{"id":861,"date":"2013-10-29T18:56:09","date_gmt":"2013-10-29T21:56:09","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/?p=861"},"modified":"2013-11-01T10:43:25","modified_gmt":"2013-11-01T13:43:25","slug":"ideologia-liberal-e-promiscuidade-sexual-cumplices","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/2013\/10\/29\/ideologia-liberal-e-promiscuidade-sexual-cumplices\/","title":{"rendered":"Ideologia liberal e promiscuidade sexual: C\u00famplices?"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Poucos discordariam de que a moralidade sexual evang\u00e9lica encontra-se em uma grande crise. E n\u00e3o apenas uma crise de coer\u00eancia, uma crise de pr\u00e1ticas, mas uma crise de princ\u00edpios. Nos p\u00falpitos (ou na grande maioria deles) a moralidade Crist\u00e3 tradicional continua encontrando suporte: sexo exclusivamente heterossexual, rejei\u00e7\u00e3o da pornografia, namoro sem sexo, casamento como pacto moral, monogamia, etc.<\/p>\n<p>Mas no meio do povo a regra j\u00e1 \u00e9 outra h\u00e1 tempos. Sim, alguns dir\u00e3o que sempre foi outra. \u00c9 certo que o \u2018puritanismo\u2019 evang\u00e9lico oficial sempre foi manco na pr\u00e1tica, e na verdade isso se aplicaria \u00e0 hist\u00f3ria inteira do cristianismo; mas n\u00e3o \u00e9 disso que estamos falando, da evidente incoer\u00eancia dos Crist\u00e3os em manter seus pr\u00f3prios padr\u00f5es sexuais. O que vemos hoje \u00e9 um pouco diferente: a moralidade sexual Crist\u00e3 cl\u00e1ssica deixou de ser dif\u00edcil, para se tornar implaus\u00edvel. <!--more--><\/p>\n<p><em>Implaus\u00edvel<\/em>, este \u00e9 o termo certo. N\u00e3o apenas porque \u00e9 muito dif\u00edcil de cumprir no mundo hipermoderno, com suas ofertas incessantes de prazer r\u00e1pido e f\u00e1cil, e com a diminui\u00e7\u00e3o dos escr\u00fapulos tradicionais (o que meu av\u00f4 chamava de \u201csem-vergonhice\u201d) mas porque ela come\u00e7ou a parecer errada mesmo. Sem fundamentos, sem justificativas, doentia e, mas recentemente, <i>imoral<\/i>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>D\u00daVIDAS MORAIS<\/strong><\/p>\n<p>Consideremos por exemplo o ideal rom\u00e2ntico de felicidade amorosa, martelado religiosamente pelas novelas Globais na hist\u00f3ria sempre igual de um c\u00f4njuge que abandona seu companheiro (mau, geralmente) pelo amor da sua vida, e que precisa, deve, ou est\u00e1 sob obriga\u00e7\u00e3o de faz\u00ea-lo, como condi\u00e7\u00e3o de autenticidade pessoal. Para o brasileiro contempor\u00e2neo o dever da autenticidade \u00e9 sagrado, e esse dever \u00e9 interpretado por meio de uma vis\u00e3o utilitarista de felicidade, de modo que o indiv\u00edduo tem a obriga\u00e7\u00e3o de colocar sua felicidade acima de qualquer coisa. Admite-se, em casos particulares, que uma mulher abra m\u00e3o de sua felicidade em nome dos filhos, mas isso n\u00e3o \u00e9 exatamente valorizado; \u00e9 tolerado e considerado compreens\u00edvel; mas se tudo \u00e9 abandonado em nome da autenticidade e da felicidade no amor, temos um verdadeiro \u201chappy end\u201d, e um exemplo de coragem e maturidade. Quanto aos sofrimentos que isso traz a algumas pessoas&#8230; trata-se do lado tr\u00e1gico da vida. E quem n\u00e3o entende isso n\u00e3o entende nada do amor, diz-se.<\/p>\n<p>Outra hist\u00f3ria bastante conhecida \u00e9 a do \u201csexo extramarital\u201d, antigamente chamado de \u201cfornica\u00e7\u00e3o\u201d, mas que hoje se chama simplesmente&#8230; Bem, nem tem mais nome no uso popular. N\u00e3o se trata mais de uma pr\u00e1tica distinta e question\u00e1vel, sobre a qual as pessoas precisam pensar antes de fazer; virou um n\u00e3o objeto, uma esp\u00e9cie de g\u00e1s dentro do qual todos nos movemos: simplesmente <i>sexo<\/i>. \u201cComo assim, \u2018sexo extramarital\u2019? Existe sexo e ponto; o que o casamento tem a ver com isso?\u201d<\/p>\n<p>E assim como os pag\u00e3os, os crist\u00e3os agora se confundem tamb\u00e9m a respeito: \u201cse existe amor e s\u00e3o duas pessoas adultas, porque o sexo n\u00e3o \u00e9 permitido?\u201d Claro, h\u00e1 a vers\u00e3o gospel: \u201cse nos amamos e vamos nos casar (semana que vem, ou no pr\u00f3ximo ano, ou um dia quem sabe, ou ao menos \u00e9 a sincera inten\u00e7\u00e3o do meu cora\u00e7\u00e3o nesse momento), porque n\u00e3o podemos transar?\u201d<\/p>\n<p>Entre muitas outras, essa \u00e9 uma pergunta que Crist\u00e3os fazem a si mesmos ou a seus amigos (e a seus namorados(as) acima de tudo), evitando na maioria das vezes leva-la a seus pastores e l\u00edderes; afinal, ningu\u00e9m quer ser acusado de premeditar a fornica\u00e7\u00e3o. Mas mesmo quando essa pergunta \u00e9 levantada publicamente por um crente mais corajoso (normalmente s\u00e3o Nerds e Geeks que fazem a pergunta; os assanhados ficam na calada), n\u00f3s pastores em geral n\u00e3o temos uma resposta. Temos, sim, uma resposta B\u00edblica; mas porque ela antes parecia suficiente e agora n\u00e3o funciona mais? N\u00e3o que antes a resposta B\u00edblica impedisse os fornicadores; \u00e9 que antes eles se sentiam culpados. Agora sentem-se confusos e c\u00e9ticos. O que mudou?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O SEXO \u201cLIBERAL\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Haveria muito o que dizer quanto a essas mudan\u00e7as, mas vou me concentrar no que considero o problema central: um g\u00e1s espec\u00edfico que intoxicou a nossa atmosfera. Vivemos agora em uma sociedade p\u00f3s-crist\u00e3 na qual o ponto de partida para orientar a imagina\u00e7\u00e3o moral se alterou completamente. E a mudan\u00e7a na composi\u00e7\u00e3o do ar tem tudo a ver com o que chamamos de &#8220;liberalismo&#8221;.<\/p>\n<p>\u201cLiberal\u201d n\u00e3o tem aqui o sentido de \u201cliberado\u201d, nem da \u201cteologia liberal\u201d. Refiro-me antes \u00e0 ideologia liberal, que tem m\u00faltiplos desdobramentos, desde o liberalismo pol\u00edtico, passando pela economia liberal, at\u00e9 o campo da filosofia moral. Em termos muito gen\u00e9ricos, o liberalismo afirma como valor m\u00e1ximo e fundamento moral principal a <i>liberdade do indiv\u00edduo<\/i>, que \u00e9 seu direito e dever supremo. A posse de n\u00f3s mesmos, o direito de si, seria o fundamento de todos os outros direitos.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que h\u00e1 vers\u00f5es e vers\u00f5es disso; libert\u00e1rios mais radicais afirmar\u00e3o que a posse de si \u00e9 <i>ilimitada<\/i>; outros como o pr\u00f3prio John Locke reconheceram em Deus a fonte da liberdade e, assim, seu <i>limite<\/i>. E \u00e9 verdade que pensadores n\u00e3o liberais tamb\u00e9m podem defender a liberdade do indiv\u00edduo. Mas h\u00e1 uma diferen\u00e7a: para o liberal, esse princ\u00edpio \u00e9 <i>hierarquicamente superior<\/i>; ele tem o papel central na constitui\u00e7\u00e3o do discurso pol\u00edtico e moral. O qu\u00e3o liberal \u00e9 uma pessoa, podemos aferir pelo quanto seus julgamentos morais s\u00e3o governados pelo princ\u00edpio moral liberal.<\/p>\n<p>A concep\u00e7\u00e3o moral liberal vincula-se <i>frequentemente <\/i>(embora <i>n\u00e3o necessariamente<\/i>) ao liberalismo pol\u00edtico, com a afirma\u00e7\u00e3o da vida, liberdade e propriedade como direitos humanos fundamentais, e a uma vis\u00e3o do Estado como baseado num contrato limitado, dedicada \u00e0 prote\u00e7\u00e3o desses direitos, e ao liberalismo econ\u00f4mico, com sua afirma\u00e7\u00e3o da independ\u00eancia do mercado em rela\u00e7\u00e3o ao Estado ou a estruturas sociais n\u00e3o-econ\u00f4micas.<\/p>\n<p>Mas voltemos ao sexo: segundo o fil\u00f3sofo americano Alan Soble uma \u00e9tica sexual secular caracteriza-se pela autodetermina\u00e7\u00e3o, o prazer, e a regra da escolha aut\u00eantica:<\/p>\n<p><i>\u201cPara um fil\u00f3sofo da sexualidade liberal-secular o paradigma do ato sexual moralmente errado \u00e9 o estupro, no qual uma pessoa for\u00e7a a si mesma sobre outra e usa amea\u00e7ar para coagi-la ao engajamento em uma atividade sexual. Em contraste, para o liberal, qualquer coisa feita voluntariamente entre duas ou mais pessoas \u00e9 geralmente moralmente permiss\u00edvel\u201d. (Soble, 2004).<\/i><\/p>\n<p>Sem entrar ainda em detalhes no que significa o termo \u201cgeralmente\u201d, o centro do argumento parece f\u00e1cil de compreender. Se o fato ou um dos fatos mais b\u00e1sicos do universo moral humano \u00e9 a liberdade e a propriedade do pr\u00f3prio corpo, segue-se que a maturidade sexual se caracterizaria pelo governo de si e pela autenticidade, e que o sexo consensual entre pessoas maduras seria basicamente sadio, exceto prova em contr\u00e1rio. O \u00f4nus da prova move-se, ent\u00e3o, para os cr\u00edticos da liberdade sexual: se o sexo \u00e9 consensual entre adultos, \u00e9 moralmente permiss\u00edvel sempre que n\u00e3o houver demonstra\u00e7\u00e3o de sua falha moral.<\/p>\n<p>Ora, no centro da vis\u00e3o moderna e hipermoderna (ou p\u00f3s-moderna, para os que preferem assim) de mundo est\u00e1 a afirma\u00e7\u00e3o da vontade do indiv\u00edduo sobre o mundo e a ruptura de toda restri\u00e7\u00e3o ou limita\u00e7\u00e3o exterior. Como observa o fil\u00f3sofo crist\u00e3o Nicholas Wolterstorff (Yale) citando Hegel:<\/p>\n<p><i>\u201cO princ\u00edpio do mundo moderno \u00e9 a liberdade da subjetividade [&#8230;] Neste princ\u00edpio toda externalidade ou autoridade \u00e9 superada, pois este \u00e9 o princ\u00edpio, mas tamb\u00e9m n\u00e3o mais que o princ\u00edpio da liberdade do esp\u00edrito\u201d (\u201cFrom Liberal to Plural\u201d. Em: Griffioen, 1995).<\/i><\/p>\n<p>A conex\u00e3o entre o esp\u00edrito da modernidade e a \u00e9tica sexual secular enunciada por Soble percebe-se imediatamente. Na medida em que a vontade e a consci\u00eancia de si tornam-se a regula fidei para a moralidade em geral, a moral sexual ser\u00e1 necessariamente redefinida a partir desse \u201cgiro narc\u00edsico da modernidade\u201d, como descrevi tempos atr\u00e1s em uma palestra na comunidade L\u2019Abri. Errado, ent\u00e3o, \u00e9 n\u00e3o ter liberdade para transar \u2013 e transar sem vontade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>PROBLEMA 1: \u201cCARTESIANISMO\u201d SEXUAL<\/strong><\/p>\n<p>Segue-se desse princ\u00edpio, que o assentimento da vontade, ou o consentimento livre, \u00e9 o crit\u00e9rio da moral sexual, e que tudo o que limita a liberdade na busca de realiza\u00e7\u00e3o sexual passa a ser imoral. A implica\u00e7\u00f5es disso s\u00e3o vastas.<\/p>\n<p>Consideremos, por exemplo, a observa\u00e7\u00e3o de Alan Soble de que o estupro seria o paradigma do sexo moralmente errado. A maioria dos leitores deve se lembrar de uma certa manifesta\u00e7\u00e3o, ligada \u00e0 \u201cMarcha das Vadias\u201d, realizada durante a Jornada Mundial da Juventude de 2013, na qual a manifestante penetrou a si mesma com a cabe\u00e7a de uma imagem religiosa. Ora, o que se afirmava era o absoluto direito da mulher sobre o seu pr\u00f3prio corpo, e negava-se o direito da religi\u00e3o de interferir nesse direito, por meio da profana\u00e7\u00e3o do s\u00edmbolo sagrado.<\/p>\n<p>Temos claramente, ent\u00e3o, o estupro como paradigma e caso extremo daquilo que se quer combater: o controle do corpo feminino por outro \u2013 no caso, o patriarcalismo. De certo modo, afirma-se que n\u00e3o h\u00e1 emprego err\u00f4neo dos genitais ou do pr\u00f3prio corpo sexual, mas apenas viola\u00e7\u00f5es espirituais. O indiv\u00edduo pode \u201cestuprar\u201d ou violar a si mesmo em p\u00fablico num ato obsceno, se isso \u00e9 uma express\u00e3o aut\u00eantica e livre. O que est\u00e1 errado \u00e9 a falta de liberdade. Ent\u00e3o a quest\u00e3o maior n\u00e3o \u00e9 o corpo; \u00e9 a liberdade absoluta do sujeito e sua propriedade de si.<\/p>\n<p>Nesse ambiente cultural, a pr\u00f3pria identidade sexual s\u00f3 pode ser estabelecida na medida em que resulta de processos aut\u00f4nomos do sujeito, independente de toda externalidade \u2013 seja ela a cultura, o pr\u00f3ximo, os valores tradicionais ou <i>o pr\u00f3prio corpo<\/i>.<\/p>\n<p>O que ocorre \u00e9 que o corpo \u00e9 o limite e o contato entre eu e o mundo, a borda entre a exterioridade e a vontade, o <i>front <\/i>principal na batalha entre o eu que deseja ser livre e o mundo, que o limita. Nessa batalha pela proje\u00e7\u00e3o de si no mundo o esp\u00edrito do homem moderno busca a absor\u00e7\u00e3o do corpo pela vontade, para consolidar o princ\u00edpio narc\u00edsico moderno. Em outros termos: \u00e9 necess\u00e1ria a absor\u00e7\u00e3o da corporeidade na subjetividade, a dissolu\u00e7\u00e3o do corpo no \u00e1cido da autonomia espiritual do <i>self <\/i>moderno.<\/p>\n<p>Noutra ocasi\u00e3o eu descrevi isso como um \u201ccartesianismo sexual\u201d. Como Ren\u00e9 Descartes duvidou da exist\u00eancia do pr\u00f3prio corpo, a <i>Res Extensa<\/i>, at\u00e9 que sua realidade fosse justificada diante do eu racional, a <i>Res Cogitans<\/i>, <i>o sujeito moderno desconstruir\u00e1 completamente o seu corpo, se preciso, para torna-lo transparente e submetido \u00e0 subjetividade<\/i>. O corpo \u00e9 desfeito e absorvido pelo <i>self <\/i>liberal. E aqui, talvez mais do que em outros lugares, percebe-se que n\u00e3o h\u00e1 p\u00f3s-modernidade; o que temos \u00e9 modernidade e hipermodernidade, ou um \u201ccartesianismo tardio\u201d.<\/p>\n<p>A ideologia da \u201csoberania do sujeito sobre o seu corpo\u201d afirma, paradoxalmente, a descorporifica\u00e7\u00e3o do eu, como se nota em uma s\u00e9rie de comportamentos: a modifica\u00e7\u00e3o corporal extrema, e a tentativa de impor significado ao corpo no <i>tatoo<\/i>, a separa\u00e7\u00e3o entre g\u00eanero e forma biol\u00f3gica (como no movimento europeu do \u201cG\u00eanero Neutro\u201d), a pr\u00f3pria libera\u00e7\u00e3o sexual, as rela\u00e7\u00f5es amorosas de internet (descritas pela soci\u00f3loga Israelense Eva Ilouz como o \u201ceu descorporificado\u201d), no discurso sobre o direito ao aborto (baseado no \u201cdireito sobre o pr\u00f3prio corpo\u201d) e, como n\u00e3o poderia deixar de ser, no movimento \u201cQueer\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos avan\u00e7ar muito nesse ponto, mas a \u00e9tica da absor\u00e7\u00e3o do corpo na subjetividade, com sua regra do consenso, na verdade valida de forma ideol\u00f3gica uma ruptura muito grave que se tornou end\u00eamica na vida moderna (assunto que tratamos na Confer\u00eancia L\u2019Abri em Agosto deste ano): a separa\u00e7\u00e3o entre Eros e V\u00eanus: o amor pela pessoa corporificada do outro (ou paix\u00e3o er\u00f3tica) e o desejo do corpo sem alma do outro (a cobi\u00e7a venal). Ruptura discutida de modo magistral no filme \u201cA Pele que Habito\u201d, de <i>Pedro Almod\u00f3var<\/i>, com sua hist\u00f3ria de desencontros entre o cuidado de si e a busca de identidade, e a presen\u00e7a\/aus\u00eancia do eu no pr\u00f3prio corpo.<\/p>\n<p>A venaliza\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia sexual moderna (pornografia, prostitui\u00e7\u00e3o, PA, etc) \u00e9 o resultado necess\u00e1rio do cartesianismo sexual. Cada vez mais sexo entre corpos, e menos sexo entre pessoas; pois as pessoas est\u00e3o ocupadas demais consigo mesmas. E isso \u00e9, claramente, um grande fracasso moral.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>PROBLEMA 2: \u201cCANIBALISMO\u201d SEXUAL<\/strong><\/p>\n<p>O consenso livre entre adultos \u00e9 a regra moral do sexo liberal, ou sexo hipermoderno. E como resultado disso, segundo mencionamos, a valida\u00e7\u00e3o moral de qualquer ato sexual nessas condi\u00e7\u00f5es deixa de ser problematizada. O \u201c\u00f4nus da prova\u201d, como mencionamos, recai sobre os cr\u00edticos de determinado comportamento sexual. Mas o &#8220;consentimento livre&#8221; \u00e9 um crit\u00e9rio muito pobre para nos orientar nos meandros da vida moral.<\/p>\n<p>O Dr. Michael Sandel, professor de filosofia de Harvard, apresenta um caso intrigante que alguns leitores se lembrar\u00e3o de ter assistido na m\u00eddia, em seu livro \u201cJusti\u00e7a\u201d. Eu mesmo acompanhei o caso sem perceber algumas de suas implica\u00e7\u00f5es. Em 2001, na cidade alem\u00e3 de Rotenburg, o t\u00e9cnico em inform\u00e1tica Armin Meiwes colocou um an\u00fancio na internet procurando algu\u00e9m que estivesse disposto a ser morto e devorado, no que foi atendido pelo engenheiro de software Bernd-Jurgen Brandes. Brandes aceitou a proposta (sem compensa\u00e7\u00f5es) voluntariamente, foi morto e devorado com azeite e alho. Meiwes foi preso e julgado, e sua condena\u00e7\u00e3o quase foi limitada a um \u201csuic\u00eddio assistido\u201d, mas ele finalmente pegou pris\u00e3o perp\u00e9tua. Mas porque a pris\u00e3o, se tivemos um caso genu\u00edno de \u201ccanibalismo consensual?\u201d<\/p>\n<p><i>\u201cA hist\u00f3ria s\u00f3rdida teve um desfecho inusitado, e o assassino canibal tornou-se declaradamente vegetariano na pris\u00e3o, alegando que a cria\u00e7\u00e3o de animais de corte seria desumana.\u201d<\/i><\/p>\n<p><em>\u201cO Canibalismo consensual entre adultos representa o teste definitivo para o princ\u00edpio libert\u00e1rio da posse de si mesmo pelo indiv\u00edduo e da ideia de justi\u00e7a dele decorrente\u201d (Sandel, 2013, p. 94).<\/em><\/p>\n<p>O mero consentimento entre adultos n\u00e3o valida o canibalismo porque, de algum modo, o direito do homem sobre si mesmo e, particularmente, sobre o seu pr\u00f3prio corpo, n\u00e3o pode ser ilimitado. O canibal de Rotenburg foi condenado porque<i> a corte alem\u00e3 de algum modo viu no ser humano um valor independente de sua pr\u00f3pria vontade<\/i>, contra a qual nem mesmo a liberdade da subjetividade teria qualquer incid\u00eancia.<\/p>\n<p>Da\u00ed que, por si s\u00f3, nenhuma rela\u00e7\u00e3o sexual na qual o indiv\u00edduo \u201clivremente\u201d usa seu corpo como um objeto, e n\u00e3o como uma dimens\u00e3o de si mesmo, pode ser considerada justificada. O consentimento entre adultos elimina apenas alguns casos extremos como o estupro, mas evidentemente n\u00e3o elimina outros comportamentos que poderiam ser considerados destrutivos sob diversos \u00e2ngulos, como por exemplo o sexo consentido entre pais e filhos adultos.<\/p>\n<p>Creio que as implica\u00e7\u00f5es para a nossa discuss\u00e3o s\u00e3o bastante \u00f3bvias. O consentimento entre adultos pode ser <i>um dos crit\u00e9rios<\/i> para avaliar a validade moral de um comportamento sexual, mas <i>at\u00e9 prova em contr\u00e1rio, n\u00e3o pode ser considerado crit\u00e9rio suficiente.<\/i> O \u00f4nus da justificativa moral volta, ent\u00e3o, para as costas de quem pratica o sexo, <i>especialmente se pairar sobre ele a suspeita de venaliza\u00e7\u00e3o: h\u00e1, nessa pr\u00e1tica, uma viola\u00e7\u00e3o do valor da pessoa humana, em qualquer n\u00edvel?<\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>PROBLEMA 3: \u201cNARCISISMO\u201d SEXUAL<\/strong><\/p>\n<p>A venaliza\u00e7\u00e3o da sexualidade e a insufici\u00eancia do crit\u00e9rio liberal n\u00e3o s\u00e3o os \u00fanicos problemas para a \u00e9tica sexual liberal. H\u00e1 um terceiro problema que diz respeito \u00e0 natureza e condi\u00e7\u00f5es da liberdade. Eu mesmo n\u00e3o sonharia em questionar a liberdade da pessoa enquanto direito fundamental e a autenticidade como um dos crit\u00e9rios da vida moral, mas tenho s\u00e9rias quest\u00f5es sobre <i>o significado da liberdade<\/i>. Algumas pessoas definem a liberdade de um modo completamente negativo, como \u201caus\u00eancia de restri\u00e7\u00f5es externas\u201d: se n\u00e3o h\u00e1 um Estado para me vigiar, cobrar impostos e me encarcerar, sou livre.<\/p>\n<p>Mas a liberdade n\u00e3o pode ser definida apenas negativamente. O Estado pode conceder-me a liberdade depois de dez anos de cadeia abrindo o c\u00e1rcere e me convidando a sair. Mas como o farei se tiver perdido as pernas l\u00e1 dentro sob tortura, ou por uma doen\u00e7a? O que significa presentear algu\u00e9m com um autom\u00f3vel, se este n\u00e3o for capaz de dirigir?<\/p>\n<p>Liberdade significa, tamb\u00e9m, a capacidade de existir <i>de certa forma<\/i>, de realizar certo tipo de a\u00e7\u00f5es ou de se capacitar para tanto. Assim, al\u00e9m da \u201caus\u00eancia de restri\u00e7\u00f5es externas\u201d, precisamos adicionar a \u201caus\u00eancia de restri\u00e7\u00f5es internas\u201d ou, positivamente, a \u201cpresen\u00e7a de habilita\u00e7\u00f5es internas e externas\u201d. Quem tem \u201cliberdade e autonomia na dire\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 quem <i>sabe <\/i>dirigir e o faz <i>bem<\/i>.<\/p>\n<p>Mas o que significa \u201cliberdade\u201d numa sociedade utilitarista e consumista, que destr\u00f3i sistematicamente a capacidade humana de resistir a seus desejos e sonhos de felicidade? O indiv\u00edduo hipermoderno \u00e9 um fraco, incapaz de amar o que deve amar e de odiar o que deve odiar, treinado desde a inf\u00e2ncia a investir todas as suas energias na busca da satisfa\u00e7\u00e3o emocional. \u00c9 um indiv\u00edduo dependente do consumo e do entretenimento, buscando a felicidade sem virtude. Poucos colocam o problema t\u00e3o bem quanto Lipovetsky:<\/p>\n<p><i>\u201cO relaxamento dos controles coletivos, as normas hedonistas, a escolha da primeira qualidade, a educa\u00e7\u00e3o liberal, tudo isso contribuiu para compor um indiv\u00edduo desligado dos fins comuns e que, reduzido t\u00e3o-s\u00f3 \u00e0s suas for\u00e7as, se mostra muitas vezes incapaz de resistir tanto \u00e0s solicita\u00e7\u00f5es externas quanto aos impulsos internos. [&#8230;] Por toda parte, a tend\u00eancia ao desregramento de si acompanha a cultura de livre disposi\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos entregues \u00e0 vertigem de si pr\u00f3prios no supermercado contempor\u00e2neo dos modos de vida. \u00c0 medida que se amplia o princ\u00edpio de pleno poder sobre a dire\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria vida, as manifesta\u00e7\u00f5es de depend\u00eancia e de impot\u00eancia subjetivas se desenvolvem num ritmo crescente. O que se representa na cena contempor\u00e2nea do consumo \u00e9 tanto Narciso libertado quanto Narciso acorrentado.\u201d (Lipovetsky, 2008, p. 127).<\/i><\/p>\n<p>Considere-se o contraste desse modo de constitui\u00e7\u00e3o moral com o dos antigos; C. S. Lewis descreve a educa\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica em \u201cA Aboli\u00e7\u00e3o do Homem\u201d como uma forma\u00e7\u00e3o voltada para a virtude, que pretende desenvolver a musculatura \u2013 ou o \u201cpeito\u201d \u2013 dos jovens antes que seu \u201cventre\u201d assuma o controle do processo e suas afei\u00e7\u00f5es j\u00e1 estejam completamente capturadas por objetos inferiores ou sem valor.<\/p>\n<p>Paradoxalmente, como Lipovetsky aponta, o homem produzido pelo giro narc\u00edsico da modernidade \u00e9 como um astronauta que depois de viver por meses seguidos flutuando livre das for\u00e7as gravitacionais, sofre a diminui\u00e7\u00e3o de sua musculatura e mal pode caminhar na terra firme; \u00e9 um homem incapaz de dizer n\u00e3o \u00e0s solicita\u00e7\u00f5es externas e impulsos internos, inclusive e, talvez, especialmente, no campo dos impulsos sexuais. Nesse contexto, seria racional falar em \u201cconsentimento livre de pessoas adultas\u201d? Como avaliar se essas pessoas s\u00e3o realmente livres?<\/p>\n<p>De novo o Dr. Sandel tem algo a dizer. Depois de discutir diversos casos de pessoas que aceitaram realizar contratos question\u00e1veis, como o de mo\u00e7as pobres na \u00cdndia que aceitam trabalhar como \u201cbarriga de aluguel\u201d por d\u00f3lares americanos, ele chega \u00e0 conclus\u00e3o de que<\/p>\n<p><i>\u201c[&#8230;] nossas escolhas s\u00f3 ser\u00e3o livres se n\u00e3o estivermos sob excessiva press\u00e3o (por necessidade financeira, digamos) e se estivermos razoavelmente informados sobre todas as alternativas\u201d (Sandel, 2013, 121).<\/i><\/p>\n<p>Em termos mais gerais: o ponto \u00e9 que <i>desigualdades nas condi\u00e7\u00f5es da sociedade podem prejudicar a equidade das institui\u00e7\u00f5es e processos que dependem de escolhas individuais.<\/i> Nesse sentido, por exemplo, um indiv\u00edduo narcisista num mercado consumista n\u00e3o \u00e9 livre efetivamente, mesmo que o seja juridicamente. Esse indiv\u00edduo \u00e9 moralmente doente. E o mesmo se aplica ao sexo: que \u201cliberdade\u201d tem um indiv\u00edduo narcisista e escravizado a uma busca amoral de felicidade diante dos apelos internos e externos por \u201csexo adulto, por consentimento\u201d?<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 ainda um resultado alarmante do estilo moral de nossa cultura: \u00e9 que nenhum filtro se estabelece para a prote\u00e7\u00e3o de quem \u00e9 incapaz de escolher bem do ponto de vista sexual. Pois al\u00e9m da vulnerabilidade moral do narcisista hipermoderno, h\u00e1 a vulnerabilidade psicol\u00f3gica de muitas pessoas que tentam compensa\u00e7\u00f5es sexuais, e a vulnerabilidade socioecon\u00f4mica que se evidencia na prostitui\u00e7\u00e3o e na pornografia, mas tamb\u00e9m em contatos sexuais menos evidentes ao radar dos interesses p\u00fablicos.<\/p>\n<p>Talvez seja errado impedir essa pessoa doente de ter o que deseja. O que se deve interditar, nesse caso, n\u00e3o esse indiv\u00edduo, mas a sociedade que o produziu. Como eu disse em outra ocasi\u00e3o, o socialismo de estado devorava os indiv\u00edduos crus; j\u00e1 o sistema de hiperconsumo bebe seu caldo de canudinho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O QUE EST\u00c1 ERRADO?<\/strong><\/p>\n<p>As limita\u00e7\u00f5es apresentadas acima n\u00e3o s\u00e3o ainda uma prova de que a \u00e9tica sexual Crist\u00e3 seria a melhor ou a correta. Meu ponto \u00e9 simplesmente questionar o tipo de atmosfera moral que, alega-se, podemos respirar sem preocupa\u00e7\u00f5es. A verdade \u00e9 que se trata de um ar t\u00f3xico. E a toxidade vem da concep\u00e7\u00e3o moderna de liberdade, que o fil\u00f3sofo Crist\u00e3o Herman Dooyeweerd descreveu como o \u201cideal de personalidade livre\u201d, gerado no Renascimento, maturado no Iluminismo, e mostrando agora seus tra\u00e7os de senilidade.<\/p>\n<p>Toda a concep\u00e7\u00e3o moderna e, particularmente, liberal, de liberdade como \u201carb\u00edtrio\u201d, como posse ilimitada ou quase ilimitada de si, e como aus\u00eancia de restri\u00e7\u00e3o externa \u00e9 muito problem\u00e1tica. Reconhe\u00e7o o seu apelo, em tempos de tiranias como o que vivemos \u2013 particularmente do Estado e de grandes Corpora\u00e7\u00f5es \u2013 mas trata-se de uma \u201ccisterna rota\u201d, para usar a linguagem B\u00edblica.<\/p>\n<p>No \u00e2mago, est\u00e1 errada a concep\u00e7\u00e3o de o valor do homem nas\u00e7a de sua liberdade, e que essa liberdade inclua n\u00e3o apenas a for\u00e7a, mas <i>o direito<\/i> da autocontradi\u00e7\u00e3o, como no caso da v\u00edtima do \u201ccanibal de Roterburg\u201d. Porque n\u00e3o somos livres para fazer o que quisermos com a nossa vida? <b>Porque ela n\u00e3o nos pertence.<\/b> <i>O homem e a terra se pertencem mutuamente; o homem e os homens se pertencem mutuamente; e cada um de n\u00f3s pertence a Deus.<\/i> A liberdade consiste no uso do poder do arb\u00edtrio para compreender e responder a esse fato, da nossa perten\u00e7a a Deus. A liberdade usada para a contradi\u00e7\u00e3o de si leva \u00e0 escravid\u00e3o; a liberdade usada para afirma\u00e7\u00e3o de si por meio da gratid\u00e3o e da imita\u00e7\u00e3o daquele que concedeu a liberdade \u00e9 a \u00fanica a\u00e7\u00e3o que pode preservar a liberdade.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que Jo\u00e3o Paulo II reafirmou na enc\u00edclica \u201cCentesimus Annus\u201d (cem anos depois da <i>Rerum Novarum<\/i>) que \u201ca propriedade privada n\u00e3o \u00e9 um valor absoluto\u201d, e que deve ser complementada com outros princ\u00edpios, como \u201co destino universal dos bens da terra\u201d (Jo\u00e3o Paulo II, 1991, p.17). Se minha liberdade \u00e9 totalmente dependente da perten\u00e7a a Deus, a propriedade privada \u00e9 real, mas tamb\u00e9m totalmente dependente de Deus e, por isso, relativa. E isso aplica a todo e qualquer ato da liberdade humana: eles se fundam na presen\u00e7a e na gra\u00e7a divina, e n\u00e3o podem jamais contradiz\u00ea-la.<\/p>\n<p>Para a vida sexual, isso significa que n\u00e3o posso \u201cusar\u201d o meu corpo, que \u00e9 uma dimens\u00e3o do meu self, e n\u00e3o uma \u201ccoisa\u201d. Nem posso usar o corpo do outro. Tanto faz o consentimento do outro; o corpo dele n\u00e3o \u00e9 dele, \u00e9 de Deus. N\u00e3o posso estuprar ningu\u00e9m, e tampouco posso introduzir a cabe\u00e7a de uma santa em algum orif\u00edcio num ato obsceno; n\u00e3o posso modificar minha sexualidade a meu gosto, por procedimentos m\u00e9dicos; se fosse mulher, n\u00e3o poderia realizar um aborto sob a alega\u00e7\u00e3o de que \u201co corpo \u00e9 meu\u201d, pois o corpo de cada ser humano pertence a seu pr\u00f3ximo, a seu c\u00f4njuge, \u00e0 esp\u00e9cie humana, \u00e0 terra e a Deus, o Criador.<\/p>\n<p>Mais ainda: n\u00e3o posso tentar \u201cabsorver\u201d o meu corpo na minha subjetividade. Meu corpo n\u00e3o pode ser desconstru\u00eddo para se sujeitar ao meu esp\u00edrito, nem ser usado como campo de provas em minha busca por autenticidade. Pelo contr\u00e1rio, devo sujeitar meu esp\u00edrito a Deus, e assim receberei dele o meu corpo. Agora, em uma vida pura, e renovado, na ressurrei\u00e7\u00e3o dos mortos.<\/p>\n<p>Na verdade h\u00e1, sim, o \u201cuso\u201d correto do corpo; compreendendo-se que a propriedade e a liberdade s\u00e3o relativas mas <i>reais<\/i>, o pr\u00f3prio corpo e o corpo do pr\u00f3ximo devem ser \u201cusados\u201d para fins que alegram e dignificam a pessoa livre e o Deus que se manifesta nela. Assim o consentimento meu e do outro est\u00e1 sujeito a outra considera\u00e7\u00e3o: o que um ser humano deve ser no sentido pleno? Como uma pessoa livre, no sentido profundo e integral, se relacionar\u00e1 com outra pessoa livre no mesmo sentido?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>LIBERALISMO OU ESQUERDISMO?<\/strong><\/p>\n<p>Claro, h\u00e1 uma pergunta ressoando no cr\u00e2nio de muitos leitores: \u201cmas essa concep\u00e7\u00e3o de liberdade sexual \u00e9 defendida hoje&#8230; pela vanguarda esquerdista! N\u00e3o \u00e9 coisa de marxismo cultural, de anarquistas de esquerda, etc?\u201d De fato, isso parece um grande paradoxo. Porqu\u00ea os defensores de direitos humanos mais \u00e0 esquerda (como os antigos caciques da comiss\u00e3o de direitos humanos da c\u00e2mara) s\u00e3o t\u00e3o cr\u00edticos do livre mercado, e at\u00e9 mesmo do Estado, no caso dos anarquistas de esquerda, mas defendem esse tipo de moralidade sexual, quase sempre? Mas o leitor n\u00e3o foi o primeiro a ver o problema:<br \/>\n<i><br \/>\nMuitas pessoas que repudiam a economia do laissez-faire invocam, em outras circunst\u00e2ncias, a ideia de que um indiv\u00edduo \u00e9 dono de si mesmo. Isso pode explicar a persistente atra\u00e7\u00e3o das ideias libert\u00e1rias, at\u00e9 mesmo para aquelas pessoas que tendem a apoiar o Estado de bem-estar social. Consideremos a maneira pela qual o fato de o indiv\u00edduo ser dono de si mesmo surge em discuss\u00f5es sobre a liberdade de reprodu\u00e7\u00e3o, a moral sexual e o direito \u00e0 privacidade [&#8230;]. A lei n\u00e3o deve punir o adult\u00e9rio, a prostitui\u00e7\u00e3o ou a homossexualidade, muitas pessoas dizem, porque adultos conscientes devem ser livres para escolher seus parceiros sexuais. [&#8230;]. O Estado n\u00e3o tem o direito de me impedir de usar o meu corpo ou dispor da minha vida como eu quiser. (Sandel, 2013, p. 90).<\/i><\/p>\n<p>Sem voltar ao m\u00e9rito da quest\u00e3o, o problema aqui \u00e9 o seguinte: sabe a esquerda brasileira que sua vanguarda sexual \u00e9&#8230; liberal? E, particularmente, sabem aqueles crist\u00e3os anarquistas que defendem essa vanguarda, que est\u00e3o a servi\u00e7o da vanguarda do liberalismo, de certa forma (ou seja, ainda que n\u00e3o do liberalismo econ\u00f4mico, assim mesmo servem ao ideal de personalidade livre que gerou o liberalismo)?<\/p>\n<p>Bem, n\u00e3o tenho resposta ainda. Pode ser uma coisa da l\u00f3gica de esquerda materialista-dial\u00e9tica: o capitalismo precisa se contradizer para colapsar e sermos catapultados \u00e0 sociedade livre e sem classes; e nesse caso a atomiza\u00e7\u00e3o radical da sociedade, por meio do liberalismo, seria uma forma de destruir as for\u00e7as conservadoras dessa sociedade e nos levar \u00e0 crise escatol\u00f3gica final.<\/p>\n<p>Nesse caso, para se proteger da esquerda radical, os liberais deveriam se tornar&#8230; <i>comunitaristas!<\/i> Penso que um liberalismo mais persistente e Crist\u00e3o deveria se mover nessa dire\u00e7\u00e3o, se quiser deixar de ser parte do problema. Pois o liberalismo puro, secular, me parece ser uma das fontes ou, no m\u00ednimo, um parceiro da promiscuidade sexual moderna.<\/p>\n<p>Mas enfim, espero que ningu\u00e9m me entenda mal; n\u00e3o estou defendendo o socialismo; comunitarismo n\u00e3o \u00e9 socialismo. O que defendo \u00e9 uma imagem pericor\u00e9tica da sociedade, fundada na vis\u00e3o trinitariana de Deus. Essa vis\u00e3o recusa o coletivismo e, com a mesma for\u00e7a, o atomismo social &#8211; da\u00ed que vers\u00f5es de liberalismo que sejam demostravelmente atomistas, eu as consideraria rigorosamente pag\u00e3s; t\u00e3o pag\u00e3s quanto ao adora\u00e7\u00e3o ao estado.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o estou afirmando que todo liberalista moral \u00e9 um liberalista pol\u00edtico e vice-versa, e muito menos que todo liberal seja prom\u00edscuo ou vice-versa! Estou apenas apontando uma conex\u00e3o espiritual entre essas express\u00f5es variadas do &#8220;ideal moderno de personalidade livre&#8221;, mesmo que pessoas individuais n\u00e3o o apreendam de forma coerente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>MAS, COM AMOR PODE?<\/strong><\/p>\n<p>A pergunta \u00e9 boa; admite o fato \u00f3bvio de que o consentimento \u00e9 insuficiente para uma \u00e9tica sexual vi\u00e1vel. Percebe, tamb\u00e9m, que o \u201calgo\u201d que deve ser adicionado ao consentimento para validar um ato sexual deve ser um tipo adequado de rela\u00e7\u00e3o interpessoal, que seria o amor. Da\u00ed muitos crist\u00e3os hoje acreditarem um casal de namorados que se amam poderia praticar sexo sem culpa.<\/p>\n<p>Aqui outra coisa entra em jogo: a defini\u00e7\u00e3o de amor e o significado do casamento. N\u00e3o vamos tratar disso nesse post, mas posso dizer de sa\u00edda que concordo em um sentido, mas discordo em outro. Concordo que o amor seja o principal dos ingredientes ausentes na vis\u00e3o liberal de sexo; <i>discordo, no entanto, que o que os casais apaixonados chamam de &#8220;amor&#8221; seja esse ingrediente<\/i>. Mas assim que poss\u00edvel voltaremos ao assunto!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/p>\n<p>Alan Soble, <i>Philosophy of Sexuality<\/i>. Internet Encyclopaedia of Philosophy, 2009. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.iep.utm.edu\/sexualit\/<\/p>\n<p>Gilles Lipovetsky, <i>A Felicidade Paradoxal: ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo<\/i>. Companhia das Letras, 2008.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Paulo II, <i>Centesimus Annus: carta enc\u00edclica de Jo\u00e3o Paulo II<\/i>, Paulinas, 1991.<\/p>\n<p>Michael J. Sandel, J<i>usti\u00e7a: o que significa fazer a coisa certa<\/i>. Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2013.<\/p>\n<p>Nicholas Wolterstorff, <i>From Liberal to Plural<\/i>. Em: Sander Griffioen &amp; Bert Balk, Christian Philosophy at the Close of 20th Century. Utgeverij Kok, 1995.<\/p>\n<div>Roger Scruton, <i>Sexual Desire: a philosophical investigation<\/i>. Continuum, 1986.<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Poucos discordariam de que a moralidade sexual evang\u00e9lica encontra-se em uma grande crise. E n\u00e3o apenas uma crise de coer\u00eancia, uma crise de pr\u00e1ticas, mas uma crise de princ\u00edpios. Nos p\u00falpitos (ou na grande maioria deles) a moralidade Crist\u00e3 tradicional continua encontrando suporte: sexo exclusivamente heterossexual, rejei\u00e7\u00e3o da pornografia, namoro sem sexo, casamento como [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":23,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[116,6004],"tags":[8417,11691,6002,164],"class_list":["post-861","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog","category-sexualidade","tag-corpo","tag-etica-e-comportamento","tag-sexo","tag-vida-crista","count-0","even alt","author-guilhermevrc","last"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/861","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/users\/23"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=861"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/861\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":872,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/861\/revisions\/872"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=861"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=861"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=861"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}