{"id":971,"date":"2015-06-26T14:51:41","date_gmt":"2015-06-26T17:51:41","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/?p=971"},"modified":"2015-07-14T03:02:09","modified_gmt":"2015-07-14T06:02:09","slug":"sobre-o-dilema-estetico-sentimental-da-politica-evangelica-contemporanea","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/2015\/06\/26\/sobre-o-dilema-estetico-sentimental-da-politica-evangelica-contemporanea\/","title":{"rendered":"Sobre o Dilema Est\u00e9tico-Sentimental da Pol\u00edtica Evang\u00e9lica Contempor\u00e2nea"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Escrevo a contragosto, arrancado do meu ex\u00edlio\u00a0blogosf\u00e9rico pela for\u00e7a das circunst\u00e2ncias. Deveria estar agora trabalhando em meu livro encomendado em eras passadas, inacabado e, aparentemente, inacab\u00e1vel. Mas \u00e9 dura cousa golpear os aguilh\u00f5es do processo hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Para encurtar, lancemo-nos diretamente ao assunto, introduzido de forma pedante no t\u00edtulo por uma absoluta falta de imagina\u00e7\u00e3o nessa tarde fria de sexta feira: afirmo que o problema da pol\u00edtica evang\u00e9lica hoje \u00e9 um problema est\u00e9tico; um problema de <strong>aisthesis<\/strong>, de dist\u00farbios de percep\u00e7\u00e3o e de efeito sentimental, que ocultam uma fragilidade mais profunda: a falta da fonte verdadeira dos sentimentos verdadeiros, que \u00e9 a beleza verdadeira, a que nasce da uni\u00e3o entre o bem e a verdade.<br \/>\n<!--more--><br \/>\n&nbsp;<\/p>\n<p><strong>DOIS EVANGELICISMOS POL\u00cdTICOS<\/strong><br \/>\nAssisti ontem a dois v\u00eddeos emblem\u00e1ticos. O primeiro, publicado pela Carta Capital (<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=CFWqcovXyGA\" target=\"_blank\">VEJA AQUI<\/a>), mostra alguns l\u00edderes Crist\u00e3os bastante conhecidos, como Ed Ren\u00e9 Kivitz, Levi Correa e o Deputado Carlos Alberto Bezerra explicando ao p\u00fablico estupefato da TV Carta que os evang\u00e9licos n\u00e3o s\u00e3o todos iguais: h\u00e1 evang\u00e9licos progressistas que compreendem as complexidades da vida moderna, que s\u00e3o pluralistas e dial\u00f3gicos e, acima de tudo, que n\u00e3o devem ser confundidos com a \u201cbancada evang\u00e9lica\u201d, a famigerada corja fundamentalista e (na maioria) neopentecostal que se apossou da representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do protestantismo nos \u00faltimos anos. No conjunto, o v\u00eddeo constitui um ato pol\u00edtico pedag\u00f3gico ou educacional, visando publicizar diverg\u00eancias pol\u00edticas dentro da comunidade evang\u00e9lica; seu interesse parece duplo: (a) proteger a respeitabilidade p\u00fablica do evangelicismo progressista e, quem sabe, de quebra, da f\u00e9 evang\u00e9lica; e (b) agremiar e capitalizar o setor mais progressista da igreja evang\u00e9lica, hoje bastante \u201c\u00f3rf\u00e3o\u201d ou, ao menos, abandonado diante do crescente avan\u00e7o do neopentecostalismo fundamentalista.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O segundo v\u00eddeo, gravado pela TV C\u00e2mara ontem (<a href=\"http:\/\/oglobo.globo.com\/sociedade\/em-debate-na-camara-malafaia-toni-reis-divergem-sobre-conceito-de-familia-16556652\" target=\"_blank\">VEJA NOTA AQUI<\/a>), mostra mais uma fa\u00e7anha do exc\u00eantrico e impag\u00e1vel Silas Malafaia. Poderia ser uma com\u00e9dia, se o assunto n\u00e3o fosse t\u00e3o grave. No v\u00eddeo o pastor, \u00edcone, para as esquerdas, da bancada \u201cBBB\u201d (B\u00edblia, Bala e Boi) submete as ideias da deputada esquerdista Erika Kokay a um impiedoso escrut\u00ednio p\u00fablico, mostrando as inconsist\u00eancias manipulativas de seu discurso, sua flagrante inconstitucionalidade, sua depend\u00eancia da inger\u00eancia do ativismo judici\u00e1rio brasileiro sobre o legislativo, e sua vis\u00e3o distorcida sobre a laicidade do Estado, que faria do legislativo uma casa laicizante \u2013 sonho imposs\u00edvel e perverso, como apontou o pastor, j\u00e1 que a casa representa toda a sociedade em sua pluralidade, incluindo, com isso, as popula\u00e7\u00f5es religiosas. A deputada abandona o plen\u00e1rio a certa altura, enquanto as express\u00f5es de apoio ao BBB e a chacota \u00e0 dignit\u00e1ria humilhada em p\u00fablico transformam o lugar em um campo de futebol. Fragorosa derrota.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>&#8220;O BELO, O FEIO E O MAU&#8221;*<\/strong><br \/>\nO problema \u00e9 notoriamente est\u00e9tico. N\u00e3o apenas isso, naturalmente; mas \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o observar a trama est\u00e9tica que se desenha. O pastor Silas Malafaia \u00e9 um desastre est\u00e9tico; fere a percep\u00e7\u00e3o; \u00e9 iracundo, agressivo, gritando atropeladamente seus argumentos com aquela vozinha desesperadamente irritante, sem pausas, sem nuances, sem pedir aten\u00e7\u00e3o, gesticulando loucamente, como se estivesse em um bate-boca de adolescentes no intervalo da escola. Uma coisa horrorosa.<\/p>\n<p>Horrorosa, sim; mas s\u00f3 ouvi verdades. N\u00e3o humilhou Erika Kokay porque foi indelicado, ofensivo ou estridente, mas porque exp\u00f4s a hipocrisia biopol\u00edtica da esquerda. Exp\u00f4s sua perversa inten\u00e7\u00e3o de contornar inst\u00e2ncias menores da estrutura social \u2013 a fam\u00edlia, acima de tudo \u2013 para atingir diretamente a crian\u00e7a e o adolescente atrav\u00e9s da prega\u00e7\u00e3o politicamente correta de um estado aparelhado pela ideologia de g\u00eanero (que alguns \u201cevang\u00e9licos\u201d a servi\u00e7o sabe-se l\u00e1 de quem, insistem em negar). Um amigo disse que Malafaia \u201cmitou\u201d. Mitou mesmo, meus amigos; odeio admiti-lo, pois odeio a teologia da prosperidade pregada e praticada por esse indiv\u00edduo, mas&#8230; <em>Noblesse Oblige<\/em>.<\/p>\n<p>Mesmo assim, foi feio, desagrad\u00e1vel, indigesto; esteticamente desastroso. Nesse sentido, a fala do Pastor Levi Correia no v\u00eddeo da Carta Capital \u00e9 mais do que iluminadora:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cde repente se juntam, formam uma tal de uma bancada da b\u00edblia, que junto com a bala, que junto com a bancada do boi, que junto com a bancada da jaula, formam a bancada mais horrorosa que esse pa\u00eds j\u00e1 teve, e o pior: com batuta de camarada que se diz evang\u00e9lico&#8230;\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Claro, claro, o termo \u201chorrorosa\u201d, aqui, tem o sentido de uma analogia est\u00e9tica; \u00e9 como quando dizemos que \u201co fulano teve uma vida bonita\u201d, querendo com isso dizer que foi uma vida \u00e9tica e coerente. A bancada \u00e9 horrorosa porque \u00e9 imoral, ou injusta, ou perversa.<\/p>\n<p>Mas isso est\u00e1 claro? De jeito nenhum. A bancada mais horrorosa que o pa\u00eds j\u00e1 teve n\u00e3o \u00e9 a bancada da B\u00edblia; ou melhor: talvez ela seja a mais horrorosa, mas isso \u00e9 insuficiente. A feiura \u00e9 a despropor\u00e7\u00e3o, a desarmonia; muitas coisas podem tornar algo horroroso; entre elas, o desarranjo de uma coisa bela for\u00e7ada entre coisas feias. A bancada da B\u00edblia pode ser horr\u00edvel porque h\u00e1 uma desarmonia entre suas bandeiras e o seu comportamento; ou pode ser horr\u00edvel porque suas bandeiras s\u00e3o todas horrorosas; ou pode ser horr\u00edvel porque n\u00e3o combina com a est\u00e9tica pol\u00edtica da esquerda.<\/p>\n<p>Mas sem d\u00favida h\u00e1 coisas igualmente ou at\u00e9 mais horrorosas do que a bancada da b\u00edblia, no circo de horrores da pol\u00edtica Brasileira. Por exemplo: o governo petista tem se tornado uma das coisas mais feias que o pa\u00eds j\u00e1 viu. Lula virou o sapo-barbudo de novo. E os evang\u00e9licos progressistas que apoiaram o avan\u00e7o recente da esquerda, est\u00e3o, em sua incr\u00edvel recalcitr\u00e2ncia, virando sapos tamb\u00e9m, um a um \u2013 pelo menos do ponto de vista do evangelicismo e do catolicismo conservador. A esquerda perdeu grande parte da sua \u201cbeleza\u201d nos \u00faltimos meses, e a feiura da coniv\u00eancia e do sil\u00eancio est\u00e1 ferindo os olhos e ouvidos at\u00e9 dos mais simp\u00e1ticos.<\/p>\n<p>Feiuras sem fim. Sabe aquele rosto que parece bonito mas nos \u00e9 desagrad\u00e1vel, e n\u00e3o sabemos dizer exatamente porqu\u00ea? \u00c9 o caso do progressismo evang\u00e9lico. \u00c9 dif\u00edcil dizer aonde est\u00e1 a despropor\u00e7\u00e3o, mas ela est\u00e1 l\u00e1: no sil\u00eancio conveniente sobre o casamento igualit\u00e1rio, sobre a ideologia de g\u00eanero na escola, sobre o desempoderamento familiar, sobre o desaparecimento progressivo da justi\u00e7a retributiva, sobre o aparelhamento ideol\u00f3gico da juventude (evang\u00e9lica inclusive), sobre a aus\u00eancia de direitos para nascituro, sobre o livre emprego do obsceno para for\u00e7ar a conflitividade social, sobre a coloniza\u00e7\u00e3o da sociedade civil pelo estado atrav\u00e9s dos \u201cnovos movimentos sociais\u201d, sobre o desprezo consumado pela ortodoxia teol\u00f3gica (como se toda ortodoxia fosse \u201cfeia e sem amor\u201d, nas rid\u00edculas par\u00f3dias de Schaeffer que repetidas por estudantes que o desprezam), sobre o enfraquecimento ideologicamente orientado das institui\u00e7\u00f5es republicanas, sobre a cobi\u00e7a pelo controle da imprensa, sobre o ativismo do STF, sobre o batismo da luta de classes dentro da igreja evang\u00e9lica, em nome da \u201csede de justi\u00e7a\u201d, sobre a persegui\u00e7\u00e3o, dentro das institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, contra oponentes do PT, sobre a coniv\u00eancia diplom\u00e1tica do Brasil com absurdos pol\u00edticos nas casas vizinhas e em bairros mais distantes do globo, etc, etc, e etc \u2013 feiuras a perder de vista.<\/p>\n<p>Mas essas feiuras, evidentes para os Crist\u00e3os e brasileiros conservadores, s\u00e3o devidamente maquiadas no v\u00eddeo da TV Carta, enquanto se destacam os tra\u00e7os belos do evangelicismo progressista e a conveniente aus\u00eancia, em seu meio, de qualquer bandeira \u201cdesarm\u00f4nica\u201d com o <em>mindset<\/em> secularista contempor\u00e2neo. Ficou lindo.<\/p>\n<p>Ora, o problema \u00e9, sem d\u00favida, \u00e9tico tamb\u00e9m. \u00c9 um problema quanto ao que seria verdadeiramente \u201cbom\u201d. As duas alas do evangelicismo divergem sobre o que \u00e9 bom em temas bem espec\u00edficos \u2013 manter ou reduzir a maioridade penal? \u00c9 uma quest\u00e3o social, justicial e tamb\u00e9m moral; e a esse respeito j\u00e1 grande desafina\u00e7\u00e3o entre os evang\u00e9licos. A bem da verdade, esse foi t\u00e3o somente o ponto enfatizado no v\u00eddeo da TV Carta; e n\u00e3o tiraria dos colegas progressistas nem o direito nem a raz\u00e3o, quando problematizam algo t\u00e3o grave. Dou a m\u00e3o \u00e0 palmat\u00f3ria; sua defesa nesse ponto tem um fundo moral genuinamente belo, e n\u00e3o pode ser reduzido ao politicamente correto. Mas o ponto de vista conservador tamb\u00e9m tem suas raz\u00f5es, e suas belezas. A diverg\u00eancia sobre moral e justi\u00e7a, aqui, n\u00e3o \u00e9 suficiente para explicar o grau de desafina\u00e7\u00e3o entre esses dois extremos ideol\u00f3gicos; a desafina\u00e7\u00e3o est\u00e1 demasiado acentuada; penso que\u00a0feiuras aqui s\u00e3o mais do que analogias; s\u00e3o dist\u00farbios est\u00e9ticos mesmo e, por isso, sentimentais.<\/p>\n<p>Tomemos como exemplo outra declara\u00e7\u00e3o: a do Pastor Ed Ren\u00e9 Kivitz, para quem, segundo a chamada da BBC, o \u201cTom &#8216;b\u00e9lico&#8217; de alguns l\u00edderes evang\u00e9licos cria clima prop\u00edcio \u00e0 intoler\u00e2ncia\u201d (<a href=\"http:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/noticias\/2015\/06\/150622_entrevista_pastor_pai_jp\" target=\"_blank\">VEJA AQUI<\/a>). Kivitz diz que &#8220;a face evang\u00e9lica que est\u00e1 exposta para o imagin\u00e1rio coletivo do brasileiro \u00e9 a face mais grotesca, mais triste, e que n\u00e3o representa a \u00edndole da Igreja Evang\u00e9lica brasileira&#8221;; mas n\u00e3o usa explicitamente a palavra \u201ctom\u201d, empregada pelo jornalista. A despeito disso, a quest\u00e3o \u00e9 obviamente est\u00e9tica; \u00e9 uma quest\u00e3o de \u201ctom\u201d.<\/p>\n<p>Novamente, n\u00e3o quero ser injusto; o pastor procura deixar claro que se op\u00f5e a qualquer hegemonia intolerante no congresso, seja ela evang\u00e9lica, ou petista, ou, por implica\u00e7\u00e3o, do movimento lgbt. Mas al\u00e9m da not\u00f3ria barbaridade de dizer que o deputado evang\u00e9lico, na c\u00e2mara, &#8220;deveria deixar de ser evang\u00e9lico e se tornar um defensor da cidadania&#8221; &#8211; como se uma coisa exclu\u00edsse a outra &#8211; \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o notar \u00a0a condescend\u00eancia para com o absurdo maquiavelismo e agressividade simb\u00f3lica dos movimentos feminista, lgbt e do secularismo de esquerda, em geral. N\u00e3o \u00e9 um sil\u00eancio perdo\u00e1vel; n\u00e3o \u00e9 equilibrado, n\u00e3o \u00e9 harm\u00f4nico.<\/p>\n<p>A bancada evang\u00e9lica est\u00e1, sim, fora do \u201ctom\u201d, mas n\u00e3o unicamente\u00a0por sua agressividade grotesca; tamb\u00e9m e, acima\u00a0de tudo, suspeito, est\u00e1 fora do tom porque v\u00e1rias de suas notas originais, que refletem a f\u00e9 evang\u00e9lica cl\u00e1ssica e que NINGU\u00c9M MAIS NO MUNDO MODERNO TEM CORAGEM DE TOCAR, est\u00e3o sendo estridentemente tocadas, com imper\u00edcia mas com resson\u00e2ncia p\u00fablica; por seu lado, a ala evang\u00e9lica progressista n\u00e3o quer tocar essas notas jeito nenhum, porque elas s\u00e3o demasiadamente dissonantes para os ouvidos da m\u00eddia \u201cdo bem\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>DE NOVO, A REVOLU\u00c7\u00c3O AFETIVA<\/strong><br \/>\nO que est\u00e1 por tr\u00e1s do discurso sobre o belo, o feio e o bom, \u00e9 a revolu\u00e7\u00e3o afetiva hipermoderna, tema de que venho tratando h\u00e1 algum tempo (<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=2xyj9DtaYkM\" target=\"_blank\">VEJA UMA BREVE S\u00cdNTESE AQUI<\/a>). Desde o grande giro afetivista gestado no romantismo do s\u00e9culo XIX, efetivado com a emerg\u00eancia da psicologia moderna, e elevado ao <em>establishment<\/em> com a convers\u00e3o do capitalismo de consumo em capitalismo emocional ou afetivo, a capacidade de reunir e demonstrar a posse de capital afetivo tornou-se um imperativo para a ascens\u00e3o social.<\/p>\n<p>O capital afetivo, como descrito pela soci\u00f3loga Israelense Eva Illouz, seria uma variante do que Bourdieu chama de \u201ccapital simb\u00f3lico\u201d, interpretado a partir do reconhecimento, em Michael Walzer, de uma diversidade de \u201cesferas sociais\u201d com seus capitais e crit\u00e9rios de justi\u00e7a internos \u2013 da\u00ed o seu conceito de \u201cesferas de justi\u00e7a\u201d. O capital afetivo nasce das compet\u00eancias afetivas, que envolvem a capacidade de comunica\u00e7\u00e3o emocional, de empatia, de interpreta\u00e7\u00e3o da vida interior e das emo\u00e7\u00f5es dos outros, da manipula\u00e7\u00e3o e do emprego inteligente e construtivo dos estados emocionais de indiv\u00edduos, grupos e da massa; essas compet\u00eancias tornaram-se essenciais para os relacionamentos interpessoais, a gest\u00e3o de pessoas no mundo empresarial, na m\u00eddia, na educa\u00e7\u00e3o e, agora, na pol\u00edtica, com o movimento dos \u201cdireitos afetivos\u201d. H\u00e1 \u201cminorias\u201d inteiras, empoderadas e manipuladas pela <em>New Left<\/em>, que identificam na realiza\u00e7\u00e3o afetiva os seus \u201ceixos identit\u00e1rios\u201d, desde que a emerg\u00eancia do campo afetivo na sociedade contempor\u00e2nea permite a muitos indiv\u00edduos a constru\u00e7\u00e3o de narrativas identit\u00e1rias centradas na realiza\u00e7\u00e3o afetiva.<\/p>\n<p>Mas nosso assunto hoje n\u00e3o \u00e9 a exposi\u00e7\u00e3o da natureza e do metabolismo interno do campo afetivo; \u00e9 apenas destacar que, com a emerg\u00eancia do capital afetivo, emergiu um outro fen\u00f4meno, similar ao que acontece em outras esferas sociais: o reconhecimento dos bens afetivos em geral e, o que nos interessa mais: a produ\u00e7\u00e3o de bens afetivos de baixo custo e f\u00e1cil descarte, cuja finalidade \u00e9 acelerar os processos de troca intersubjetiva e simplificar a comunica\u00e7\u00e3o entre as elites do campo afetivo e sua base social. Em termos bem simplificados: a maquiagem sentimental do feio social.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A MAQUIAGEM SENTIMENTAL DO FEIO<\/strong><br \/>\nPoucas pessoas compreendem, hoje, a diferen\u00e7a entre o \u201csentimento\u201d e o \u201csentimentalismo\u201d. O <em>sentimento<\/em> diz respeito \u00e0s nossas respostas pessoais, virtuosas ou n\u00e3o, aos est\u00edmulos externos. Sentimentos s\u00e3o mais do que sensa\u00e7\u00f5es; estas ligam-se mais propriamente aos sentidos, ao passo que os sentimentos dizem respeito \u00e0s nossas respostas pessoais \u2013 da\u00ed ser conceb\u00edvel falarmos em uma educa\u00e7\u00e3o dos sentimentos para as rela\u00e7\u00f5es; Adam Smith, para quem n\u00e3o sabe, n\u00e3o era inicialmente professor de \u201cteoria econ\u00f4mica\u201d (disciplina ainda em constru\u00e7\u00e3o, \u00e0 \u00e9poca), mas de \u201cteoria dos sentimentos morais\u201d.<\/p>\n<p>\u201c<em>Sentimentalismo<\/em>\u201d \u00e9 algo distinto; \u00e9 uma esp\u00e9cie de treinamento dos sentimentos para a produ\u00e7\u00e3o de respostas est\u00e9ticas f\u00e1ceis, suscept\u00edveis ao kitsch, o lixo est\u00e9tico. \u00c9 de Jeremy Begbie a \u00f3tima cita\u00e7\u00e3o de Milan Kundera:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cO kitsch faz duas l\u00e1grimas correrem em r\u00e1pida sucess\u00e3o. A primeira l\u00e1grima diz \u2018que lindo ver essas crian\u00e7as correndo na grama!\u2019 A segunda l\u00e1grima diz \u2018que lindo ficar emocionado com toda a humanidade pelas crian\u00e7as correndo na grama! Essa segunda l\u00e1grima \u00e9 o que faz o kitsch ser kitsch\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>O kitsch \u00e9 a arte que tem como objeto n\u00e3o a realidade, mas os bons sentimentos sobre a realidade; \u00e9 a arte que quer nos fazer sentir o que \u201cdevemos\u201d sentir diante de certas situa\u00e7\u00f5es \u2013 mesmo que isso a torne ridiculamente desproporcional.<\/p>\n<p>Emo\u00e7\u00f5es sentimentais, segundo Roger Scruton em sua \u201cEst\u00e9tica da M\u00fasica\u201d, s\u00e3o artefatos designados para disparar as emo\u00e7\u00f5es corretas e produzir cr\u00e9dito sobre aquele que as reivindica.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cO sentimentalista est\u00e1 atr\u00e1s de admira\u00e7\u00e3o e simpatia. \u00c9 por isso que existe o amor sentimental, a indigna\u00e7\u00e3o sentimental, o lamento sentimental, e a simpatia sentimental; mas n\u00e3o h\u00e1 mal\u00edcia sentimental, despeito, inveja ou depress\u00e3o, uma vez que ningu\u00e9m admira esses sentimentos\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>Ora, os \u201csentimentos sentimentais\u201d s\u00e3o flores de pl\u00e1stico; s\u00e3o factoides emocionais que n\u00e3o se baseiam na verdade, ou nas rela\u00e7\u00f5es reais entre as pessoas, mas no esfor\u00e7o para produzir efeitos intersubjetivos imediatos. Eles s\u00e3o de baixo custo porque n\u00e3o exigem o cumprimento de obriga\u00e7\u00f5es morais ou de sacrif\u00edcios, mas t\u00e3o somente a suaviza\u00e7\u00e3o do contato com a realidade, o ocultamento de seus tra\u00e7os feios e angulosos. Dick Keyes cita D.H. Lawrence como uma das descri\u00e7\u00f5es cl\u00e1ssicas do sentimentalismo:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cO sentimentalismo \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o em n\u00f3s mesmos de sentimentos que n\u00e3o temos realmente. Todos queremos ter certos sentimentos: sentimentos de amor, de sexo apaixonado, de cordialidade, e assim por diante. Pouqu\u00edssimas pessoas realmente sentem amor paix\u00e3o sexual ou cordialidade, ou qualquer coisa t\u00e3o profunda assim. Ent\u00e3o a massa simplesmente falsifica esses sentimentos dentro de si. Sentimentos falsificados! Com eles o mundo fica mais suave. Eles s\u00e3o melhores do que sentimentos reais, porque podemos cuspi-los quando escovamos os dentes; e ent\u00e3o, amanh\u00e3 podemos falsifica-los de novo\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>Este \u00e9 o apelo do sentimentalismo: \u00e9 barato como um souvenir em uma loja de R$ 1,99. Nos identificamos com aquele sentimento f\u00e1cil, vendido na com\u00e9dia rom\u00e2ntica, no best-seller, no serm\u00e3o dominical, no discurso do pol\u00edtico, no v\u00eddeo da TV Carta, o compramos e usamos por alguns momentos. N\u00e3o precisamos alterar nossas rela\u00e7\u00f5es com o mundo; basta adquirir e usar os sentimentos corretos, e ent\u00e3o&#8230; aparentamos ter abund\u00e2ncia de capital afetivo.<\/p>\n<p>E essa \u00e9 a raiz do problema: <em>a pretens\u00e3o de produzir e manter capital afetivo sem\u00a0o lastro do\u00a0capital moral<\/em>, que \u00e9 a modifica\u00e7\u00e3o efetiva da rela\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo com os outros, de um modo que se preserve o sentido da pessoa, a virtude do car\u00e1ter e confiabilidade nas\u00a0rela\u00e7\u00f5es interpessoais. Pois a produ\u00e7\u00e3o de capital moral\u00a0\u00e9 cara; ela envolve conflitos morais, sacrif\u00edcios pessoais e gasto de capital afetivo (o &#8220;n\u00e3o&#8221; contra o mal sempre causa desconforto emocional em ambas as partes); por outro lado, o capital afetivo de alta qualidade exige lastro de capital moral de alta qualidade, pois emo\u00e7\u00f5es genu\u00ednas dependem de virtudes morais (lembrando a &#8220;ordo amoris&#8221; de Agostinho a Tom\u00e1s). Da\u00ed que a coexist\u00eancia de capital afetivo e de capital moral \u00e9 dif\u00edcil; produz-se\u00a0capital afetivo de alta qualidade com grande lastro\u00a0\u00e9tico; por outro lado, o capital afetivo de baixa qualidade \u00e9 f\u00e1cil de adquirir. Basta dispor-se a ser politicamente correto; qualquer pobret\u00e3o moral pode exibi-lo.<\/p>\n<p>O soci\u00f3logo croata Stjepan Me\u0161trovi\u0107 descreveu a nossa sociedade como uma sociedade <strong>p\u00f3s-emocional<\/strong>. Ela seria p\u00f3s-emocional n\u00e3o por ignorar as emo\u00e7\u00f5es, mas pela necessidade de administr\u00e1-las racionalmente e, na l\u00f3gica do capital, barate\u00e1-las, dada sua grande import\u00e2ncia imediata, necess\u00e1ria ao bem-estar continuado e \u00e0 aceita\u00e7\u00e3o p\u00fablica superficial. Temos carros, rel\u00f3gios, celulares, e computadores mais baratos; porque n\u00e3o ter\u00edamos emo\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m baratas e acess\u00edveis ao consumidor j\u00e1 sobrecarregado com outros custos no mercado da felicidade pessoal?<\/p>\n<p>Emo\u00e7\u00f5es tornam-se assim um objeto prim\u00e1rio de <em>manipula\u00e7\u00e3o, troca de alta velocidade e &#8220;contamina\u00e7\u00e3o&#8221; das massas <\/em>(vide o prov\u00e1vel\u00a0experimento de &#8220;contamina\u00e7\u00e3o emocional&#8221; em redes sociais, promovido recentemente no facebook por Mark Zuckeberg, dos padr\u00f5es de &#8220;coloriza\u00e7\u00e3o&#8221; de perfis ap\u00f3s a decis\u00e3o da suprema corte dos EUA sobre casamento igualit\u00e1rio <a href=\"http:\/\/www.theatlantic.com\/technology\/archive\/2015\/06\/were-all-those-rainbow-profile-photos-another-facebook-experiment\/397088\/?utm_source=SFFB\" target=\"_blank\">AQUI<\/a>. N\u00e3o \u00e9 preciso dizer que n\u00e3o faltaram cobaias volunt\u00e1rias). A comunica\u00e7\u00e3o afetiva deixa de ser uma forma de facilitar o encontro \u00e9tico entre indiv\u00edduos, para tornar-se a produ\u00e7\u00e3o de sentimentos, o gerenciamento\u00a0dos sentimentos do outro, e o espalhamento de <em>clich\u00e9s<\/em> emocionais; e na medida em que o marketing pol\u00edtico se apossa desse instrumento, a manipula\u00e7\u00e3o dos sentimentos da massa com o fim de galvaniza-la politicamente, sem o custo de envolve-la em um exerc\u00edcio realmente profundo de ju\u00edzo moral e de aquisi\u00e7\u00e3o de virtudes \u00e9ticas.<\/p>\n<p>E, com isso, as emo\u00e7\u00f5es verdadeiras, tanto as boas quanto as ruins ou &#8220;incorretas&#8221;, ficam enterradas sob toneladas de sentimentalismo <em>kitsch<\/em> religioso, art\u00edstico, midi\u00e1tico e pol\u00edtico.<\/p>\n<p>\u00c9 essa manipula\u00e7\u00e3o que torna poss\u00edvel <em>a maquiagem sentimental do feio moral<\/em>. O feio \u00e9 a desarmonia moral, mas a nota desarm\u00f4nica depende do acorde que se toca. No acorde da f\u00e9 Crist\u00e3, o liberalismo moral da \u00e9tica sexual hipermoderna \u00e9 terrivelmente feio; \u00e9 horr\u00edvel (<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=TWgRwjxLyMY\" target=\"_blank\">VEJA MAIS AQUI<\/a>). Mas \u00e9 belo para alguns, no acorde da \u201cinclusividade\u201d. Igualmente, a oposi\u00e7\u00e3o aberta \u00e0 biopol\u00edtica, deixada devidamente nua e sem maquiagem, apresenta-se como a revolta fundamentalista de pastores iracundos e fora de controle. Especialmente, \u00e9 claro, quando eles s\u00e3o assim mesmo. Mas essa \u00e9 a magia da manipula\u00e7\u00e3o sentimental: galvaniza-se a opini\u00e3o das pessoas \u201cdo bem\u201d contra a opini\u00e3o moral diversa, e de repente ela se torna fei\u00edssima e, por isso, \u201cdo mal\u201d, independentemente do car\u00e1ter verdadeiro de quem a sustenta.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que esses n\u00e3o s\u00e3o os sentimentos reais; s\u00e3o os sentimentos \u201csentimentais\u201d, politicamente validados e baratos. Os sentimentos \u201cpuros\u201d e as emo\u00e7\u00f5es aut\u00eanticas est\u00e3o enterrados sob os sentimentos que \u201cdevemos\u201d ter por serem politicamente corretos, nos fazendo n\u00e3o apenas pensar por <em>clich\u00e9s<\/em> mas, como observou T.S. Eliot, sentir por <em>clich\u00e9s<\/em>.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o verdadeiro poder simb\u00f3lico por tr\u00e1s do pseudoconceito (ou no m\u00ednimo, da\u00a0pe\u00e7a demasiado poliss\u00eamica) da &#8220;<em>homofobia<\/em>&#8220;. N\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o possa haver um verdadeiro conceito de homofobia; mas ningu\u00e9m sabe honestamente, hoje, o que isso significa (Patologia ps\u00edquica? Crime? \u00d3dio imoral?). Ou melhor: uns\u00a0poucos\u00a0entre os que o empregam e nenhum entre os que o temem entendem sua fun\u00e7\u00e3o comunicativa. Na verdade trata-se de um &#8220;meme p\u00f3s-emocional&#8221;; um r\u00f3tulo similar \u00e0 estrela de Davi antes e depois da\u00a0Kristallnacht, mas em uma vers\u00e3o apropriada \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o afetiva. Sua finalidade \u00e9 <em>despertar uma resposta n\u00e3o-racional<\/em>, nos fazendo sentir por <em>clich\u00e9s<\/em> e suprimir o que realmente sentimos ou pensamos; uma esp\u00e9cie de galvaniza\u00e7\u00e3o sentimental do sentimento moral. Tudo leva a crer que a palavra &#8220;homofobia&#8221; representa um sequestro ideol\u00f3gico da problem\u00e1tica da rela\u00e7\u00e3o homossexual, do campo ou esfera origin\u00e1ria, que \u00e9 a da \u00e9tica (ou da \u00e9tica sexual) para o campo meramente afetivo (&#8220;emo\u00e7\u00f5es&#8221; e &#8220;fobias&#8221;, &#8220;repress\u00e3o&#8221;), com a finalidade de&#8230; controle social. Em outros termos: seria uma <em>ferramenta psicopol\u00edtica<\/em>.<\/p>\n<p>A revolta &#8220;popular&#8221; contra a &#8220;homofobia&#8221; \u00e9 hoje, digamos, 10% aut\u00eantica, e 90% kitsch.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>QUANDO A MAQUIAGEM SE BORRA E OS ZUMBIS ACORDAM<\/strong><br \/>\nOs sentimentos \u201cbons\u201d nutridos pela manipula\u00e7\u00e3o da m\u00eddia \u201cdo bem\u201d s\u00e3o artificiais, <em>clich\u00e9s<\/em>, <em>kitsch<\/em>; fala-se em toler\u00e2ncia, em paz social, em inclus\u00e3o, mas a verdade \u00e9 feia como um sepulcro caiado, e \u00e0s vezes sua imund\u00edcie vaza.<\/p>\n<p>Considere-se o caso emblem\u00e1tico do embate recente entre o pastor Silas Malafaia e o jornalista Ricardo Boechat. Este \u00faltimo atacou o feioso-mor com express\u00f5es surpreendentemente pesadas:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cN\u00e3o me enche o saco. Voc\u00ea \u00e9 um idiota, um paspalh\u00e3o, um pilantra, tomador de grana de fiel, explorador da f\u00e9 alheia [&#8230;] \u00d4, Malafaia, vai procurar uma rola!\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>O caso \u00e9 tr\u00e1gico; mas \u00e9 fascinante. Fi\u00e9is e infi\u00e9is tanto se deliciaram de prazer quanto perderam o f\u00f4lego diante do horror; o que aconteceu? Os clich\u00e9s sentimentais se desvaneceram, e os sentimentos reais se mostraram em toda a sua nudez: um profundo, enraizado e amargo desprezo do jornalista de esquerda pela figura do &#8220;pastor neopentecostal&#8221; \u2013 e pelo neopentecostalismo, de um modo geral. Mais do que isso: o desprezo que poderia ser corretamente classificado pelos defensores da ideia como um desprezo \u201chomof\u00f3bico\u201d, patente no conselho sobre procurar&#8230; certo passarinho.<\/p>\n<p>O p\u00fablico amou. A ala da igreja evang\u00e9lica que detesta a teologia da prosperidade pregada pelo pastor (entre os quais eu) amou. A que detesta sua figura de pastor-caudilho, por demais odiosa entre evang\u00e9licos contempor\u00e2neos (de novo, me vejo entre estes) amou tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Mas, acima de tudo, amou, aquela faixa da popula\u00e7\u00e3o brasileira que despreza a \u00e9tica sexual e social evang\u00e9lica tanto quanto a todos os que a defendem; e que sente ojeriza por essa plebe maldita, os crentes fundamentalistas, ignorantes, retr\u00f3grados, machistas, coxinhas, fan\u00e1ticos, anti-intelectuais, intolerantes religiosos, arrogantes, exclusivistas, reacion\u00e1rios, e fascistas, entre outras prendas.<\/p>\n<p>E assim, tal qual uma horda de zumbis, de mortos-vivos desorientados, testemunhamos os verdadeiros sentimentos na maior parte do tempo enterrados sob as l\u00e1pides sentimentalistas\u00a0se manifestando, lutando para sair para fora, devorando c\u00e9rebros nas redes sociais: sentimentos de frustra\u00e7\u00e3o, de \u00f3dio contra a religi\u00e3o, de antipatia contra qualquer \u00e9tica sexual, de desprezo por pessoas que constroem sua identidade a partir da f\u00e9, e n\u00e3o da emo\u00e7\u00e3o. E, diga-se, tamb\u00e9m os sentimentos sujos de evang\u00e9licos contra evang\u00e9licos &#8211; alguns deles agora pintados como o pr\u00f3prio Darth Vader &#8211; e de evang\u00e9licos contra o &#8220;maldito Boechato&#8221;.<\/p>\n<p>Boechat esfor\u00e7ou-se por redimir-se citando pastores mais \u00e9ticos e socialmente respons\u00e1veis, mas o estrago foi feito; a m\u00e1scara caiu de novo, como sempre cai\u00a0na seletividade com que a m\u00eddia trata\u00a0a antipatia antievang\u00e9lica que grassa os ambientes acad\u00eamicos brasileiros, a persegui\u00e7\u00e3o cultural ao cristianismo no ocidente, e a persegui\u00e7\u00e3o global contra o Cristianismo, em compara\u00e7\u00e3o com o sofrimento de minorias mais&#8230; bonitinhas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>PORQUE A BELEZA POL\u00cdTICA IMPORTA<\/strong><br \/>\nBoa parte do discurso da esquerda sobre direitos est\u00e1, infelizmente, maculado pela manipula\u00e7\u00e3o sentimental, a psicopol\u00edtica dos sentimentos corretos, embora artificiais e sem fundamenta\u00e7\u00e3o moral consistente. E isso nos leva enfim, ao meu ponto cr\u00edtico: a pol\u00edtica evang\u00e9lica est\u00e1, hoje, diante de um dilema est\u00e9tico: usa ou n\u00e3o usa o sentimentalismo pol\u00edtico como forma de obter capital pol\u00edtico e social?<\/p>\n<p>Na minha opini\u00e3o, a ala evang\u00e9lica reacion\u00e1ria reage irracionalmente contra a emerg\u00eancia do campo afetivo, e \u00e9 cada vez mais alienada desse campo porque n\u00e3o se disp\u00f5e a reconhecer, produzir e negociar o capital afetivo, que \u00e9 a moeda dominante nessa esfera. Nesse sentido, \u00e9 literalmente reacion\u00e1ria, e, com toda a franqueza, \u201cburra\u201d. N\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o saiba se maquiar, apenas; \u00e9 que seu corpo e seu rosto comunicacional s\u00e3o ridiculamente feios, e isso tamb\u00e9m \u00e9 uma quest\u00e3o moral. Desprezar alegremente os sentimentos dos outros \u00e9 uma forma sutil de imoralidade. N\u00e3o podemos nos esquecer aqui do que disse Francis Schaeffer, a respeito disso:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cortodoxia b\u00edblica sem compaix\u00e3o \u00e9 com certeza a coisa mais feia do mundo\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>O que temos aqui? Beleza; mas a beleza que \u00e9 fruto da uni\u00e3o entre verdade e amor: <strong>ortodoxia<\/strong>, com <strong>ortopraxia<\/strong>, revelando <strong>ortopatia<\/strong> (<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=HWwxURsceWM\" target=\"_blank\">VEJA MAIS AQUI<\/a>). Essa \u00e9 a beleza que queremos, n\u00e3o outra; n\u00e3o a beleza que custe R$ 1,99. Essa beleza \u00e9 a beleza da coer\u00eancia; e \u00e9, sim, uma beleza tamb\u00e9m afetiva e emocional.<\/p>\n<p>Sabemos, por exemplo, que uma das maiores falhas do conservadorismo crist\u00e3o hoje se encontra no terr\u00edvel fracasso em realizar uma comunica\u00e7\u00e3o genuinamente afetiva ou afetivamente sens\u00edvel. A comunica\u00e7\u00e3o envolve, acima de tudo, conte\u00fado; mas o meio tamb\u00e9m vai com a mensagem. Como diz Schaeffer:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cO homem do mundo moderno pergunta se h\u00e1 personalidade real, se a comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 real, se h\u00e1 significado. N\u00f3s, Crist\u00e3os, podemos falar at\u00e9 ficarmos com as caras roxas, mas tudo ser\u00e1 in\u00fatil se n\u00e3o exibirmos a comunica\u00e7\u00e3o. Quando, como Crist\u00e3o, me coloco diante de um homem e digo: \u201csinto muito\u201d, isso n\u00e3o \u00e9 apenas legalmente correto e agrad\u00e1vel a Deus, mas tamb\u00e9m \u00e9 verdadeira comunica\u00e7\u00e3o em um n\u00edvel altamente pessoal\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>Consideremos um caso tamb\u00e9m emblem\u00e1tico: o movimento \u201cJesus Cura a Homofobia\u201d, na parada lgbt deste ano (2015). De modo geral, o movimento me pareceu sentimentalista, dada a natureza dos testemunhos apresentados na m\u00eddia (todos perfeitamente centrados em fen\u00f4menos <em>afetivos<\/em>: abra\u00e7os, sorrisos, choros, como\u00e7\u00e3o; mas nenhuma tens\u00e3o moral). Mas ainda que excessivamente afetivizado e, talvez, sentimentalista, \u00e9 preciso admitir que <em>o movimento procurou realizar um ato de comunica\u00e7\u00e3o verdadeira<\/em> e, nisso, tratou os militantes lgbt\u2019s como pessoas. E \u00e9 preciso admitir que os Crist\u00e3os conservadores n\u00e3o apresentaram nenhuma vers\u00e3o \u201cmelhor\u201d do que isso. Mas esse \u00e9 o ponto de Schaeffer em \u201cA Verdadeira Espiritualidade\u201d: a comunica\u00e7\u00e3o precisa ser pessoal.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cA igreja local ou grupo Crist\u00e3o deve ser correta (right) em seu ensino, mas deve tamb\u00e9m ser bonita (beautiful). Os grupos locais deveriam ser exemplos do sobrenatural, ou de relacionamentos curados substancialmente nessa vida presente, entre pessoas\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>Deve haver beleza! Mas note que a beleza Schaefferiana \u00e9 a beleza da cura sobrenatural. \u00c9 claro que essa beleza pode e deve ser demonstrada aos incr\u00e9dulos e, particularmente, em rela\u00e7\u00e3o com nossos oponentes hist\u00f3ricos; mas ela \u00e9 insepar\u00e1vel da ortodoxia, e n\u00e3o deveria ser confundida com a beleza f\u00e1cil e barata do sentimentalismo. \u00c9 uma beleza custosa, ligada a sentimentos custosos, porque produzidos num ambiente em que n\u00e3o reduz os par\u00e2metros morais para garantir aceita\u00e7\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cAos Crentes que verdadeiramente creem na B\u00edblia, em todas as linhas e campos, enfatizo: se n\u00e3o mostrarmos beleza no modo como nos tratamos uns aos outros ent\u00e3o, aos olhos do mundo e de nossas crian\u00e7as, estamos destruindo a verdade que proclamamos&#8230; cada igreja&#8230; cada grupo crist\u00e3o&#8230; deveria ser um exemplo para que o mundo possa olhar e ver uma beleza nos relacionamentos humanos que possa se postar em exato contraste com a terr\u00edvel feiura do que o homem moderno pinta com sua arte, com o que faz com sua escultura, com o que mostra em seu cinema, e com o modo que trata o pr\u00f3ximo.\u201d<br \/>\n\u201cEstou falando agora sobre beleza, e escolhi essa palavra com cuidado. Eu poderia chama-la de amor, mas esvaziamos tanto essa palavra que ela se tornou sem sentido. Ent\u00e3o uso a palavra beleza. Deveria haver beleza, beleza observ\u00e1vel para o mundo contemplar no modo como nos tratamos mutuamente.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Com essas observa\u00e7\u00f5es de Francis Schaeffer, quero deixar muito claro que meu ataque ao sentimentalismo n\u00e3o tem a finalidade de justificar a disposi\u00e7\u00e3o iracunda e agressiva empregada pelos setores mais reacion\u00e1rios do evangelicismo brasileiro. Sua explos\u00e3o de sentimentos negativos \u00e9, na verdade, um reflexo de sentimentos negativos de toda a sociedade em rela\u00e7\u00e3o aos desmandos da extrema-esquerda que se pensa, fantasiosamente, amada pelo povo brasileiro. Mas a\u00ed est\u00e1 o problema: n\u00e3o bastaria nos livrarmos dos sentimentos sentimentais, as emo\u00e7\u00f5es morais falsas; isso apenas nos levaria \u00e0 barb\u00e1rie de Boechat versus Malafaia e da\u00ed para pior. Precisamos, antes, cultivar a verdadeira comunica\u00e7\u00e3o, a verdadeira beleza, e verdadeiros sentimentos morais.<\/p>\n<p>Mas essa moeda tem outro lado. O\u00a0fato de a m\u00eddia e a pol\u00edtica brasileira privilegiarem acriticamente o \u201ccapital\u201d afetivo de baixo custo, que denominamos \u201csentimentalismo\u201d, para gerenciar melhor seus esfor\u00e7os psicopol\u00edticos ajuda a alienar ainda mais os conservadores, que percebem intuitivamente a fabrica\u00e7\u00e3o. Para seus escr\u00fapulos, o sentimentalismo pol\u00edtico \u00e9 intrag\u00e1vel e obviamente falso. A m\u00eddia o vende como produto de alta qualidade, mas aqueles familiarizados com a \u00e9tica Crist\u00e3 sabem muito bem o que est\u00e1 acontecendo: \u201c<strong>we are faking it<\/strong>\u201d.<\/p>\n<p>Acredito sinceramente que os irm\u00e3os que deram sua opini\u00e3o no v\u00eddeo da TV Carta tenham sentimentos morais genu\u00ednos; mas n\u00e3o acredito na TV Carta, e penso que esses irm\u00e3os est\u00e3o vendendo uma beleza barata e palat\u00e1vel, enquanto permanecerem t\u00e3o obviamente seletivos e politicamente corretos em suas agendas p\u00fablicas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>DE PR\u00cdNCIPES E DE BEIJOS M\u00c1GICOS<\/strong><br \/>\nDo que precisa Silas Malafaia? Precisa aprender o caminho da paz com todos os homens, sim, como ensina Paulo em Romanos 12; precisa passar por uma convers\u00e3o de seus afetos morais, por uma afina\u00e7\u00e3o \u00e9tica e afetiva; mas acima de tudo, precisa sofrer um brutal alargamento de sua \u00e9tica teol\u00f3gico-social. Do jeito que est\u00e1, n\u00e3o representa a nossa tradi\u00e7\u00e3o; n\u00e3o representa a igreja de Calvino, dos puritanos, de Wesley, de Wilberforce, de Kuyper, de Schaeffer, de Stott, ou de tantos l\u00edderes evang\u00e9licos, em tantos setores diferentes.<\/p>\n<p>Naturalmente, h\u00e1 outras solu\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis no mercado. T\u00e9cnicos no assunto diriam que ele precisa urgentemente de um tipo de \u201cDuda Medon\u00e7a\u201d, ou at\u00e9 do exemplar original. N\u00e3o foi o beijo do marqueteiro o que transformou o \u201csapo-barbudo-comunista\u201d Lula no pr\u00edncipe \u201cLulinha paz-e-amor\u201d em 2002? \u00c9 disso o que Malafaia precisa, diriam. Um beijo de marketing, para transform\u00e1-lo em um pr\u00edncipe da comunica\u00e7\u00e3o afetiva. O problema \u00e9 que esse beijo \u00e9 caro; n\u00e3o \u00e9 para qualquer sapo n\u00e3o. E \u00e9 dif\u00edcil acreditar que exista maquiagem suficiente no mundo das fadas para embelezar esse anf\u00edbio.<\/p>\n<p>Mas o progressismo evang\u00e9lico precisa de um beijo tamb\u00e9m. S\u00f3 que \u00e9 de outro beijo: o beijo da verdade. Um beijo capaz de revelar ao mundo a feiura\/beleza do evangelho da cruz, da moral judaico crist\u00e3, do esp\u00edrito do evangelicismo cl\u00e1ssico; um beijo cheio de radicalidade <em>atanasiana<\/em>, um beijo Agostiniano, um beijo \u201c<strong>Contra Mundum<\/strong>\u201d; um bejio capaz de libert\u00e1-lo da psicopol\u00edtica e mostrar a incur\u00e1vel incompatibilidade entre o sentimentalismo da cidade dos homens e as afei\u00e7\u00f5es morais da cidade de Deus.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o beijo de Jesus: \u00e9 de gra\u00e7a, mas custar\u00e1 a reputa\u00e7\u00e3o do progressismo evang\u00e9lico diante do presente s\u00e9culo. Ele \u00e9 feio, fei\u00edssimo para o homem moderno, num grau incompreens\u00edvel para um Greg\u00f3rio Duvivier; mas sua beleza \u00e9 eterna.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>*N\u00e3o podia perder a oportunidade de uma piadinha exot\u00e9rica sobre o cl\u00e1ssico de Sergio Leone&#8230; Fica como &#8220;vinho ao cansado&#8221;, para esquecer por um momento\u00a0as frustra\u00e7\u00f5es morais do dia 26 de Junho de 2015.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Escrevo a contragosto, arrancado do meu ex\u00edlio\u00a0blogosf\u00e9rico pela for\u00e7a das circunst\u00e2ncias. Deveria estar agora trabalhando em meu livro encomendado em eras passadas, inacabado e, aparentemente, inacab\u00e1vel. Mas \u00e9 dura cousa golpear os aguilh\u00f5es do processo hist\u00f3rico. 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