{"id":913,"date":"2014-04-24T16:08:55","date_gmt":"2014-04-24T19:08:55","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/?p=913"},"modified":"2014-04-24T16:19:13","modified_gmt":"2014-04-24T19:19:13","slug":"o-peso-total-das-nossas-conviccoes-o-ponto-do-pluralismo-kuyperiano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/2014\/04\/24\/o-peso-total-das-nossas-conviccoes-o-ponto-do-pluralismo-kuyperiano\/","title":{"rendered":"O Peso Total das Nossas Convic\u00e7\u00f5es: O Ponto do Pluralismo Kuyperiano"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>[Com autoriza\u00e7\u00e3o do companheiro Daniel Dliver, republico sua tradu\u00e7\u00e3o de um artigo j\u00f3ia de Jonathan Chaplin, sobre o tema do pluralismo. \u00c9 esse o tipo de perspectiva subjacente ao que escrevi anteriormente neste blog sobre pluralismo (<a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/2013\/07\/03\/manifestacoes-sempre-fomos-plurais-ainda-nao-somos-pluralistas\/\" target=\"_blank\">veja AQUI<\/a>).]<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>A vis\u00e3o de Kuyper pode ser uma inspira\u00e7\u00e3o para os crist\u00e3os que hoje enfrentam a dupla amea\u00e7a do capitalismo explorador e do estatismo arrogante &#8212; ambas as for\u00e7as profundamente secularizantes.<\/p><\/blockquote>\n<p>Por <a href=\"http:\/\/www.cardus.ca\/comment\/article\/4069\/the-full-weight-of-our-convictions-the-point-of-kuyperian-pluralism\/\" target=\"_blank\">Jonathan Chaplin<\/a>, 1 de novembro de 2013, Comment Magazine<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Paridade, n\u00e3o privil\u00e9gio<\/em>. Dificilmente um slogan acrob\u00e1tico de campanha eleitoral, mas, em poucas palavras, o objetivo estrat\u00e9gico da vis\u00e3o do &#8220;pluralismo&#8221; de Abraham Kuyper. Os crist\u00e3os n\u00e3o devem buscar uma posi\u00e7\u00e3o de privil\u00e9gio pol\u00edtico ou legal nas pra\u00e7as p\u00fablicas de suas na\u00e7\u00f5es religiosa e culturalmente diversas, mas uma posi\u00e7\u00e3o de paridade. O objetivo \u00e9 desfrutar de direitos iguais ao lado de outras &#8220;comunidades confessionais&#8221; dentro de uma democracia constitucional marcada pela ampla liberdade de express\u00e3o, justa representa\u00e7\u00e3o, e uma diversidade de vozes. Assim, no auge da luta do s\u00e9culo XIX holand\u00eas por igualdade de tratamento para as escolas crist\u00e3s, Kuyper afirmou que &#8220;o nosso objetivo incessante deve ser a exig\u00eancia de justi\u00e7a para todos, justi\u00e7a para cada express\u00e3o de vida.&#8221; <!--more--><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft\" alt=\"\" src=\"http:\/\/www.eerdmans.com\/Content\/Site146\/ProductImages\/9780802869067.jpg\" width=\"163\" height=\"245\" \/>N\u00e3o mais que isso, mas tamb\u00e9m n\u00e3o menos. Pois o objetivo n\u00e3o era apenas procedimental ou propor regras justas do jogo democr\u00e1tico. Era prof\u00e9tico. James Bratt abre <a href=\"http:\/\/www.eerdmans.com\/Products\/6906\/abraham-kuyper.aspx\" target=\"_blank\"><em>Abraham Kuyper: Modern Calvinist, Christian Democrat<\/em> <\/a>com esta senten\u00e7a: &#8220;talvez o maior significado de Kuyper para o nosso pr\u00f3prio mundo religioso e culturalmente fraturado \u00e9 a maneira que ele prop\u00f4s que os crentes religiosos levassem todo o peso de suas convic\u00e7\u00f5es para a vida p\u00fablica enquanto respeitam plenamente os direitos dos outros em uma sociedade pluralista, sob um governo constitucional&#8221;. A vida de Kuyper, t\u00e3o vividamente narrado na marcante biografia de Bratt, exemplifica a tentativa de levar &#8220;todo o peso de suas convic\u00e7\u00f5es&#8221; \u00e0 vida p\u00fablica, promovendo, simultaneamente, as condi\u00e7\u00f5es para os outros fazerem o mesmo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Crist\u00e3os, e n\u00e3o apenas os da tradi\u00e7\u00e3o reformada, t\u00eam uma grande d\u00edvida para com Kuyper por expor o que foi provavelmente a defesa mais convincente do pluralismo no s\u00e9culo XIX, em qualquer lugar. Outros crist\u00e3os, ent\u00e3o e depois, ofereceram defesas paralelas, \u00e9 claro. O que Kuyper exclusivamente ofereceu, no entanto, foi uma li\u00e7\u00e3o rara sobre como realizar tr\u00eas objetivos simultaneamente: a constru\u00e7\u00e3o de um compromisso com o pluralismo dentro de uma teoria social e pol\u00edtica abrangente fundamentada no cristianismo b\u00edblico, o lan\u00e7amento de um movimento pol\u00edtico de sucesso para implementar esse compromisso nos dentes de um poderoso estabelecimento liberal secularizante, e a utiliza\u00e7\u00e3o da plataforma assim criada para estabelecer um terreno comum com seus advers\u00e1rios e de contribuir para o bem comum da sua na\u00e7\u00e3o. Apesar de duramente avaliarmos falhas de Kuyper (Bratt mostra que elas foram muitas), aquilo foi um feito incr\u00edvel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Um dos principais instrumentos de Kuyper era um partido pol\u00edtico de inspira\u00e7\u00e3o calvinista, organizado em 1879. Este era o &#8220;Partido Anti-Revolucion\u00e1rio&#8221;, o nome transmitindo oposi\u00e7\u00e3o ao esp\u00edrito ate\u00edsta da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, em vez de resist\u00eancia \u00e0 reforma pol\u00edtica. Kuyper foi um dos primeiros defensores do sufr\u00e1gio adulto universal (masculino). O partido foi formado em uma ruptura com o movimento conservador aristocr\u00e1tico com o qual os &#8220;anti-revolucion\u00e1rios&#8221; estiveram aliados. N\u00e3o foi apenas o primeiro partido democrata-crist\u00e3o a ser estabelecido na Europa, mas o primeiro partido pol\u00edtico de massas, ponto. Assim como o calvinismo original inspirara movimentos democratizantes no s\u00e9culo XVII, o neo-calvinismo holand\u00eas fez sob a lideran\u00e7a de Kuyper fez no s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Entre as muitas conquistas deste movimento multifacetado, um dos seus mais distintos foi o estabelecimento na sociedade holandesa de arranjos genuinamente pluralistas em educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, trabalho, comunica\u00e7\u00e3o, e em outras \u00e1reas. Nesses sistemas, uma diversidade de prestadores de servi\u00e7os, que representam as principais &#8220;comunidades confessionais&#8221; (religiosas e seculares) da na\u00e7\u00e3o, foram integrados em um sistema p\u00fablico supervisionado, e eventualmente financiado, pelo Estado. Movimentos democratas crist\u00e3os de inspira\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica promoveram sistemas paralelos em outros lugares na Europa. Tais arranjos proporcionaram n\u00e3o apenas as liberdades negativas para aderentes individuais a diversas vis\u00f5es de mundo (a vers\u00e3o liberal cl\u00e1ssica da liberdade religiosa), mas tamb\u00e9m as liberdades positivas para associa\u00e7\u00f5es baseadas em vis\u00f5es de mundo diversas. O objetivo era trabalhar pelo tipo de espa\u00e7o p\u00fablico nas democracias constitucionais que facilitasse e n\u00e3o que frustrasse a representa\u00e7\u00e3o do que Charles Taylor tem em nossos tempos chamado de &#8220;diversidade profunda&#8221;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>James Skillen deu o nome de &#8220;pluralismo de princ\u00edpio&#8221; para tal espa\u00e7o. Sua abordagem mostrou-se \u00fatil em trazer \u00e0 tona a pertin\u00eancia contempor\u00e2nea do legado pluralista de Kuyper. Skillen identifica dois sentidos, ambos os quais encontram suas origens em Kuyper mesmo que ele n\u00e3o os distinga claramente. O primeiro, &#8220;pluralismo estrutural&#8221;, abra\u00e7a as institui\u00e7\u00f5es plurais e associa\u00e7\u00f5es do que hoje chamamos de &#8220;sociedade civil&#8221;: escolas, universidades, igrejas, sindicatos, organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais, empresas, associa\u00e7\u00f5es de artes, grupos de caridade, e assim por diante. Skillen tamb\u00e9m inclui fam\u00edlias e estados neste primeiro sentido. Pluralismo estrutural segue o exemplo de um dos mais conhecidos princ\u00edpios sociais de Kuyper: a &#8220;esfera de soberania&#8221;. Este princ\u00edpio afirma que cada tipo distinto de institui\u00e7\u00e3o ou associa\u00e7\u00e3o (n\u00e3o somente as conhecidas &#8220;ordens&#8221; tr\u00edplices da igreja, casa e governo que remonta \u00e0 Idade M\u00e9dia), \u00e9 uma &#8220;ordenan\u00e7a de Deus.&#8221; Como tal, cada corpo social possui uma natureza e prop\u00f3sito distintos, e uma correspondente autoridade inerente a governar-se livre de intrus\u00e3o il\u00edcita por parte do Estado ou de qualquer outra entidade. Bratt observa que esta no\u00e7\u00e3o n\u00e3o fica sozinha no pensamento de Kuyper, mas funciona em conjunto com uma s\u00e9rie de outras, como uma sociologia organicista, uma eclesiologia voluntarista e uma pol\u00edtica localista.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como todos os te\u00f3ricos sociais fazem com todas as suas id\u00e9ias inovadoras, Kuyper formulou o princ\u00edpio dentro de um contexto espec\u00edfico que o fez avan\u00e7ar. Ele op\u00f4s esfera de soberania tanto contra a &#8220;soberania popular&#8221; do individualismo liberal, que reduziu a autoridade social e pol\u00edtica a vontades individuais agregadas, e contra a &#8220;soberania do Estado&#8221; do autoritarismo conservador e do socialismo centralizador, que fez de toda a autoridade social uma concess\u00e3o do Estado. Seus alvos n\u00e3o eram teorias abstratas: o primeiro era o credo das elites dominantes holandeses de sua \u00e9poca, perfeitamente correlacionado com o capitalismo individualista que elas representavam, e o \u00faltimo, a doutrina dos estados centralizadores e dominantes nas vizinhas Fran\u00e7a e Alemanha. Conforme Kuyper abordou este contexto, o princ\u00edpio da esfera de soberania n\u00e3o saltou em sua mente diretamente a partir da Escritura ou do Calvinismo, mas refletiu o modelo &#8220;org\u00e2nico&#8221; de sociedade da Escola Hist\u00f3rica Alem\u00e3 influente em sua \u00e9poca, uma teoria astuta que poderia ser posta para ambos os usos progressista e reacion\u00e1rio. A inova\u00e7\u00e3o de Kuyper era o de tornar esse modelo \u00fatil para uma teoria social crist\u00e3 igualit\u00e1ria e pluralista, que poderia direcionar poderosas cr\u00edticas a ambas as doutrinas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O segundo sentido de Skillen \u00e9 o &#8220;pluralismo confessional&#8221;, referindo-se \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o espiritual condutora de uma institui\u00e7\u00e3o ou associa\u00e7\u00e3o, a estrutura b\u00e1sica de convic\u00e7\u00f5es pelo qual \u00e9 guiada. Exemplos \u00f3bvios hoje podem ser um sindicato crist\u00e3o, um grupo ambiental budista, uma escola judaica, um banco isl\u00e2mico, uma fam\u00edlia cat\u00f3lica. De modo menos \u00f3bvio, muitas institui\u00e7\u00f5es ou associa\u00e7\u00f5es consideradas confessionalmente &#8220;neutras&#8221; tamb\u00e9m revelam um compromisso definitivo, se n\u00e3o declarado, com convic\u00e7\u00f5es liberais seculares: uma corpora\u00e7\u00e3o corre como um &#8220;nexo de contratos&#8221; (como uma defini\u00e7\u00e3o de livro did\u00e1tico a tem), um hospital p\u00fablico, onde a pr\u00e1tica m\u00e9dica \u00e9 regida pela f\u00e9 na ci\u00eancia e na tecnologia e a distribui\u00e7\u00e3o de recursos determinada por um c\u00e1lculo puramente utilit\u00e1rio, um departamento da universidade de forma encoberta ou abertamente privilegiando paradigmas naturalistas ou racionalistas ou desconstrucionistas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A implica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica fundamental do pluralismo confessional \u00e9 que o Estado deve tratar todos estes v\u00e1rios corpos &#8220;baseados na f\u00e9&#8221;, e n\u00e3o apenas os &#8220;religiosos&#8221;, como igrejas ou mesquitas, com justi\u00e7a. Em termos concretos, isto significa a distribui\u00e7\u00e3o de recursos p\u00fablicos, como financiamento ou certifica\u00e7\u00e3o, a cada [corpo] de uma forma equitativa, n\u00e3o (des)favorecendo qualquer um apenas por conta de sua perspectiva confessional. O pluralismo confessional defende as reivindica\u00e7\u00f5es de liberdade religiosa de institui\u00e7\u00f5es estruturalmente plurais e o dever dos Estados de respeitar essas reivindica\u00e7\u00f5es. Kuyper foi um tem\u00edvel porta-voz e defensor dele.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Pluralismo de princ\u00edpios neste segundo sentido se op\u00f5e ao, bem, pluralismo &#8220;sem princ\u00edpios&#8221;, quer um pluralismo puramente gerencial em que o termo &#8220;justi\u00e7a&#8221; \u00e9 usado (se for usado) para aplicar a tudo o que acontece para emitir a partir de um mero processo de interesse-corretagem, ou, pior ainda, um abandono relativista do direito de qualquer pessoa fazer reivindica\u00e7\u00f5es p\u00fablicas de verdade. Pluralismo sem princ\u00edpios (qualquer vers\u00e3o) efetivamente lan\u00e7a a toalha na luta pela justi\u00e7a e deixa seus resultados nas m\u00e3os do mais barulhento e do mais forte, o que hoje muitas vezes significa o mais abundante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas o pluralismo de princ\u00edpios procura espa\u00e7o para a diversidade precisamente para permitir que reivindica\u00e7\u00f5es universais em mat\u00e9ria de justi\u00e7a, todo o peso de uma comunidade de convic\u00e7\u00f5es, sejam projetadas no debate p\u00fablico. \u00c9 por causa de seu compromisso com a busca da verdade universal que ele resiste a reivindica\u00e7\u00f5es monopolistas por parte dos porteiros da esfera p\u00fablica para determinar o que conta como verdade p\u00fablica. Tais alega\u00e7\u00f5es preventivas deslegitimam e marginalizam o tipo de vozes dissidentes minorit\u00e1rias dos quais (como seguidores de um rabino galileu fora da lei s\u00e3o obrigados a afirmar), a verdade, de fato, \u00e0s vezes emerge.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No Ocidente moderno, o pluralismo de princ\u00edpios permanece contra duas alternativas monistas rivais \u00e0s quais Kuyper desde o in\u00edcio buscou diagn\u00f3sticos cr\u00edticos. A mais antiga \u00e9 a &#8220;Cristandade&#8221;, entendida como a garantia legal de primazia p\u00fablica, e at\u00e9 mesmo exclusividade, para a f\u00e9 crist\u00e3. Kuyper teve que enfrentar tradicionalistas em seu pr\u00f3prio eleitorado calvinista que queriam se apegar a tal primazia. Ele mesmo frequentemente falava da Holanda como uma &#8220;na\u00e7\u00e3o crist\u00e3&#8221;, mas com isso ele quis dizer da marca hist\u00f3rica profunda do calvinismo em sua cultura e constitui\u00e7\u00e3o. Ele dava gra\u00e7as por esse legado, mas n\u00e3o recorria a ele para montar uma reivindica\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea de um estado confessional. Ele procurou lembrar a seus seguidores que o calvinismo ortodoxo, embora tenha sido decisivo para a forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do n\u00facleo da na\u00e7\u00e3o, agora representava apenas um d\u00e9cimo da popula\u00e7\u00e3o. Defender o car\u00e1ter crist\u00e3o da na\u00e7\u00e3o poderia agora s\u00f3 funcionar democraticamente de baixo para cima e j\u00e1 n\u00e3o depender de vantagem constitucional herdada. Como Bratt coloca, para Kuyper, &#8220;O Calvinismo n\u00e3o era um estabelecimento de outrora, mas uma filosofia de diversidade&#8221;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A mais recente alternativa monista \u00e9 o &#8220;secularismo&#8221;, entendido como a concess\u00e3o legal de primazia p\u00fablica, e mesmo a exclusividade, a vis\u00f5es de mundo secularistas. Este \u00e9 o principal desafio que os crist\u00e3os ocidentais enfrentam hoje, e n\u00e3o apenas na Fran\u00e7a, onde ele \u00e9 a pol\u00edtica de Estado oficial, ou nos EUA e Canad\u00e1, onde muitos secularistas, incluindo muitos ju\u00edzes, acham que \u00e9. Como Bratt relata, foi a tentativa de elitistas secularistas holandeses (alguns deles protestantes liberais) de for\u00e7ar as escolas calvinistas ortodoxas a sair do neg\u00f3cio que mais energizou o contra-movimento no qual Kuyper levantou-se rapidamente na d\u00e9cada de 1870 para ser o timoneiro formid\u00e1vel. O secularismo est\u00e1 novamente em movimento em muitas democracias ocidentais, n\u00e3o necessariamente de modo conspirat\u00f3rio ou mal\u00e9volo, mas muitas vezes de maneira vexat\u00f3ria. Ele est\u00e1 se manifestando em duas grandes tend\u00eancias pol\u00edticas, ambas as quais encontram apoio de vozes \u00e0 esquerda, direita e centro da pol\u00edtica. O exemplo de Kuyper nos lembra que \u00e9 necess\u00e1rio que os crist\u00e3os de hoje tomem medidas contra ambos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Uma tend\u00eancia \u00e9 a tentativa de resistir (ou desfazer) o pluralismo confessional em educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, rela\u00e7\u00f5es de trabalho, e em outros lugares, seja pela simples exclus\u00e3o legislativa ou burocr\u00e1tica da diversidade confessional, ou pela implanta\u00e7\u00e3o de c\u00f3digos anti-discrimina\u00e7\u00e3o, de modo a restringir os direitos dos crentes individuais ou de associa\u00e7\u00f5es baseadas na f\u00e9 de agir de acordo com suas convic\u00e7\u00f5es mais profundas. Lamentavelmente, o ponto de inflama\u00e7\u00e3o mais vis\u00edvel desta campanha \u00e9 o crescente conflito entre os direitos (pr\u00f3prios) das minorias sexuais n\u00e3o serem discriminadas e os direitos (pr\u00f3prios) de indiv\u00edduos religiosos ou associa\u00e7\u00f5es n\u00e3o serem coagidos a agir contra a sua \u00e9tica sexual em assuntos de trabalho ou de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os. No Reino Unido, por exemplo, isso levou ao resultado claramente antiliberal de as ag\u00eancias de ado\u00e7\u00e3o cat\u00f3licas, com um belo hist\u00f3rico de alcan\u00e7ar as crian\u00e7as nos lugares mais dif\u00edceis, serem for\u00e7ados a abandonar um princ\u00edpio de longa data da teologia moral cat\u00f3lica ou a fechar as portas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Esta disputa pouco construtiva foi imposta a cidad\u00e3os crist\u00e3os contra sua vontade; eles n\u00e3o deram in\u00edcio a esta luta particular. No entanto, \u00e9 uma quest\u00e3o reveladora perguntar por que confrontos equivalentes n\u00e3o s\u00e3o evidentes em outros terrenos nos quais uma cosmovis\u00e3o crist\u00e3 se choca com as seculares dominantes. Por que, por exemplo, as escolas crist\u00e3s do Reino Unido n\u00e3o est\u00e3o sob press\u00e3o legal para alinhar seus curr\u00edculos de economia com um curr\u00edculo nacional imposto pelo Estado refletindo o governante paradigma utilit\u00e1rio neo-cl\u00e1ssico? A resposta deprimente \u00e9: porque eles ainda n\u00e3o discerniram que uma vis\u00e3o crist\u00e3 da economia diverge daquele paradigma &#8220;em suas ra\u00edzes&#8221;, como Kuyper costumava dizer. Ou: por que hospitais crist\u00e3os n\u00e3o entram em conflito com a lei secular seguindo a resist\u00eancia \u00e0 vis\u00e3o de mundo mecanicista que alimenta o excessivo recurso \u00e0 grande medica\u00e7\u00e3o patrocinada pela ind\u00fastria farmac\u00eautica, e n\u00e3o faz campanha por espa\u00e7o e financiamento de formas mais hol\u00edsticas de cuidado? Onde os crist\u00e3os forem realmente s\u00e9rios acerca do pluralismo confessional, eles v\u00e3o levar &#8220;todo o peso de suas convic\u00e7\u00f5es&#8221; para influenciar as pol\u00edticas p\u00fablicas em geral.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A segunda tend\u00eancia pol\u00edtica secularista hoje \u00e9 o surgimento do que Philip Bobbitt tem apelidado de &#8220;estado de mercado&#8221;. Isso est\u00e1 provocando manifesta\u00e7\u00f5es de individualismo e estatismo ainda mais prejudiciais do que aquelas que Kuyper teve de enfrentar. Por um lado, h\u00e1 uma mercantiliza\u00e7\u00e3o desenfreada da sociedade &#8212; a subservi\u00eancia progressiva das rela\u00e7\u00f5es sociais e ecol\u00f3gicas complexas e delicadas aos fins do interc\u00e2mbio comercial e da gratifica\u00e7\u00e3o consumista. Por outro, h\u00e1 um estado burocr\u00e1tico constantemente invasor, restringindo as institui\u00e7\u00f5es da sociedade civil e esvaziando as estruturas da democracia. Os dois operam lado-a-lado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O detalhado relato de Bratt acerca da continuada campanha de Kuyper por reformas sociais e econ\u00f4micas para o capitalismo industrial explorador dos seus dias, e ainda sem abra\u00e7ar um estado arrogante, mostra como a sua vis\u00e3o pode ser uma inspira\u00e7\u00e3o para os crist\u00e3os de hoje enfrentarem essa dupla amea\u00e7a. Mas \u00e9 essencial que os crist\u00e3os tamb\u00e9m reconhe\u00e7am que essas for\u00e7as s\u00e3o profundamente secularizantes exigindo tanto a busca de an\u00e1lise cr\u00edtica e oposi\u00e7\u00e3o comprometida quanto a primeira.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A luta de Kuyper por um &#8220;pluralismo de princ\u00edpio&#8221; era na pr\u00e1tica mais confusa do que meu resumo tem sugerido. Mas a leitura do sincero retrato de Bratt nos lembra que as grandes id\u00e9ias pol\u00edticas como esta s\u00e3o sempre formuladas de forma inconsistente, apreendidas parcialmente, implementadas irregularmente e produzem imprevistas conseq\u00fc\u00eancias; seu destino inevitavelmente est\u00e1 nas m\u00e3os de indiv\u00edduos e grupos profundamente fal\u00edveis. No entanto, essa luta nos deixou ideias poderosamente convincentes que merecem reapropria\u00e7\u00e3o cr\u00edtica hoje enquanto enfrentamos os desafios de um mundo cada vez mais desconcertantemente plural, fraturado, e inseguro.<br \/>\n&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-<br \/>\nCopyright \u00a9 1974-2013 Cardus. Todos os direitos reservados.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o Livre: Daniel Dliver @danieldliver<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; [Com autoriza\u00e7\u00e3o do companheiro Daniel Dliver, republico sua tradu\u00e7\u00e3o de um artigo j\u00f3ia de Jonathan Chaplin, sobre o tema do pluralismo. \u00c9 esse o tipo de perspectiva subjacente ao que escrevi anteriormente neste blog sobre pluralismo (veja AQUI).] &nbsp; A vis\u00e3o de Kuyper pode ser uma inspira\u00e7\u00e3o para os crist\u00e3os que hoje enfrentam a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":23,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[7642],"tags":[19028,5874,26831],"class_list":["post-913","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sociedade","tag-pluralismo","tag-politica","tag-sociedade","count-0","even alt","author-guilhermevrc","last"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/913","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/users\/23"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=913"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/913\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":917,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/913\/revisions\/917"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=913"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=913"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=913"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}