{"id":776,"date":"2013-06-01T11:33:16","date_gmt":"2013-06-01T14:33:16","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/?p=776"},"modified":"2013-06-14T12:37:38","modified_gmt":"2013-06-14T15:37:38","slug":"pureza-e-impureza-sexual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/2013\/06\/01\/pureza-e-impureza-sexual\/","title":{"rendered":"Pureza e Impureza Sexual"},"content":{"rendered":"<div>\n<p>H\u00e1 alguns anos (<a href=\"http:\/\/labri.org.br\/conferencialabribrasil\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/conf2013-1.jpg\" rel=\"fancybox\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright\" alt=\" Pureza e Impureza Sexual \u2013 Parte 1\" src=\"http:\/\/labri.org.br\/conferencialabribrasil\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/conf2013-1-300x168.jpg\" width=\"300\" height=\"168\" \/><\/a>julho de 2008?) eu tive uma conversa estimulante com um pastor, no final de uma palestra sobre educa\u00e7\u00e3o. Na palestra eu havia mencionado um princ\u00edpio do pensamento reformacional \u2014 a ideia de que n\u00e3o h\u00e1 contradi\u00e7\u00f5es estruturais na ordem criada. Assim, n\u00e3o h\u00e1 contradi\u00e7\u00e3o essencial entre, por exemplo, a esfera da justi\u00e7a e a da moral, ou entre a esfera est\u00e9tica e a esfera da f\u00e9, e assim por diante. Por\u00e9m, uma das minhas alega\u00e7\u00f5es fez acenderem luzinhas no painel dos presentes, incluindo no do amigo pastor: a de que <i>n\u00e3o haveria contradi\u00e7\u00e3o estrutural entre as esferas biol\u00f3gica e ps\u00edquica e a esfera moral<\/i>. <!--more--><\/p>\n<p>Ao t\u00e9rmino da exposi\u00e7\u00e3o ele reagiu prontamente com uma quest\u00e3o muit\u00edssimo pr\u00e1tica: a tenta\u00e7\u00e3o sexual: \u201cH\u00e1 pouco eu aconselhei um homem envolvido em adult\u00e9rio. O casal est\u00e1 aos poucos se refazendo, e a esposa est\u00e1 disposta a perdoar; quanto ao marido, ele deixou claro para mim que amava a sua esposa. Ele simplesmente foi fraco e caiu. N\u00e3o lhe faltava amor; faltavam-lhe for\u00e7as para resistir \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o sexual. Mas isso n\u00e3o implica em uma contradi\u00e7\u00e3o entre o n\u00edvel biol\u00f3gico e o n\u00edvel moral?\u201d.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida, as impress\u00f5es do pastor refletiam um lugar-comum da imagina\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica: a tenta\u00e7\u00e3o seria uma fraqueza interna ao campo sexual, a ser vencida por meio de uma resist\u00eancia ao desejo sexual, seja por uma interven\u00e7\u00e3o diretamente biol\u00f3gica (arrancar os olhos, ou outra coisa, eventualmente) ou por uma equilibra\u00e7\u00e3o ps\u00edquica. De um modo ou de outro, espera-se que o desejo sexual distorcido seja controlado. Mas se, enfim, perdemos o controle, \u00e9 <i>porque falta disciplina no trato com o desejo<\/i>. Precisamos disciplinar o corpo, basicamente; dobr\u00e1-lo pela supress\u00e3o do desejo.<\/p>\n<p>Pois bem; essa \u00e9 uma meia verdade que os crist\u00e3os gostamos de espalhar. \u00c9 uma verdade, sim, que o corpo deve ser disciplinado, e o desejo controlado; n\u00e3o \u00e9 o \u201cdom\u00ednio pr\u00f3prio\u201d um fruto do Esp\u00edrito? Entretanto, \u00e9 uma baita falsidade que possamos controlar os desejos apenas mecanicamente, ou mesmo \u201ccirurgicamente\u201d.<\/p>\n<p><b><i>Imagine o mundo sem o pecado<\/i><\/b><\/p>\n<p>Fa\u00e7amos alguns exerc\u00edcios de imagina\u00e7\u00e3o crist\u00e3; imaginemos o mundo sem pecado. Nesse para\u00edso, Ad\u00e3o tem desejos de todos os tipos, incluindo os desejos sexuais. Esses desejos t\u00eam uma base instintiva biops\u00edquica, e s\u00e3o acionados automaticamente por sinais \u00f3bvios: a forma do corpo da f\u00eamea, certas cores, certos cheiros etc. Ad\u00e3o est\u00e1 sujeito a tais est\u00edmulos exatamente como qualquer outro macho de sua esp\u00e9cie, sendo que sua sexualidade, nesse n\u00edvel, tem forte analogia com a de outros animais.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, Ad\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas um animal, feito de p\u00f3 como todos os outros. Ad\u00e3o \u00e9 o p\u00f3 com o sopro divino, \u00e9 o portador da imagem de Deus. De algum modo essa imagem est\u00e1 impressa no mesmo p\u00f3 do qual as outras criaturas foram feitas, e entre as caracter\u00edsticas particulares que Ad\u00e3o apresenta est\u00e1 a sua fun\u00e7\u00e3o moral. Ad\u00e3o \u00e9 capaz de um altru\u00edsmo perfeito, muito al\u00e9m do altru\u00edsmo de c\u00e3es e golfinhos. Ele \u00e9 capaz de amar de forma pura, reconhecendo na forma da f\u00eamea n\u00e3o um corpo adequado ao acasalamento, mas a superf\u00edcie material de uma pessoa; n\u00e3o como mero objeto, mas como evento dotado de profundidade pessoal, como um Tu que precisa ser amado incondicionalmente por meio do trato que se dispensar\u00e1 ao seu corpo.<\/p>\n<p>Ter\u00edamos aqui uma contradi\u00e7\u00e3o estrutural? Haveria aqui um choque da din\u00e2mica biops\u00edquica contra a din\u00e2mica moral? Penso que temos excelentes raz\u00f5es para crer que n\u00e3o; n\u00e3o apenas raz\u00f5es teol\u00f3gicas (tudo o que Deus criou \u00e9 bom), mas tamb\u00e9m filos\u00f3ficas. Vou lan\u00e7ar m\u00e3o aqui da no\u00e7\u00e3o de sobredetermina\u00e7\u00e3o utilizada em ontologia (a teoria sobre a natureza da realidade). O conceito n\u00e3o \u00e9 muito complicado, mas exige alguma aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><b><i>Sobredetermina\u00e7\u00f5es ontol\u00f3gicas<\/i><\/b><\/p>\n<p>A ideia de sobredetermina\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica \u00e9 a ideia de que a din\u00e2mica pr\u00f3pria de um n\u00edvel superior da realidade n\u00e3o contradiz, mas sobredetermina a din\u00e2mica de um n\u00edvel inferior. Um exemplo cl\u00e1ssico disso \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre a din\u00e2mica bi\u00f3tica seus processos qu\u00edmicos subjacentes. A mat\u00e9ria, como se sabe, se associa ou se desassocia segundo leis f\u00edsico-qu\u00edmicas, e essas leis por si mesmas n\u00e3o produzem seres vivos. Por outro lado, seres vivos apresentam processos exclusivos em rela\u00e7\u00e3o aos seres inanimados; processos como a reprodu\u00e7\u00e3o, o metabolismo, e a conserva\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o complexa.<\/p>\n<p>Naturalmente, para realizar todos estes processos, os seres vivos dependem de processos f\u00edsico-qu\u00edmicos, que seguem leis f\u00edsico-qu\u00edmicas. Por\u00e9m, se as mol\u00e9culas que comp\u00f5e a estrutura de uma c\u00e9lula viva apenas obedecessem a leis f\u00edsico-qu\u00edmicas, ela se desfaria. As mol\u00e9culas da c\u00e9lula obedecem \u00e0s leis f\u00edsico-qu\u00edmicas dentro de restri\u00e7\u00f5es e especifica\u00e7\u00f5es impostas pela din\u00e2mica biol\u00f3gica do organismo, segundo modos absolutamente improv\u00e1veis, de um ponto de vista puramente qu\u00edmico. Quando as mol\u00e9culas da c\u00e9lula seguem apenas as leis f\u00edsico-qu\u00edmicas, sem nenhum controle bi\u00f3tico, ela se desfaz \u2014 porque, obviamente, ela est\u00e1 morta. Dizemos, portanto, que h\u00e1 na c\u00e9lula uma sobredetermina\u00e7\u00e3o das leis bi\u00f3ticas sobre as leis f\u00edsicas.<\/p>\n<p><b><i>A Sobredetermina\u00e7\u00e3o moral<\/i><\/b><\/p>\n<p>Ora, o mesmo vale para outros n\u00edveis da realidade. H\u00e1 uma sobredetermina\u00e7\u00e3o ps\u00edquica sobre os processos biol\u00f3gicos do ser humano; e uma sobredetermina\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica sobre processos ps\u00edquicos; e no final da escala, uma sobredetermina\u00e7\u00e3o religiosa e moral sobre todos os n\u00edveis estruturais do ser humano. As normas de um n\u00edvel superior de fun\u00e7\u00e3o humana n\u00e3o contradizem as normas do n\u00edvel inferior, mas lhe d\u00e3o formas particulares, habilitando-as a existirem no n\u00edvel superior. Pense nas mol\u00e9culas da c\u00e9lula: pela \u201cobedi\u00eancia\u201d \u00e0s leis bi\u00f3ticas, elas deixam de ser apenas \u201cmat\u00e9ria\u201d, e se tornam parte de um ser vivo.<\/p>\n<p>Ora, o que queremos dizer com isso \u00e9 que \u00e9 preciso ser um animal para ser um homem; no entanto essa \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o \u201cnecess\u00e1ria, mas n\u00e3o suficiente\u201d. A vontade moral e a capacidade humana de amar opera por meio de sua estrutura sexual, mas a transcende, elevando o corpo do homem \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de esp\u00edrito, de pessoa. Por\u00e9m, assim como a c\u00e9lula pode morrer entregando suas mol\u00e9culas \u00e0s leis brutas do mundo f\u00edsico-qu\u00edmico, o homem pode morrer moralmente entregando o seu corpo aos est\u00edmulos biops\u00edquicos. O humano no homem pode ser negado e perdido por falta de vontade.<\/p>\n<p>Onde se localiza, ent\u00e3o, a falha da impureza sexual? N\u00e3o no n\u00edvel sexual, em primeiro lugar, seja em seu aspecto biol\u00f3gico ou ps\u00edquico, mas no n\u00edvel moral. Quando pecamos por impureza sexual, n\u00e3o pecamos primeiramente por excesso de sexualidade, por excesso de desejo sexual, ou por excesso de est\u00edmulo sexual (primariamente falando), mas acima de tudo por falta, por aus\u00eancia. E aqui estamos simplesmente sendo Agostinianos: o pecado \u00e9 a priva\u00e7\u00e3o do bem. O problema da impureza \u00e9 a aus\u00eancia moral, n\u00e3o o excesso sexual.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b><i>Um Tru\u00edsmo?<\/i><\/b><\/p>\n<p>Estar\u00edamos n\u00f3s dizendo o \u00f3bvio? Sim e n\u00e3o. Sim, porque isso \u00e9 simplesmente o que as Escrituras e a tradi\u00e7\u00e3o ensinam. N\u00e3o, porque isso n\u00e3o \u00e9 de modo algum a teologia moral popular no meio crist\u00e3o. Pensemos na conversa com o pastor, que mencionamos antes. Ele afirmou com grande convic\u00e7\u00e3o que o marido traidor, no fundo, amava a sua esposa. Ele caiu por ser fraco, n\u00e3o por falhar no amor.<\/p>\n<p>\u00c0 luz do que acabamos de considerar, no entanto, eu diria que \u201ctalvez n\u00e3o\u201d. Com certeza, o marido traidor amava a sua esposa; mas ele n\u00e3o a amava o suficiente. Na verdade, ele n\u00e3o caiu apenas por fraqueza sexual (ou excesso de desejo sexual), mas por falta de amor. N\u00e3o foi isso o que nos disse o Ap\u00f3stolo? \u201cO amor n\u00e3o faz mal ao pr\u00f3ximo\u201d. Jesus n\u00e3o caiu e n\u00e3o cairia nessa tenta\u00e7\u00e3o, n\u00e3o porque n\u00e3o tivesse os mesmos desejos sexuais, mas porque ele saberia olhar para cada pessoa envolvida com amor de verdade.<\/p>\n<p>Sejamos espec\u00edficos: aquele que adultera deixa de amar \u00e0 sua esposa e de consider\u00e1-la como pessoa de valor infinito. E deixa tamb\u00e9m de amar \u00e0 sua \u201camante\u201d, tratando-a egoisticamente. Aquele que procura a prostitui\u00e7\u00e3o, seja ela real ou virtual, n\u00e3o ama aqueles que est\u00e3o escravizados ao mercado sexual, e tampouco ama a si mesmo; pois se sujeita a ser manipulado e explorado por indiv\u00edduos que n\u00e3o tem um pingo de respeito ou preocupa\u00e7\u00e3o com o seu destino, desde que esvaziem os seus bolsos.<\/p>\n<p><b><i>Mas e o V\u00edcio?<\/i><\/b><\/p>\n<p>Da abordagem que apresentamos poderia parecer que negamos a import\u00e2ncia do \u201cexcesso\u201d no desejo sexual, e particularmente do v\u00edcio. Na verdade, h\u00e1 momentos, sim, em que aparentemente o desejo sexual se torna incontrol\u00e1vel, at\u00e9 o caso extremo do v\u00edcio sexual. Como devemos pensar esse lado compulsivo e eventualmente viciante do sexo?<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, devemos nos lembrar de que o impulso sexual \u00e9 natural, e naturalmente forte, como estrat\u00e9gia biol\u00f3gica para garantir o intercurso sexual e a reprodu\u00e7\u00e3o. Nesse aspecto Deus nos fez instintivos como os animais; todo o processo \u00e9 disparado de forma autom\u00e1tica, independentemente da nossa vontade ou imagina\u00e7\u00e3o. Dessa forma, o controle do desejo sexual seria uma necessidade de qualquer forma, num mundo sem pecado.<\/p>\n<p>Por outro lado, o pecado produz uma desestabiliza\u00e7\u00e3o e uma guerra de nossas afei\u00e7oes. Isso implica o enfraquecimento moral, mas pode significar tamb\u00e9m a eleva\u00e7\u00e3o de alguns afetos sobre outros. E da\u00ed pode vir o v\u00edcio.<\/p>\n<p>De um modo geral, todo v\u00edcio pode ser visto como uma rea\u00e7\u00e3o defensiva e uma fuga, um ato de \u201csuspens\u00e3o do eu\u201d, ou uma \u201cperda do eu\u201d. De certa forma, \u00e9 um ato de \u201cdescanso\u201d, quando o eu que controla e disciplina \u00e9 deixado para tr\u00e1s, como acontece no sono, quando perdemos a consci\u00eancia. O homem pode \u201cperder-se\u201d em experi\u00eancias diversas como o trabalho, o entretenimento, o sexo, ou a droga. O ponto principal \u00e9 que o fracasso com o cuidado e a consci\u00eancia de si precisa ser suprimido e esquecido por um instante; a necessidade de \u201cser\u201d, de \u201cfazer escolhas\u201d, fica suspensa.<\/p>\n<p>Isso denuncia uma din\u00e2mica: algo torna o eu dif\u00edcil de carregar, ou de administrar. Aqui, relacionando o problema do v\u00edcio com a ideia de que o indiv\u00edduo reflexivo moderno precisa construir sua identidade em uma narrativa de sentido, podemos dizer que o v\u00edcio revela uma ruptura nessa constru\u00e7\u00e3o. De algum modo o indiv\u00edduo \u00e9 insuport\u00e1vel para si mesmo. Por tr\u00e1s do v\u00edcio pode estar, portanto, uma ang\u00fastia, uma ansiedade profunda, da qual \u00e9 preciso escapar eventualmente.<\/p>\n<p>Mas nesse caso, at\u00e9 o \u201cexcesso\u201d de desejo sexual que faz o viciado ou compulsivo perder o controle de seu corpo n\u00e3o \u00e9 exatamente um excesso, mas um al\u00edvio de outras cargas existenciais. A origem dessa press\u00e3o pode n\u00e3o ser exatamente sexual; ela pode ser de outra origem, e isso pode gerar uma eleva\u00e7\u00e3o de tens\u00e3o em qualquer situa\u00e7\u00e3o na qual seja mais f\u00e1cil \u201centregar o eu\u201d.<\/p>\n<p>Ora, tamb\u00e9m nesse caso, o amor deve ser a solu\u00e7\u00e3o. Pois at\u00e9 mesmo o medo e a ansiedade, e a fraqueza no trato com a pr\u00f3pria identidade precisam ser tratados e resolvidos diante de Deus, por meio do amor de Deus. \u00c9 bem poss\u00edvel que, \u00e0 parte de causas de natureza fisiol\u00f3gica ou psiqui\u00e1trica, a maior dificuldade das pessoas com sua sexualidade n\u00e3o seja na verdade com sua sexualidade mas com o seu eu, com o Self. E o aumento das exig\u00eancias de auto constitui\u00e7\u00e3o na modernidade, o desejo sexual vai se tornando uma v\u00e1lvula de escape de si mesmo.<\/p>\n<p align=\"center\">***<\/p>\n<p>Assim, de modo algum eu pretendo dizer com este argumento que n\u00e3o exista o v\u00edcio sexual; mas sustento que at\u00e9 mesmo o v\u00edcio tem os seus come\u00e7os na falta de amor genu\u00edno pelo outro. Todo aquele que sofre com a impureza sexual deve saber, e dizer para si mesmo claramente, que ele n\u00e3o \u00e9 um pobre coitado, aprisionado por impulsos sexuais e por uma din\u00e2mica biops\u00edquica ultimamente m\u00e1 inventada por um Criador maldoso. Mil vezes n\u00e3o. A concupisc\u00eancia existe, sim; mas \u00e9 uma erva daninha. Ela s\u00f3 cresce quando o amor est\u00e1 ausente. E quando ele est\u00e1 presente, alguma coisa for\u00e7osamente mudar\u00e1. \u00c9 por isso que Santo Agostinho p\u00f4de declarar com tanta confian\u00e7a: \u201cAma e faze o que quiseres\u201d.<\/p>\n<p><b><i>Problema \u201cde Vista\u201d<\/i><\/b><\/p>\n<p>De acordo com Jesus, a impureza \u00e9 uma doen\u00e7a dos olhos, de certo modo; um problema oftalmol\u00f3gico, mas altamente infeccioso, a ponto de ele receitar a amputa\u00e7\u00e3o: \u201cSe o teu olho de faz trope\u00e7ar, arranca-o\u201d. Por\u00e9m, Jesus sabia o que dizia. Ele deixou claro que o que contamina o homem \u00e9 o que sai do seu cora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o o que entra pela sua boca. A doutrina da \u201camputa\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 uma refer\u00eancia metaf\u00f3rica \u00e0 mudan\u00e7a dos olhos.<\/p>\n<p>O ser humano tem s\u00e9rios problemas com os olhos. E eu quero chamar a aten\u00e7\u00e3o dos meus companheiros, os homens. Recentemente recebeu alguma cobertura o resultado de uma pesquisa feita na universidade de Princeton, sobre os padr\u00f5es de resposta neurol\u00f3gica de homens diante de imagens de mulheres. O que <a href=\"http:\/\/www.telegraph.co.uk\/science\/science-news\/4636689\/Men-really-do-see-half-naked-women-as-objects-scientists-claim.html\" target=\"_blank\">Susan Fiske<\/a>, a diretora da pesquisa descobriu, \u00e9 que as imagens de mulheres com teor er\u00f3tico ou sensual, e especialmente as imagens de partes espec\u00edficas do corpo sem a revela\u00e7\u00e3o da face, despertam as mesmas \u00e1reas do c\u00e9rebro masculino tipicamente associadas ao uso de ferramentas e objetos inanimados, ao mesmo tempo em que desativam as partes associadas \u00e0s rela\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p>Ou seja, de algum modo a nossa sociedade desenvolveu uma forma de desassociar o interesse sexual da sensibilidade moral a partir da nossa forma de olhar as mulheres. Fomos literalmente submetidos a um maci\u00e7o treinamento pavloviano para nos acostumarmos a olhar mulheres como objetos, como superf\u00edcies materiais sem profundidade pessoal. Nas palavras de Susan Fiske, \u201celes n\u00e3o as est\u00e3o tratando como seres humanos tridimensionais\u201d.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 o que acontece quando suprimimos a nossa intui\u00e7\u00e3o moral e deixamos de ver pessoas diante de n\u00f3s. Restam apenas corpos impessoais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b><i>Olhar com amor<\/i><\/b><\/p>\n<p>Como, ent\u00e3o, o amor se manifesta, no que tange \u00e0 impureza sexual? De novo quero apelar para Paulo: \u201cN\u00e3o repreendas ao homem idoso; antes, exorta-o como a pai; aos mo\u00e7os, como a irm\u00e3os; \u00e0s mulheres idosas, como a m\u00e3es; \u00e0s mo\u00e7as, como a irm\u00e3s, com toda a pureza\u201d (1Tm 5.1).<\/p>\n<p>Paulo sabia muito bem o que estava dizendo. Ningu\u00e9m pode alegar (a n\u00e3o ser, \u00e9 claro, em casos evidentemente patol\u00f3gicos) que n\u00e3o sabe o que significa olhar para uma mulher linda e n\u00e3o cobi\u00e7ar. Basta ter m\u00e3e ou irm\u00e3 ou filha. Todos n\u00f3s sabemos muito bem o que \u00e9 olhar algu\u00e9m que, biologicamente falando, poderia ser apenas um objeto sexual, mas simplesmente n\u00e3o sentir interesse sexual por causa do amor, de uma rela\u00e7\u00e3o de respeito e cuidado em que o outro \u00e9 verdadeiramente reconhecido como pessoa e valorizado incondicionalmente. O amor faz a gente ter um olhar diferente.<\/p>\n<p>Como \u00e9 que o jovem Tim\u00f3teo olharia para uma mo\u00e7a com \u201ctoda a pureza\u201d? Olhando-a como se fosse uma irm\u00e3 de sangue. Paulo nos convida aqui a usar a imagina\u00e7\u00e3o, e considerar as mo\u00e7as como se fossem irm\u00e3s. Ou seja, tomando-as como pessoas, n\u00e3o como objetos. Isso demandar\u00e1 uma revolu\u00e7\u00e3o, nos dias de hoje, em que somos ensinados a enxergar os corpos humanos como bonecos de pl\u00e1stico. Jovens e adultos, homens e mulheres, olhando para seus pares, amigos e semelhantes como pessoas \u2014 n\u00e3o como nacos de carne, como pernas, bundas e peitos, mas como gente, como humanos com faces, como superf\u00edcies f\u00edsicas de pessoas reais.<\/p>\n<p>Honestamente, preciso dizer a todos os meus companheiros pecadores que n\u00e3o h\u00e1 uma cura completa para essas doen\u00e7as do olhar, at\u00e9 que a nossa ressurrei\u00e7\u00e3o seja consumada. Por\u00e9m, h\u00e1 o que Schaeffer chamava de \u201ccura substancial\u201d. A impureza no olhar tem cura de verdade, embora seja um caminho dif\u00edcil; pois amar de verdade \u00e9 ainda mais dif\u00edcil que reprimir desejos.<\/p>\n<p>Mas, enfim, n\u00e3o h\u00e1 vit\u00f3ria na \u201cpureza\u201d obtida \u00e0 custa de repress\u00e3o do desejo. \u00c9 in\u00fatil congelar uma c\u00e9lula morta para que ela n\u00e3o se desfa\u00e7a. A \u00fanica solu\u00e7\u00e3o genu\u00edna e de longo prazo para o problema da impureza sexual \u00e9 ter amor nos olhos. Em outras palavras, aprender a \u201cordo amoris\u201d.<\/p>\n<p>Parodiando Santo Agostinho, eu diria: \u201cAma e olha como quiseres\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2013\/06\/arte2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"arte2\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2013\/06\/arte2.jpg\" width=\"614\" height=\"266\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>SAIBA MAIS SOBRE A CONFER\u00caNCIA LABRI 2013 NO SITE: <a href=\"http:\/\/labri.org.br\/conferencialabribrasil\/\" target=\"_blank\">http:\/\/labri.org.br\/conferencialabribrasil\/<\/a><\/strong><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 alguns anos (julho de 2008?) eu tive uma conversa estimulante com um pastor, no final de uma palestra sobre educa\u00e7\u00e3o. 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