{"id":885,"date":"2014-02-07T10:17:10","date_gmt":"2014-02-07T13:17:10","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/?p=885"},"modified":"2014-02-11T08:47:27","modified_gmt":"2014-02-11T11:47:27","slug":"tempo-e-felicidade-contra-o-presentismo-ateu-de-andre-comte-sponville","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/2014\/02\/07\/tempo-e-felicidade-contra-o-presentismo-ateu-de-andre-comte-sponville\/","title":{"rendered":"Tempo e Felicidade: contra o presentismo ateu de Andr\u00e9 Comte-Sponville"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O artigo abaixo \u00e9 o texto da palestra apresentada na <strong>Fnac-BH<\/strong> na noite de 22 de Janeiro deste ano; prometi \u00e0 audi\u00eancia e aos amigos de L&#8217;Abri que disponibilizaria o texto inteiro; da\u00ed o formato &#8220;paper&#8221;; mas, enfim, sendo caridoso comigo mesmo, meu blog sempre teve um formato muito pessoal. Bom proveito!<\/p>\n<p>*******************************<\/p>\n<p>Segundo o fil\u00f3sofo franc\u00eas Gilles Lipovetsky, \u201ca felicidade \u00e9 o valor central, o grande ideal celebrado sem tr\u00e9guas pela civiliza\u00e7\u00e3o consumista\u201d <a title=\"\" href=\"#_ftn1\">[1]<\/a>. \u00c9 certo que se trata de um grande tema contempor\u00e2neo: temos filmes, livros de autoajuda, programas de TV, teorias administrativas, projetos partid\u00e1rios e at\u00e9 pol\u00edticas publicas destinadas a aumentar a felicidade geral. H\u00e1 toda uma esfera da sociedade contempor\u00e2nea, descrita pela soci\u00f3loga Eva Illouz como o \u201ccampo afetivo\u201d, interessada na cria\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o do bem estar; e dentro dela temos at\u00e9 mesmo uma \u201cci\u00eancia da felicidade\u201d, promovida pelo movimento da \u201cpsicologia positiva\u201d. <!--more--><\/p>\n<p>E muito embora Lipovetsky associe essa grande celebra\u00e7\u00e3o atual da felicidade a uma fixa\u00e7\u00e3o consumista \u2013 e creio que ele est\u00e1 basicamente correto nisso \u2013 a busca da felicidade n\u00e3o \u00e9 coisa nova. Freud, que n\u00e3o era um sujeito particularmente feliz, j\u00e1 havia apontado a busca da felicidade como a coisa central para interpretar o homem:<\/p>\n<div>\n<blockquote><p>\u201co que revela a pr\u00f3pria conduta dos homens acerca da felicidade e inten\u00e7\u00e3o de sua vida, o que pedem eles da vida e desejam nela alcan\u00e7ar? \u00c9 dif\u00edcil n\u00e3o acertar a resposta: eles buscam a felicidade, querem se tornar e permanecer felizes\u201d<a title=\"\" href=\"#_ftn2\"><b>[2]<\/b><\/a><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<p>Freud n\u00e3o relaciona a busca da felicidade \u00e0 condi\u00e7\u00e3o da sociedade moderna, mas \u00e0 pr\u00f3pria natureza humana. E ainda que a sociedade de hiperconsumo seja uma forma particular de organizar essa busca, ela esteve sempre a\u00ed; foi tema das chamadas revolu\u00e7\u00f5es burguesas; antes delas Pascal observava que todos os homens querem ser felizes, e que tudo o que fazem visa a felicidade, at\u00e9 mesmo o homem que vai se enforcar; na antiguidade Crist\u00e3 te\u00f3logos como Santo Agostinho escreviam sobre \u201cA Vida Feliz\u201d e, bem antes dele os gregos j\u00e1 conheciam os detalhes do assunto; Plat\u00e3o reconhecia que todos querem ser felizes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A Felicidade dos Fil\u00f3sofos<\/strong><\/p>\n<p>Digo isso para deixar claro que a \u201cbusca da felicidade\u201d n\u00e3o \u00e9 assunto criado pela literatura de \u201cautoajuda\u201d; \u00e9 assunto s\u00e9rio. Identifiquei-me profundamente com a abordagem de Andr\u00e9 Comte-Sponville, um fil\u00f3sofo franc\u00eas atual, bastante popular, de persuas\u00e3o ate\u00edsta: para ele a felicidade n\u00e3o \u00e9 somente um assunto da filosofia, mas o que define a pr\u00f3pria filosofia. Sua inspira\u00e7\u00e3o veio do seguinte fragmento de Epicuro:<\/p>\n<div>\n<blockquote><p>\u201cA filosofia \u00e9 uma atividade que, por discursos e racioc\u00ednios, nos proporciona uma vida feliz\u201d.<a title=\"\" href=\"#_ftn3\"><b>[3]<\/b><\/a><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<p>E a partir dela Sponville cunha a sua pr\u00f3pria defini\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<div>\n<blockquote><p>\u201cA filosofia \u00e9 uma pr\u00e1tica discursiva [&#8230;] que tem a vida por objeto, a raz\u00e3o por meio, e a felicidade por fim\u201d<a title=\"\" href=\"#_ftn4\"><b>[4]<\/b><\/a><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<p>Essa forma de relacionar a filosofia com a vida, ao inv\u00e9s de mant\u00ea-la como uma discuss\u00e3o abstrata, heur\u00edstica, limitada ao universo acad\u00eamico, me encanta bastante. \u00c9 a forma antiga de fazer filosofia. E lembro aqui que na tradi\u00e7\u00e3o judaica a sabedoria tamb\u00e9m estava ligada \u00e0 felicidade. Dizem os prov\u00e9rbios de Salom\u00e3o:<\/p>\n<div>\n<blockquote><p>\u201cFeliz \u00e9 quem encontra a sabedoria, e quem adquire o entendimento, pois o lucro da sabedoria \u00e9 melhor que o da prata; sua renda \u00e9 melhor do que o ouro [&#8230;] \u00c9 \u00e1rvore de vida para os que a alcan\u00e7am, e todo aquele que a conserva \u00e9 feliz.\u201d (Pv 3.13-18)<\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<p>Pelo menos nessa parte da jornada n\u00f3s, Crist\u00e3os e ateus, podemos andar juntos; mas desde j\u00e1 divergimos tamb\u00e9m: a sabedoria grega era basicamente o fruto de uma vis\u00e3o intelectual, enquanto a sabedoria hebraica fundava-se na audi\u00e7\u00e3o e na interpreta\u00e7\u00e3o. Isso \u00e9 outro assunto, no entanto.<\/p>\n<p>Felicidade, ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 assunto de \u201cautoajuda\u201d; \u00e9 assunto filos\u00f3fico, e tamb\u00e9m assunto religioso; e tamb\u00e9m assunto ate\u00edsta. Para Sponville \u00e9 certamente um tema ate\u00edsta. Sponville \u00e9 um dentre v\u00e1rios fil\u00f3sofos ateus contempor\u00e2neos ocupados em desenvolver uma ou outra forma de espiritualidade ate\u00edsta, tal qual Alain de Bottom ou Luc Ferry.<\/p>\n<p>E para desenvolv\u00ea-la, ele precisa enfrentar o tema da felicidade. \u00c9 poss\u00edvel ser feliz sem Deus, afinal? O debate o leva a conversar com Blaise Pascal, o matem\u00e1tico e fil\u00f3sofo Crist\u00e3o do s\u00e9culo XVII. Sponville concorda com Pascal, em que<\/p>\n<div>\n<blockquote><p>\u201co homem n\u00e3o pode ficar face a face consigo mesmo sem cair no t\u00e9dio, no desgosto e no desespero, porque descobre ent\u00e3o o pouco que \u00e9 e o pouco que o espera. O que sou eu? Quase nada. O que me espera? Nada: o nada, a morte. Donde o \u2018divertimento\u2019, no sentido pascaliano do termo, ou seja, essa vaga de ocupa\u00e7\u00f5es que impomos a n\u00f3s pr\u00f3prios, as quais parecem visar a felicidade, embora s\u00f3 sirvam, na realidade, para nos fazer evitar pensar em n\u00f3s mesmo e na nossa morte.\u201d<a title=\"\" href=\"#_ftn5\"><b>[5]<\/b><\/a><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<p>Concorda no diagn\u00f3stico, mas recusa o rem\u00e9dio pascaliano. Pois para Pascal s\u00f3 a esperan\u00e7a de uma outra vida pode trazer alguma felicidade nessa vida \u2013 e simultaneamente nos livrar da ilus\u00e3o do entretenimento. Sobre isso nosso fil\u00f3sofo comenta:<\/p>\n<div>\n<blockquote><p>Se Pascal tiver raz\u00e3o, um ateu n\u00e3o pode escapar ao desespero e, logo, \u00e0 infelicidade. \u00c9 precisamente esse \u2018e, logo\u2019 que tentei, pela minha parte, questionar. Creio, concordando com Pascal, que um ateu l\u00facido e coerente n\u00e3o pode escapar ao desespero, j\u00e1 que nada o espera, afinal de contas, sen\u00e3o a morte. Por\u00e9m, recuso-me a pensar com ele que o desespero seja necessariamente uma infelicidade.<a title=\"\" href=\"#_ftn6\"><b>[6]<\/b><\/a><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<p>Como assim? Sponville prop\u00f5e o \u201calegre desespero\u201d. Ele observa que s\u00f3 esperamos o que n\u00e3o temos. &#8220;Se esperamos a felicidade, \u00e9 porque n\u00e3o somos felizes [&#8230;] Portanto, felicidade e desespero podem \u2013 e devem, para um ateu \u2013 andar juntas: enquanto espero a felicidade, n\u00e3o sou feliz; quando sou feliz, j\u00e1 n\u00e3o tenho mais nada a esperar\u201d.<a title=\"\" href=\"#_ftn7\">[7]<\/a> \u00c9 necess\u00e1rio abandonar a esperan\u00e7a e desejar t\u00e3o somente o que h\u00e1, agora, e o que se faz, agora: amor no lugar da esperan\u00e7a. E cita um tratado budista para refor\u00e7ar seu ponto:<\/p>\n<div>\n<blockquote><p>\u201cS\u00f3 o desesperado \u00e9 feliz, porque a esperan\u00e7a \u00e9 a maior tortura que existe, e o desespero, a maior beatitude\u201d.<a title=\"\" href=\"#_ftn8\"><b>[8]<\/b><\/a><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<p>Ent\u00e3o Sponville precisa lidar com a esperan\u00e7a, e n\u00e3o s\u00f3 com ela: com o que nos tira do presente e n\u00e3o nos deixa reconhecer que ele \u00e9 pleno, e n\u00e3o h\u00e1 nada al\u00e9m dele. E isso o levar\u00e1, naturalmente, \u00e0 filosofia do tempo. O que \u00e9 o tempo, afinal de contas? Qual \u00e9 o <i>status<\/i> de passado, presente e futuro?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O Tempo da Felicidade<\/strong><\/p>\n<p>A filosofia do tempo \u00e9 um assunto controvers\u00edssimo e reconhecidamente dif\u00edcil. Os estudiosos se dividem em cada uma das quest\u00f5es importantes, como se o tempo \u00e9 est\u00e1tico ou din\u00e2mico, sua extens\u00e3o, se a linguagem do tempo verbal \u00e9 verdadeira ou ilus\u00f3ria, sobre a natureza da mudan\u00e7a, e por a\u00ed vai&#8230;<\/p>\n<p>Andr\u00e9 Comte-Sponville escreveu uma obra muito rica sobre tempo, intitulada \u201cO Ser-Tempo\u201d. Nessa obra ele defende uma vers\u00e3o do que \u00e9 chamado de \u201cpresentismo\u201d: tudo o que existe, existe \u201cagora\u201d:<\/p>\n<div>\n<blockquote><p>\u201co tempo \u00e9 o presente [&#8230;]. O passado n\u00e3o existe, j\u00e1 que n\u00e3o existe mais; o futuro n\u00e3o existe, j\u00e1 que ainda n\u00e3o existe: s\u00f3 h\u00e1 o presente, que \u00e9 o \u00fanico tempo real. [&#8230;]<\/p>\n<p>Nada existe, sen\u00e3o o presente; nada subsiste (do passado ou do futuro), sen\u00e3o no presente. O presente cont\u00e9m, portanto, tudo o que existe ou subsiste; o presente cont\u00e9m tudo\u201d.<a title=\"\" href=\"#_ftn9\"><b>[9]<\/b><\/a><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<p>Sponville admite que sua vis\u00e3o tem certa origem em Agostinho, que trata do assunto em um trecho cl\u00e1ssico, no cap\u00edtulo 11 das Confiss\u00f5es:<\/p>\n<div>\n<blockquote><p>\u201cAgora est\u00e1 claro e evidente para mim que o futuro e o passado n\u00e3o existem, e que n\u00e3o \u00e9 exato falar de tr\u00eas tempos \u2013 passado, presente e futuro. Seria talvez mais justo dizer que os tempos s\u00e3o tr\u00eas, isto \u00e9, o presente dos fatos passados, o presente dos fatos presentes, e o presente dos fatos futuros. E estes tr\u00eas tempos est\u00e3o na mente e n\u00e3o os vejo em outro lugar. O presente do passado \u00e9 a mem\u00f3ria. O presente do presente \u00e9 a vis\u00e3o. O presente do futuro \u00e9 a espera. Se me \u00e9 permitido falar assim, direi que vejo e admito tr\u00eas tempos, e tr\u00eas tempos existem.\u201d<a title=\"\" href=\"#_ftn10\"><b>[10]<\/b><\/a><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<p>Pedindo desculpas por usar essa linguagem imprecisa, Agostinho se rende e fala em tr\u00eas tempos; poder\u00edamos falar em tr\u00eas presentes, j\u00e1 que n\u00e3o os experimentamos da mesma forma. E quanto ao presente \u201cpresente\u201d, at\u00e9 este estaria em processo de passar e se desfazer, para Agostinho. Ent\u00e3o o tempo seria um mist\u00e9rio: um \u201cquase nada\u201d entre dois nadas.<\/p>\n<p>Mas Sponville n\u00e3o reconhece os tr\u00eas como tempos reais, objetivos, externos, como tempos \u201cdo mundo\u201d. Para ele, s\u00e3o apenas coisas da alma. O tempo do mundo seria presente, e ponto. A divis\u00e3o em tr\u00eas seria coisa da subjetividade humana, e por isso ele prefere dar outro nome: <b>\u201ctemporalidade\u201d.<a title=\"\" href=\"#_ftn11\"><b>[11]<\/b><\/a><\/b> Tempo \u00e9 o presente, que dura e est\u00e1 sempre a\u00ed; \u00e9 o ser, pleno, eterno, que nunca passa. O tempo n\u00e3o passa, j\u00e1 que \u00e9 o presente; n\u00f3s \u00e9 que passamos por ele. Portanto, passado e futuro n\u00e3o existiriam.<\/p>\n<p>\u00c9 compreens\u00edvel que Sponville tenha essa vis\u00e3o presentista, j\u00e1 que em sua vis\u00e3o da felicidade o presente \u00e9 tudo, e a esperan\u00e7a \u00e9 uma tortura. O futuro \u00e9 irreal, e o desejo do que est\u00e1 no futuro se dirige para o irreal. Tudo deve se voltar para o presente, para a vontade de viver agora, para o que se pode ter agora. Portanto o tempo da felicidade \u00e9 o tempo do presente eterno e pleno. Mas ser\u00e1 isso vi\u00e1vel?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ser\u00e1 Vi\u00e1vel?<\/strong><\/p>\n<p>Um exemplo interessante do que Sponville diz \u00e9 um fen\u00f4meno antropol\u00f3gico singular, em terras brasileiras. Em 1977 o Dr. Daniel Everett veio ao Brasil com sua fam\u00edlia, como mission\u00e1rio enviado \u00e0 tribo amaz\u00f4nica de ca\u00e7adores-coletores denominada Pirah\u00e3, com o prop\u00f3sito de traduzir a B\u00edblia e evangelizar a tribo. Alguns anos depois ele perdeu a f\u00e9 e se tornou ateu, em parte pelo que testemunhou l\u00e1.<a title=\"\" href=\"#_ftn12\">[12]<\/a> Segundo ele os pirah\u00e3 seriam um povo contente e feliz, extremamente consciente do presente e de sua experi\u00eancia imediata, sem qualquer cren\u00e7a em deuses ou mitos (embora acreditassem em esp\u00edritos). Eles n\u00e3o acreditaram na mensagem de Everett sobre Jesus, quando descobriram que ele mesmo nunca havia visto Deus ou Jesus. E ele sentiu que n\u00e3o tinha como pregar aos Pirah\u00e3 que eles estavam perdidos, em pecado, e necessitados de Deus.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o foi por isso que Everett se tornou famoso; ele descobriu que a l\u00edngua dos pirah\u00e3 n\u00e3o funciona de acordo com as previs\u00f5es da teoria lingu\u00edstica de Noam Chomsky, dominante na atualidade. Al\u00e9m de n\u00e3o ter tempos verbais para o passado e o futuro, nem palavras para n\u00fameros, a linguagem aparentemente carece da \u201crecursividade\u201d, que \u00e9 a capacidade da linguagem de acrescentar e conectar ideias, o que permite a forma\u00e7\u00e3o de conceitos complexos. Se ele estiver correto, a principal teoria lingu\u00edstica na atualidade pode ser refutada.<\/p>\n<p>Agora o mais importante: Everett sugeriu que haveria uma conex\u00e3o entre a aus\u00eancia da recursividade e dos tempos verbais, e o \u201cpresentismo\u201d da cultura Pirah\u00e3. Eles teriam uma \u201cgram\u00e1tica da felicidade\u201d, voltada unicamente para o presente, e por isso n\u00e3o tem hist\u00f3ria, nem genealogia, nem mitos, nem esperan\u00e7as futuras, nem desejo de aprender novidades. Tudo, para eles, \u00e9 imut\u00e1vel e constante; e s\u00f3 importa o aqui e agora. Eles apenas habitam, contentes, o presente, num \u201ccarpe diem\u201d literalmente pr\u00e9-hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>As hist\u00f3rias de Sponville e Everett parecem se encaixar muito bem: a felicidade como a viv\u00eancia serena do presente, a cren\u00e7a na plenitude do presente, sem transcend\u00eancia nem esperan\u00e7a. Mas ser\u00e1 esse presentismo espiritual vi\u00e1vel para n\u00f3s, que j\u00e1 conhecemos a hist\u00f3ria, e j\u00e1 sofremos tanto com o nosso passado quanto com as incertezas do futuro?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A Inevit\u00e1vel Temporalidade<\/strong><\/p>\n<p>Comte-Sponville chama de \u201ctemporalidade\u201d a nossa consci\u00eancia tr\u00edplice do tempo, que chamei antes de \u201cos tr\u00eas presentes\u201d. Devido \u00e0 \u00eanfase no presente, ele n\u00e3o discute muito o lugar do presente-futuro e do presente-passado na constitui\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia; na verdade ele quer superar a preocupa\u00e7\u00e3o com a temporalidade e instaurar em seu lugar o presentismo. Mas considero isso uma falha importante.<\/p>\n<p>Meu ponto: <i>consci\u00eancia \u00e9 temporalidade. A consci\u00eancia \u00e9 feita da fus\u00e3o de tr\u00eas faculdades da alma: a mem\u00f3ria, a percep\u00e7\u00e3o e a imagina\u00e7\u00e3o<\/i>. A mem\u00f3ria \u00e9 o que torna presente, para a consci\u00eancia, o que se passou e j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais. A imagina\u00e7\u00e3o antecipa o que ainda vir\u00e1, tornando poss\u00edvel desejar, ou n\u00e3o desejar, e principalmente, planejar. E a percep\u00e7\u00e3o nos coloca em contato direto com o presente. O sentimento de termos um \u201ceu\u201d que permanece e que \u00e9 capaz de agir intencionalmente s\u00f3 existe porque, al\u00e9m da percep\u00e7\u00e3o, temos mem\u00f3ria e imagina\u00e7\u00e3o. Assim \u00e9 poss\u00edvel suprimir, mas n\u00e3o eliminar, a temporalidade.<\/p>\n<blockquote><p><strong>Meu ponto: <i>consci\u00eancia \u00e9 temporalidade. A consci\u00eancia \u00e9 feita da fus\u00e3o de tr\u00eas faculdades da alma: a mem\u00f3ria, a percep\u00e7\u00e3o e a imagina\u00e7\u00e3o<\/i>.<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Por isso mesmo, n\u00e3o podemos diminuir a import\u00e2ncia da mem\u00f3ria e da expectativa na constitui\u00e7\u00e3o do que somos como indiv\u00edduos e como membros da cultura ocidental moderna. A mem\u00f3ria tornou poss\u00edvel a tradi\u00e7\u00e3o, o ac\u00famulo de conhecimentos, o registro, e a posse racional de uma identidade cultural. E a Esperan\u00e7a deu ao homem um horizonte para sair em jornada, para encarar o desconhecido e, por isso, o que est\u00e1 al\u00e9m do presente. Sem ela, tudo o que existe \u00e9 o c\u00edrculo da fertilidade:<\/p>\n<div>\n<blockquote><p>\u201cTudo o que o \u00edndio faz \u00e9 em um c\u00edrculo, e isso porque o poder do mundo sempre age em c\u00edrculos, e todas as coisas tentam ser redondas [&#8230;]. At\u00e9 mesmo as esta\u00e7\u00f5es formam um grande c\u00edrculo em sua mudan\u00e7a, e sempre retornam para onde estavam. A vida de um homem \u00e9 um c\u00edrculo desde a inf\u00e2ncia at\u00e9 a inf\u00e2ncia, e assim \u00e9 em tudo onde h\u00e1 energia.\u201d<a title=\"\" href=\"#_ftn13\"><b>[13]<\/b><\/a><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<p>A esperan\u00e7a \u2013 goste Sponville disso ou n\u00e3o \u2013 \u00e9 o que levou o patriarca Abra\u00e3o a romper com o ciclo repetitivo da fertilidade, refletido no calend\u00e1rio Caldeu antigo, e a caminhar em dire\u00e7\u00e3o a uma promessa divina que n\u00e3o era a repeti\u00e7\u00e3o eterna do mito \u2013 e assim o povo hebreu, por assim dizer, \u201cinventou o futuro\u201d, como mostra habilmente o Dr. David Cahill na obra \u201cA D\u00e1diva dos Judeus\u201d:<\/p>\n<div>\n<blockquote><p>\u201cEnt\u00e3o, \u2018wayyelekh Avram (\u2018Avr\u00e3o foi\u2019) \u2013 duas das palavras mais ousadas de toda a literatura. Assinalam uma sepra\u00e7\u00e3o total de tudo o que aconteceu antes, na longa evolu\u00e7\u00e3o da cultura e da sensibilidade. Da Sum\u00e9ria, reposit\u00f3rio civilizado do previs\u00edvel, parte um homem que n\u00e3o sabe aonde est\u00e1 indo, mas que segue para o ermo desconhecido sob a inspira\u00e7\u00e3o do seu deus [&#8230;]. Da humanidade antiga, que desde as origens obscuras de sua consci\u00eancia, leu suas verdades eternas nas estrelas, parte um grupo que se orienta por uma b\u00fassola desconhecida. Da ra\u00e7a humana, que conhece na pr\u00f3pria pele que todo esfor\u00e7o acaba na morte, parte um l\u00edder que diz ter recebido uma promessa imposs\u00edvel. Da imagina\u00e7\u00e3o mortal, parte o sonho de algo novo, algo melhor, algo ainda por acontecer, algo&#8230; no futuro.\u201d<a title=\"\" href=\"#_ftn14\"><b>[14]<\/b><\/a><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<p>Dessa esperan\u00e7a surgiu a civiliza\u00e7\u00e3o Crist\u00e3, e com ela os ideais modernos de progresso, utopia e transforma\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>O que quero dizer \u00e9 que, sem um sistema de cren\u00e7as \u2013 e uma cultura espiritual \u2013 que n\u00e3o enfatizasse exatamente a pot\u00eancia da mem\u00f3ria e a esperan\u00e7a, viver\u00edamos um estado de paralisia cultural. Pois, como Everett observou, o presentismo dos Pirah\u00e3 n\u00e3o apenas os mant\u00e9m felizes, mas tamb\u00e9m impede que seu universo se alargue ou muito menos se transforme.<\/p>\n<p>Em nosso caso, inspirar-se nesse presentismo seria um ato de fuga tamb\u00e9m por outra raz\u00e3o: \u00e9 que, retornando a Pascal, a abertura do passado e do futuro nos fez descobrir a nossa mis\u00e9ria e as nossas possibilidades. Descobrimos que estamos ca\u00eddos, expulsos do para\u00edso; descobrimos que, caminhando, chegamos perto da terra prometida; e descobrimos que o nosso destino \u00e9 a morte. Isso traz culpa e remorso, por um lado, e ansiedade e infelicidade, por outro. <i>Mas ser\u00e1 honesto for\u00e7ar um esp\u00edrito presentista quando a nossa consci\u00eancia de temporalidade nos diz que estamos moralmente implicados com a mem\u00f3ria do passado e a intui\u00e7\u00e3o do futuro?<\/i><\/p>\n<p>A bem da verdade, Sponville se esfor\u00e7a por responder a essa cr\u00edtica. Ele nega explicitamente \u201cque se deva amputar toda a rela\u00e7\u00e3o com o futuro\u201d<a title=\"\" href=\"#_ftn15\">[15]<\/a>, mas afirma que ela deve ser limitada ao que podemos garantir por n\u00f3s mesmos: pelo saber e pela vontade. Devemos nos relacionar com o futuro t\u00e3o somente enquanto o futuro depender de n\u00f3s; como o homem que escolhe fazer sexo e que, segue \u201cfeliz, confiante, como que j\u00e1 gozando, fantasmaticamente, o prazer anunciado\u201d.<a title=\"\" href=\"#_ftn16\">[16]<\/a> Mas n\u00e3o \u00e9 este, sem d\u00favida nenhuma, um futuro min\u00fasculo, restrito ao que eu posso fazer ou tentar fazer? Onde est\u00e1 o outro nesse futuro? Onde est\u00e1 o n\u00f3s &#8211; se s\u00f3 posso garantir a mim? Se assim for, acabou-se todo o futuro.<\/p>\n<p>Citamos Sponville, l\u00e1 atr\u00e1s, aprovando sua vis\u00e3o da natureza da filosofia: uma investiga\u00e7\u00e3o com vistas \u00e0 felicidade. Agora cito um fil\u00f3sofo bem mais pr\u00f3ximo de n\u00f3s, que descreveria sua atividade filos\u00f3fica de um modo quase oposto:<\/p>\n<div>\n<blockquote><p>\u201cA maior impostura moderna n\u00e3o \u00e9 sua utopia racionalista, mas sim sua denega\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica da infelicidade [&#8230;].O ser humano [&#8230;] obviamente \u00e9 um \u2018ser-para-a-infelicidade\u2019. O fundamental seria identificar qual \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o espec\u00edfica entre modernidade e (in)felicidade. Essa rela\u00e7\u00e3o caracteriza-se, dentre outros modos de descrev\u00ea-la, pela t\u00e9cnica denegativa dessa condi\u00e7\u00e3o \u00edntima humana (o ser-para-a-infelicidade), t\u00e9cnica esta que, em muitos casos, constituiu-se num repert\u00f3rio variado de pseudoteorias a servi\u00e7o do fetiche da felicidade\u201d.<a title=\"\" href=\"#_ftn17\"><b>[17]<\/b><\/a><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<p>E, mais \u00e0 frente, acrescenta:<\/p>\n<div>\n<blockquote><p>\u201cUm dos tra\u00e7os mais bregas de nossa \u00e9poca \u00e9 supor que se pode ter vida moral sendo feliz [&#8230;]. Dependemos da gra\u00e7a para sermos virtuosos, nossa natureza vaidosa e orgulhosa por si mesma nunca sair\u00e1 do seu p\u00e2ntano pessoal. A ideia de que nossa natureza humana seja um tormento me parece a mais verdadeira de todas as descri\u00e7\u00f5es de nossa vida. Sei que muita gente julga essa vis\u00e3o ultrapassada, mas sinto um prazer todo especial em ser ultrapassado num mundo superficial como o nosso. Por que superficial? Porque parasitado por engenharias para a felicidade. Somos escravos da felicidade, mas \u00e9 a infelicidade que nos torna humanos.\u201d<a title=\"\" href=\"#_ftn18\"><b>[18]<\/b><\/a><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<p>O que separa tanto Sponville e Luiz Filipe Pond\u00e9, no tocante \u00e0 nossa discuss\u00e3o sobre felicidade? Claramente, a consci\u00eancia da mis\u00e9ria humana. \u00c9 sabido que, entre as doutrinas Crist\u00e3s que os fil\u00f3sofos iluministas mais detestavam, figurava a doutrina da Queda do homem no pecado. Ocorre que a modernidade nunca produziu uma descri\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia humana do mal capaz de rivalizar com ela e, no mais das vezes, n\u00e3o est\u00e1 nem um pouco interessada nisso: continua firme na cren\u00e7a de que o homem n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o mau assim. Pond\u00e9 quer desenterrar o defunto; Sponville quer esquece-lo para sempre:<\/p>\n<div>\n<blockquote><p>\u201cO que \u00e9 existir, para a maioria dos fil\u00f3sofos contempor\u00e2neos? \u00c9 ser fora de si, sempre adiante-de-si, como diz Heidegger, sempre jogado (no mundo) e se projetando (no futuro), sempre transcendendo seu pr\u00f3prio ser [&#8230;] sempre livre, sempre preocupado, sempre ansioso, sempre atormentado pelo nada, sempre voltado para a morte, sempre teleologicamente voltado para o futuro.\u201d<a title=\"\" href=\"#_ftn19\"><b>[19]<\/b><\/a><\/p>\n<p>\u201c\u00c9 preciso suspender aqui o interdito heideggeriano, libertar-se da preocupa\u00e7\u00e3o e da ang\u00fastia, para voltar enfim aos gregos, \u00e0 ousia como presen\u00e7a e \u00e0 parousia do mundo: ser \u00e9 presente, e n\u00e3o h\u00e1 outra coisa. Primado do tempo e n\u00e3o da temporalidade, primado da insist\u00eancia e n\u00e3o da exist\u00eancia, primado do desejo e n\u00e3o da ang\u00fastia, primado do mundo e n\u00e3o do nada \u2013 ser-para-a-vida e n\u00e3o ser-para-a-morte!\u201d<a title=\"\" href=\"#_ftn20\"><b>[20]<\/b><\/a><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<p>\u00c9 claro que num presentismo consistente, n\u00e3o pode haver pecado nem esperan\u00e7a de liberta\u00e7\u00e3o do pecado. Ent\u00e3o \u00e9 melhor n\u00e3o pensar nisso: vamos esquecer a temporalidade, com passado, presente e futuro, e ficar no \u201cCarpe Diem\u201d presentista. Mas como retornar \u00e0 condi\u00e7\u00e3o infantil e pr\u00e9-hist\u00f3rica dos Pirah\u00e3 agora que conhecemos a liberdade, o pecado e o futuro?<\/p>\n<p>Creio que a quest\u00e3o vai al\u00e9m de uma diferen\u00e7a entre estilos filos\u00f3ficos, do \u201cexistencialismo\u201d em oposi\u00e7\u00e3o ao \u201cessencialismo\u201d ou \u201cinsistencialismo\u201d (Sponville). <i>Uma filosofia que deseja contornar as dores que a mem\u00f3ria causa e os frutos que a esperan\u00e7a traz n\u00e3o pode ser uma filosofia honesta, mesmo que nos deixe contentes. <\/i>E quem nos ensina isso n\u00e3o \u00e9 o pr\u00f3prio Sponville?<\/p>\n<div>\n<blockquote><p>\u201ca felicidade que queremos, a felicidade que os gregos chamavam de sabedoria, aquela que \u00e9 a meta da filosofia, \u00e9 uma felicidade que n\u00e3o se obt\u00e9m por meio de drogas, mentiras, ilus\u00f5es, divers\u00e3o, no sentido pascaliano do termo; \u00e9 uma felicidade que se obteria em certa rela\u00e7\u00e3o com a verdade: uma verdadeira felicidade ou uma felicidade verdadeira.\u201d<a title=\"\" href=\"#_ftn21\"><b>[21]<\/b><\/a><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<p>Sponville quer se livrar da temporalidade ou, ao menos, reduzir sua import\u00e2ncia, porque ela est\u00e1 evidentemente alienada; \u00e9 fonte de dor e se interp\u00f5e entre o self e o presente, que \u00e9 sua vida; \u00e9 um obst\u00e1culo para a felicidade. Mas esse obst\u00e1culo n\u00e3o pode ser contornado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A Felicidade Ferida<\/strong><\/p>\n<p>Na verdade <em>n\u00e3o considero Pond\u00e9 uma alternativa vi\u00e1vel<\/em>, diante do projeto de felicidade de Sponville; apenas um corretivo. Se h\u00e1 uma dificuldade para viver o presente diante do fato inevit\u00e1vel da temporalidade, que se agarra \u00e0 consci\u00eancia, mas o presente \u00e9 indiscutivelmente o lugar do contentamento, ent\u00e3o \u00e9 preciso admitir, com Agostinho, que a felicidade completa \u00e9 imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o realismo Crist\u00e3o; n\u00e3o \u00e9 meramente uma utopia, como o ate\u00edsmo deseja colocar, mas em parte uma aceita\u00e7\u00e3o do fato de que a filosofia n\u00e3o pode vencer o mal, e portanto n\u00e3o pode produzir a felicidade. E aqui nos separamos radicalmente de Sponville. N\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o temos a filosofia certa; \u00e9 que o mundo est\u00e1 errado, e a \u00fanica filosofia capaz de me fazer feliz, neste mundo, \u00e9 a filosofia que me fizer aceita-lo completamente. Mas a filosofia que me fizer aceitar este mundo destruir\u00e1 a minha humanidade ou me far\u00e1 amputar partes de mim, como Sponville faz com a Esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o haja uma felicidade ou bem-aventuran\u00e7a; \u00e9 que ela \u00e9 quebrada como o mundo \u00e9 quebrado, incompleta. Na verdade Sponville afirma essa incompletude, embora atribua isso mais \u00e0 finitude que \u00e0 malignidade humana; mas isso \u00e9 t\u00e3o terrivelmente incompleto que n\u00e3o se pode nem mesmo considerar parcialmente v\u00e1lido. \u00c9 simplesmente nulo de significado.<\/p>\n<p>O que a \u201cfelicidade ferida\u201d precisar\u00e1 encarar, ent\u00e3o? <i>A aceita\u00e7\u00e3o da temporalidade. Mas como viver a temporalidade inteira e ainda ser feliz?<\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A Temporalidade Reconciliada<\/strong><\/p>\n<p>O Cristianismo ensina que a raiz profunda da infelicidade humana \u00e9 a sua aliena\u00e7\u00e3o de Deus. Pecado \u00e9 isso, disse Kierkegaard: \u201cem incredulidade, diante de Deus ou do conceito de Deus, querer ser voc\u00ea mesmo ou n\u00e3o querer ser voc\u00ea mesmo\u201d. Pecado \u00e9 essa aliena\u00e7\u00e3o radical, a tentativa de subsistir de si mesmo, como se o existir n\u00e3o fosse uma d\u00e1diva cont\u00ednua. Pecado \u00e9 a vida \u201csem a gra\u00e7a\u201d e, por isso, \u201csem gra\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o n\u00e3o podemos ir diretamente ao contentamento e voltar \u00e0 inf\u00e2ncia, retornar \u00e0 condi\u00e7\u00e3o ahist\u00f3rica dos pirah\u00e3s. Precisamos de reconcilia\u00e7\u00e3o, de retomar e superar as doen\u00e7as do passado, do presente e do futuro. E que doen\u00e7as s\u00e3o essas?<\/p>\n<p>Grosso modo, s\u00e3o as seguintes: a culpa, a vergonha e a d\u00favida corrompem a mem\u00f3ria; a ansiedade corrompe a imagina\u00e7\u00e3o; o hedonismo e o t\u00e9dio corrompem o presente.<\/p>\n<p>Como isso acontece \u00e9 um assunto longo; tratamos dele em uma palestra de L\u2019Abri intitulada \u201co sacramento do momento presente\u201d. Mas basta saber, aqui, que a aliena\u00e7\u00e3o de Deus e sua substitui\u00e7\u00e3o por \u00eddolos, que s\u00e3o deuses falsos, \u00e9 a raiz dessa corrup\u00e7\u00e3o da temporalidade. Os \u00eddolos nos fazem ser inaut\u00eanticos e a falhar com o pr\u00f3ximo, e por isso experimentamos a culpa e a vergonha; os \u00eddolos falham em cumprir suas promessas, e nos tornam escravos da ansiedade; os \u00eddolos nos deixam insatisfeitos, e por isso tentamos abusar dos prazeres presentes, no hedonismo. E o abuso do prazer leva ao t\u00e9dio, o esgotamento da percep\u00e7\u00e3o, a insensibilidade e o desengajamento do presente.<\/p>\n<p>Essa experi\u00eancia temporal do mal \u2013 a culpa, a concupisc\u00eancia, o t\u00e9dio e a ansiedade \u2013 n\u00e3o pode ser contornada pelo expediente presentista. Este c\u00e1lice precisa ser tomado at\u00e9 o fim.<\/p>\n<p>Mas a f\u00e9 Crist\u00e3 n\u00e3o termina no realismo radical; no seu centro est\u00e1 o testemunho de Jesus Cristo bebeu o c\u00e1lice, inteiro. Por sua identifica\u00e7\u00e3o com os pecadores, Deus tornou sua a nossa hist\u00f3ria e tornou nossa a sua vida. Na cruz ele suportou conosco a vergonha e nela Deus perdoou os nossos pecados; pela ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo deu nos deu um futuro que \u00e9 mais do que uma aspira\u00e7\u00e3o ou um desejo, mas uma certeza; e sua amizade eterna tira a obsess\u00e3o presentista, de viver \u201ctudo, ao mesmo tempo, agora\u201d.<\/p>\n<p>Que palavras descrevem essa reconcilia\u00e7\u00e3o da temporalidade? Se olhamos para o passado, encontramos a aceita\u00e7\u00e3o, e por isso podemos ser completamente realistas sobre o que vivemos; e podemos come\u00e7ar a integrar esse passado em uma hist\u00f3ria significativa. Se olhamos para o futuro, encontramos Esperan\u00e7a; n\u00e3o otimismo, utopia, ou a tortura do desejo, mas a expectativa; expectativa baseada no saber, no antever, na antecipa\u00e7\u00e3o do alimento que j\u00e1 reconhecemos pelo aroma. E se olhamos para o presente? Encontramos um sacramento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O Sacramento do Momento Presente<\/strong><\/p>\n<p>De um ponto de vista Crist\u00e3o ou B\u00edblico, o mundo n\u00e3o \u00e9 um evento sem significado. O mundo tem sentido, e esse sentido \u00e9 a trindade, a comunidade de amor divino que une Pai, Filho e Esp\u00edrito Santo. O mundo, na tradi\u00e7\u00e3o Crist\u00e3, \u00e9 um grande evento desse amor, mas um evento em processo, ainda incompleto para n\u00f3s.<\/p>\n<p>Mas essa f\u00e9 n\u00e3o teria um impacto t\u00e3o grande em nossa vida se n\u00e3o fosse outra doutrina muito importante do Cristianismo, que \u00e9 a doutrina da ado\u00e7\u00e3o. Para os Crist\u00e3os, Deus nos abra\u00e7a por meio de Jesus Cristo, e inclui todos os amigos de Jesus Cristo em sua fam\u00edlia divina. Isso tem um efeito muito importante na espiritualidade Crist\u00e3: aos olhos do Crist\u00e3o, o mundo inteiro passa a ser um evento de gra\u00e7a; uma d\u00e1diva.<\/p>\n<p>O termo \u201csacramento\u201d descreve bem essa experi\u00eancia. Um sacramento \u00e9 um s\u00edmbolo de algo divino, mas que n\u00e3o apenas representa conceitualmente o seu referente; ele torna o referente dispon\u00edvel. Pense na face humana: a alma n\u00e3o \u00e9 o rosto, mas aparece t\u00e3o claramente no rosto que ao toc\u00e1-lo podemos tocar a alma de algu\u00e9m.<\/p>\n<p>O fil\u00f3sofo ingl\u00eas Roger Scruton descreve a experi\u00eancia de Deus dessa forma: a face de Deus surge na Cria\u00e7\u00e3o para o fiel. Isso \u00e9 o que acontece ao Crist\u00e3o: ao reconhecer a presen\u00e7a divina em Jesus Cristo, ele passa a reconhecer a mesma face no mundo, que se torna para ele um sacramento de gra\u00e7a: cada instante, cada peda\u00e7o de mat\u00e9ria, cada ser torna-se transl\u00facido, sem desaparecer na transpar\u00eancia. \u00c9 disso que o Salmista falava quando dizia, no Salmo 19:<\/p>\n<div>\n<blockquote><p>\u201cOs c\u00e9us proclamam a gl\u00f3ria de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas m\u00e3os. Um dia declara isso a outro dia, e uma noite revela conhecimento \u00e0 outra noite. Sem discurso, nem palavras; n\u00e3o se ouve a sua voz. Mas sua voz se faz ouvir por toda a terra, e suas palavras, at\u00e9 os confins do mundo.\u201d (Salmo 19.1-4)<\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<p>Nesse sentido, o Crist\u00e3o poderia concordar substancialmente com o presentismo de Sponville; o presente \u00e9 uma d\u00e1diva, e cada experi\u00eancia de prazer presente \u00e9 uma d\u00e1diva. Na verdade, o \u201cCarpe Diem\u201d Crist\u00e3o tem um elemento singular que \u00e9 completamente ignorado por Sponville: a gratid\u00e3o.<\/p>\n<p>Normalmente n\u00e3o conseguimos dar aten\u00e7\u00e3o a duas coisas ao mesmo tempo. Mas sob certas condi\u00e7\u00f5es, podemos perceb\u00ea-las simultaneamente. Podemos, por exemplo, contemplar o que est\u00e1 al\u00e9m de uma vidra\u00e7a, atrav\u00e9s da janela, ou olhar para a pr\u00f3pria vidra\u00e7a; n\u00e3o podemos focar as duas coisas ao mesmo tempo, mas podemos manter a consci\u00eancia de uma enquanto vemos a outra. Mesmo assim, n\u00e3o podemos \u201cdesfrutar\u201d das duas coisas simultaneamente.<\/p>\n<blockquote><p><strong>o \u201cCarpe Diem\u201d Crist\u00e3o tem um elemento singular que \u00e9 completamente ignorado por Sponville: a gratid\u00e3o.<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Podemos receber um copo d\u2019\u00e1gua e aliviar com ele a nossa sede; e isso \u00e9 muito bom. Esse \u00e9 o presentismo ate\u00edsta: simplesmente viver o momento, entregar-se a ele; se \u00e9 algu\u00e9m virtuoso, viva o momento sem abuso e sem t\u00e9dio. Essa \u00e9 a meta.<\/p>\n<p>Mas a gratid\u00e3o transforma essa experi\u00eancia radicalmente. O prazer de aliviar a sede \u00e9 um prazer exterior, f\u00edsico, epid\u00e9rmico. Mas o prazer de ser amado \u00e9 um prazer interno, que n\u00e3o \u00e9 uma sensa\u00e7\u00e3o que nos acontece, um fluxo que passa por n\u00f3s, mas um estado, uma condi\u00e7\u00e3o do ser, uma dura\u00e7\u00e3o. E se os dois acontecem juntos? O prazer da percep\u00e7\u00e3o, e o prazer do amor?<\/p>\n<p>A gratid\u00e3o \u00e9 uma disciplina central do Cristianismo. \u00c9 a disciplina de ver o universo transl\u00facido; de reconhecer a vida e o presente como d\u00e1divas e, por isso mesmo, se alegrar no reconhecimento do doador. A gratid\u00e3o nos capacita a desfrutar da d\u00e1diva e do doador simultaneamente, e desse modo o presente se torna realmente eterno.<\/p>\n<p>Nisso discordo de Sponville: a transcend\u00eancia n\u00e3o elimina nem reduz a intensidade do presente; seu brilho a acende como a luz solar em um vitral; se de elimina o presente e a iman\u00eancia, \u00e9 manique\u00edsmo ou gnosticismo, ou outra blasf\u00eamia confundida com a f\u00e9. E discordo de Daniel Everett; se ele perdeu a f\u00e9, \u00e9 porque a transcend\u00eancia que ele servia estava ausente do mundo. O que n\u00e3o deixa de ser compreens\u00edvel, j\u00e1 que seu Cristianismo refletia muito da piedade negacionista do fundamentalismo evang\u00e9lico americano.<\/p>\n<p>E discordo de Sponville tamb\u00e9m nisso: o tempo n\u00e3o \u00e9 eternidade; o tempo \u00e9 o tempo, e n\u00f3s somos passageiros. O Eterno \u00e9 o amor eterno vivido dentro do tempo, e por isso s\u00f3 a gra\u00e7a pode tornar eterno o tempo; pois s\u00f3 a gra\u00e7a pode produzir a alegria que se chama gratid\u00e3o.<\/p>\n<blockquote><p><strong>A gratid\u00e3o \u00e9 uma disciplina central do Cristianismo. \u00c9 a disciplina de ver o universo transl\u00facido; de reconhecer a vida e o presente como d\u00e1divas e, por isso mesmo, se alegrar no reconhecimento do doador. A gratid\u00e3o nos capacita a desfrutar da d\u00e1diva e do doador simultaneamente, e desse modo o presente se torna realmente eterno.<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Mas h\u00e1 uma obje\u00e7\u00e3o importante: como viver em constante gratid\u00e3o, diante do mal? N\u00e3o \u00e9 isso uma nova e at\u00e9 pior forma de negacionismo? De forma alguma; a temporalidade do Crist\u00e3o \u00e9 vivida no interior de uma narrativa maior, que come\u00e7a com a celebra\u00e7\u00e3o de uma Cria\u00e7\u00e3o boa e com a sua reden\u00e7\u00e3o final. A narrativa Crist\u00e3 \u00e9 exatamente a narrativa de como o mal \u00e9 vencido, e de como Deus \u00e9 capaz de dar sentido ao que n\u00e3o tem sentido. N\u00e3o \u00e9 isso a Cruz? Um mal grotesco e irracional que se revela, no tempo certo, a vit\u00f3ria absoluta do bem divino? Expor o tema exigiria outro artigo, mas por agora \u00e9 suficiente ter em mente isso: que na temporalidade Crist\u00e3, at\u00e9 mesmo a terr\u00edvel prova pode ser encarada com alegria: <em>\u201cMeus irm\u00e3os, considerai motivo de grande alegria o fato de passardes por v\u00e1rias prova\u00e7\u00f5es\u201d (Tg 1.2) \u2013 isso \u00e9 o que ensina o ap\u00f3stolo Tiago.<\/em><\/p>\n<p>O Cristianismo \u00e9, essencialmente, uma celebra\u00e7\u00e3o da realidade na presen\u00e7a do Senhor Jesus, e por isso ele recebe tamb\u00e9m a realidade da nossa temporalidade. Mas ela \u00e9 inacess\u00edvel sem reconcilia\u00e7\u00e3o. N\u00e3o podemos for\u00e7a-la por uma amputa\u00e7\u00e3o cultural, por um estreitamento lingu\u00edstico reacion\u00e1rio, nem por uma disciplina negacionista para eliminar a dor.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a felicidade ferida do Cristianismo; uma segunda felicidade, que se ganha quando se perde. Parodiando a Jesus: quem quiser ser feliz, perder\u00e1 a sua vida; mas abrir m\u00e3o da sua felicidade por amor de mim ganhar\u00e1 a felicidade e algo ainda maior: a alegria eterna.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS:<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<p>COMTE-SPONVILLE, Andr\u00e9. O Ser-Tempo. Algumas Reflex\u00f5es sobre o Tempo da Consci\u00eancia. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2006.<\/p>\n<p>COMTE-SPONVILLE, Andr\u00e9. Nas Origens da Sabedoria. Em: Comte-Sponville, Andr\u00e9; Delumeau, Jean; Farge, Arlette. A Mais Bela Hist\u00f3ria da Felicidade. Lisboa: Edi\u00e7\u00f5es Texto &amp; Grafia, 2009.<\/p>\n<p>COMTE-SPONVILLE, Andr\u00e9. A Felicidade, Desesperadamente. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2001.<\/p>\n<p>FREUD, Sigmund. O Mal-Estar na Civiliza\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Penguin\/Companhia das Letras, 2011.<\/p>\n<p>LIPOVETSKY, Gilles. A Felicidade Paradoxal: ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2008.<\/p>\n<p>SANTO AGOSTINHO. Confiss\u00f5es. Cole\u00e7\u00e3o Patr\u00edstica. S\u00e3o Paulo: Paulus, 1997.<\/p>\n<p>PASCAL, Blaise. Pens\u00e9es and Other Writings. Oxford: Oxford University Press, 1995.<\/p>\n<p>POND\u00c9, Luiz Felipe. Contra um Mundo Melhor: ensaios do afeto. S\u00e3o Paulo: Leya, 2010.<\/p>\n<p>CAHILL, Thomas. A D\u00e1diva dos Judeus: como uma tribo do deserto moldou nosso modo de pensar. Rio de Janeiro: Objetiva, 1999.<\/p>\n<div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr align=\"left\" size=\"1\" width=\"33%\" \/>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> Lipovetsky 2008, p. 348<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref2\">[2]<\/a> Freud, 2011 [1930], p. 19.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref3\">[3]<\/a> Comte-Sponville, 2001 [1999], p.7.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref4\">[4]<\/a> Ibid, p. 9.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref5\">[5]<\/a> Comte-Sponville, 2009 [2008], p. 44.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref6\">[6]<\/a> Ibid, p. 45.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref7\">[7]<\/a> Ibid, p. 45-6.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref8\">[8]<\/a> Ibid, p. 46.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref9\">[9]<\/a> Comte-Sponville, 2000 [1999], 50-51.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref10\">[10]<\/a> Santo Agostinho, Livro XI, 20 (1997, 348-9).<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref11\">[11]<\/a> Comte-Sponville, 2000, 32-33.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref12\">[12]<\/a> Cf. http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha\/ciencia\/ult306u497009.shtml<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref13\">[13]<\/a> Black Elk. Ep\u00edgrafe Introdut\u00f3ria em: Cahill, 1999.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref14\">[14]<\/a> Ibid, p. 75.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref15\">[15]<\/a> Comte-Sponville, 2001, 96.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref16\">[16]<\/a> Ibid, p. 99.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref17\">[17]<\/a> Pond\u00e9, 2010, 53.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref18\">[18]<\/a> Ibid, p. 64-5.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref19\">[19]<\/a> Comte-Sponville, 2000, 92.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref20\">[20]<\/a> Ibid, p. 95.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref21\">[21]<\/a> Comte-Sponville, 2001, 10.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; O artigo abaixo \u00e9 o texto da palestra apresentada na Fnac-BH na noite de 22 de Janeiro deste ano; prometi \u00e0 audi\u00eancia e aos amigos de L&#8217;Abri que disponibilizaria o texto inteiro; da\u00ed o formato &#8220;paper&#8221;; mas, enfim, sendo caridoso comigo mesmo, meu blog sempre teve um formato muito pessoal. 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