{"id":990,"date":"2015-07-11T16:11:11","date_gmt":"2015-07-11T19:11:11","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/?p=990"},"modified":"2015-07-14T19:32:37","modified_gmt":"2015-07-14T22:32:37","slug":"os-evangelicos-progressistas-e-o-caso-da-cruz-de-espinal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/2015\/07\/11\/os-evangelicos-progressistas-e-o-caso-da-cruz-de-espinal\/","title":{"rendered":"Os Evang\u00e9licos Progressistas e o Caso da &#8220;Cruz de Espinal&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O que se segue \u00e9 a minha reflex\u00e3o sobre o caso da \u201cCruz de Espinal\u201d e, particularmente, da tremenda confus\u00e3o hermen\u00eautica e teol\u00f3gica que ela se mostrou para muitos crist\u00e3os brasileiros. \u00c9 tamb\u00e9m uma advert\u00eancia ao progressismo evang\u00e9lico, tendo em vista suas condi\u00e7\u00f5es de sobreviv\u00eancia para o futuro.<\/p>\n<p><strong>O EVANGELHO DA CRUZ E O EVANGELHO DA V\u00cdTIMA<\/strong><\/p>\n<p>Quem adoramos quando contemplamos a cruz? Para os Crist\u00e3os, o Deus-Homem, ali crucificado, ali vitorioso sobre o mal e salvador do mundo, ali reconciliador do homem com Deus. N\u00e3o adoramos \u201ca cruz\u201d; a cruz \u00e9 instrumento de tortura, o s\u00edmbolo do poder Imperial, o s\u00edmbolo da pot\u00eancia criada por Cristo, mas dele desviada por Satan\u00e1s. N\u00e3o adoramos meramente \u201co crucificado\u201d, como se sua hist\u00f3ria houvesse se encerrado ali, no g\u00f3lgota, mas aquele que foi crucificado e hoje \u00e9 ressurreto, e vive para sempre, e n\u00f3s, Nele. Mas podemos sim, dizer que adoramos o nosso Deus, o Deus que, no homem-cordeiro, foi crucificado, o logos que se humilhou, e que anunciamos <em>a Cristo, e a este crucificado<\/em>.<\/p>\n<p>Adoramos a v\u00edtima? Sim&#8230; e n\u00e3o. Sim, porque Jesus foi v\u00edtima do poder imperial; n\u00e3o, porque ser v\u00edtima n\u00e3o \u00e9, em si, m\u00e9rito. Poderia o homem ser justificado pela vitimiza\u00e7\u00e3o? N\u00e3o; jamais. A v\u00edtima deve ser pura, reta; deve ser sem m\u00e1cula. \u00c9 a justi\u00e7a da v\u00edtima que justifica, n\u00e3o a vitimiza\u00e7\u00e3o. A vitimiza\u00e7\u00e3o \u00e9 o crime, \u00e9 a viol\u00eancia contra Deus e o seu universo. Que justi\u00e7a pode vir da pura vitimiza\u00e7\u00e3o? <!--more--><\/p>\n<p>Ainda mais porque a v\u00edtima n\u00e3o \u00e9 v\u00edtima, em \u00faltima inst\u00e2ncia, se \u00e9 culpada, se tem m\u00e1cula. Pois nesse caso, ela n\u00e3o \u00e9 v\u00edtima mas algoz, ainda que travestida de v\u00edtima; algoz do outro, algoz de si mesma (quando se tem a persistente oportunidade de transformar a vitimiza\u00e7\u00e3o em mera trag\u00e9dia rom\u00e2ntica, ou at\u00e9 de transferir a culpa) mas sempre algoz do Filho de Deus.<\/p>\n<p>Todos somos algozes de n\u00f3s mesmos, e uns dos outros, e todos, de Deus. Todos somos tamb\u00e9m v\u00edtimas uns dos outros, mas n\u00e3o de Deus, pois ele n\u00e3o \u00e9 um criminoso; ele \u00e9 o justo juiz de toda a terra, e nunca vitimizar\u00e1 o seu mundo, embora certamente seja um juiz terr\u00edvel.<br \/>\nPor isso, sem jamais ser o ofensor, ele pode ser a v\u00edtima e o juiz; s\u00f3 Deus pode ser a v\u00edtima; s\u00f3 o homem-Deus pode apresentar-se como v\u00edtima. Pois ele n\u00e3o tem m\u00e1cula; ele \u00e9 o justo, no sentido absoluto \u2013 embora existam justos na terra, os quais no entanto s\u00f3 s\u00e3o justos porqu\u00ea e quando lhes \u00e9 concedido participar da justi\u00e7a do Justo, o Cristo; e toda a sua justi\u00e7a terrena nunca \u00e9 mais do que um sinal e uma express\u00e3o da justi\u00e7a do Justo.<\/p>\n<p>Jesus Cristo \u00e9 a v\u00edtima do mundo? Sim; sim de um ponto de vista puramente imanente. \u00c9 mais uma das v\u00edtimas que fazemos todos os dias. Nesse sentido Jesus \u201c\u00e9\u201d o judeu marrano, e o judeu em Auschwitz; Jesus \u201c\u00e9\u201d o pobre, o cego, o nu, o encarcerado; Jesus \u201c\u00e9\u201d o travesti injusti\u00e7ado; Jesus \u201c\u00e9\u201d a crian\u00e7a abandonada; jesus \u201c\u00e9\u201d o adolescente infrator que se tornou infrator porque foi esmagado por um sistema injusto; Jesus \u201c\u00e9\u201d a m\u00e3e solteira e pobre que afogou as m\u00e1goas em uma noite de sexo. Jesus \u201c\u00e9\u201d a v\u00edtima por excel\u00eancia.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o, sabemos que Jesus n\u00e3o \u00e9 nenhum deles, em um sentido teol\u00f3gico. Pois &#8220;todos pecaram e destitu\u00eddos est\u00e3o da gl\u00f3ria de Deus&#8221; (Rm 3.23) \u2013 a crian\u00e7a, o velho, o jovem, a prostituta, o travesti, o ladr\u00e3o pobre que \u00e9 linchado no poste, o ladr\u00e3o rico e amado pelas esquerdas Brasileiras, o crist\u00e3o-contempor\u00e2neo que faz sexo fora do casamento porque seu pastor moderninho liberou, o publicano, o papa, Obama e Osama, Francis Schaeffer e Paul Tillich&#8230; somos todos algozes, meus irm\u00e3os. E aqueles de n\u00f3s que foram vitimados na inf\u00e2ncia, s\u00f3 n\u00e3o sa\u00edram da pot\u00eancia ao ato porque n\u00e3o tiveram tempo e oportunidade para tanto.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o se apresenta o Cristo no fraco, no pobre, no encarcerado? N\u00e3o \u00e9 o que ensina a par\u00e1bola das ovelhas e dos bodes, em Mateus 25? Nossa resposta ao Cristo n\u00e3o se manifesta em nossa resposta \u00e0s v\u00edtimas ao nosso redor?<\/p>\n<p>Sem d\u00favida; mas notemos o fundamental: n\u00e3o \u00e9 porque essas v\u00edtimas s\u00e3o v\u00edtimas, que sinalizam o Cristo,<em> como se a vitimidade fosse, em si mesma, Cr\u00edstica<\/em>. Essa \u00e9 a fal\u00e1cia do <em>ressentimento<\/em>, que perversamente se alia, no esp\u00edrito, ao sofrimento do outro, n\u00e3o por compaix\u00e3o pela humanidade que nos \u00e9 comum, mas <em>pela partilha \u00edmpia\u00a0da m\u00e1goa e do \u00f3dio reprimido<\/em>, que tragicamente tamb\u00e9m nos \u00e9 comum.<\/p>\n<p>Ademais, o que diz o texto sobre as v\u00edtimas? Na verdade, nada se diz sobre serem v\u00edtimas inocentes. O sujeito pode ter fome e sede porque foi explorado; mas pode ter fome porque houve uma grande seca, ou porque foi pregui\u00e7oso; ainda assim, devemos aliment\u00e1-lo. Ele pode estar nu porque despiu-se, porque vendeu o apartamento, e depois o carro, e depois os m\u00f3veis e depois as roupas, para drogar-se; mas devemos vesti-lo. Ele pode estar doente porque carrega uma doen\u00e7a gen\u00e9tica; ele pode estar na pris\u00e3o porque \u00e9 criminoso; ele pode ser estrangeiro porque \u00e9&#8230; bem, estrangeiro.<\/p>\n<p>N\u00e3o ignoro a tradi\u00e7\u00e3o prof\u00e9tica que associa esses indiv\u00edduos em situa\u00e7\u00e3o de risco \u00e0 opress\u00e3o pol\u00edtica e econ\u00f4mica; mas a tradi\u00e7\u00e3o B\u00edblica nunca tornou a pobreza e o sofrimento em virtudes per se; nunca vinculou o dever do amor ao pr\u00f3ximo a uma suaviza\u00e7\u00e3o da culpabilidade e da aliena\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>E por isso mesmo, as Escrituras nunca trataram a Cruz de Jesus Cristo como salvadora meramente por ser uma cruz. <em>Ela \u00e9 salvadora porque \u00e9 a Cruz do Cristo, a \u00fanica v\u00edtima verdadeira, mas tamb\u00e9m a \u00fanica capaz de transmutar sua vitimiza\u00e7\u00e3o na Reconcilia\u00e7\u00e3o de todas as coisas<\/em>. \u00c9 a reden\u00e7\u00e3o de Cristo que torna especial a Cruz de Cristo. \u00c9 o sangue do Cordeiro o que torna aceit\u00e1vel o sacrif\u00edcio e o transfigura, de feio crime, em bel\u00edssimo ato Redentivo de Deus.<\/p>\n<p>O que dizer das v\u00edtimas que fazemos diariamente? Podem apenas sinalizar, lembrar a v\u00edtima que \u00e9 Cristo; mas acima de tudo, lembremos que tais sacrif\u00edcios s\u00e3o sempre impotentes. Eles s\u00f3 nos lembram de que somos culpados; nos lembram que somos os ofensores de n\u00f3s mesmos; n\u00e3o s\u00e3o atos de Deus, mas nos fazem lembrar de que estamos eternamente perdidos sem um ato de Deus. Nas m\u00e3os de Deus, a vitimiza\u00e7\u00e3o do Cristo \u00e9 a salva\u00e7\u00e3o do mundo; mas as \u201cvitimiza\u00e7\u00f5es\u201d secund\u00e1rias que realizamos diariamente n\u00e3o s\u00e3o sinais salvadores! S\u00e3o sinais, irm\u00e3os, do JU\u00cdZO do mundo!<\/p>\n<blockquote><p>E Deus prosseguiu: Que fizeste? A voz do sangue do teu irm\u00e3o est\u00e1 clamando a mim desde a terra. Agora, maldito \u00e9s tu (Gn 4.10-11)<\/p><\/blockquote>\n<p>\u00c9 isso, e apenas isso, o que o estrangeiro oprimido, o pobre humilhado, o \u00f3rf\u00e3o abandonado, o travesti assassinado, o jesu\u00edta martirizado pela ditadura, podem dizer: que agora, somos malditos; todos n\u00f3s. Mas n\u00e3o \u00e9 assim com a cruz de Cristo. Pois \u201cCristo nos resgatou da maldi\u00e7\u00e3o da lei, tornando-se maldi\u00e7\u00e3o por n\u00f3s\u201d (Gl 3.13).<\/p>\n<p>A cruz de Cristo, e s\u00f3 a Cruz de Cristo, transcende a m\u00e1 not\u00edcia da maldi\u00e7\u00e3o! Somente o Cristo na cruz pode transmutar a cruz, de maldi\u00e7\u00e3o, em salva\u00e7\u00e3o! S\u00f3 Cristo pode transformar o sentido de um s\u00edmbolo t\u00e3o terr\u00edvel em algo t\u00e3o glorioso, a ponto de o ap\u00f3stolo dos gentios descrever seu evangelho como \u201ca palavra da Cruz\u201d. Cristo reconciliou consigo todas as coisas, todas&#8230; at\u00e9 mesmo a cruz, o aguilh\u00e3o do imp\u00e9rio!<\/p>\n<p>Mas isso n\u00e3o transmuta todas as cruzes do mundo, automaticamente. N\u00e3o; pois n\u00e3o \u00e9 um \u201cprinc\u00edpio abstrato\u201d de cruz o que nos salva, mas <strong>a cruz do Cristo Hist\u00f3rico<\/strong>. Aquela cruz espec\u00edfica, singular, historicamente localizada, erguida de uma vez por todas. Mas essa cruz pode ser presentificada pelo Esp\u00edrito de Deus, quando o disc\u00edpulo de Jesus toma a sua cruz, cheio da Esperan\u00e7a da Ressurrei\u00e7\u00e3o, e com isso transmuta o sentido da sua pr\u00f3pria cruz em sinal de vit\u00f3ria sobre o mal. Mas tal luminosidade n\u00e3o procede de sua vitimidade, nem do seu m\u00e9rito individual; procede da presentifica\u00e7\u00e3o do \u00fanico Salvador, Cristo. Assim as nossas cruzes deixam de ser maldi\u00e7\u00f5es, e se tornam crist\u00e3s.<\/p>\n<p>Mas como aparece o Cristo no fraco? N\u00e3o em sua fraqueza nua, como se o fraco fosse por isso um salvador (e como Nietzsche deseja ver o Cristianismo), mas porque sua fraqueza me confronta com a criaturidade humana e com a maldi\u00e7\u00e3o humana. <strong>N\u00e3o h\u00e1 evangelho no sofrimento que causamos uns aos outros, e nas ofensas que cometemos contra n\u00f3s todos os dias.<\/strong> N\u00e3o h\u00e1 evangelho na injusti\u00e7a social, nem na doen\u00e7a, nem na ladroagem, nem no preconceito. A crian\u00e7a n\u00e3o \u00e9 messi\u00e2nica; o travesti n\u00e3o \u00e9 messi\u00e2nico; o Lula n\u00e3o \u00e9 messi\u00e2nico; o negro n\u00e3o \u00e9 messi\u00e2nico; o pobre n\u00e3o \u00e9 messi\u00e2nico. <strong>Tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 evangelho na luta humana contra a injusti\u00e7a e o sofrimento, assim como n\u00e3o havia evangelho na luta farisaica contra o pecado.<\/strong> Mas todas essas situa\u00e7\u00f5es s\u00e3o oportunidades de nos lembrarmos de que precisamos do messias, porque sem ele, somos todos malditos.<\/p>\n<p>O Evangelho verdadeiro n\u00e3o \u00e9 mediado pelo \u201cmessianismo\u201d do pobre, o \u201cmessianismo\u201d da v\u00edtima do sistema. <em>O sistema \u00e9 sat\u00e2nico, os ofensores s\u00e3o malditos, e suas v\u00edtimas, miser\u00e1veis.<\/em> O Evangelho verdadeiro n\u00e3o \u00e9 mediado pela luta humana contra a injusti\u00e7a humana, pois as nossas justi\u00e7as n\u00e3o passam de trapos de imund\u00edcia. O Evangelho verdadeiro n\u00e3o \u00e9 o evangelho da v\u00edtima, inventado por homens amargos e maquiado intelectualmente pela <em>New Left<\/em>. O Evangelho verdadeiro n\u00e3o diz respeito ao que os homens fazem, ou pensam que fazem, ou pensam que deveriam fazer, ou sentem que deveriam fazer, mas ao que DEUS faz pelos homens, na SUA cruz.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 A \u201cCRUZ DE ESPINAL\u201d, \u201cEVANG\u00c9LICA\u201d?<\/strong><\/p>\n<p>\u201cAlexamenos Adora a Deus\u201d, \u00e9 o que reza a \u201clegenda\u201d no grafite do Palatino, em Roma, datado do s\u00e9culo III A.D. E ali est\u00e1&#8230; um asno crucificado. Um asno! Foi, assim, chamado de \u201cO Grafite Blasfemo\u201d.<\/p>\n<p>Quis o pag\u00e3o ridicularizar o fiel, transmutando o car\u00e1ter o crucificado, e n\u00e3o tanto o sentido da cruz. N\u00e3o \u00e9 um Deus; \u00e9 um asno. Esse que est\u00e1 sobre cruz n\u00e3o \u00e9 isso tudo que pensa e cr\u00ea entre os fi\u00e9is.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2015\/07\/Alexamenos.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"  wp-image-991 alignleft\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2015\/07\/Alexamenos.png\" alt=\"Alexamenos\" width=\"258\" height=\"340\" \/><\/a>Mas, como disse um amigo, o Diabo \u00e9 ambidestro. N\u00e3o h\u00e1 uma \u00fanica forma de enfraquecer a igreja de Jesus. Podemos atacar a mensagem da Cruz diretamente, desavergonhadamente, profanando a imagem do Cristo: \u201cum asno!\u201d. Mas o departamento de contrainforma\u00e7\u00e3o do inferno \u00e9 mais sutil do que isso. Porque n\u00e3o&#8230; enfraquecer a mensagem da Cruz \u201cpor dentro\u201d, correndo o seu sentido por meio das l\u00ednguas, das bocas, das canetas (e, agora, das <em>timelines<\/em>) dos pr\u00f3prios seguidores do Cristo?<\/p>\n<p>Consideremos a cruz de Evo Morales; a cruz, na verdade, do padre Jesu\u00edta espanhol Luis Espinal Camps, covardemente assassinado por um esquadr\u00e3o da morte em 21 de Maio de 1980, sob ordens do ditador de direita Garcia Meza. Segundo o papa Francisco, ele foi morto por \u201cdizer verdades\u201d. Pois o evangelho incomoda.<\/p>\n<p>Seria a morte de Espinal uma morte evang\u00e9lica? Inclino-me a acreditar que sim. Pois se morreu em defesa dos oprimidos, e sofreu imitando a Cristo, e se entregou por saber-se reconciliado por Deus pela \u00fanica v\u00edtima, Jesus Cristo, morreu evangelicamente. Morreu na cruz preparada por um governo ditatorial de direita; lembrou, ent\u00e3o, n\u00e3o apenas que somos todos amaldi\u00e7oados, mas tamb\u00e9m que podemos ser, todos, perdoados e aben\u00e7oados. Se assim foi, bendito seja o padre Espinal. Pe\u00e7o a Deus que me fa\u00e7a digno de desatar a correia de suas sand\u00e1lias na Nova Cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Seria a \u201ccruz de Espinal\u201d uma cruz evang\u00e9lica? N\u00e3o a crucifica\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio Espinal, mas a sua pe\u00e7a art\u00edstica, o assim-chamado \u201ccrucifixo comunista\u201d?<\/p>\n<p>Segundo o presidente Evo Morales, que presenteou o papa Francisco com a escultura, ela seria uma reprodu\u00e7\u00e3o de uma cruz atribu\u00edda a<br \/>\nEspinal, que mostra o Jesus Cristo crucificado sobre a combina\u00e7\u00e3o da Foice com o Martelo \u2013 o s\u00edmbolo da uni\u00e3o entre as for\u00e7as dos trabalhadores campesinos e do operariado, para constituir a for\u00e7a prolet\u00e1ria em luta por justi\u00e7a e pelo socialismo. Esse s\u00edmbolo foi apropriado pelo socialismo marxiano e tornou-se, enfim, o s\u00edmbolo m\u00e1ximo do comunismo internacional.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o causou esp\u00e9cie; embara\u00e7o, risos, den\u00fancias. Foi descrita por um l\u00edder cat\u00f3lico boliviano como uma&#8230; \u201ctravessura\u201d. E que travessura!<\/p>\n<p>A pergunta que se coloca \u00e9 muito clara: \u00e9 a cruz de Espinal uma cruz evang\u00e9lica?<\/p>\n<p>Para ser evang\u00e9lica, deve anunciar a mensagem da cruz; isso \u00e9 muito simples. Sejamos emp\u00e1ticos, ent\u00e3o: aparentemente, Espinal quis associar o sofrimento do Cristo, na cruz, com o sofrimento e a luta dos trabalhadores por justi\u00e7a social. De algum modo, ent\u00e3o, a morte de Cristo na cruz estaria associada \u00e0 vitimiza\u00e7\u00e3o e ao sacrif\u00edcio do trabalhador oprimido pelo capitalismo.<\/p>\n<p>Mas como exatamente seria essa associa\u00e7\u00e3o? N\u00e3o sabemos o que passou pela cabe\u00e7a do sacerdote, como mais de um simpatizante j\u00e1 confessou. Mas podemos fazer hip\u00f3teses. Tenho tr\u00eas:<\/p>\n<p>(1) <em>Poderia ser<\/em> uma den\u00fancia do poder imperial do comunismo internacional, respons\u00e1vel pelo derramamento do sangue de milh\u00f5es de crist\u00e3os; nesse caso, seria uma pe\u00e7a art\u00edstica de significa\u00e7\u00e3o martiriol\u00f3gica. Mas esse n\u00e3o parece ser o caso, j\u00e1 que o padre n\u00e3o era, exatamente, um cr\u00edtico do comunismo; e sua luta hist\u00f3rica era contra uma ditadura de direita. \u00c9 improv\u00e1vel, portanto, a tese martiriol\u00f3gica, que seria interessantemente evang\u00e9lica, embora desagrad\u00e1vel para os simpatizantes do neopopulismo latinoamericano.<\/p>\n<p>(2) <em>Poderia ser<\/em> uma den\u00fancia do poder imperial da direita, que oprime e \u201ccrucifica\u201d o proletariado, assim como crucificou a Cristo. Nesse caso, o Cristo do crucifixo n\u00e3o seria o pr\u00f3prio Cristo, mas um representante do trabalhador vitimizado pelo sistema. Nos termos que explanei acima, esse seria um uso n\u00e3o-evang\u00e9lico e vitimista da cruz.<\/p>\n<p>(3) <em>Poderia ser<\/em> uma den\u00fancia do uso ideol\u00f3gico da cr\u00edtica produzida pelo poder imperial, como forma de justificar a \u201ccrucifica\u00e7\u00e3o\u201d do trabalhador. Em outros termos: o poder imperial de direita emprega o r\u00f3tulo \u201ccomunista!\u201d como forma de achincalhar e desempoderar o discurso e a\u00e7\u00e3o libertadora do proletariado oprimido.<\/p>\n<p>S\u00e3o minhas tr\u00eas hip\u00f3teses. Pessoalmente, gosto muito da terceira; ela tornaria a cruz de Espinal um poderoso s\u00edmbolo contra o uso ideol\u00f3gico do s\u00edmbolo ideol\u00f3gico \u2013 no caso, o que se tornou o s\u00edmbolo do comunismo \u2013 como forma de desqualificar toda e qualquer a\u00e7\u00e3o em nome da justi\u00e7a social ou econ\u00f4mica, ou em defesa do campesinato ou do operariado, ou de recupera\u00e7\u00e3o da dimens\u00e3o social e pol\u00edtica do profetismo B\u00edblico, e posicionamentos semelhantes. Se Espinal pensou nisso, ele foi genial!<\/p>\n<p><em>N\u00e3o h\u00e1 evid\u00eancias disso, no entanto<\/em>; ningu\u00e9m se apresentou com essa interpreta\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de mim, menos ainda tra\u00e7ando-a ao discurso pr\u00f3prio Espinal. Mas esse n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico nem o maior problema da minha hip\u00f3tese preferida: o maior \u00e9, enfim, que nesse caso o s\u00edmbolo n\u00e3o \u00e9 evang\u00e9lico. \u00c9 apenas um jogo simb\u00f3lico pol\u00edtico. O Cristo seria puramente acidental, como quando dizemos que \u201cNeymar foi crucificado\u201d ap\u00f3s alguma declara\u00e7\u00e3o inoportuna. Tratar-se-ia de uma met\u00e1fora, num sentido Ricoeuriano, em que os sentidos anteriores foram quebrados e esmagados, e de sua s\u00edntese emergiu outro sentido. OUTRO sentido: uma den\u00fancia da m\u00e1quina de propaganda da ditadura de direita.<\/p>\n<p>Ora, ficamos, ent\u00e3o, com o sentido mais imediatamente reconhecido pelo populacho, e discutido nas redes sociais: Cristo, o representante do oprimido social, crucificado pela mesma raz\u00e3o que o oprimido \u00e9 crucificado: por lutar por sua liberdade e dignidade, interpretada pela causa socialista.<\/p>\n<p>Se assim for,<strong> a pe\u00e7a n\u00e3o \u00e9 evang\u00e9lica, n\u00e3o \u00e9 realmente crist\u00e3<\/strong>. N\u00e3o seria preciso crer em Cristo como o Cristo de Deus para compor essa met\u00e1fora concreta que \u00e9 o foicefixo. Bastaria admirar a Cristo como exemplo de luta por justi\u00e7a. O Cristo no foicefixo \u00e9 qualquer um que sofre injusti\u00e7a; <em>qualquer um<\/em>. Na verdade, sem o Cristo verdadeiro, o foicefixo poderia ser empregado para afirmar a inoc\u00eancia da v\u00edtima do capital, a classe trabalhadora. Jesus seria mais uma v\u00edtima desse sistema; e s\u00f3. A pe\u00e7a prestar-se-ia, ent\u00e3o, ao messianismo do pobre, que n\u00e3o \u00e9 o verdadeiro Evangelho. Ainda serviria, no entanto, como instrumento de cr\u00edtica pol\u00edtica.<\/p>\n<p><strong>MAS N\u00c3O \u00c9 SIMPLES ASSIM<\/strong><\/p>\n<p>Infelizmente, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples assim. Talvez isso fosse vi\u00e1vel, se a foice com o martelo j\u00e1 n\u00e3o tivessem uma hist\u00f3ria muit\u00edssimo conhecida em todo o mundo ocidental. O s\u00edmbolo foi inocente, na primeira ou na segunda era da Terra M\u00e9dia; mas a terceira Era alterou permanentemente o seu significado. Todos sabemos porque o s\u00edmbolo do comunismo \u00e9 proibido, em pa\u00edses um dia comunistas, como a Pol\u00f4nia, juntamente com a Su\u00e1stica Nazista: \u00e9 porque esses s\u00edmbolos foram cooptados, profanados, indelevelmente marcados e incorporados em programas pol\u00edticos anti-humanistas, genocidas e sat\u00e2nicos, para usar palavras suaves.<\/p>\n<p>O sentimentalismo procurou lembrar a todos de que num passado distante esses s\u00edmbolos significaram outra coisa. \u00c9 verdade; mas a hist\u00f3ria andou. Eles n\u00e3o significam mais o que significavam, porque o mundo n\u00e3o \u00e9 mais aquele. O mundo depois de Lenin, de St\u00e1lin, de Pol Pot, de Mao, de Fidel, do MR8, n\u00e3o acomoda mais a forma pura e inocente (se um dia o foi) da foice e do martelo.<\/p>\n<p>Mas e quanto \u00e0 cruz? N\u00e3o pode ela tamb\u00e9m ter seu sentido ultrapassado? Ora, essa pergunta s\u00f3 \u00e9 aceit\u00e1vel na boca de um pag\u00e3o. Que nenhum Crist\u00e3o ouse faz\u00ea-la; pois \u201co Cordeiro de Deus foi morto antes da funda\u00e7\u00e3o do mundo\u201d. A cruz de Cristo (sempre entendida como \u201cCristo, e este crucificado\u201d, e nunca apenas dois paus cruzados) \u00e9 um fato hist\u00f3rico singular, ancorado na eternidade; \u00e9 um ato de Deus, n\u00e3o um projeto dos homens. Ela est\u00e1 na hist\u00f3ria, mas \u00e9 TRANSIST\u00d3RICA. Por isso, n\u00e3o passa, como aquele que faz a vontade de Deus, e permanece para sempre.<\/p>\n<p>Por outro lado, a finitude e \u00a0determina\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do s\u00edmbolo do comunismo \u00e9, ainda, incontorn\u00e1vel. A aberra\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, ainda que &#8220;bem intencionada&#8221; de Espinal n\u00e3o tem a pot\u00eancia de quebrar esse condicionamento hist\u00f3rico e nos fazer esquecer do grotesco que foi e que \u00a0brotou dessa religi\u00e3o secular. Irritam-se os simpatizantes de Morales que os milh\u00f5es mortos pelo comunismo sejam sempre lembrados, mas n\u00e3o \u00e9 assim que se trata uma mem\u00f3ria dolorida com esta &#8211; com a nega\u00e7\u00e3o. O fundo hist\u00f3rico que acompanha este s\u00edmbolo \u00e9 pesado demais para que Espinal efetive com sucesso uma s\u00edntese pl\u00e1stica com a mensagem Crist\u00e3. A verdade \u00e9 que a cruz de Espinal se aproxima, demais, de um s\u00edmbolo amb\u00edguo, \u00fatil para confundir o Crist\u00e3o sobre a rela\u00e7\u00e3o entre a f\u00e9 e o Comunismo. Mas essa confus\u00e3o n\u00e3o pode ser feita. Aqui Franklin Ferreira trouxe \u00e0 mem\u00f3ria a <a href=\"http:\/\/w2.vatican.va\/content\/pius-xi\/pt\/encyclicals\/documents\/hf_p-xi_enc_19370319_divini-redemptoris.html\" target=\"_blank\">enc\u00edclica DIVINIS REDEMPTORIS de Pio XI (1938)<\/a>:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cA doutrina comunista que em nossos dias se apregoa, de modo muito mais acentuado que outros sistemas semelhantes do passado, apresenta-se sob a m\u00e1scara de reden\u00e7\u00e3o dos humildes. E um pseudo-ideal de justi\u00e7a, de igualdade e de fraternidade universal no trabalho de tal modo impregna toda a sua doutrina e toda a sua atividade dum misticismo hip\u00f3crita, que as multid\u00f5es seduzidas por promessas falazes e como que estimuladas por um cont\u00e1gio violent\u00edssimo lhes comunica um ardor e entusiasmo irreprim\u00edvel, o que \u00e9 muito mais f\u00e1cil em nossos dias, em que a pouco eq\u00fcitativa reparti\u00e7\u00e3o dos bens deste mundo d\u00e1 como conseq\u00fc\u00eancia a mis\u00e9ria anormal de muitos. Proclamam com orgulho e exaltam at\u00e9 esse pseudo-ideal, como se dele se tivesse originado o progresso econ\u00f4mico, o qual, quando em alguma parte \u00e9 real, tem explica\u00e7\u00e3o em causas muito diversas, como, por exemplo, a intensifica\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o industrial, introduzida em regi\u00f5es que antes nada disso possu\u00edam, a valoriza\u00e7\u00e3o de enormes riquezas naturais, exploradas com imensos lucros, sem o menor respeito dos direitos humanos, o emprego enfim da coa\u00e7\u00e3o brutal que dura e cruelmente for\u00e7a os oper\u00e1rios a pesad\u00edssimos trabalhos com um sal\u00e1rio de mis\u00e9ria.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Chega muito perto do cinismo, se for mais do que ingenuidade ou sentimentalismo ideol\u00f3gico, a tentativa de ignorar esse fato incontorn\u00e1vel da hist\u00f3ria moderna para recuperar o substrato v\u00e1lido do s\u00edmbolo comunista, enterrado sob camadas e camadas de injusti\u00e7a, corrup\u00e7\u00e3o e mortic\u00ednio, para torna-lo \u2013 justamente ele \u2013 uma releitura da cruz do Cristo. Quem compreenderia essa sutileza art\u00edstica? Os trabalhadores? Bem, eles n\u00e3o entenderam nada. De minha limitada perspectiva, com a exce\u00e7\u00e3o daqueles j\u00e1 ideologicamente doutrinados, o povo fez para o crucifixo a mesma cara que fez o Papa Francisco.<\/p>\n<p><strong>O CRISTO SUPERESTRUTURAL<\/strong><\/p>\n<p>Mas era isso diferente bem antes da travessura de Evo Morales, quando o querido m\u00e1rtir supostamente comp\u00f4s a pe\u00e7a? Precisamos reconhecer: n\u00e3o. A essa altura o <em>gulag<\/em> j\u00e1 era um fato p\u00fablico, que nem o contexto violento e opressor das ditaduras latino-americanas poderia eliminar. Deveria Espinal ter usado esse s\u00edmbolo manchado do sangue crist\u00e3o? N\u00e3o; e n\u00e3o queremos dizer, com isso, que ele deveria ter empregado um s\u00edmbolo \u201cdo capital\u201d. Na verdade, ele n\u00e3o deveria ter invertido de forma alguma a rela\u00e7\u00e3o entre o Cristo e a cruz, a V\u00edtima divinamente estabelecida e as v\u00edtimas\/ofensores humanos, pois n\u00e3o se combate os Ass\u00edrios colocando a confian\u00e7a nos Eg\u00edpcios. \u00c9 idolatria aderir ao socialismo para livrar-se do \u00eddolo capitalista, pois o socialismo e o capitalismo s\u00e3o, ambos, filhos bastardos\u00a0do Cristianismo, quando \u00a0este se deitou com a ideologia prometeica\u00a0do progresso humano, a imanentiza\u00e7\u00e3o da Esperan\u00e7a Crist\u00e3. Os devotos religiosos e morais desses \u201cismos\u201d, o <em>capitalismo<\/em> e o <em>socialismo<\/em> \u2013 o \u00eddolo e o contra-\u00eddolo \u2013 <em>cridos como meios necess\u00e1rios e divinos para a reden\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do homem<\/em> est\u00e3o, ambos, jantando com o Diabo. Mesmo que sejam membros de igrejas.<\/p>\n<p>A g\u00eanese do erro n\u00e3o est\u00e1, portanto, em Evo Morales; ela vai at\u00e9 o padre Espinal, que independentemente de suas inten\u00e7\u00f5es (e reitero meus respeitos ao homem), construiu um artefato simb\u00f3lico intrinsecamente problem\u00e1tico, intrinsecamente amb\u00edguo, em todos sentidos: tanto do ponto de vista imanente, j\u00e1 que falha miseravelmente em vencer e ressignificar o s\u00edmbolo do comunismo, quanto do ponto de vista transcendente, pois anuncia o evangelho da vitimiza\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o o evangelho do Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. A cruz de Espinal n\u00e3o \u00e9 uma cruz evang\u00e9lica. \u00c9 uma cruz ideol\u00f3gica, uma aberra\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica; \u00e9 um artefato problem\u00e1tico, que deseja unir Cristo e a luta social, mas o faz ao custo de sobrepor o crucificado \u00e0 uma base her\u00e9tica e viciada. O crucificado, ali, n\u00e3o \u00e9 o mesmo Cristo da B\u00edblia e da f\u00e9; \u00e9 um Cristo marxiano cl\u00e1ssico, o Cristo da superestrutura, o Cristo superposto a uma estrutura que o sustenta e o interpreta, que \u00e9&#8230; a ideologia.<\/p>\n<p>A dificuldade foi definitivamente expressa pelo colega Rodolfo Amorim, de modo que reproduzo aqui seu coment\u00e1rio, na \u00edntegra (feito no dia 10\/07):<\/p>\n<blockquote><p>Se Espinal fez rela\u00e7\u00f5es entre liberta\u00e7\u00e3o de pobres e comunismo, dever\u00edamos como crist\u00e3os t\u00ea-lo auxiliado a ler a realidade, n\u00e3o? Ou \u00e0queles que conhecem a aberra\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica por ele produzida. N\u00e3o foi este comunismo que dizimou dezenas de milh\u00f5es? N\u00e3o foi ele que roubou das pessoas at\u00e9 sua consci\u00eancia privada, algo custosamente sacralizado pelos crist\u00e3os? N\u00e3o foi ele que tirou de seus s\u00faditos qualquer direito, a ponto de ser denunciado como o regime mais opressor da hist\u00f3ria? Portanto, n\u00e3o vejo coer\u00eancia alguma, seja no s\u00edmbolo criado por Espinal (n\u00e3o julgo sua vida, mas esta sua obra, ou fruto, espec\u00edfico) ou na atitude do Evo Morales por presentear um Chefe de Estado de, talvez, a representa\u00e7\u00e3o com mais membros perseguidos pelo pr\u00f3prio sistema comunista (\u00e9 s\u00f3 ler os relatos dos pa\u00edses do leste europeu com maioria cat\u00f3lica e as persegui\u00e7\u00f5es e assassinatos sistem\u00e1ticos feitos por aqueles a estes). Por isso, mesmo exagerando, comparo o ocorrido \u00e0 imagem de um poss\u00edvel judeu confuso que talhou uma su\u00e1stica de metal com o s\u00edmbolo da estrela do Rei Davi, talvez o judeu fosse confuso em unir estes dois s\u00edmbolos irreconcili\u00e1veis. Talvez fosse um ex-judeu. Talvez tivesse perdido a raz\u00e3o. Mas o fato \u00e9, se um l\u00edder de Estado presenteasse um chefe de estado de Israel com este s\u00edmbolo, n\u00e3o haveria um, e digo com toda certeza, um judeu, que tentasse &#8220;explicar&#8221; aos incautos o motivo de tal aberra\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica do confuso judeu-nazista. Mas com os crist\u00e3os, n\u00e3o. Eles ainda v\u00eaem a foice e o martelo e evocam imagens de liberta\u00e7\u00e3o, de luta pelo pobre. \u00c9 isso que me preocupa. Falta de coer\u00eancia doutrin\u00e1ria interna e aus\u00eancia de consci\u00eancia hist\u00f3rica de muitos crist\u00e3os.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>QUEM ENGOLIU UM CAMELO?<\/strong><\/p>\n<p>A princ\u00edpio, diverti-me bastante com a situa\u00e7\u00e3o. Pareceu-me c\u00f4mica, principalmente pela express\u00e3o incr\u00e9dula do Papa Francisco. Mas meu sorriso rapidamente se desvaneceu, quando vi irm\u00e3os conhecidos, ligados \u00e0 ABU, \u00e0 Rede Fale, \u00e0 Renas, \u00e0 Vis\u00e3o Mundial, \u00e0 FTL, a diversas igrejas, e a outros movimentos evang\u00e9licos, defendendo calmamente a cruz de Espinal e o ato pol\u00edtico de Evo Morales.<\/p>\n<p>A naturalidade com que estes amigos aderiram festivamente \u00e0 travessura de Morales revelou, de novo, o que a ala ainda s\u00f3bria da teologia evang\u00e9lica Brasileira j\u00e1 notou h\u00e1 muito tempo: o Cristo de parte do progressismo evang\u00e9lico nada mais \u00e9, hoje, do que um Cristo superestrutural.<\/p>\n<p>N\u00e3o penso que estou coando mosquitos, aqui. Estou, francamente, tentando arrancar esse enorme camelo que a esquerda evang\u00e9lica engoliu, e que est\u00e1 parado em sua garganta. Esse camelo vai mata-los. J\u00e1 est\u00e1 os matando. Mas eles n\u00e3o querem se arrepender. N\u00e3o querem. \u00c9 bem poss\u00edvel que morram espiritualmente, entalados com o \u00eddolo ideol\u00f3gico, do qual o evento da cruz de Espinal \u00e9 apenas a manifesta\u00e7\u00e3o mais inocentemente p\u00fablica.<\/p>\n<p>N\u00e3o sou alarmista, nem julgo injustamente os irm\u00e3os. Lembro aos leitores que a mesma ala que defendeu a crucifica\u00e7\u00e3o Trans, na \u00faltima parada LGBT, e n\u00e3o viu nenhuma profana\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, \u00e9 a que n\u00e3o viu agora nenhuma profana\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, numa surpreendente demonstra\u00e7\u00e3o de falta de escr\u00fapulos religiosos.<\/p>\n<p>Ora, \u00e9 muito clara, aqui, a opera\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica: a cruz, para esses irm\u00e3os, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o mist\u00e9rio do evangelho, j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 ancorada no eterno, j\u00e1 n\u00e3o anuncia o evento singular que foi a morte do Cordeiro de Deus; ela \u00e9 um s\u00edmbolo abstrato da vitimiza\u00e7\u00e3o por sistemas injustos, que pode ser amplamente empregada em qualquer situa\u00e7\u00e3o de vitimiza\u00e7\u00e3o e, num passe de m\u00e1gica, aquela situa\u00e7\u00e3o se torna Crist\u00e3, se torna uma revela\u00e7\u00e3o do evangelho, e a luta social \u00e9 instantaneamente convertida, batizada, e crismada. Quando eu era crian\u00e7a, via isso acontecer todas as manh\u00e3s pela tev\u00ea: a te\u00f3loga era a boneca Em\u00edlia, e a magia vinha do seu p\u00f3-de-Pirlimpimpim.<\/p>\n<p>Infelizmente, esses irm\u00e3os n\u00e3o s\u00e3o mais amigos da verdadeira cruz de Cristo, mas de uma mistifica\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica; fazendo a igreja deitar-se no &#8220;leito&#8221; da cruz para dormir com outro Cristo &#8211; a ideologia de g\u00eanero, ou o marxismo &#8211; e louvando desavergonhadamente o adult\u00e9rio. Me digam amigos: n\u00e3o \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o similar \u00e0 do bezerro de ouro de Aar\u00e3o, um s\u00edmbolo sincr\u00e9tico para representar Iahweh de forma &#8220;contextualizada&#8221; (ou seja, com a forma de Baal) na AUS\u00caNCIA de Mois\u00e9s (a profecia)? N\u00e3o temos aqui uma blasf\u00eamia, muito mais sutil do que o grafite blasfemo contra Alexamenos, mas ainda assim, mortal?<\/p>\n<p><strong>O NOVO BEZERRO DE OURO<\/strong><\/p>\n<p>E \u00e9 assim que a cruz do Cristianismo (n\u00e3o a cruz de Cristo, a verdadeira) tornou-se, nas m\u00e3os do progressismo evang\u00e9lico e cat\u00f3lico, um bezerro de ouro. H\u00e1 uma distante refer\u00eancia hist\u00f3rica, ao Deus que tirou o povo do Egito&#8230; e s\u00f3. No mais, \u00e9 uma divindade progressista; ela nos prepara para enfrentar o que h\u00e1 diante, Cana\u00e3; \u00e9 um deus com o rosto das divindades locais, com o rosto de Baal-Peor.<\/p>\n<p>Sobre esse perigo da ideologiza\u00e7\u00e3o id\u00f3latra da f\u00e9 Crist\u00e3, n\u00e3o foi \u00a0ningu\u00e9m sen\u00e3o o pr\u00f3prio Papa Francisco quem nos presenteou com uma advert\u00eancia muito contempor\u00e2nea e pertinente, tratando esse erro como a PRIMEIRA tenta\u00e7\u00e3o do discipulado mission\u00e1rio. Cito o trecho de \u00a0Jonas Madureira:<\/p>\n<blockquote><p>Talvez seja interessante lembrarmos tamb\u00e9m das palavras do pr\u00f3prio Papa Francisco, quando veio ao Brasil por ocasi\u00e3o da XXVIII Jornada Mundial da Juventude, no audit\u00f3rio do Centro de Estudos do Sumar\u00e9, Rio de Janeiro, Domingo, 28 de Julho de 2013:<\/p>\n<p>&#8220;ALGUMAS TENTA\u00c7\u00d5ES CONTRA O DISCIPULADO MISSION\u00c1RIO (&#8230;) 1. A ideologiza\u00e7\u00e3o da mensagem evang\u00e9lica. \u00c9 uma tenta\u00e7\u00e3o que se verificou na Igreja desde o in\u00edcio: procurar uma hermen\u00eautica de interpreta\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica fora da pr\u00f3pria mensagem do Evangelho e fora da Igreja. Um exemplo: a dado momento, Aparecida sofreu essa tenta\u00e7\u00e3o sob a forma de \u201cassepsia\u201d . Foi usado, e est\u00e1 bem, o m\u00e9todo de \u201cver, julgar, agir\u201d (cf. n.\u00ba 19). A tenta\u00e7\u00e3o se encontraria em optar por um &#8220;ver&#8221; totalmente ass\u00e9ptico, um \u201cver\u201d neutro, o que n\u00e3o \u00e9 vi\u00e1vel. O ver \u00e9 sempre influenciado pelo olhar. N\u00e3o h\u00e1 uma hermen\u00eautica ass\u00e9ptica. Ent\u00e3o a pergunta era: Com que olhar vamos ver a realidade? Aparecida respondeu: Com o olhar de disc\u00edpulo. Assim se entendem os n\u00fameros 20 a 32. Existem outras maneiras de ideologiza\u00e7\u00e3o da mensagem e, atualmente, aparecem na Am\u00e9rica Latina e no Caribe propostas desta \u00edndole. Menciono apenas algumas: a) O reducionismo socializante. \u00c9 a ideologiza\u00e7\u00e3o mais f\u00e1cil de descobrir. Em alguns momentos, foi muito forte. Trata-se de uma pretens\u00e3o interpretativa com base em uma hermen\u00eautica de acordo com as ci\u00eancias sociais. Engloba os campos mais variados, desde o liberalismo de mercado at\u00e9 \u00e0s categoriza\u00e7\u00f5es marxistas. (&#8230;)&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>Mas alguns de nossos te\u00f3logos, pastores, e militantes sociais evang\u00e9licos, tal qual Aar\u00e3o, querem escapar a essa responsabilidade: \u201clancei o ouro no fogo, e saiu este bezerro!\u201d Mas n\u00e3o foi o \u201cfogo\u201d o que plasmou o messianismo do pobre e o evangelho do ressentimento. Foi o trabalho teol\u00f3gico de te\u00f3logos latino-americanos, que plausibilizaram o Cristo superestrutural com o emprego acr\u00edtico de \u201cmedia\u00e7\u00f5es socioanal\u00edticas\u201d, e de te\u00f3logos evang\u00e9licos Brasileiros que, quando n\u00e3o promoveram essa releitura abertamente, deram sua anu\u00eancia t\u00e1cita, evadindo-se de condenar o que precisa ser condenado.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que o \u201crosto\u201d desse novo \u00eddolo n\u00e3o \u00e9 o de um Bezerro, literalmente; ou de um Asno. Ainda assim, n\u00e3o \u00e9 o rosto do pr\u00f3prio Deus. \u00c9 uma forma mais sutil, mas poss\u00edvel, de idolatria: o culto da imagem do homem corrupt\u00edvel \u2013 no caso, o culto da v\u00edtima do sistema:<\/p>\n<blockquote><p>porque, mesmo tendo conhecido a Deus, n\u00e3o o glorificaram como Deus, nem lhe deram gra\u00e7as; pelo contr\u00e1rio, tornaram-se f\u00fateis nas suas especula\u00e7\u00f5es, e o seu cora\u00e7\u00e3o insensato se obscureceu. Dizendo-se s\u00e1bios, tornaram-se loucos e substitu\u00edram a gl\u00f3ria do Deus incorrupt\u00edvel por imagens semelhantes ao homem corrupt\u00edvel, \u00e0s aves, aos quadr\u00fapedes e aos r\u00e9pteis. (Romanos 1.21-23)<\/p><\/blockquote>\n<p>H\u00e1 tempos discutimos se h\u00e1, ou n\u00e3o, idolatria no meio do progressismo evang\u00e9lico. O fato, no entanto, \u00e9 que as evid\u00eancias disso se multiplicam. A \u00faltima, muito clara, \u00e9 esse Cristo superestrutural, a v\u00edtima abstrata que se torna um s\u00edmbolo messi\u00e2nico aut\u00f4nomo em rela\u00e7\u00e3o ao Cristo hist\u00f3rico; que n\u00e3o \u00e9 como o Asno de Alexamenos, mas \u00e9 outro Cristo, ainda assim. E qualquer \u201coutro\u201d Cristo, \u00e9 um anticristo: parece-se, realmente, com o Cristo; seu culto evoca piedade, sua imagem comove e inspira; mas \u00e9 um dem\u00f4nio.<\/p>\n<p>Esse \u00e9, ent\u00e3o, o problema revelado no caso da cruz de Espinal: \u00e9 que o Diabo imiscuiu-se no progressismo evang\u00e9lico, convencendo-o de imanentizar e temporalizar a f\u00e9 Crist\u00e3 por meio de media\u00e7\u00f5es socioanal\u00edticas ap\u00f3statas e, sem seguida, adorar um outro Cristo, crucificado numa outra cruz, como se fosse o Cristo de Deus.<\/p>\n<p><strong>O QUE O PROGRESSISMO EVANG\u00c9LICO PRECISA FAZER<\/strong><\/p>\n<p>O que pensei ao iniciar este par\u00e1grafo foi o mesmo que a maior parte dos leitores: quem sou eu para dizer o que o progressismo evang\u00e9lico precisa fazer? N\u00e3o sou ningu\u00e9m. Mas vou dizer assim mesmo. Se voc\u00eas se consideram como Davi, e n\u00e3o me acham nem um pouco parecido com Nat\u00e3, tomem-me como um Simei, e me ou\u00e7am, por favor:<\/p>\n<p>N\u00e3o proponho que os irm\u00e3os abandonem teses de economia pol\u00edtica, por exemplo; se tornem de direita, que abracem as teses de Hayek e de Von Mises, ou que se tornem ouvintes de Olavo de Carvalho. N\u00e3o proponho que abracem a tese do estado m\u00ednimo, ou que votem no PSDB. Alguns poderiam pensar que essa \u00e9 a minha agenda oculta: pois saibam que n\u00e3o \u00e9 nada disso. Para esc\u00e2ndalo de todos, como j\u00e1 confessei antes, tenho, por exemplo, simpatias por Keynes. N\u00e3o \u00e9 disso que estou falando: trocar um \u00eddolo por outro. O que proponho \u00e9 que se obede\u00e7a \u00e0 voz apost\u00f3lica:<\/p>\n<blockquote><p>O vosso orgulho n\u00e3o \u00e9 bom. N\u00e3o sabeis que um pouco de fermento faz com que toda a massa fique fermentada? Removei o fermento velho, para que sejais massa nova sem fermento, assim como, de fato, sois. Porque Cristo, nosso cordeiro da P\u00e1scoa, j\u00e1 foi sacrificado. Portanto, celebremos a festa, n\u00e3o com fermento velho, nem com fermento da maldade e da corrup\u00e7\u00e3o, mas com os p\u00e3es sem fermento da sinceridade e da verdade.<br \/>\nJ\u00e1 vos escrevi por carta que n\u00e3o vos associ\u00e1sseis com os imorais. N\u00e3o me referia aos imorais deste mundo, nem aos avarentos, ladr\u00f5es ou id\u00f3latras. Nesse caso, seria necess\u00e1rio que sa\u00edsseis do mundo. Mas agora vos escrevo que n\u00e3o vos associeis com aquele que, dizendo-se irm\u00e3o, for imoral ou ganancioso, id\u00f3latra ou caluniador, b\u00eabado ou ladr\u00e3o. Com esse homem n\u00e3o deveis nem sequer comer.<br \/>\nPois, que me importa julgar os que s\u00e3o de fora? N\u00e3o julgais v\u00f3s os que s\u00e3o de dentro? Mas Deus julga os que s\u00e3o de fora. Expulsai esse imoral do vosso meio. (1Cor\u00edntios 5.6-13)<\/p><\/blockquote>\n<p>Esta \u00e9, portanto, a minha advert\u00eancia aos irm\u00e3os da \u201cvelha guarda\u201d da Miss\u00e3o Integral, que me perguntam \u201cde que lado voc\u00ea est\u00e1, Guilherme?\u201d, e que se confessam, ao mesmo tempo, horrorizados com os descaminhos da teologia evang\u00e9lica latino-americana e de movimentos Crist\u00e3os amb\u00edguos do ponto de vista da identidade cat\u00f3lica e evang\u00e9lica. Esta \u00e9 a minha advert\u00eancia: disciplinem suas fileiras. Disciplinem espiritualmente e confessionalmente o seu movimento. Cortem na sua pr\u00f3pria carne. Provem que voc\u00eas amam mais a verdade do que a sobreviv\u00eancia pol\u00edtica e do que os abra\u00e7os de sua juventude colonizada pela USP, pela UFRJ ou pela UNICAMP. Parem de desviar aten\u00e7\u00e3o de seus pecados para os pecados da direita evang\u00e9lica &#8211; a hora dela tamb\u00e9m chegar\u00e1, mas n\u00e3o cabe a voc\u00eas ocupar-se disso &#8211; ou o seu movimento estar\u00e1 morto e enterrado espiritualmente em menos de uma gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E, por sua culpa, a massa do movimento evang\u00e9lico ser\u00e1 alienada da Miss\u00e3o Integral \u2013 por sua culpa! \u2013 e engolida por homens como Silas Malafaia. Por sua culpa! Porque voc\u00eas foram pusil\u00e2nimes teologicamente; porque acobertaram a idolatria ideol\u00f3gica de seus jovens, como Davi acobertou os pecados de Absal\u00e3o, e como Eli acobertou os pecados de seus filhos \u00edmpios. E voc\u00eas n\u00e3o ser\u00e3o conhecidos como a igreja que se tornou integral, mas como a igreja que morreu entalada com o camelo da ideologia de esquerda.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; O que se segue \u00e9 a minha reflex\u00e3o sobre o caso da \u201cCruz de Espinal\u201d e, particularmente, da tremenda confus\u00e3o hermen\u00eautica e teol\u00f3gica que ela se mostrou para muitos crist\u00e3os brasileiros. \u00c9 tamb\u00e9m uma advert\u00eancia ao progressismo evang\u00e9lico, tendo em vista suas condi\u00e7\u00f5es de sobreviv\u00eancia para o futuro. 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