{"id":1863,"date":"2012-07-16T09:14:29","date_gmt":"2012-07-16T12:14:29","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/?p=1863"},"modified":"2012-07-16T09:18:52","modified_gmt":"2012-07-16T12:18:52","slug":"prefiro-o-inferno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/2012\/07\/16\/prefiro-o-inferno\/","title":{"rendered":"Prefiro o &#8220;inferno&#8221;&#8230;"},"content":{"rendered":"<p><em><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2012\/07\/186794_the_end_.jpg\" class=\"lightview\" data-lightview-group=\"group-1863\" data-lightview-options=\"skin: 'dark', controls: 'relative', padding: '10', shadow: { color: '#000000', opacity: 0.08, blur: 3 }\" data-lightview-title=\"186794_the_end_\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-1864\" title=\"186794_the_end_\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2012\/07\/186794_the_end_.jpg\" alt=\"\" width=\"198\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2012\/07\/186794_the_end_.jpg 198w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2012\/07\/186794_the_end_-99x150.jpg 99w\" sizes=\"auto, (max-width: 198px) 100vw, 198px\" \/><\/a>Por Mateus Oct\u00e1vio<\/em><\/p>\n<p>Quinta-feira \u00e0 tarde, est\u00e1 chovendo. Um dia comum para mim. Nessa ocasi\u00e3o conheci um senhor. Era bem idoso, cabelos grisalhos, olhos esverdeados, gordo, e com o rosto bem abatido. Trajava uma bermuda que combinava com a <em>boina<\/em> bastante peculiar. Sua face me dizia que a vida o tinha mo\u00eddo sem clem\u00eancia. Era de poucas palavras, apenas desenvolvia seu trabalho, fazia com muita dificuldade.<\/p>\n<p>Reparei que, de minuto em minuto, ele parava e resfolegante cochichava baixinho consigo mesmo. A for\u00e7a da juventude j\u00e1 n\u00e3o se assemelha aos tempos vividos hoje. Contou muitas hist\u00f3rias de uma vida de peleja. Tudo j\u00e1 deve ter sido mais f\u00e1cil, um jovem tem sonhos, muitos sonhos. \u00c9 idealista, quer mudar o mundo, no entanto ele est\u00e1 l\u00e1: velho, cansado e irrealizado.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Depois de um curto per\u00edodo de conversa descobri que ele tinha sido operado recentemente. O m\u00e9dico havia lhe recomendado noventa dias de repouso, mas s\u00f3 se passaram quarenta. Sentia dores no local da cirurgia, j\u00e1 havia carregado muito peso. Em um dado momento da conversa ele me perguntou: \u201cvoc\u00ea \u00e9 crente?\u201d Respondi que sim. \u201cVoc\u00ea tem que orar muito por n\u00f3s\u201d disse ele, olhando para o ch\u00e3o. Percebi nele um clamor. \u201cDo jeito que as coisas andam, prefiro o inferno\u201d, continuou dizendo. No limiar da velhice j\u00e1 estava morto.<\/p>\n<p>Dirigiu igreja por muitos anos. Foi l\u00edder e envelheceu l\u00e1. Tem um filho que faz teologia, mas que parece n\u00e3o se importar com o pai. O altar eclesi\u00e1stico n\u00e3o satisfez o seu apetite existencial. Nem mesmo a teologia de seu filho secou o seu suor.\u00a0 Para muitos, s\u00f3 a f\u00e9, que um dia tudo se resolver\u00e1, serve de aux\u00edlio. Mas, e quando as promessas feitas no domingo \u00e0 noite n\u00e3o se cumprem? E a tristeza que vai passar, a alegria que vir\u00e1 ao amanhecer, o choro que n\u00e3o passar\u00e1 de uma noite? E quando nada disso se resolve? Muitas promessas s\u00e3o feitas. Ainda \u00e9 noite pra este senhor, s\u00f3 ser\u00e1 dia quando todo o choro for enxugado. Uma religi\u00e3o que faz desejar o inferno, uma teologia que mata, \u00e9 isso que lhe resta. Chega um tempo que os discursos n\u00e3o ajudam mais: se voc\u00ea tem f\u00e9 ent\u00e3o a mostre em obras, ressaltou o ap\u00f3stolo Tiago.<\/p>\n<p>Tive medo. Medo de que um dia toda essa revolu\u00e7\u00e3o que me desancora acabe. Medo que eu envelhe\u00e7a e n\u00e3o sonhe mais. Tive medo de que ao ver aquele senhor eu estivesse diante do espelho. Tive medo por hoje. Medo de que a minha teologia n\u00e3o socorra o \u00f3rf\u00e3o e a vi\u00fava, pois essa \u00e9 a verdadeira religi\u00e3o. Tive medo de que meu pai me veja como esse senhor v\u00ea o seu filho. Tive medo por muitos pais por a\u00ed que precisam de um filho que trate suas feridas e os ajude a n\u00e3o perder a esperan\u00e7a enquanto vivos. Tive medo por filhos sem pai que crescem antes do tempo e n\u00e3o aprendem a amar a vida.<\/p>\n<p>Tive medo, pois pensei: \u201ccad\u00ea a igreja? Ensina-se tanto como prosperar, ensinam-se tantas formulas para n\u00e3o \u2018roubar a Deus\u2019. Seremos mesmos conhecidos como disc\u00edpulos de Jesus por causa do amor uns para com os outros?\u201d. Entendi que n\u00e3o dando de beber ao cansado estou roubando a Deus. Tive medo ainda, que aquele senhor realizasse seu desejo.<\/p>\n<p>____________________<\/p>\n<p><strong>Mateus Oct\u00e1vio Alcantara<\/strong> de Souza tem 20 anos, \u00e9 Bacharel em teologia e escreve no blog <a href=\"http:\/\/mateusoctavio.blogspot.com.br\/\" target=\"_blank\">Medita\u00e7\u00f5es*<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Mateus Oct\u00e1vio Quinta-feira \u00e0 tarde, est\u00e1 chovendo. Um dia comum para mim. Nessa ocasi\u00e3o conheci um senhor. Era bem idoso, cabelos grisalhos, olhos esverdeados, gordo, e com o rosto bem abatido. Trajava uma bermuda que combinava com a boina bastante peculiar. Sua face me dizia que a vida o tinha mo\u00eddo sem clem\u00eancia. 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