00e3os se escalavraram, seus an\u00e9is se dispersaram, sua corrente de ouro pagou conta de farm\u00e1cia. Seus filhos estudaram, cresceram, casaram-se. E depois de onze anos, seu marido voltou pra casa. B\u00eabado.<\/p>\n<p>Embora ele tenha voltado, ela vive apenas das mem\u00f3rias dos tempos felizes. E aparentemente, elas s\u00e3o muitas. Ao menos, s\u00e3o suficientes para que ela diga que o ama e que ainda sente um friozinho na barriga antes de deitar-se ao seu lado. E diz tamb\u00e9m que Deus j\u00e1 havia realizado basicamente todos os seus sonhos. Abre a bolsa de couro gasto e me mostra fotos de seus netos. Bonitos, de olhos verdes. E um Deus que d\u00e1 netos de olhos verdes para uma senhora como ela n\u00e3o \u00e9 um Deus poderoso o suficiente para trazer seu amor de volta?<\/p>\n<p>Eu a abracei, como se abra\u00e7asse Deus. E senti a saudade que me secava e corro\u00eda calar-se. Estava esperando Deus, cavocando minha pele com as unhas, querendo um p\u00f4ster dele sob a minha cama. Achava que o encontraria quando fugisse com o sol para a casa em que ele se escondia ao findar seu expediente. N\u00e3o sabia que encontraria Deus naquele lugar t\u00e3o inesperado. Funguei meu nariz e me poupei de chorar, n\u00e3o s\u00f3 porque tentava ser forte. Na verdade, foi porque n\u00e3o queria deixar que nada lavasse o encanto que encheu meus olhos ao olhar nos olhos de Deus, que naquele momento era aquela mulher. Seus olhos escuros eram cansados, mas profundos. Seriam tristes, se no fundo deles n\u00e3o se visse um jardim. N\u00e3o daqui, mas jardim.<\/p>\n<p>____________________<\/p>\n<p>Doroth Nogueira de Assis tem 18 anos, \u00e9 de\u00a0Jundia\u00ed (SP), cursa Servi\u00e7o Social na UNIFESP e escreve no blog &#8220;<a href=\"http:\/\/crisalidarumoaprincesadorei.blogspot.com.br\/\" target=\"_blank\">Di\u00e1rio de uma Cris\u00e1lida<\/a>&#8220;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por\u00a0Doroth de Assis &#8220;Contudo explico, desentendo, procuro incansavelmente a ponta da meada de seda, o fundo da agulha de prata que borda a blusa de Deus que est\u00e1 no trono sentado com olhar compassivo e ardente cora\u00e7\u00e3o&#8221; Ad\u00e9lia Prado Era uma cinzenta manh\u00e3 de domingo. A chuva tamborilava insistente na janela. 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