{"id":841,"date":"2013-07-29T13:50:23","date_gmt":"2013-07-29T16:50:23","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/?p=841"},"modified":"2013-07-29T14:07:32","modified_gmt":"2013-07-29T17:07:32","slug":"cristianismo-e-secularismo-o-que-fazer-quando-o-dialogo-acaba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/2013\/07\/29\/cristianismo-e-secularismo-o-que-fazer-quando-o-dialogo-acaba\/","title":{"rendered":"Cristianismo e Secularismo: o que fazer quando o di\u00e1logo &#8220;acaba&#8221;?"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O que fazemos quando o di\u00e1logo com o secularismo aparentemente acaba (ou, ao menos, se esgota temporariamente)?<\/p>\n<p>Certamente h\u00e1 limites para o di\u00e1logo. Andei pensando nisso diante dos debates atuais sobre o &#8220;estado laico&#8221;. H\u00e1 muito fundamentalismo religioso para o qual &#8220;pluralismo&#8221; \u00e9 um palavr\u00e3o. Mas de modo geral o campo religioso brasileiro me parece extremamente plural e tolerante com a diverg\u00eancia. A sensa\u00e7\u00e3o que muitos crist\u00e3os tem e expressam em conversas privadas (ou as n\u00e3o t\u00e3o privadas assim na internet) \u00e9 a de que <em>a milit\u00e2ncia secularista<\/em> \u00e9 o fen\u00f4meno religioso mais agressivo dos \u00faltimos tempos (<a href=\"http:\/\/wireshoes.wordpress.com\/2013\/07\/28\/517\/\" target=\"_blank\">veja um exemplo interessante AQUI<\/a>). O clima mudou, definitivamente.<\/p>\n<p><!--more-->Eu me lembro de quando, ainda crian\u00e7a, era dif\u00edcil confessar-se evang\u00e9lico na escola devido ao preconceito geral, fosse ele romanista ou simplesmente secular. Era preciso coragem entre os adolescentes e jovens, l\u00e1 no come\u00e7o da d\u00e9cada de oitenta. Depois tivemos um tempo de &#8220;calmaria&#8221;, por uns 20 anos, a ponto de a cultura &#8220;gospel&#8221; se tornar um fen\u00f4meno pop, ou quase. Minhas filhas quase n\u00e3o tiveram dificuldades para declarar sua f\u00e9 entre os pares. Mas as coisas est\u00e3o mudando, e v\u00e3o mudar ainda mais; h\u00e1 uma crescente antipatia que n\u00e3o se dirige apenas \u00e0s formas moral e intelectualmente inferiores do evangelismo brasileiro (aquelas anti-intelectuais, caudilhistas e corporativistas) mas contra tudo o que poder\u00edamos considerar o &#8220;Cristianismo hist\u00f3rico&#8221;: o Credo apost\u00f3lico (n\u00e3o s\u00f3 na forma, mas no conte\u00fado), a missionalidade, a recusa da ideologiza\u00e7\u00e3o, a \u00e9tica da vida (pela heteronormatividade, contra aborto, eutan\u00e1sia, infantic\u00eddio qualificado, etc).<\/p>\n<p>Abro Par\u00eantesis: talvez isso seja bom; talvez ajude as igrejas Crist\u00e3s a se encontrarem e cessarem essa mendic\u00e2ncia rid\u00edcula pelas gra\u00e7as da modernidade tardia. Mas certamente isso n\u00e3o \u00e9 tudo; nada justificar\u00e1 uma retirada da f\u00e9 diante dos desafios do mundo atual. A comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria; \u00e9 necess\u00e1rio explicar os porqu\u00eas da posi\u00e7\u00e3o Crist\u00e3, e eventualmente revisar essa posi\u00e7\u00e3o &#8211; quando ela se descobrir n\u00e3o t\u00e3o Crist\u00e3 assim &#8211; ou, em muitos casos, alterar o modo de relacion\u00e1-la com a ordem atual. Fecho Par\u00eantesis.<\/p>\n<p>Pois ent\u00e3o; n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil conversar com muitos secularistas? Quem tenta sabe bem. Em boa parte do tempo eles consideram inadmiss\u00edvel que em pleno s\u00e9culo XXI algu\u00e9m ainda queira misturar religi\u00e3o com pol\u00edtica. Mas n\u00e3o \u00e9 que eles se oponham apenas \u00e0 mistura; <em>eles se op\u00f5e \u00e0 discuss\u00e3o<\/em>, e isso \u00e9 significativo. Especialmente diante do fato, que tenho testemunhado, de que em geral eles desconhecem qualquer diferen\u00e7a entre &#8220;laicismo&#8221; e &#8220;laicidade&#8221;, e ignoram as origens <em>religiosas<\/em> da ideia de secularidade (sim, h\u00e1 uma &#8220;secularidade crist\u00e3&#8221;) da liberdade de consci\u00eancia e da moderna separa\u00e7\u00e3o entre igreja e estado.<\/p>\n<p>Em tempo: porque laicismo e laicidade s\u00e3o posi\u00e7\u00f5es diferentes? &#8220;Laicismo&#8221; \u00e9 um esfor\u00e7o pela <em>privatiza\u00e7\u00e3o<\/em> do religioso e sua exclus\u00e3o da vida p\u00fablica, consistindo da articula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ideol\u00f3gica de um projeto espiritual, o secularismo. J\u00e1 a &#8220;Laicidade&#8221; \u00e9 uma categoria pol\u00edtica, designando a separa\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria entre a Igreja e o Estado, assumindo o religioso como parte da esfera social. A no\u00e7\u00e3o de laicidade \u00e9 em si mesma um desdobramento teol\u00f3gico pol\u00edtico do protestantismo, tendo, assim, a pr\u00f3pria religi\u00e3o como uma de suas matrizes (da\u00ed o absurdo dos usos antirreligiosos da ideia. <a href=\"http:\/\/www.zenit.org\/pt\/articles\/cardeal-bertone-laicidade-e-laicismo-nao-sao-a-mesma-coisa\" target=\"_blank\">Veja mais AQUI<\/a>).<\/p>\n<p>Como observou noutro dia o amigo <a href=\"http:\/\/pensarigor.blogspot.com.br\/\" target=\"_blank\">Igor Miguel<\/a>,<\/p>\n<blockquote><p>a dualidade (n\u00e3o-dualismo) entre Estado e Igreja \u00e9 de origem protestante. O termo &#8220;secular&#8221; \u00e9 de origem religiosa. A ideia de &#8220;soberania&#8221; do Estado \u00e9 de origem crist\u00e3. A ideia de &#8220;cr\u00e9dito&#8221; de mercado, tem origem na \u00e9tica credal crist\u00e3-calvinista (Weber). A declara\u00e7\u00e3o universal dos direitos humanos tem ra\u00edzes na cultura judaico-crist\u00e3 (basta dar uma olhada em &#8220;<em>Justice: Rights and Wrongs&#8221;<\/em> de Nicholas Wolterstorff) ent\u00e3o, por favor, pense bem sobre o que voc\u00ea chama de &#8220;Estado Laico&#8221;. Laicidade n\u00e3o significa uma dimens\u00e3o isenta de influ\u00eancias religiosas em hip\u00f3tese alguma.<\/p><\/blockquote>\n<p>Mas acima de tudo, falta frequentemente aquela compreens\u00e3o indispens\u00e1vel, em um mundo plural, da natureza inerentemente credal do ser humano. Pois o secularismo \u00e9 um projeto <em>hist\u00f3rico<\/em> e <em>espiritual<\/em> tamb\u00e9m, herdeiro de categorias Crist\u00e3s, eivado de cren\u00e7as sobre homem e mundo estruturalmente similares \u00e0s cren\u00e7as religiosas tradicionais, e n\u00e3o deveria se esconder atr\u00e1s do discurso de laicidade para se &#8220;naturalizar&#8221; e pilotar sozinho a mudan\u00e7a social (<a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/2012\/02\/14\/todo-mundo-e-crente\/\" target=\"_blank\">veja um artigo n\u00e3o-acad\u00eamico sobre &#8220;estados dox\u00e1sticos funcionalmente religiosos&#8221; AQUI<\/a>). Laicidade sem pluralismo n\u00e3o \u00e9 uma forma de lideran\u00e7a, mas de <em>domina\u00e7\u00e3o cultural<\/em>. Da\u00ed que &#8220;Estado Laico&#8221; tenha se tornado um meme, um r\u00f3tulo e uma cunha empregada por alguns com a \u00fanica finalidade da viol\u00eancia cultural, para isolar certos discursos. E o sinal mais claro disso \u00e9 a indisposi\u00e7\u00e3o de discutir <em>o significado da express\u00e3o<\/em>.<\/p>\n<p>Mas&#8230; <em>isso n\u00e3o nos desculpa<\/em>. A despeito das tenta\u00e7\u00f5es de entrar no joguinho do desprezo, da ridiculariza\u00e7\u00e3o e do isolamento, a tarefa Crist\u00e3 ainda \u00e9, inerentemente, uma tarefa de comunica\u00e7\u00e3o; temos boas novas para contar, e raz\u00f5es da f\u00e9 para apresentar. Se a comunica\u00e7\u00e3o for cortada, que o seja do outro lado, n\u00e3o do nosso. Cito aqui uma reflex\u00e3o interessante do fil\u00f3sofo ingl\u00eas Roger Scruton (extra\u00edda de um contexto completamente diferente mas ainda assim \u00fatil):<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Quando estou interessado em algu\u00e9m como uma pessoa, ent\u00e3o suas pr\u00f3prias concep\u00e7\u00f5es, suas raz\u00f5es para a a\u00e7\u00e3o e suas declara\u00e7\u00f5es de decis\u00e3o tem proeminente import\u00e2ncia para mim. Ao buscar mudar sua conduta procuro, em primeiro lugar, mudar isso, e aceito que ela tenha a raz\u00e3o ao seu lado. Se n\u00e3o estou interessado nela como pessoa, no entanto, e se, para mim, ela \u00e9 meramente um objeto humano que, para o bem ou para o mal, surgiu em meu caminho, ent\u00e3o n\u00e3o deverei dar nenhuma considera\u00e7\u00e3o \u00e0s suas raz\u00f5es e decis\u00f5es. Se busco mudar seu comportamento, eu irei (se sou racional) tomar o curso mais eficiente. Por exemplo, se uma droga \u00e9 mais eficiente que o cansativo processo de persuas\u00e3o, usarei uma droga. Tudo depende da base dispon\u00edvel para a predi\u00e7\u00e3o. Colocando na linguagem tornada famosa por Kant: Agora eu a trato como um meio, e n\u00e3o como um fim. Pois seus fins e suas raz\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o mais soberanos ao ditar as formas com que atuo sobre ela. Estou alienado dela enquanto agente racional, e n\u00e3o me importa muito se ela est\u00e1 alienada de mim.&#8221;<\/p>\n<p>Roger Scruton, Sexual Desire: a philosophical investigation. Continuum, p. 53.<\/p><\/blockquote>\n<p>\u00c9 claro que em certas situa\u00e7\u00f5es n\u00e3o h\u00e1 outra coisa a fazer; o criminoso, por exemplo, n\u00e3o ser\u00e1 esquecido, mas n\u00e3o poder\u00e1 ser priorit\u00e1rio uma vez que de si mesmo j\u00e1 tratou sua v\u00edtima como meio, e n\u00e3o como um fim. Mas at\u00e9 mesmo quando o criminoso \u00e9 preso e julgado, contra a sua vontade, sua dignidade humana \u00e9 vindicada e seu interesse \u00e9 buscado, na exata medida em que \u00e9 tratado como um ser humano racional, imput\u00e1vel e sujeito \u00e0 persuas\u00e3o legal. Ou seja: medidas s\u00e3o tomadas para que o criminoso n\u00e3o trate ningu\u00e9m como fim, e ao mesmo tempo para que ele seja tratado como um fim.<\/p>\n<p>Em nosso caso: \u00e9 fato que muitos secularistas recorrem ao discurso sobre &#8220;Estado Laico&#8221; de forma desonesta ou, pelo menos, pouco informada. N\u00e3o podemos nos tornar presas desse tipo de estrat\u00e9gia, mas tampouco podemos reproduzi-la. Se o cristianismo \u00e9 tratado como um &#8220;obst\u00e1culo&#8221; e o Crist\u00e3o, com suas cren\u00e7as, como um &#8220;paciente&#8221; sem direitos racionais, \u00e9 preciso atacar a raiz do problema, nos erros do secularismo. E se secularistas se comportarem de forma &#8220;criminosa&#8221; no tocante \u00e0 \u00e9tica da comunica\u00e7\u00e3o, s\u00f3 podemos contornar suas inten\u00e7\u00f5es e bloquear sua a\u00e7\u00e3o se o fizermos ainda assim em seu interesse, obrigando-os a enfrentar os custos de sua posi\u00e7\u00e3o. Esses custos podem envolver derrotas pol\u00edticas, den\u00fancias p\u00fablicas, processos, em casos abusivos. Mas ainda assim as demandas reais dessas pessoas precisam ser encaradas com interesse \u00e9tico, e as respostas a elas n\u00e3o podem ser articuladas desonestamente.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 muito importante: at\u00e9 mesmo no confronto de posi\u00e7\u00f5es anticrist\u00e3s, precisamos ver os oponentes como seres humanos, respons\u00e1veis diante de si mesmos e de Deus. Nunca devemos consider\u00e1-los indignos ou incompetentes politicamente, mesmo que eles se comportem como tais. Se o di\u00e1logo acaba, precisamos ao menos manter de p\u00e9 as condi\u00e7\u00f5es para a sua reabertura.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; O que fazemos quando o di\u00e1logo com o secularismo aparentemente acaba (ou, ao menos, se esgota temporariamente)? Certamente h\u00e1 limites para o di\u00e1logo. 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