{"id":1417,"date":"2012-01-11T13:46:49","date_gmt":"2012-01-11T16:46:49","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/?p=1417"},"modified":"2012-01-20T08:35:30","modified_gmt":"2012-01-20T11:35:30","slug":"mao-limpas-pes-descalcos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/2012\/01\/11\/mao-limpas-pes-descalcos\/","title":{"rendered":"M\u00e3o limpas, p\u00e9s descal\u00e7os"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2012\/01\/11_01_children_Amazon.jpg\" class=\"lightview\" data-lightview-group=\"group-1417\" data-lightview-options=\"skin: 'dark', controls: 'relative', padding: '10', shadow: { color: '#000000', opacity: 0.08, blur: 3 }\" data-lightview-title=\"11_01_children_Amazon\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-1418 alignright\" title=\"11_01_children_Amazon\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2012\/01\/11_01_children_Amazon-300x284.jpg\" alt=\"\" width=\"210\" height=\"199\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2012\/01\/11_01_children_Amazon-300x284.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2012\/01\/11_01_children_Amazon-150x142.jpg 150w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2012\/01\/11_01_children_Amazon.jpg 354w\" sizes=\"auto, (max-width: 210px) 100vw, 210px\" \/><\/a>Sonhei. A casa era simples, paredes de madeira, coberta com palha, ch\u00e3o de terra. Contei quatro adultos e sete crian\u00e7as. No meio, uma senhora deitada na rede. Ao lado dela, na cadeira de palha, um simp\u00e1tico velhinho, com uma B\u00edblia desbotada e rasgada na m\u00e3o. Sentei-me no ch\u00e3o, ao lado dele. Ao sentar, vi meus p\u00e9s descal\u00e7os, suados, cheios de poeira grudada. As cal\u00e7as dobradas at\u00e9 o joelho. Do outro lado, as crian\u00e7as me olhavam, dando risadinhas e empurrando-se umas \u00e0s outras.<\/p>\n<p>Como acontece nos sonhos, onde rapidamente compreendemos as coisas, percebi o que acontecia ali. Sentadas em c\u00edrculo, as pessoas esperavam o culto come\u00e7ar. Uma jovem abriu a B\u00edblia e leu algo sobre comunh\u00e3o. O senhor ao meu lado passou sua B\u00edblia rasgada para mim e pediu para cantar algo. Ser\u00e1 que eu sei cantar? Folhei o velho livro, como que por instinto, fui para as \u00faltimas p\u00e1ginas. Encontrei um antigo hin\u00e1rio crist\u00e3o. Deixei-o escolher. \u201cO n\u00famero 15\u201d, disse. Pensei em pegar o viol\u00e3o e tocar, mas, \u00e0s vezes, os sonhos nos traem \u2013 voc\u00ea j\u00e1 deve ter passado por isso. Esqueci todas as notas. Por\u00e9m, guardada na minha caixa de lembran\u00e7as, achei a melodia. <!--more-->Cenas da minha inf\u00e2ncia apareceram. Numa pequena igreja, as pessoas reunidas em contri\u00e7\u00e3o, cantando com muita for\u00e7a \u201cQu\u00e3o ditoso ent\u00e3o, este meu cora\u00e7\u00e3o, conhecendo o excelso amor! Que levou meu Jesus a morrer l\u00e1 na cruz pra salvar este pobre pecador! Foi na cruz, foi na cruz, onde um dia eu vi, meu pecado castigado em Jesus&#8230;\u201d. Abri os olhos e Seu Santo cantava comigo, as l\u00e1grimas descendo livremente em seu rosto. Como s\u00f3 acontece nos sonhos, enquanto cant\u00e1vamos, conheci sua hist\u00f3ria. Cresceu alc\u00f3olatra e o foi at\u00e9 depois dos cinquenta. H\u00e1 quinze anos uns mission\u00e1rios vieram \u00e0 comunidade para falar de uma nova vida em Jesus. No mesmo momento, abra\u00e7ou esta vida. Raimundo foi apelidado de \u201cSanto\u201d quando deixou de frequentar os bares e trocou os domingos de bebedeira pela igreja. Acabamos de cantar. Ele pediu outra. Antes, quis falar. Com a m\u00e3o em meu ombro, refor\u00e7ou o quanto minha presen\u00e7a o deixava feliz. Olhei pela porta da casa: um enorme rio logo ali. Sim! Era uma comunidade ribeirinha de algum lugar no meio da Amaz\u00f4nia. Como fui parar naquela casa? N\u00e3o importa, queria ouvir Seu Santo. Ele agradeceu a Deus o privil\u00e9gio de ter pessoas com a mesma f\u00e9, dispostas a se reunir numa tarde de domingo, mesmo com aquele sol de mais de quarenta graus, e falar de Jesus e de coisas boas. \u201cNa comunidade n\u00e3o h\u00e1 mais igreja\u201d, contou. Ele sente falta de ter com quem cantar e ler a B\u00edblia, de compartilhar como Jesus o ajuda nas fraquezas do dia a dia. Logo ele, t\u00e3o pobre pecador. Todos os dias, quando se levanta, entrega sua vida a Deus e pede para ser diferen\u00e7a, demonstrando amor aos vizinhos.<\/p>\n<p>Nos sonhos, sou muito mais emotiva \u2013 voc\u00ea tamb\u00e9m deve ser. L\u00e1grimas brotaram em meus olhos. Senti uma alegria sem tamanho, daquelas que n\u00e3o se pode descrever. S\u00f3 a sentimos quando n\u00e3o estamos acordados. Chorei. Ali, esquecida pelo mundo, mas n\u00e3o por Ele, a igreja de Cristo! N\u00e3o mais de dez ou doze pessoas, gratas por Seu imenso amor, pela gra\u00e7a demonstrada na cruz. \u201cOh Senhor, Tu \u00e9s t\u00e3o grande e bondoso! Obrigada!\u201d, orei em sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Seu Santo ainda falava comigo, algu\u00e9m cantava \u201cporque Ele vive posso crer no amanh\u00e3\u201d. De repente, ele ficou muito longe e fui puxada para outro lugar. Sonhos s\u00e3o assim mesmo. Logo estamos num lugar e j\u00e1 vamos para outro. Imagino que tamb\u00e9m seja assim com voc\u00ea. Durante a noite, as imagens se misturam na cabe\u00e7a e n\u00e3o se pode control\u00e1-las. Espreguicei-me na cadeira estofada, olhei ao redor e entendi: o culto ia come\u00e7ar. Procurei meu amigo de p\u00e9s descal\u00e7os entre eles. Seu Santo n\u00e3o estava l\u00e1. Reconheci v\u00e1rias pessoas, homens de gravata, mulheres em trajes sociais. Uau! Que viagem! Lembrei-me de onde tinha sa\u00eddo. Fiquei constrangida. O que diriam de mim, com uma roupa velha, descal\u00e7a e com os p\u00e9s sujos? Rapidamente, conferi minha apar\u00eancia. Tudo sob controle: era a roupa certa, salto alto, cabelo escovado, unhas feitas, perfume importado. Ufa! Agora o louvor podia come\u00e7ar. Eu era parte daquele corpo. Sorri, pensando em Seu Santo. Como queria que estivesse ali para celebrar com tantos crist\u00e3os! \u00c9 claro, teria de lev\u00e1-lo antes \u00e0 minha casa. Poderia tomar um banho, trocar as roupas e tal. Algu\u00e9m come\u00e7ou a cantar. Afastei o homem de meus pensamentos. Queria adorar a Deus, erguer as m\u00e3os, bater palmas, cantar o amor do Pai! A m\u00fasica era estranha, n\u00e3o reconheci a melodia. Fiquei em sil\u00eancio enquanto cantaram de inimigos vencidos, provas passadas, pessoas no p\u00f3dio mostrando sua vit\u00f3ria, outras embaixo, arrependidas e humilhadas. Tentei me concentrar nas crian\u00e7as alegres na casa de Seu Santo. N\u00e3o consegui. A m\u00fasica enchia minha mente. Fez-me pensar em quantas coisas me faltam. Olhei para cima, o teto branco, com luzes bonitas. Ser\u00e1 que minha roupa era mesmo adequada? Ou devia ter vindo com outro vestido? N\u00e3o estava amassada, afinal? Passei a m\u00e3o no cabelo, colocando os fios no lugar. Olhei meus p\u00e9s, orgulhosa. Estavam limpos. Assim \u00e9 que deveria ser. \u201cOh Deus, quando mesmo vai chegar minha vez? J\u00e1 est\u00e1 na hora do Senhor fazer de mim uma pessoa aben\u00e7oada, pr\u00f3spera e bem sucedida. Afinal, te sirvo. As pessoas devem ver uma diferen\u00e7a em mim. Sou crist\u00e3, fiel, bem que o Senhor podia melhorar um pouquinho as coisas. Que tal?\u201d. Terminei a ora\u00e7\u00e3o quando os m\u00fasicos pararam de tocar. Ao microfone, um homem cheio de ousadia, falou de como Deus \u00e9 bom e o encheu de vit\u00f3rias. Para os que ainda n\u00e3o chegaram l\u00e1, como eu, contou seu segredo: \u201cVoc\u00ea precisa determinar, porque tudo o que voc\u00ea pedir, Deus vai ter que assinar embaixo!\u201d. Longe, muito longe, algu\u00e9m cantou \u201cFoi na cruz, foi na cruz, onde um dia vi meu pecado&#8230;\u201d. A mulher deitada na rede, l\u00e1 na Amaz\u00f4nia, chamou-me para l\u00e1, quis contar-me de um Deus simples, das coisas do dia a dia, da sabedoria de olhar para a cria\u00e7\u00e3o, sentar numa roda e dar gra\u00e7as, ser contente e satisfeito, crer na vida eterna, um c\u00e9u cheio de paz, alegria&#8230; \u201cN\u00e3o, n\u00e3o!\u201d, gritei, mandando a mulher embora. \u201cDeus, por favor, olha pra mim! Voc\u00ea j\u00e1 aben\u00e7oou todos eles. E eu? Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 bom? Eu quero agora!!!\u201d.<\/p>\n<p>Acordei. Paralisada na cama, meu corpo suado, os olhos arregalados contemplando o teto. Onde estava? Tentei me acostumar com o ambiente. Identifiquei a porta de meu quarto, o guarda roupa, a janela no lugar de sempre. Que sonho estranho! Quase podia ouvir o homem da Amaz\u00f4nia cantando. Devia atribuir a este sonho algum significado? Senti cheiro de terra. Via as crian\u00e7as no ch\u00e3o, sorrindo. Fiquei incomodada. Olhei no rel\u00f3gio. Quatro horas. As seis ia levantar para trabalhar. O sonho tirou minha paz. Oras, sou uma crist\u00e3 de primeira linha! Vivo meus dias como Jesus os viveria. O que mais posso fazer? Vou \u00e0 igreja todos os domingos. Oro e o Senhor me aben\u00e7oa. Moro no pa\u00eds mais crist\u00e3o do mundo! Por que deveria me preocupar? Respirei aliviada. Foi apenas um sonho. Virei-me na cama. Dormi. Um sono tranquilo, sem sonhos.<\/p>\n<p>_________<\/p>\n<p><strong><a href=\"http:\/\/sujospes.wordpress.com\/\" target=\"_blank\">Eliceli Bonan<\/a>,\u00a0<\/strong>24 anos, \u00e9 jornalista, mission\u00e1ria de JOCUM na base em Curitiba (PR). Gosta de ler, ver filmes, tocar instrumentos musicais\u2026<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sonhei. A casa era simples, paredes de madeira, coberta com palha, ch\u00e3o de terra. Contei quatro adultos e sete crian\u00e7as. No meio, uma senhora deitada na rede. 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