{"id":808,"date":"2013-06-26T16:35:18","date_gmt":"2013-06-26T19:35:18","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/?p=808"},"modified":"2013-06-27T19:56:34","modified_gmt":"2013-06-27T22:56:34","slug":"manifestacoes-a-nova-cidadania-em-rede","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/2013\/06\/26\/manifestacoes-a-nova-cidadania-em-rede\/","title":{"rendered":"Manifesta\u00e7\u00f5es: a nova cidadania em rede"},"content":{"rendered":"<p>A surpresa dos primeiros dias de manifesta\u00e7\u00e3o n\u00e3o impediu a prolifera\u00e7\u00e3o de palpites e experimentos anal\u00edticos por soci\u00f3logos, jornalistas, economistas, e observadores menos profissionais que se proliferam na vasta blogosfera e nas redes sociais. N\u00e3o apenas todo mundo queria participar; todo mundo queria tweetar, ver, compartilhar, ouvir e opinar tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>E esse movimento n\u00e3o vai parar t\u00e3o cedo. H\u00e1 muito o que fazer para interpretar o fen\u00f4meno; e precisamos nos esfor\u00e7ar para interpret\u00e1-lo se quisermos responder a ele de forma inteligente &#8211; e tanto faz se voc\u00ea \u00e9 um oponente ou um participante; o fato \u00e9 que junho de 2013 e a maior manifesta\u00e7\u00e3o popular da hist\u00f3ria do Brasil n\u00e3o podem ser ignorados.<\/p>\n<p>O que est\u00e1 acontecendo, e porque est\u00e1 acontecendo desse jeito? Nesse post n\u00e3o vamos nos debru\u00e7ar sobre todas as quest\u00f5es mais amplas da conjuntura pol\u00edtica e at\u00e9 mesmo sobre o sentido das \u00faltimas respostas pelo governo e o congresso, mas sobre o tipo de rea\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que acabamos de testemunhar. O que \u00e9 isso, afinal? Uma convuls\u00e3o, uma catarse social ou algo mais? <!--more--><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Tect\u00f4nica<\/strong><\/p>\n<p>Movimentos tect\u00f4nicos intensos n\u00e3o s\u00e3o totalmente previs\u00edveis; ge\u00f3logos sabem muitas vezes que um terremoto pode acontecer em uma \u00e1rea de encontro de placas, mas a previs\u00e3o pode ser dada como algo &#8220;nos pr\u00f3ximos dias&#8221; ou &#8220;nas pr\u00f3ximas centenas de anos&#8221;. E muita coisa acontece sem aviso.<\/p>\n<p>&#8220;Tect\u00f4nica Social&#8221; \u00e9 uma boa met\u00e1fora para exprimir a sensa\u00e7\u00e3o que todos tiveram, de um movimento massivo, subterr\u00e2neo, imprevis\u00edvel, contra o qual n\u00e3o faz qualquer diferen\u00e7a a opini\u00e3o. Eu sou radicalmente contra terremotos e vulc\u00f5es. Acho todos absurdos, barulhentos, perigosos, e fica tudo uma sujeira. Mas fazer o qu\u00ea? Pegamos um pequeno terremoto em Santiago no ano passado; quem j\u00e1 pegou um sabe que n\u00e3o d\u00e1 pra ir muito longe ou fazer muita coisa. O neg\u00f3cio \u00e9 ir pra baixo da mesa mais pr\u00f3xima.<\/p>\n<p>Nosso terremoto brasileiro n\u00e3o ofereceu ainda perigo para a vida das pessoas, mas certamente atingiu em cheio as institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Certamente podemos e devemos nos posicionar diante disso, mas um esfor\u00e7o de compreens\u00e3o emp\u00e1tica \u00e9 essencial. N\u00e3o se trata apenas de responder se gostamos ou n\u00e3o do que vemos, mas de <em>ouvir o diferente e interpretar essa alteridade<\/em>.<\/p>\n<p>Aqui transparece um \u00f3bvio e repetido erro de muitos observadores, principalmente aqueles de extrema esquerda ou extrema direita que n\u00e3o conseguem ver al\u00e9m do pr\u00f3prio umbigo e avaliam o fen\u00f4meno o tempo inteiro do ponto de vista de sua utilidade ou risco para a milit\u00e2ncia, para o projeto ideol\u00f3gico. N\u00e3o \u00e9 que seja errado constatar o que tudo significa para a minha posi\u00e7\u00e3o (pelo contr\u00e1rio, \u00e9 indispens\u00e1vel), mas que limitar-se a isso \u00e9 evadir-se ao di\u00e1logo; \u00e9 trancar-se numa pris\u00e3o narcisista que s\u00f3 v\u00ea o pr\u00f3prio rosto em tudo.<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Tect\u00f4nica Social&#8221; \u00e9 uma boa met\u00e1fora para exprimir a sensa\u00e7\u00e3o que todos tiveram, de um movimento massivo, subterr\u00e2neo, imprevis\u00edvel, contra o qual n\u00e3o faz qualquer diferen\u00e7a a opini\u00e3o.<\/p><\/blockquote>\n<p>Porque \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil imaginar que o povo pode ser algo mais do que um escravo da ideologia inimiga ou um &#8220;camarada&#8221; da milit\u00e2ncia? Talvez o povo n\u00e3o esteja do lado de ningu\u00e9m. Talvez o povo esteja do seu pr\u00f3prio lado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A Crise de Representa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>O povo protestou contra muita coisa. O que est\u00e1 errado? Tudo, num certo sentido: corrup\u00e7\u00e3o, gastos excessivos com a copa mais cara da hist\u00f3ria, crise geral de infraestrutura, e a sombra da infla\u00e7\u00e3o; tudo isso apareceu nas manifesta\u00e7\u00f5es. Mas o fato mais relevante n\u00e3o foi tanto o conte\u00fado expl\u00edcito das reivindica\u00e7\u00f5es quanto o <em>modo<\/em> como elas se materializaram. Deu-se o que algu\u00e9m chamou de &#8220;democracia direta&#8221;, ou <em>pol\u00edtica de a\u00e7\u00e3o direta<\/em>, esse esfor\u00e7o popular de, como eu descrevi em outro post, contornar o sistema de representa\u00e7\u00e3o e apertar o pesco\u00e7o do estado. N\u00e3o faltaram cr\u00edticas a essa movimenta\u00e7\u00e3o como algo &#8220;pr\u00e9-pol\u00edtico&#8221;, como uma regress\u00e3o. E parece ser mesmo uma regress\u00e3o, j\u00e1 que os esquemas estabelecidos de representa\u00e7\u00e3o e presta\u00e7\u00e3o de contas s\u00e3o completamente ignorados enquanto o povo exige do governo todo tipo de coisa, da constru\u00e7\u00e3o de novas passarelas em rodovias ao impeachment da presidente.<\/p>\n<blockquote><p>o fato mais relevante n\u00e3o foi tanto o conte\u00fado expl\u00edcito das reivindica\u00e7\u00f5es quanto o <em>modo<\/em> como elas se materializaram.<\/p><\/blockquote>\n<p>Mas n\u00e3o h\u00e1 do que reclamar, j\u00e1 que a regress\u00e3o aconteceu no pr\u00f3prio sistema pol\u00edtico. As estruturas de representa\u00e7\u00e3o se descolaram do povo e passaram a operar autonomamente, como um sistema independente que transfere os custos para a base e se perpetua alheio a ela. H\u00e1 muito tempo as for\u00e7as que operam na estratosfera pol\u00edtica obedecem a interesses politiqueiros e econ\u00f4micos mais do que \u00e0s realidades populares, e prevalece um sentimento difuso de que essa esfera \u00e9 inacess\u00edvel: &#8220;votar pra qu\u00ea?&#8221;. O brasileiro vota, mas o significado subjetivo desse voto \u00e9 mi\u00fado e vol\u00e1til. N\u00e3o \u00e9 por isso o povo botou o governo e a Fifa na berlinda? No Rio o povo ataca a Alerj; em Belo Horizonte tenta chegar ao Mineir\u00e3o em dia de jogo da copa das confedera\u00e7\u00f5es. O problema \u00e9 o sistema pol\u00edtico e aqueles que o manipulam \u00e0 revelia do povo, <a href=\"http:\/\/www.observatoriodaimprensa.com.br\/news\/view\/_ed752_presidente_da_fifa_menosprezou_protestos_no_brasil\" target=\"_blank\">simbolizados agora pela Fifa<\/a>. N\u00e3o foi o povo quem regrediu; o povo quer o poder de volta, o poder operando em seu favor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Solubilidade Pol\u00edtica<\/strong><\/p>\n<p>Um sinal exemplar de insensibilidade em rela\u00e7\u00e3o a esse clamor \u00e9 a alega\u00e7\u00e3o de que o movimento era originariamente de esquerda e que foi descaracterizado; portanto perdeu o sentido. Sim e n\u00e3o; ele foi descaracterizado, mas n\u00e3o por uma orquestra\u00e7\u00e3o mal\u00e9fica da direita. O que ocorreu foi um &#8220;efeito borboleta&#8221;: as reivindica\u00e7\u00f5es do MPL catalisaram um processo de mudan\u00e7a pol\u00edtica; ou, melhor dizendo, dispararam um processo de altera\u00e7\u00e3o de estado da &#8220;mat\u00e9ria social&#8221; que p\u00f4s a for\u00e7a pol\u00edtica em estado l\u00edquido &#8211; algo que curiosamente acontece a certos tipos de solo quando h\u00e1 um terremoto. Os tijolinhos s\u00f3lidos de for\u00e7a pol\u00edtica que os pol\u00edticos costumavam empilhar e transportar se tornaram num fluido inadministr\u00e1vel. A liquefa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica aguardava apenas um <em>input<\/em> de energia suficiente para iniciar o processo, e o MPL fez o servi\u00e7o.<\/p>\n<p>O susto aconteceu porque o movimento causou demais; n\u00e3o apenas levou a uma vit\u00f3ria imediata do MPL em S\u00e3o Paulo e em outras cidades, como acordou for\u00e7as contradit\u00f3rias de todos os tipos. Movimenta\u00e7\u00f5es fascistas aconteceram realmente, mas muita gente foi pra rua representando a si mesmo ou a seu grupo particular: estudantes, movimentos sociais, milit\u00e2ncia LGBTs, advogados, profissionais da sa\u00fade, sindicatos, grupos de crist\u00e3os, artistas e skatistas. Acima de tudo, no entanto, havia <em>indiv\u00edduos<\/em>. Uns mais carnavalescos, outros seriamente politizados, outros nem tanto. Tudo muito l\u00edquido, como diria Zygmunt Bauman.<\/p>\n<blockquote><p>muita gente foi pra rua representando a si mesmo ou a seu grupo particular &#8230; Acima de tudo, no entanto, havia <em>indiv\u00edduos<\/em>.<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Coagula\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 fato, tamb\u00e9m, que as coagula\u00e7\u00f5es se iniciaram quase simultaneamente; no caso dos crist\u00e3os, por exemplo, sua presen\u00e7a nas manifesta\u00e7\u00f5es antecedeu \u00e0 sua articula\u00e7\u00e3o em vista da visibilidade p\u00fablica. Na esteira do MPL outros grupos de manifestantes fizeram o mesmo e com mais agilidade, representando diferentes movimentos sociais, mas um tipo em particular de coagula\u00e7\u00e3o foi proibida: a dos partidos. As tentativas da pr\u00f3pria dire\u00e7\u00e3o do MPL de interpretar a rejei\u00e7\u00e3o dos partidos como fascismo golpista (embora haja fascistas golpistas misturados \u00e0 massa) chegam a ser infantis no fracasso em reconhecer que <em>o fen\u00f4meno todo \u00e9 a contradi\u00e7\u00e3o do sistema pol\u00edtico,<\/em> n\u00e3o por uma vontade perversa, mas por uma <em>l\u00f3gica sist\u00eamica<\/em>. N\u00e3o foi a m\u00e1 vontade das pessoas que afastou as bandeiras partid\u00e1rias, nem o &#8220;fascismo&#8221;. Foi a l\u00f3gica do processo, o seu <em>pathos<\/em>. O erro foi dos partidos de esquerda que n\u00e3o entenderam nada.<\/p>\n<blockquote><p>N\u00e3o foi a m\u00e1 vontade das pessoas que afastou as bandeiras partid\u00e1rias, nem o \u201cfascismo\u201d. Foi a l\u00f3gica do processo, o seu <em>pathos<\/em>.<\/p><\/blockquote>\n<p>A realidade dessas coagula\u00e7\u00f5es ou pontos de solidifica\u00e7\u00e3o indicam que a liquidez atual tem limites. O povo n\u00e3o permanecer\u00e1 nas ruas indefinidamente; ainda assim algo mudou no modo de fazer pol\u00edtica. O que levou o sistema a essa condi\u00e7\u00e3o inst\u00e1vel, na qual um <em>input<\/em> de energia dissolve repentinamente o equil\u00edbrio e p\u00f5e os indiv\u00edduos em fluxo?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O Cidad\u00e3o em Rede<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 que o tecido social mudou, por raz\u00f5es diversas. A sociedade dos indiv\u00edduos j\u00e1 \u00e9 por si mesma l\u00edquida, pulverizada, frouxa de conex\u00f5es tradicionais e comunit\u00e1rias; a conjura\u00e7\u00e3o do estado dos direitos individuais, da diversidade e da autonomia dos indiv\u00edduos, com o mercado e sua for\u00e7a destrutiva para o tecido social n\u00e3o poderia produzir outra coisa. Gostando ou n\u00e3o, os movimentos sociais est\u00e3o de bra\u00e7os dados aqui com o capitalismo de hiperconsumo.<a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2013\/06\/imagem.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright\" alt=\"imagem\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2013\/06\/imagem.jpeg\" width=\"360\" height=\"304\" \/><\/a><\/p>\n<p>Mas al\u00e9m disso a comunica\u00e7\u00e3o em rede condicionou profundamente a intera\u00e7\u00e3o social. O fluxo de informa\u00e7\u00f5es e de novas ideias e a velocidade de conex\u00e3o\/desconex\u00e3o entre as pessoas acelerou-se de forma quase brutal. Conversa\u00e7\u00f5es que antes durariam duas semanas avan\u00e7am em dois dias. Impress\u00f5es s\u00e3o trocadas por vias n\u00e3o apenas textuais mas tamb\u00e9m <em>sensorialmente<\/em> elaboradas (v\u00eddeos, fotos, e \u00e1udios fora do controle da imprensa), e a informa\u00e7\u00e3o \u00e9 sistematicamente <em>quantizada<\/em> (e distorcida) para tornar-se transfer\u00edvel, <em>tuit\u00e1vel <\/em>e de f\u00e1cil absor\u00e7\u00e3o. O que temos ent\u00e3o \u00e9 um metabolismo comunicacional super acelerado que rapidamente modifica o indiv\u00edduo l\u00edquido.<\/p>\n<blockquote><p>O que temos ent\u00e3o \u00e9 um metabolismo comunicacional super acelerado que rapidamente modifica o indiv\u00edduo l\u00edquido.<\/p><\/blockquote>\n<p>A nova conforma\u00e7\u00e3o em rede possibilitou o <em>swarming<\/em>, a r\u00e1pida mobiliza\u00e7\u00e3o de gente na forma de &#8220;enxames&#8221; que se re\u00fanem em torno de uma causa comum em dois tempos. O <em>swarming<\/em> \u00e9 poss\u00edvel porque as redes sociais s\u00e3o amplas, conectando muita gente com muita gente. Redes de amigos n\u00e3o s\u00e3o redes de &#8220;amigos&#8221;, mas redes de contato informacional e de sondagem social intuitiva. S\u00e3o capacidades &#8220;sensoriais&#8221; de um tipo diferente, que nos habilitam a captar tend\u00eancias sociais de forma quase l\u00fadica &#8211; memes, v\u00eddeos, frases, s\u00edmbolos, palavras repetidas, <em>hashtags<\/em>. E assim a rede social faz pela sociedade o que um processador de alto desempenho faz por um software.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que isso \u00e9 s\u00f3 uma dimens\u00e3o da viv\u00eancia contempor\u00e2nea; afinal o indiv\u00edduo ainda tem sua fam\u00edlia, sua casa, e seu emprego; mas \u00e9 certo tamb\u00e9m que a fam\u00edlia obviamente j\u00e1 n\u00e3o tem a mesma solidez, nem a casa, e nem o emprego, nesses tempos em que se diz ao profissional que ele precisa constantemente &#8220;se reinventar&#8221; para sobreviver. Quanto tempo as pessoas aguentar\u00e3o permanecer se &#8220;reinventando&#8221; \u00e9 dif\u00edcil dizer; mas essa condi\u00e7\u00e3o atual tem n\u00edtida correspond\u00eancia com a viv\u00eancia das pessoas no campo &#8220;virtual&#8221; &#8211; que, afinal, mostrou-se n\u00e3o t\u00e3o virtual assim!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Novo Protagonismo<\/strong><\/p>\n<p>Essa nova condi\u00e7\u00e3o aparentemente possibilitou um protagonismo pol\u00edtico in\u00e9dito para o cidad\u00e3o em rede, e mesmo que no futuro pr\u00f3ximo n\u00e3o vejamos nada parecido com a presente tomada das ruas, o modo de fazer pol\u00edtica mudou para sempre. Nenhuma institui\u00e7\u00e3o poder\u00e1 ignorar a rede; a conectividade que ela proporcionou envelheceu o modo antigo de forma\u00e7\u00e3o de opini\u00f5es. N\u00e3o foi s\u00f3 o estado que ficou sem rea\u00e7\u00e3o; at\u00e9 mesmo a imprensa tradicional ficou com as cal\u00e7as na m\u00e3o. Pois os novos cidad\u00e3os n\u00e3o fundamentam toda a sua opini\u00e3o em uma ou outra revista, jornal ou ve\u00edculo formador de opini\u00e3o; eles navegam e trafegam, pulam de galho em galho, leem e assistem aqui e ali, compartilham artigos, escutam seu c\u00edrculo de amigos. A rede vai \u00e0 frente da imprensa.<\/p>\n<p>E essa atividade n\u00e3o fica presa em um universo paralelo; \u00e9 a conversa iniciada na mesa do <em>pub<\/em> ou na porta da igreja que continua pela internet, pelo celular, e define a agenda da semana. De repente algu\u00e9m apresenta uma ideia, documentos conjuntos s\u00e3o produzidos, encontros s\u00e3o agendados e as ideias pulam da rede para a rua. Esse ponto \u00e9 muito importante: a &#8220;rede&#8221; n\u00e3o est\u00e1 dentro da internet. A rede \u00e9 um fato s\u00f3lido, integrado no tecido social, sendo a internet apenas uma dimens\u00e3o dela, um substrato tecnol\u00f3gico. Alcan\u00e7ou-se a fus\u00e3o entre a rede e a rua. Ai dos pol\u00edticos que ignorarem essa nova configura\u00e7\u00e3o. E aqui eu acrescentaria aos meus colegas: ai dos pastores que n\u00e3o estiverem aprendendo essa li\u00e7\u00e3o. No futuro h\u00e1 apenas duas op\u00e7\u00f5es: l\u00edderes midi\u00e1ticos de manadas ou catalisadores de processos em rede.<\/p>\n<blockquote><p>a \u201crede\u201d n\u00e3o est\u00e1 dentro da internet. A rede \u00e9 um fato s\u00f3lido, integrado no tecido social, sendo a internet apenas uma dimens\u00e3o dela, um substrato tecnol\u00f3gico. Alcan\u00e7ou-se a fus\u00e3o entre a rede e a rua.<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Partidos e Movimentos<\/strong><\/p>\n<p>O MPL n\u00e3o foi totalmente original em sua estrat\u00e9gia, e aqui me reporto a um artigo essencial no <a href=\"http:\/\/reaconaria.org\/colunas\/colunadoleitor\/morto-ao-chegar-o-que-era-e-o-que-se-tornou-o-movimento-passe-livre\/\" target=\"_blank\">Rea\u00e7onaria <\/a>\u00a0de um ex-membro do movimento que vale ler com aten\u00e7\u00e3o. Suas t\u00e1ticas se originaram das convuls\u00f5es antiglobaliza\u00e7\u00e3o que explodiram em Seattle em novembro de 1999, na reuni\u00e3o da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio (OMC). L\u00e1 as manifesta\u00e7\u00f5es foram convocadas de forma n\u00e3o hierarquizada e apartid\u00e1ria, e juntaram uma enorme quantidade de gente para protestar e oferecer resist\u00eancia simb\u00f3lica. Tudo sem controle de sindicatos ou partidos organizados, deixando at\u00f4nita a esquerda tradicional.<\/p>\n<p>As semelhan\u00e7as s\u00e3o intrigantes. At\u00e9 mesmo vers\u00f5es tupiniquins dos <em>Black Blocs<\/em> anarquistas (com m\u00e1scaras e roupas pretas) quebrando lojas e peitando a tropa de choque n\u00f3s tivemos por aqui &#8211; <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Manifesta%C3%A7%C3%B5es_contra_o_encontro_da_OMC_em_Seattle\" target=\"_blank\">veja mais aqui<\/a>. Mas h\u00e1 diferen\u00e7as; onde houve em Seattle uma mobiliza\u00e7\u00e3o longa e complexa de movimentos sociais e institui\u00e7\u00f5es, o que tivemos no Brasil foi muito mais fluido e espont\u00e2neo. E o papel da internet no processo foi muit\u00edssimo maior, assemelhando-se mais \u00e0 primavera \u00e1rabe e \u00e0 pra\u00e7a Taksim na Turquia.<\/p>\n<p>Essa abordagem cai muito bem para iniciativas anarquistas e mobiliza as massas sem altos custos &#8220;pedag\u00f3gicos&#8221; porque focaliza pontos de tens\u00e3o e capitaliza insatisfa\u00e7\u00f5es latentes. \u00c9 claro que um movimento de esquerda que atraia muita gente usando essas t\u00e1ticas n\u00e3o ser\u00e1 capaz de manter-se ideologicamente homog\u00eaneo e naturalmente se descaracterizar\u00e1, como de fato aconteceu em S\u00e3o Paulo &#8211; e segundo alguns, n\u00e3o apenas na evolu\u00e7\u00e3o das manifesta\u00e7\u00f5es, mas na pr\u00f3pria estrutura do movimento.<\/p>\n<p>Isso provavelmente significa que uma iniciativa ideologicamente consciente pode empregar essas t\u00e1ticas para realizar mobiliza\u00e7\u00f5es de massa em torno de um ponto em particular para cristalizar a opini\u00e3o p\u00fablica, mas isso n\u00e3o significa que ela conseguir\u00e1 cooptar essas massas para o conjunto de suas propostas ideol\u00f3gicas. Elas ficam mais politizadas, mas aparentemente continuam a ser o que s\u00e3o, e movimentam-se segundo outras l\u00f3gicas associativas (colegas de classe, igreja, fam\u00edlia, amigos na rede social).<\/p>\n<p>O MPL usou o povo para conseguir &#8220;seus&#8221; 20 centavos; mas o povo usou o MPL e o processo que ele iniciou para conseguir os 20 centavos e muito mais do que isso, como o revela a r\u00e1pida movimenta\u00e7\u00e3o no congresso ap\u00f3s os pronunciamentos p\u00fablicos da presid\u00eancia do pa\u00eds. Na verdade \u00e9 at\u00e9 poss\u00edvel que n\u00e3o apenas alguns partidos se capitalizem com novas pessoas, mas que novos partidos emerjam empunhando bandeiras que hoje n\u00e3o s\u00e3o priorit\u00e1rias.<\/p>\n<blockquote><p>uma iniciativa ideologicamente consciente pode empregar essas t\u00e1ticas para realizar mobiliza\u00e7\u00f5es de massa em torno de um ponto em particular para cristalizar a opini\u00e3o p\u00fablica, mas isso n\u00e3o significa que ela conseguir\u00e1 cooptar essas massas para o conjunto de suas propostas ideol\u00f3gicas.<\/p><\/blockquote>\n<p>N\u00e3o \u00e9 razo\u00e1vel esperar que esse grau de resultado venha a se tornar a regra para quaisquer manifesta\u00e7\u00f5es. Ainda assim a abordagem pode se mostrar uma estrat\u00e9gia \u00fatil de modifica\u00e7\u00e3o pontual da opini\u00e3o p\u00fablica, se dispuser de alguma resson\u00e2ncia na imprensa tradicional. A rede conseguiu renovar a rua como institui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Perigos<\/strong><\/p>\n<p>Ningu\u00e9m pense que essa discuss\u00e3o represente alguma louva\u00e7\u00e3o otimista; a nova configura\u00e7\u00e3o envolve riscos s\u00e9rios. Em primeiro lugar, <em>h\u00e1 um descompasso entre o acelerado metabolismo comunicacional e o lento metabolismo do pensamento<\/em>. Pensar d\u00e1 trabalho e custa tempo. Ideias precisam amadurecer, ficar &#8220;de molho&#8221;, ganhar massa e corpo; mas a velocidade da rede \u00e9 muito alta. Da\u00ed o perigo j\u00e1 materializado da produ\u00e7\u00e3o industrial de conceitos como &#8220;frangos de granja&#8221;, com engorda r\u00e1pida e baixo valor nutritivo.<\/p>\n<p>O cidad\u00e3o em rede responde muito rapidamente, mas \u00e9 raso, e sua liquidez pode viabilizar graves manipula\u00e7\u00f5es ainda desconhecidas. Um sinal disso s\u00e3o as muta\u00e7\u00f5es aceleradas na opini\u00e3o p\u00fablica. &#8220;Consensos&#8221; baseados em memes de rede social se cristalizam em dois tempos e condicionam a massa emocionalmente. Um poss\u00edvel exemplo foi a r\u00e1pida exclus\u00e3o da PEC 37. Tudo indica que foi a coisa mais justa e acertada a fazer; o problema \u00e9 que pouca gente teve tempo de pensar. Um post no facebook observava que nem tivemos tempo de ler o projeto com cuidado e ele j\u00e1 foi enterrado; portanto temos no Brasil &#8220;o manifestante mais r\u00e1pido do oeste&#8221;!<\/p>\n<blockquote><p><em>h\u00e1 um descompasso entre o acelerado metabolismo comunicacional e o lento metabolismo do pensamento<\/em>.<\/p><\/blockquote>\n<p>Piadas \u00e0 parte, trata-se de algo muito perigoso, se eventualmente isso for utilizado para promover o \u00f3dio p\u00fablico contra uma institui\u00e7\u00e3o, uma pessoa ou uma classe\/minoria. O <em>cyberbullying<\/em> pode ser apenas a ponta do iceberg; cen\u00e1rios mais pessimistas poderiam se desenvolver se a indigna\u00e7\u00e3o p\u00fablica se derrama de forma manipulada ou n\u00e3o contra um grupo minorit\u00e1rio, que poderia ser tanto um partido de esquerda quanto uma comunidade religiosa.<\/p>\n<p>No mais, o pior dos riscos \u00e9 mesmo a fraqueza propositiva dessas movimenta\u00e7\u00f5es. O &#8220;<a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Occupy_Wall_Street\" target=\"_blank\">Occupy Wall Street&#8221;<\/a> mostrou grande for\u00e7a simb\u00f3lica, mas os resultados ainda s\u00e3o et\u00e9reos; j\u00e1 a primavera \u00e1rabe exp\u00f4s uma pluralidade de for\u00e7as opostas e permitiu o crescimento da irmandade mu\u00e7ulmana, no Egito. Esses movimentos n\u00e3o geram sozinhos grandes lideran\u00e7as ou propostas densas e fact\u00edveis. Por isso as coagula\u00e7\u00f5es a que nos referimos s\u00e3o t\u00e3o importantes. Depois do primeiro impacto, \u00e9 delas que poder\u00e1 vir algo duradouro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O &#8220;Fiel L\u00edquido&#8221; e a Igreja em Rede: apontamentos missiol\u00f3gicos<br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p>Os crist\u00e3os mais atentos j\u00e1 haviam notado que o &#8220;cidad\u00e3o l\u00edquido&#8221; tamb\u00e9m \u00e9 o &#8220;fiel l\u00edquido&#8221;; aquele crist\u00e3o jovem que escorrega facilmente sob certas condi\u00e7\u00f5es de temperatura e press\u00e3o (sem ironia) &#8211; e cujo comportamento j\u00e1 se reflete na alta infidelidade eclesi\u00e1stica, na dificuldade de presen\u00e7a duradoura, e numa alt\u00edssima conectividade. Esse &#8220;Novo Tipo de Crist\u00e3o&#8221; (agora sim, estou sendo ir\u00f4nico) n\u00e3o forma a sua opini\u00e3o teol\u00f3gica apenas a partir do p\u00falpito ou da classe de EBD, nem a partir dos pregadores de televis\u00e3o, e sua comunh\u00e3o crist\u00e3 \u00e9 integrada com a rede. De modo que a Igreja local, queira ou n\u00e3o, est\u00e1 representada na rede por essas pessoas.<\/p>\n<p>O impacto da nova conforma\u00e7\u00e3o social em rede j\u00e1 vem se fazendo sentir h\u00e1 algum tempo no crescimento de toda uma faixa de crist\u00e3os &#8220;desigrejados&#8221; que escorrem ao largo das igrejas e que marcam presen\u00e7a na rede por conex\u00f5es assistem\u00e1ticas, desierarquizadas e vol\u00e1teis. Eles s\u00e3o articulados e, por assim dizer, &#8220;apartid\u00e1rios&#8221; em termos denominacionais, mas tamb\u00e9m se associam em pontos de converg\u00eancia cr\u00edtica contra a igreja institu\u00edda. Em parte, eles reagem a uma igreja que j\u00e1 n\u00e3o sabe ensinar o cristianismo, e que n\u00e3o se conecta significativamente com o tempo presente.<\/p>\n<p>Nessas condi\u00e7\u00f5es a solubilidade eclesial \u00e9 alta. O mesmo cidad\u00e3o em rede que tornou-se uma for\u00e7a din\u00e2mica positiva contra o sistema pol\u00edtico esclerosado pode ser uma for\u00e7a cr\u00edtica contra as igrejas ou a despeito delas. Esse fato \u00e9 pleno de ambiguidades; pode ser apenas uma forma de plasmar insatisfa\u00e7\u00f5es e projet\u00e1-las contra a religi\u00e3o ou uma forma de capitalizar possibilidades criativas que ficariam congeladas na institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A melhor forma de lidar com isso n\u00e3o \u00e9 ignorar ou construir diques contra a &#8220;enxurrada&#8221;. A igreja precisa estar presente na rede e na rua com a nova gera\u00e7\u00e3o, habitando esses espa\u00e7os de forma inteligente e estrat\u00e9gica, acompanhando seus desdobramentos com aten\u00e7\u00e3o constante. Trata-se n\u00e3o apenas de ouvir o que est\u00e1 sendo feito, mas de permitir que a nova gera\u00e7\u00e3o participe tamb\u00e9m com seus pr\u00f3prios recursos e conectividade, e fazendo a igreja acontecer tamb\u00e9m no interior da rede. Pois al\u00e9m da igreja sem a rede (a igreja 1.0) e da presen\u00e7a dual dos crist\u00e3os na igreja e na rede (a igreja 2.0), est\u00e1 em processo a fus\u00e3o de uma parte da igreja com a rua e com a rede. Resta saber se a igreja continuar\u00e1 operando no 1.0 quando <a href=\"http:\/\/www.bbc.co.uk\/portuguese\/noticias\/2013\/06\/130624_redes_ronaldolemos_bg.shtml\" target=\"_blank\">sua juventude j\u00e1 \u00e9 3.0.<\/a><\/p>\n<blockquote><p>O mesmo cidad\u00e3o em rede que tornou-se uma for\u00e7a din\u00e2mica positiva contra o sistema pol\u00edtico esclerosado pode ser uma for\u00e7a cr\u00edtica contra as igrejas ou a despeito delas. Esse fato \u00e9 pleno de ambiguidades; pode ser apenas uma forma de plasmar insatisfa\u00e7\u00f5es e projet\u00e1-las contra a religi\u00e3o ou uma forma de capitalizar possibilidades criativas que ficariam congeladas na institui\u00e7\u00e3o.<\/p><\/blockquote>\n<p>O cidad\u00e3o em rede veio para ficar, e podemos admitir, sem nenhum servilismo, que a nova realidade precisa ser incorporada, de um modo s\u00e1bio e reformacional. N\u00e3o h\u00e1 sentido na cr\u00edtica moralista, nem tempo a perder; importa agora apresentar respostas honestas e levar nossas pr\u00e1ticas catequ\u00e9ticas, cooperativas, evangel\u00edsticas e de interven\u00e7\u00e3o transformadora para esse mundo novo, de forma mais consciente e cr\u00edtica. As igrejas que quiserem permanecer missionais no contexto das cidades globais n\u00e3o poder\u00e3o ignorar a rede.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n<a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/2013\/06\/19\/a-baderna-de-deus-e-a-baderna-dos-homens\/\" target=\"_blank\">A Baderna de Deus e a Baderna dos Homens<\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/2013\/05\/14\/a-ideia-crista-do-estado\/\" target=\"_blank\">A Ideia Crist\u00e3 do Estado<\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/2012\/06\/04\/o-atomismo-social-segundo-charles-taylor-e-a-espiritualidade-crista\/\" target=\"_blank\">O Atomismo Social<\/a><\/p>\n<div><\/div>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/labri.org.br\/conferencialabribrasil\/\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"arte2\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2013\/06\/arte2.jpg\" width=\"614\" height=\"266\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>SAIBA MAIS SOBRE A CONFER\u00caNCIA LABRI 2013 NO SITE: <a href=\"http:\/\/labri.org.br\/conferencialabribrasil\/\" target=\"_blank\">http:\/\/labri.org.br\/conferencialabribrasil\/<\/a><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A surpresa dos primeiros dias de manifesta\u00e7\u00e3o n\u00e3o impediu a prolifera\u00e7\u00e3o de palpites e experimentos anal\u00edticos por soci\u00f3logos, jornalistas, economistas, e observadores menos profissionais que se proliferam na vasta blogosfera e nas redes sociais. 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