{"id":1604,"date":"2019-02-20T08:55:44","date_gmt":"2019-02-20T11:55:44","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/john-stott\/?p=1604"},"modified":"2022-08-09T09:14:42","modified_gmt":"2022-08-09T12:14:42","slug":"a-dupla-responsabilidade-crista-ser-sal-e-luz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/john-stott\/2019\/02\/20\/a-dupla-responsabilidade-crista-ser-sal-e-luz\/","title":{"rendered":"A dupla responsabilidade crist\u00e3: ser sal e luz"},"content":{"rendered":"<blockquote><p>\u201cO sal e a luz t\u00eam uma coisa em comum: eles se d\u00e3o e se gastam, e isto \u00e9 o op\u00e7\u00e3o do que acontece com qualquer tipo de religiosidade egocentralizada\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/john-stott\/files\/blog_stott_20_02_19_sal_luz.jpg\" class=\"lightview\" data-lightview-group=\"group-1604\" data-lightview-options=\"skin: 'dark', controls: 'relative', padding: '10', shadow: { color: '#000000', opacity: 0.08, blur: 3 }\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-1605 alignright\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/john-stott\/files\/blog_stott_20_02_19_sal_luz-300x226.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"226\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/john-stott\/files\/blog_stott_20_02_19_sal_luz-300x226.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/john-stott\/files\/blog_stott_20_02_19_sal_luz.jpg 663w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>N\u00e3o obstante, o tipo de servi\u00e7o que cada um presta \u00e9 diferente. Na verdade, seus defeitos s\u00e3o complementares. A fun\u00e7\u00e3o do sal \u00e9 principalmente negativa: evitar a deteriora\u00e7\u00e3o. A fun\u00e7\u00e3o da luz \u00e9 positiva: iluminar as trevas.<\/p>\n<p>Assim, Jesus chama os seus disc\u00edpulos para exerceram uma influ\u00eancia dupla na comunidade secular: uma influ\u00eancia negativa, de impedir a sua deteriora\u00e7\u00e3o, e uma influ\u00eancia positiva de produzir a luz nas trevas. Pois impedir a propaga\u00e7\u00e3o do mal \u00e9 uma coisa; e promover a propaga\u00e7\u00e3o da verdade, da beleza e da bondade \u00e9 outra.<\/p>\n<p>Reunindo as duas met\u00e1foras, parece-nos leg\u00edtimo discernir nelas a rela\u00e7\u00e3o correta entre evangeliza\u00e7\u00e3o e a a\u00e7\u00e3o social, na totalidade da miss\u00e3o de Cristo no mundo, uma rela\u00e7\u00e3o que deixa as duas coisas, sal e luz, na comunidade secular.<\/p>\n<p>Examinemos, primeiro, a nossa voca\u00e7\u00e3o para sermos sal. O ap\u00f3stolo Paulo pinta um quadro sinistro no final do primeiro cap\u00edtulo da sua carta aos Romanos, falando do que acontece quando a sociedade abafa (por causa do amor ao mal) a verdade que conhece por natureza. Ela deteriora. Seus valores e padr\u00f5es declinam rapidamente, at\u00e9 ficar totalmente corrompida. Quando os homens rejeitam o que sabem de Deus, ele os abandona \u00e0s suas pr\u00f3prias no\u00e7\u00f5es distorcidas e paix\u00f5es perversas, at\u00e9 que a sociedade cheire mal \u00e0s narinas de Deus e de todas as pessoas honesta.<\/p>\n<p>Os crist\u00e3os foram colocados por Deus numa sociedade secular para retardar este processo. Deus pretende que penetremos no mundo. O sal crist\u00e3o n\u00e3o tem nada de ficar aconchegado em elegantes e pequenas dispensas eclesi\u00e1sticas; nosso papel \u00e9 o de sermos \u201cesfregados\u201d na comunidade secular, como o sal \u00e9 esfregado na carne, para impedir que apodre\u00e7a. E quando a sociedade apodrece, n\u00f3s, os crist\u00e3os, temos a tend\u00eancia de levantar as m\u00e3os para o c\u00e9u, piedosamente horrorizados, reprovando o mundo n\u00e3o crist\u00e3o; mas n\u00e3o dever\u00edamos, antes, reprovar-nos a n\u00f3s mesmos? Ningu\u00e9m pode acusar a carne fresca de deteriorar-se. Ela n\u00e3o ode fazer nada. O ponto importante \u00e9: onde est\u00e1 o sal?<\/p>\n<p>Jesus ensinava em algum ponto perto do mar da Galileia. Menos de 160 quil\u00f4metros ao sul, o Rio Jord\u00e3o corre para outro mar, que, por ser t\u00e3o salgado, \u00e9 chamado de Mar Morto. E, do lado ocidental, vivia naquele tempo uma Comunidade do Mar Morto, cuja biblioteca de pergaminhos causou verdadeira sensa\u00e7\u00e3o ao ser acidentalmente descoberta h\u00e1 alguns anos atr\u00e1s. Era uma comunidade mon\u00e1stica de ess\u00eanios que tinham se afastado do mundo in\u00edquo. Eles se intitulavam \u201cfilhos da luz\u201d, mas n\u00e3o tomavam providencia alguma para que a sua luz brilhasse. Assim, no seu gueto, seu sal era t\u00e3o in\u00fatil como os dep\u00f3sitos de sal sobre as praias do mar ali perto. Ser\u00e1 que Jesus estava pensando neles? W. D. Davies pensa que Jesus de \u201cuma olhadela de lado\u201d na dire\u00e7\u00e3o deles. \u00c9 uma conjectura atraente.<\/p>\n<p>O que significa, na pr\u00e1tica, ser o sal da terra? Em primeiro lugar, n\u00f3s, o povo crist\u00e3o dever\u00edamos ser mais corajoso, mais francos na condena\u00e7\u00e3o do mal. A condena\u00e7\u00e3o \u00e9 negativa, \u00e9 verdade, mas a a\u00e7\u00e3o do sal \u00e9 negativa. \u00c0s vezes, os padr\u00f5es de uma comunidade afrouxam-se por falta de um explicito protesto crist\u00e3o. Lutero deu grande import\u00e2ncia a isto, enfatizando que a den\u00fancia e a proclama\u00e7\u00e3o andam de m\u00e3os dadas, quando o evangelho \u00e9 verdadeiramente pregado: \u201co sal arde. Embora eles nos critiquem como sendo desagrad\u00e1veis, sabemos que \u00e9 assim que tem que ser e que Cristo ordenou que o sal fosse forte e continuasse c\u00e1ustico\u2026 Se voc\u00ea quiser pregar o Evangelho e ajudar as pessoas, ter\u00e1 de ser rude e esfregar sal nas feridas, mostrando o outro lado e denunciando o que n\u00e3o est\u00e1 certo\u2026 O verdadeiro sal \u00e9 a verdadeira exposi\u00e7\u00e3o das Escrituras, que denuncia todo o mundo e n\u00e3o deixa nada de p\u00e9 a n\u00e3o ser a simples f\u00e9 em Cristo. \u201d<\/p>\n<p>Helmut Thielicke aborda este mesmo tema da necess\u00e1ria qualidade incisiva ou \u201cardia\u201d do verdadeiro testemunho crist\u00e3o. Ao olharmos para alguns crist\u00e3os, diz ele, \u201cpoder\u00edamos pensar que a sua ambi\u00e7\u00e3o \u00e9 ser a cumbuca de mel do mundo. Eles ado\u00e7am e a\u00e7ucaram a amargura da vida com um conceito demasiadamente complacente de um Deus amoroso. Mas Jesus, evidentemente, n\u00e3o disse: \u2018Voc\u00eas s\u00e3o o mel do mundo. \u2019 Ele disse: \u2018Voc\u00eas s\u00e3o o sal da terra\u2019. O sal arde, e a mensagem n\u00e3o adulterada do ju\u00edzo e da gra\u00e7a de Deus sempre tem sido uma coisa que machuca\u201d.<\/p>\n<p>E ao lado desta condena\u00e7\u00e3o do que \u00e9 falso e mau, dever\u00edamos com ousadia apoiar o que \u00e9 verdadeiro, bom descente, em nossa vizinhan\u00e7a, em nosso col\u00e9gio ou neg\u00f3cio, ou na esfera mais ampla da vida nacional, incluindo os meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa.<\/p>\n<p>O sal crist\u00e3o faz efeito atrav\u00e9s de atos e tamb\u00e9m de palavras. J\u00e1 vimos que Deus criou a ambos, o Estado e a fam\u00edlia, como estruturas sociais para reprimir o mal e incentivar o bem. E os crist\u00e3os t\u00eam a responsabilidade de verificar se essas estruturas est\u00e3o sendo preservadas, e tamb\u00e9m se est\u00e3o operando com justi\u00e7a. Com demasiada frequ\u00eancia, os crist\u00e3os evang\u00e9licos t\u00eam interpretado a sua responsabilidade social em termos de apenas ajudar \u00e0s v\u00edtimas de uma sociedade doente, nada fazendo para mudar as estruturas que provocam os acidentes. Exatamente como os m\u00e9dicos n\u00e3o se preocupam apenas o tratamento dos pacientes, mas tamb\u00e9m com a medicina preventiva e a sa\u00fade p\u00fablica, n\u00f3s dever\u00edamos nos preocupar com o que poder\u00edamos chamar de \u201cmedicina social preventiva\u201d e padr\u00f5es mais elevados de higiene moral. Por menor que seja a nossa contribui\u00e7\u00e3o, n\u00e3o podemos optar pela dispensa da busca da cria\u00e7\u00e3o de melhores estruturas sociais, que garantem a justi\u00e7a na legisla\u00e7\u00e3o e o cumprimento das leis, a liberdade e a dignidade do indiv\u00edduo, os direitos civis para minorias e a aboli\u00e7\u00e3o da discrimina\u00e7\u00e3o social e racial. N\u00e3o devemos nem desprezar essas coisas nem fugir de nossa responsabilidade para com elas. Isso faz parte do prop\u00f3sito de Deus para o seu povo. Sempre que os crist\u00e3os s\u00e3o cidad\u00e3os conscientes, agem como sal numa comunidade. Como Sir Frederick Catherwood exp\u00f4s em sua contribui\u00e7\u00e3o ao simp\u00f3sio <em>Is Revolution Change?<\/em> (A Revolu\u00e7\u00e3o Muda Alguma Coisa?): \u201cTentar melhorar a sociedade n\u00e3o \u00e9 mundanismo, mas amor. Lavar as m\u00e3os diante da sociedade n\u00e3o \u00e9 amor, mas mundanismo\u201d.<\/p>\n<p>Mas os seres humanos deca\u00eddos precisam de mais do que barricadas que os impe\u00e7am de se tornarem t\u00e3o maus quanto poss\u00edvel. Precisam de regenera\u00e7\u00e3o, vida nova atrav\u00e9s do Evangelho. Por isso, nossa segunda voca\u00e7\u00e3o \u00e9 para sermos \u201ca luz do mundo\u201d, pois a verdade do Evangelho \u00e9 a luz, contida, \u00e9 verdade, em fr\u00e1geis l\u00e2mpadas de barro, mas brilhando atrav\u00e9s de nossa mortalidade com amais consp\u00edcua das claridades. Fomos chamados a propagar o Evangelho e estruturar nosso modo de viver de um jeito que seja digno do Evangelho.<\/p>\n<p>Portanto, nunca dever\u00edamos colocar nossas duas voca\u00e7\u00f5es (sal e luz) e nossas responsabilidades crist\u00e3s (social e evangel\u00edstica) em posi\u00e7\u00f5es antag\u00f4nicas, como se tiv\u00e9ssemos de escolher entre as duas. N\u00e3o podemos exagerar uma delas, nem desacreditar uma \u00e0s expensas da outra. Uma n\u00e3o pode substituir a outra. O mundo precisa de ambas. Ele est\u00e1 em decomposi\u00e7\u00e3o e precisa de sal; ele \u00e9 trevas e precisa de luz. Nossa voca\u00e7\u00e3o crist\u00e3 \u00e9 para sermos ambas. Jesus Cristo o declarou, e isso basta.<\/p>\n<pre>Trecho originalmente publicado no livro <em><a href=\"https:\/\/www.ultimato.com.br\/loja\/produtos\/a-mensagem-do-sermao-do-monte\">A Mensagem do Serm\u00e3o do Monte \u2013 contracultura crist\u00e3<\/a>.<\/em><\/pre>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cO sal e a luz t\u00eam uma coisa em comum: eles se d\u00e3o e se gastam, e isto \u00e9 o op\u00e7\u00e3o do que acontece com qualquer tipo de religiosidade egocentralizada\u201d. N\u00e3o obstante, o tipo de servi\u00e7o que cada um presta \u00e9 diferente. Na verdade, seus defeitos s\u00e3o complementares. 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