{"id":1074,"date":"2017-12-12T00:00:56","date_gmt":"2017-12-12T03:00:56","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/john-stott\/?p=1074"},"modified":"2022-12-21T08:52:39","modified_gmt":"2022-12-21T11:52:39","slug":"o-estabulo-de-belem-o-nascimento-do-rei-pobre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/john-stott\/2017\/12\/12\/o-estabulo-de-belem-o-nascimento-do-rei-pobre\/","title":{"rendered":"O nascimento do rei pobre"},"content":{"rendered":"<blockquote><p>Em 1926, nos 700 anos da morte de S\u00e3o Francisco, algo como dois milh\u00f5es de peregrinos visitaram Assis, o local de seu nascimento no cen\u00adtro da It\u00e1lia. Na \u00e9poca, o Papa Pio XI confirmou oficialmente a designa\u00ad\u00e7\u00e3o extraoficial de Francisco de Assis como \u201cAlter Christus\u201d, \u201co segundo Cristo\u201d, tamanha era a semelhan\u00e7a que se atribu\u00eda a ele.<\/p><\/blockquote>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-1966 size-medium\" title=\"Foto com corte: Walter Ch\u00e1vez | Unsplash.com\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/john-stott\/files\/2017\/12\/st-300x197.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"197\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/john-stott\/files\/2017\/12\/st-300x197.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/john-stott\/files\/2017\/12\/st.jpg 698w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>O que foi que inspirou Francisco a assumir uma vida de absoluta po\u00adbreza e simplicidade? Era em parte o ensino de Jesus, a saber, seu convite \u00e0 abnega\u00e7\u00e3o e sua tarefa mission\u00e1ria deixada aos Doze. Mas em particular foi o exemplo de Jesus que Francisco ansiava por imitar em conformidade estrita e literal. Em particular, Francisco viu em seu nascimento num est\u00e1\u00adbulo a suprema express\u00e3o da pobreza auto imposta do Filho de Deus.<\/p>\n<p>Parece que se passaram tr\u00eas ou quatro s\u00e9culos ap\u00f3s o nascimento de Cristo at\u00e9 o Natal gozar de uma posi\u00e7\u00e3o fixa no calend\u00e1rio da igreja oci\u00addental e ser regularmente celebrado pelos crist\u00e3os. Em parte, isso pode ter sido causado por uma confus\u00e3o. As pessoas falavam de Cristo conduzindo sua carruagem cruzando o c\u00e9u como o Filho de Deus. Ali\u00e1s, porque os crist\u00e3os cultuavam aos domingos e com frequ\u00eancia voltavam-se para o Oriente para faz\u00ea-lo, muitos pag\u00e3os pensavam que os crist\u00e3os cultuavam o sol. Foi apenas no s\u00e9culo IV que a igreja ocidental come\u00e7ou a celebrar 25 de dezembro (o nascimento do Deus Sol no solst\u00edcio de inverno, o dia mais curto do ano) como a natividade de Cristo.<\/p>\n<p><!--more-->Francisco encontrou grande inspira\u00e7\u00e3o nas circunst\u00e2ncias em torno do nascimento de Jesus. \u201cEle dizia palavras fascinantes a respeito da natividade do Rei pobre e da cidadezinha de Bel\u00e9m\u201d.<sup>1<\/sup> Muitas vezes ele falava de Jesus \u201co Menino de Bel\u00e9m\u201d e dizia-se dele que \u201cO Menino de Bel\u00e9m est\u00e1 esquecido no cora\u00e7\u00e3o de muitos; mas, por obra de sua gra\u00ad\u00e7a, tem ganhado vida novamente por meio de seu servo S. Francisco\u201d.<sup>2<\/sup> Assim, \u201cFrancisco observava o anivers\u00e1rio do Menino Jesus com \u00e1vido interesse acima de todas as outras festas, dizendo que era a festa das festas em que Deus, tendo-se tornado um pequeno beb\u00ea, agarrava-se aos cora\u00e7\u00f5es humanos.\u201d<sup>3<\/sup><\/p>\n<p>Embora a centralidade da cruz esteja n\u00edtida na f\u00e9 e vida de Francisco, ele mantinha juntos no cora\u00e7\u00e3o e na mente a encarna\u00e7\u00e3o e a crucifica\u00e7\u00e3o, Cristo no ber\u00e7o e Cristo na cruz, pois via um e outro como manifesta\u00e7\u00f5es da humildade e da pobreza divina que resolveu imitar. Ele acreditava ter sido comissionado para proclamar o reino, servir aos necessitados, renun\u00adciar ao dinheiro e at\u00e9 viver sem uma muda de roupa.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o significa que rejeitasse ou subestimasse o mundo material ou as boas d\u00e1divas do bom Criador. Pelo contr\u00e1rio, ele \u00e9 bem conhecido por celebrar as criaturas de Deus, chamando-as de \u201cirm\u00e3os\u201d ou \u201cirm\u00e3s\u201d e ale\u00adgrando-se nesses relacionamentos. Seu \u201cC\u00e2ntico do Sol\u201d permanece como uma bela express\u00e3o de louvor, n\u00e3o obviamente \u00e0 natureza, mas ao Deus da natureza. Ao que parece, ele n\u00e3o via dicotomia entre o reconhecimento do mundo natural como d\u00e1diva de Deus e a ren\u00fancia \u00e0s posses materiais.<\/p>\n<p>Outros, por\u00e9m, sentem aqui um conflito n\u00e3o resolvido. G. K. Chester\u00adton, por exemplo, em sua famosa obra sobre Francisco,<sup>4<\/sup> d\u00e1 o t\u00edtulo de \u201cO Problema de S. Francisco\u201d ao primeiro cap\u00edtulo. Qual era esse problema? Chesterton, que em geral \u00e9 considerado o mestre do paradoxo, encontrou em Francisco v\u00e1rias inconsist\u00eancias, at\u00e9 contradi\u00e7\u00f5es. Como conciliar a alegria de Francisco com a natureza e seu ascetismo rigoroso, perguntava; sua \u201calegria e austeridade\u201d,<sup>5<\/sup> \u201ccomo ele glorifica o ouro e a p\u00farpura e como persiste em andar vestido de trapos\u201d,<sup>6<\/sup> \u201csua fome por uma vida feliz\u201d e \u201csede por uma morte her\u00f3ica\u201d?<sup>7<\/sup><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-1081\" title=\"S\u00e3o Francisco de Assis | Dom\u00ednio P\u00fablico\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/john-stott\/files\/Stott_12_12_17_San_francesco.jpg\" alt=\"\" width=\"116\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/john-stott\/files\/Stott_12_12_17_San_francesco.jpg 140w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/john-stott\/files\/Stott_12_12_17_San_francesco-134x300.jpg 134w\" sizes=\"auto, (max-width: 116px) 100vw, 116px\" \/>\u00c9 imposs\u00edvel ler a hist\u00f3ria de Francisco sem ficar profundamente to\u00adcado, mesmo que n\u00e3o possamos concluir, como G. K. Chesterton, que Francisco \u201cviveu para mudar o mundo\u201d.<sup>8<\/sup> Al\u00e9m disso, arrisco-me a per\u00adguntar: Ser\u00e1 que a decis\u00e3o de Francisco de imitar a Cristo em todas as coi\u00adsas n\u00e3o foi literal demais? Ser\u00e1 que n\u00e3o lhe passou despercebida a lingua\u00adgem viva e dram\u00e1tica que Jesus empregava com frequ\u00eancia? Por exemplo, em Lucas 14.25-33, Jesus apresentou tr\u00eas condi\u00e7\u00f5es sem as quais um can\u00addidato a seguidor, disse, \u201cn\u00e3o pode ser meu disc\u00edpulo\u201d. Primeiro, ele deve \u201codiar\u201d pai e m\u00e3e, esposa e filhos, irm\u00e3os e irm\u00e3s. Depois, deve \u201ccarregar sua cruz\u201d e seguir a Cristo. Terceiro, deve \u201crenunciar a tudo o que possui\u201d. Agora, certamente n\u00e3o temos permiss\u00e3o para diluir o rem\u00e9dio poderoso do evangelho. Ainda assim, \u201clevar a cruz\u201d \u00e9 sem d\u00favida n\u00e3o literal; Jesus n\u00e3o exigiu que todos os seus disc\u00edpulos fossem crucificados. A ordem de odiar nossos parentes mais chegados tamb\u00e9m n\u00e3o pode ser entendida li\u00adteralmente; \u00e9 pouco prov\u00e1vel que o Jesus que nos mandou amar at\u00e9 nossos inimigos nos mandasse odiar nossa pr\u00f3pria fam\u00edlia. Do mesmo modo, \u00e9 certo que a terceira ordem (renunciar \u00e0s propriedades) tamb\u00e9m n\u00e3o deve ser entendida literalmente. N\u00e3o se trata de uma evas\u00e3o covarde do ensino de Jesus, mas de um desejo honesto de descobrir o que ele estava querendo dizer. O pre\u00e7o do discipulado implica colocar Cristo \u00e0 frente em tudo, at\u00e9 mesmo de nossos parentes, nossas ambi\u00e7\u00f5es e nossas posses.<\/p>\n<h6><strong>Notas<br \/>\n<\/strong><em>1 \u2013 M. A. Habig (ed.), St Francis od Assissi: Writing and Early Biographies (Herald, 1972), p. 301.<br \/>\n2 \u2013 Ibid., p. 301.<br \/>\n3 \u2013 Thomas of Celano, The Second Life of St Francis (J. M. Dent &amp; Co., 1904), p. 521.<br \/>\n4 \u2013 G. K. Chesterton, ST Francis of Assissi (1923; Hodder and Stoughton, 23. ed., 1943).<br \/>\n5 \u2013 Ibid., p. 15.<br \/>\n6 \u2013 Ibid., p. 17.<br \/>\n7 \u2013 Ibid.<br \/>\n8 \u2013 Ibid., p. 189.<\/em><\/h6>\n<pre>Trecho retirado de&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.ultimato.com.br\/loja\/produtos\/o-incomparavel-cristo\"><em>O Incompar\u00e1vel Cristo<\/em><\/a>. Editora Ultimato.<\/pre>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1926, nos 700 anos da morte de S\u00e3o Francisco, algo como dois milh\u00f5es de peregrinos visitaram Assis, o local de seu nascimento no cen\u00adtro da It\u00e1lia. 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