{"id":1023,"date":"2017-10-03T11:41:58","date_gmt":"2017-10-03T14:41:58","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/john-stott\/?p=1023"},"modified":"2022-10-13T09:24:04","modified_gmt":"2022-10-13T12:24:04","slug":"cristo-o-salvador-gracioso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/john-stott\/2017\/10\/03\/cristo-o-salvador-gracioso\/","title":{"rendered":"Cristo, o Salvador gracioso"},"content":{"rendered":"<h4><strong>A justifica\u00e7\u00e3o somente pela f\u00e9<\/strong><\/h4>\n<blockquote><p>\u00c9 dif\u00edcil para n\u00f3s hoje compreender o pesado fardo de pecado e culpa sob o qual labutavam as pessoas da igreja medieval. Elas eram criadas para se concentrar na ira de Deus, no terror do julgamento e nas dores do purgat\u00f3rio e do inferno. Viviam no medo, empenhando-se para garantir o favor de Deus por meio de boas obras de justi\u00e7a. Ora, esse era o ensino da igreja.<\/p><\/blockquote>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-1039\" title=\"Martinho Lutero descobrindo a doutrina da Justifica\u00e7\u00e3o pela F\u00e9. Pintura feita em 1861, por Joseph Noel Paton.\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/john-stott\/files\/blog_Stott_justificacao_lutero-218x300.jpg\" alt=\"\" width=\"174\" height=\"240\" \/>Quando jovem, Martinho Lutero n\u00e3o era exce\u00e7\u00e3o. Nascido em 1483, seu pai era ambicioso em rela\u00e7\u00e3o a ele e o enviou \u00e0 escola e \u00e0 universidade. Mas ele estava o tempo todo dominado por uma profunda perturba\u00e7\u00e3o espiritual. Vendo um amigo cair morto atingido por um raio, ficou tomado pelo medo da morte e do julgamento. Assim, ele se lan\u00e7ou sem reservas ao servi\u00e7o de Deus e entrou num mosteiro agostiniano, confiante de que ali certamente seria capaz de salvar a pr\u00f3pria alma. Ele orava e jejuava e adotou outras austeridades extremas. \u201cEu era um bom monge\u201d, escreveu mais tarde. \u201cSe algum monge algum dia alcan\u00e7asse o c\u00e9u por sua vida mon\u00e1stica, seria eu\u201d.<sup>1<\/sup> Mas o regime asc\u00e9tico aumentava, n\u00e3o diminu\u00eda, seu tormento. Fazia suas confiss\u00f5es e penit\u00eancias. Tomou os tr\u00eas votos de pobreza, castidade e obedi\u00eancia. Mergulhou nos estudos teol\u00f3gicos. Foi ordenado padre. Fez uma peregrina\u00e7\u00e3o a Roma e subiu de joelhos os vinte e oito degraus da Scala Santa. Mas foi tudo em v\u00e3o. Lutero ficou desiludido com a igreja, convencido de que havia perdido as chaves do reino.<\/p>\n<p><!--more-->Em 1512, Lutero tornou-se professor de B\u00edblia na Universidade de Wittenberg. De in\u00edcio, suas d\u00favidas e temores persistiram. Estava decidido a satisfazer a Deus, mas n\u00e3o conseguia encontrar paz. \u201cQuando procurava Cristo\u201d, disse certa vez, \u201cparecia que eu via o diabo\u201d.<sup>2<\/sup> Essa declara\u00e7\u00e3o espantosa revela a falsa imagem de Jesus Cristo que ele abrigava por causa da intensidade de seu conflito moral. Para ele, na \u00e9poca, Cristo era raivoso, n\u00e3o amigo; perigoso, n\u00e3o misericordioso; seu juiz, n\u00e3o salvador. Onde encontraria um Deus gracioso? Esse era seu clamor angustiado.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Lutero voltou-se para as Escrituras. Preparando-se para suas aulas na universidade, estudou os Salmos em 1513-15 e a Ep\u00edstola aos Romanos em 1515-16. Ele ficou perturbado com a ora\u00e7\u00e3o em Salmos 31.1, \u201clivra-me pela tua justi\u00e7a\u201d e com a declara\u00e7\u00e3o em Romanos 1.17, que a justi\u00e7a de Deus \u00e9 revelada no evangelho. Se a justi\u00e7a de Deus \u00e9 seu julgamento, perguntava-se, como pode trazer salva\u00e7\u00e3o ou fazer parte do evangelho? Lutero lutava com essa quest\u00e3o porque ainda entendia que \u201ca justi\u00e7a de Deus\u201d se expressava na <em>puni\u00e7\u00e3o<\/em> dos injustos. <em>Isso<\/em> n\u00e3o soa como uma not\u00edcia boa!<\/p>\n<p><em>Dia e noite eu refletia&#8230; at\u00e9 que percebi a verdade de que a justi\u00e7a de Deus \u00e9 aquela justi\u00e7a com que, pela gra\u00e7a e pura miseric\u00f3rdia, ele nos justifica pela f\u00e9. Dali em diante senti-me renascido e senti ter passado por portas abertas para o para\u00edso. Toda a Escritura ganhou novo significado e enquanto antes \u201ca justi\u00e7a de Deus\u201d me enchia de \u00f3dio, ent\u00e3o tornou-se inefavelmente doce em maior amor. Essa passagem de Paulo tornou-se para mim um port\u00e3o para o c\u00e9u.<\/em><sup>3<\/sup><\/p>\n<p>Assim juntaram-se a teologia e a experi\u00eancia de Lutero. Pelo evangelho depurado da justifica\u00e7\u00e3o s\u00f3 pela gra\u00e7a, s\u00f3 em Cristo e s\u00f3 pela f\u00e9, Lutero descobriu a aceita\u00e7\u00e3o de Deus que vinha buscando desesperadamente havia anos. Ele n\u00e3o se tornou antinomiano, como entendem alguns cr\u00edticos, declarando que as boas obras n\u00e3o importam, pois insistia que elas s\u00e3o o fruto da f\u00e9. Lutero tamb\u00e9m n\u00e3o era um inovador; pelo contr\u00e1rio, recuperou o evangelho apost\u00f3lico original que a igreja havia perdido temporariamente. Ele escreveu no coment\u00e1rio sobre a Carta aos G\u00e1latas: \u201cEssa \u00e9 a verdade do evangelho. \u00c9 tamb\u00e9m o principal artigo de toda a doutrina crist\u00e3, aquilo em que consiste toda a piedade. \u00c9 mais que necess\u00e1rio, portanto, conhecermos bem esse artigo, ensin\u00e1-lo aos outros e incuti-lo continuamente na cabe\u00e7a deles\u201d.<sup>4 <\/sup>\u00c9 essa a doutrina, acrescentou, \u201cque, de fato, marca os crist\u00e3os verdadeiros\u201d,<sup>5 <\/sup>pois \u201cse o artigo da justifica\u00e7\u00e3o perder-se,\u00a0 ent\u00e3o se perde toda a doutrina crist\u00e3\u201d.<sup>6<\/sup><\/p>\n<p>Em cada gera\u00e7\u00e3o, pois, a igreja precisa recuperar a doutrina da justifica\u00e7\u00e3o. Paulo a chamou \u201co evangelho da gra\u00e7a de Deus\u201d (At 20.24; cf. Gl 1.6) e gra\u00e7a \u00e9 o amor de Deus imerecido, n\u00e3o solicitado. Ele foi visto em seu mais pleno esplendor na cruz. Ele oferece salva\u00e7\u00e3o aos pecadores como uma d\u00e1diva inteiramente gratuita. Portanto, n\u00e3o deixa nenhum espa\u00e7o para a vangl\u00f3ria humana. O evangelho da gra\u00e7a d\u00e1 gl\u00f3rias a Jesus Cristo apenas \u2013 a Jesus Cristo, nosso Salvador gracioso.<\/p>\n<h6>Notas<br \/>\n1 \u2013 <em>Citado em R. H. Bainton, Here I Stand (Hodder &amp; Stoughton, 1951), p. 45.<br \/>\n<\/em>2 \u2013 <em>Citado em J. Atkinson, The Great Light: Luther and Reformation (Paternoster, 1968), p. 16.<\/em><br \/>\n3 \u2013 <em>Essa foi a chamada \u201cexperi\u00eancia da torre\u201d de Lutero por ter ocorrido na torre do Claustro Negro de Wittenberg. Seu relato a esse respeito apareceu primeiro na introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 edi\u00e7\u00e3o em latim de suas Obras (1545).<br \/>\n<\/em>4 \u2013 <em>Martinho Lutero, Commentary on the Epistle to the Galatians (1535; James Clarke, 1953), p. 10.<\/em><br \/>\n5 \u2013 <em>Ibid., p. 143.<\/em><br \/>\n6 \u2013 <em>Ibid., p. 26.<\/em><\/h6>\n<pre>Trecho extra\u00eddo do livro <em><a href=\"http:\/\/www.ultimato.com.br\/loja\/produtos\/o-incomparavel-cristo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">O incompar\u00e1vel Cristo<\/a>.<\/em><\/pre>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A justifica\u00e7\u00e3o somente pela f\u00e9 \u00c9 dif\u00edcil para n\u00f3s hoje compreender o pesado fardo de pecado e culpa sob o qual labutavam as pessoas da igreja medieval. Elas eram criadas para se concentrar na ira de Deus, no terror do julgamento e nas dores do purgat\u00f3rio e do inferno. 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