{"id":824,"date":"2013-07-03T12:12:56","date_gmt":"2013-07-03T15:12:56","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/?p=824"},"modified":"2013-07-03T12:54:44","modified_gmt":"2013-07-03T15:54:44","slug":"manifestacoes-sempre-fomos-plurais-ainda-nao-somos-pluralistas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/2013\/07\/03\/manifestacoes-sempre-fomos-plurais-ainda-nao-somos-pluralistas\/","title":{"rendered":"Manifesta\u00e7\u00f5es: sempre fomos plurais, ainda n\u00e3o somos pluralistas"},"content":{"rendered":"<p>O &#8220;Outono Brasileiro&#8221; revelou a imensa pluralidade de ideias e preocupa\u00e7\u00f5es do povo brasileiro. N\u00e3o que essa pluralidade n\u00e3o fosse conhecida; \u00e9 que ver o arco-\u00edris \u00e9 sempre mais do que apenas saber que ele \u00e0s vezes acontece ou mesmo que est\u00e1 acontecendo em algum lugar.<\/p>\n<p>Vimos o arco-\u00edris e de repente nos lembramos de que somos muito, muito diferentes. Retomando algo que j\u00e1 disse em outro post: o movimento come\u00e7ou com setores de esquerda atualmente fora do poder, que funcionaram como catalisadores, como o estopim. Ent\u00e3o veio a enxurrada de gente, cada um com seu cartaz. <!--more--><\/p>\n<p>E de imediato os indiv\u00edduos come\u00e7aram a se aglutinar, segundo os seus interesses, em grupelhos com cartazes semelhantes, espalhados em meio \u00e0 massa amorfa. Chegava a ser divertido, todos aqueles memes saltando das redes sociais e passeando pela timeline &#8211; pois a rua se tornou a pr\u00f3pria timeline do povo.<\/p>\n<p>Mas as coisas n\u00e3o ficariam assim t\u00e3o pac\u00edficas; e eis que surge o medo. N\u00e3o me refiro aos <em>Blac Blocs<\/em> e \u00e0 quebradeira geral, mas ao esp\u00edrito dessas aglutina\u00e7\u00f5es tem\u00e1ticas\/pol\u00edticas. A massa de indiv\u00edduos, o elemento &#8220;l\u00edquido&#8221; foi escoando e ficaram os p\u00f3los tradicionais: direitas variadas versus novas esquerdas (as velhas ficaram exclu\u00eddas por uma exce\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria), secularistas versus religiosos, Dilmistas\/Lulistas e seus inimigos. E esses polos ficaram mais agressivos, mais extremistas e, em alguns casos, mais intolerantes.<\/p>\n<p><strong>Tens\u00f5es na <em>timeline<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Mas \u00e9 claro; as manifesta\u00e7\u00f5es tinham poucos pontos de unidade percept\u00edveis; falta de representa\u00e7\u00e3o, corrup\u00e7\u00e3o, colapso infraestrutural, Fifa; mas nenhum deles capaz de fortalecer o tecido social. E at\u00e9 mesmo a exig\u00eancia de melhor representa\u00e7\u00e3o traria em si um imenso potencial de desacordo, pois todos &#8211; indiv\u00edduos e movimentos &#8211; desejam ser vistos e ouvidos, mas todos tem agendas distintas. Da\u00ed esse sentimento de tens\u00e3o que muitos confirmaram, caminhando pelas avenidas do pa\u00eds: pessoas com posturas t\u00e3o divergentes lado a lado e sem afinidades podem tanto ser um caldeir\u00e3o cultural quanto um barril de p\u00f3lvora, ou os dois.<\/p>\n<div>\n<div>\n<div>\n<p>Uma palavra ainda n\u00e3o foi ouvida nas manifesta\u00e7\u00f5es e n\u00e3o teve destaque na <i>timeline <\/i>da rua; uma palavra crucial: pluralismo. Somos plurais; sempre fomos plurais; mas n\u00e3o somos pluralistas. Por sinal, para muitos daqueles dentre n\u00f3s que s\u00e3o Crist\u00e3os o termo soa mal, como &#8220;relativismo&#8221;, &#8220;libertinagem&#8221;, &#8220;posmodernismo&#8221; e coisas do g\u00eanero. Ainda assim, pluralismo \u00e9 tudo de que precisamos no momento. Pluralismo significa a capacidade de negociar politicamente, de respeitar o outro, de n\u00e3o tentar homogeneizar tudo.<\/p>\n<p>Considere o imenso debate (pouco noticiado na m\u00eddia) que ocorre agora no &#8220;ch\u00e3o-de-f\u00e1brica&#8221; das redes sobre a postura de Marina Silva e o lugar da religi\u00e3o na pol\u00edtica. A turma do deixa-disso est\u00e1 procurando apaziguar as coisas, pedindo a todos para n\u00e3o combatermos preconceito com preconceito, etc. Mas no &#8220;ch\u00e3o-de-f\u00e1brica&#8221;, como eu disse, onde as pessoas n\u00e3o se veem cara a cara e n\u00e3o tem pejo de dizer besteiras, a tens\u00e3o \u00e9 grande. Discute-se o caso Marina. Pede-se a ela que esclare\u00e7a especialmente suas posi\u00e7\u00f5es sobre religi\u00e3o. Muita gente chega a dizer que os evang\u00e9licos n\u00e3o deveriam participar da Rede Sustentabilidade, porque est\u00e3o por demais alinhados com os &#8220;fundamentalistas&#8221; como Malafaia e Feliciano, e isso criaria o risco de uma &#8220;teocracia evang\u00e9lica&#8221; (pobres de n\u00f3s).<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p>Por outro lado, desconhe\u00e7o iniciativas evang\u00e9licas por uma conversa\u00e7\u00e3o s\u00e9ria com o movimento LGBT, que \u00e9 hoje a principal cunha manipulada politicamente por secularistas para excluir a religi\u00e3o da pol\u00edtica (exceto, infelizmente, de movimentos dispostos a vender a alma do cristianismo pelo prato de lentinhas da corre\u00e7\u00e3o pol\u00edtica &#8211; o que n\u00e3o \u00e9 di\u00e1logo verdadeiro). \u00c9 verdade que a milit\u00e2ncia LGBT n\u00e3o mostra, em geral, nenhum interesse em conversa. Ora, isso significa que precisamos de pol\u00edtica. Sem pol\u00edtica vamos \u00e0 guerra. E pol\u00edtica n\u00e3o significa necessariamente se vender; \u00e9 necess\u00e1rio considerar de forma sens\u00edvel a demanda do outro e fazer ouvir a pr\u00f3pria demanda de forma compreens\u00edvel para o outro. Di\u00e1logos podem fracassar; talvez estejam at\u00e9 condenados ao fracasso; mas a culpa de quem tenta e fracassa \u00e9 muito menor do que a culpa de quem nem mesmo come\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>Para onde foi a &#8220;interpreta\u00e7\u00e3o&#8221;?<\/strong><\/p>\n<p>Consideremos o lado LGBT; est\u00e3o todos chatead\u00edssimos porque tantos evang\u00e9licos, capitaneados por figuras Malafaia e Feliciano, estejam colocando in\u00fameros obst\u00e1culos para frear a marcha da expans\u00e3o dos direitos individuais. Mas at\u00e9 hoje n\u00e3o encontrei nem uma linha escrita de esfor\u00e7o pelos defensores do movimento e a intelectualidade de esquerda para compreender a posi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 como algo mais do que fundamentalismo e manipula\u00e7\u00e3o eclesi\u00e1stica. E se houver raz\u00f5es? Mais do que isso: que dimens\u00f5es t\u00e3o profundas da identidade dessas pessoas est\u00e1 sendo desafiada pela tese dos direitos afetivos, a ponto de gerar essa oposi\u00e7\u00e3o massiva? Isso n\u00e3o pode ser irresponsavelmente lan\u00e7ado na conta do &#8220;preconceito homof\u00f3bico&#8221;. Essa resposta politiqueira carece de criticismo, de arg\u00facia hermen\u00eautica.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p>Igualmente falta aos crist\u00e3os uma leitura mais cr\u00edtica desses processos. N\u00e3o se trata apenas (tamb\u00e9m, mas n\u00e3o exclusivamente) de pecado. Sem d\u00favida a tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 considera a pr\u00e1tica homossexual pecaminosa, etc; mas se a acusa\u00e7\u00e3o de pecado foi mesmo usada para excluir pessoas em contextos para os quais isso era irrelevante, e isso gerou uma grande rea\u00e7\u00e3o de ressentimento, o cristianismo n\u00e3o pode responder ao movimento do mesmo modo que sempre o fez. Novas palavras e novas a\u00e7\u00f5es s\u00e3o necess\u00e1rias.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p>Mais do que isso: o que torna a rejei\u00e7\u00e3o p\u00fablica da heteronormatividade e a tese da &#8220;na\u00e7\u00e3o homof\u00f3bica&#8221; t\u00e3o plaus\u00edveis ao cidad\u00e3o m\u00e9dio, e at\u00e9 mesmo para muitos crist\u00e3os bem ajustados em suas igrejas? N\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel que modifica\u00e7\u00f5es profundas na cultura tenham alterado a ambi\u00eancia e tornado plaus\u00edvel o que era antes implaus\u00edvel? E agora, a pergunta: n\u00e3o ser\u00e1 que o pr\u00f3prio cristianismo foi imerso e alterado por essa mudan\u00e7a espiritual na cultura? Temos algo a ver com essa deriva continental na cultura?<\/p>\n<p>Na minha opini\u00e3o, enquanto n\u00e3o formos capazes de detectar essa transforma\u00e7\u00e3o nos fundamentos da cultura ocidental e de perceber como isso nos modificou e ainda nos modifica, n\u00e3o saberemos porque \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil mostrar que o que est\u00e1 errado \u00e9 errado mesmo. Continuaremos atacando o sintoma (a \u00e9tica sexual hipermoderna) sem atingir a doen\u00e7a. Nesse sentido, falta ao cristianismo evang\u00e9lico o mesmo esfor\u00e7o hermen\u00eautico do qual os cr\u00edticos da resist\u00eancia &#8220;fundamentalista&#8221; s\u00e3o t\u00e3o carentes.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><strong>A palavra esquecida<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p>Esse esfor\u00e7o de interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 essencial se quisermos fazer um esfor\u00e7o dial\u00f3gico, mesmo que em meio ao conflito jur\u00eddico e pol\u00edtico. E a palavra esquecida precisa ser lembrada: <em>pluralismo<\/em>. N\u00e3o o falso pluralismo da milit\u00e2ncia LGBT mais agressiva e da extrema esquerda, que desejam, enfim, uma uniformiza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica da moral sexual, mas um pluralismo real, que admita espa\u00e7os iliberais numa sociedade aberta, que admita a exist\u00eancia de muitos pontos de coagula\u00e7\u00e3o espalhados em nossa sociedade l\u00edquida.<\/p>\n<p>Uma sociedade plural ser\u00e1 provavelmente p\u00f3s-crist\u00e3; mas isso n\u00e3o significa que ela seja necessariamente anticrist\u00e3; ela pode ser laica, sem ser laicista e ate\u00edsta. Para muitos crist\u00e3os s\u00e9rios isso n\u00e3o implicar\u00e1 o comprometimento da f\u00e9 crist\u00e3; pelo contr\u00e1rio, essa resposta tem grande resson\u00e2ncia com muitos temas centrais do Cristianismo. A agenda das transforma\u00e7\u00f5es precisa incluir, ao lado da representatividade, da transpar\u00eancia e da inclus\u00e3o urbana, ajustes jur\u00eddicos para a coexist\u00eancia de <em>mundivis\u00f5es<\/em> diferentes. Al\u00e9m do estado crist\u00e3o e do estado laicista, precisamos de um estado a servi\u00e7o da justi\u00e7a em uma sociedade plural.<\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n<a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/2013\/06\/26\/manifestacoes-a-nova-cidadania-em-rede\/\" target=\"_blank\">Manifesta\u00e7\u00f5es: a nova cidadania em rede<\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/2013\/06\/19\/a-baderna-de-deus-e-a-baderna-dos-homens\/\" target=\"_blank\">A Baderna de Deus e a Baderna dos Homens<\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/2013\/05\/14\/a-ideia-crista-do-estado\/\" target=\"_blank\">A Ideia Crist\u00e3 do Estado<\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/2012\/06\/04\/o-atomismo-social-segundo-charles-taylor-e-a-espiritualidade-crista\/\" target=\"_blank\">O Atomismo Social<\/a><\/p>\n<div><\/div>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/labri.org.br\/conferencialabribrasil\/\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"arte2\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2013\/06\/arte2.jpg\" width=\"614\" height=\"266\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>SAIBA MAIS SOBRE A CONFER\u00caNCIA LABRI 2013 NO SITE: <a href=\"http:\/\/labri.org.br\/conferencialabribrasil\/\" target=\"_blank\">http:\/\/labri.org.br\/conferencialabribrasil\/<\/a><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O &#8220;Outono Brasileiro&#8221; revelou a imensa pluralidade de ideias e preocupa\u00e7\u00f5es do povo brasileiro. 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