{"id":761,"date":"2013-06-01T12:09:13","date_gmt":"2013-06-01T15:09:13","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/?p=761"},"modified":"2013-06-14T12:29:24","modified_gmt":"2013-06-14T15:29:24","slug":"o-eu-o-corpo-e-a-etica-sexual-crista-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/2013\/06\/01\/o-eu-o-corpo-e-a-etica-sexual-crista-2\/","title":{"rendered":"O Eu, O Corpo e a \u00c9tica Sexual Crist\u00e3"},"content":{"rendered":"<p><em><br \/>\nO meu corpo sou eu, ou n\u00e3o sou eu, afinal de contas?<\/em><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2013\/06\/eucorpo.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-762 alignright\" alt=\"eucorpo\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2013\/06\/eucorpo.jpg\" width=\"288\" height=\"222\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2013\/06\/eucorpo.jpg 450w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2013\/06\/eucorpo-300x230.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2013\/06\/eucorpo-150x115.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 288px) 100vw, 288px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Os esp\u00edritas e alguns irm\u00e3os neopentecostais dizem que somos esp\u00edritos que habitam em corpos \u2014 mas isso n\u00e3o pode ser verdade. Afinal, Deus disse a Ad\u00e3o: \u201cTu \u00e9s p\u00f3\u201d. Ent\u00e3o o corpo tamb\u00e9m sou eu. Estranhamente, no entanto, o ap\u00f3stolo Paulo, que n\u00e3o era esp\u00edrita nem neopentecostal, dizia que o seu corpo era a sua \u201ccasa\u201d.<\/p>\n<p>Ora, se eu sou meu corpo, mas tamb\u00e9m posso trat\u00e1-lo como a minha casa, ent\u00e3o h\u00e1 algum tipo de complexidade em mim; talvez, haja uma dualidade. <!--more--> Sou capaz de n\u00e3o apenas ter um eu, mas saber que tenho um eu, e at\u00e9 mesmo &#8220;dialogar&#8221; comigo mesmo. E mais: posso me relacionar com o meu corpo (que tamb\u00e9m sou eu) a ponto de trat\u00e1-lo como \u201ceu\u201d e \u201cele\u201d ao mesmo tempo, como Paulo faz em Romanos cap\u00edtulo 7, dizendo coisas como \u201cem mim, isto \u00e9, na minha carne, n\u00e3o habita bem nenhum\u201d, e logo depois que \u201co querer o bem est\u00e1 em mim\u201d.<\/p>\n<p>Bem, acredito que essa dualidade tem tudo a ver com a quest\u00e3o da impureza sexual. <a href=\"http:\/\/www.ultimato.com.br\/conteudo\/impureza-sexual-tem-cura\" target=\"_blank\">No artigo anterior<\/a> falei sobre a necessidade do amor ao pr\u00f3ximo para lidar com a impureza sexual; agora vou tocar em outro ponto \u2014 o amor do homem por seu pr\u00f3prio corpo em seu car\u00e1ter sexual, que vou chamar de \u201ccorpo sexual\u201d. Por\u00e9m, n\u00e3o quero tratar do assunto do ponto de vista tipicamente ps\u00edquico, ligado \u00e0 quest\u00e3o da autoestima; \u00e9 que, de algum modo, sinto que a nossa vis\u00e3o sobre a rela\u00e7\u00e3o entre a personalidade e o corpo tem um impacto estruturante em nossa \u00e9tica sexual. Certo, parece uma afirma\u00e7\u00e3o trivial. Mas minha experi\u00eancia me diz que a trivialidade anestesia o nosso senso cr\u00edtico.<\/p>\n<p>Passemos ent\u00e3o sem demora \u00e0 discuss\u00e3o do assunto: como \u00e9 essa rela\u00e7\u00e3o entre mim e o meu corpo?<\/p>\n<p><strong>Dentro e fora<\/strong><\/p>\n<p>Vamos assumir que de um jeito ou de outro meu esp\u00edrito e meu corpo sejam o mesmo \u201ceu\u201d, a \u201calma vivente\u201d, feita de p\u00f3 da terra e esp\u00edrito de vida. Como poder\u00edamos representar tal coisa? Talvez possamos dizer que somos como um tecido dobrado. Pela dobra o tecido se encontra consigo mesmo, uma ponta com a outra; e assim, dobrados, podemos olhar nossas faces no espelho, e esse fato curioso acontece: o olho atenta para a face, e v\u00ea a alma nela; e a alma olha pelos olhos, e sabe que aquela face \u00e9 sua.<\/p>\n<p>Dif\u00edcil? Talvez seja melhor usar uma feliz express\u00e3o de Paulo: o \u201chomem interior\u201d e o \u201chomem exterior\u201d. Essa \u00e9, sem d\u00favida, uma boa imagem da coisa toda. Tenho um \u201cdentro\u201d e um \u201cfora\u201d; uma \u201csuperf\u00edcie\u201d e uma \u201cprofundidade\u201d. Na profundidade est\u00e1 o meu centro \u2014 o cora\u00e7\u00e3o; e na superf\u00edcie, torna-se patente o que o cora\u00e7\u00e3o \u00e9. Sim, Paulo n\u00e3o inventou isso; a ideia \u00e9 muito mais antiga: <i>\u201cSobre tudo o que se deve guardar, guarda o cora\u00e7\u00e3o, porque dele procedem as fontes da vida\u201d (Pv 4.23).<\/i> Na antropologia b\u00edblica, o homem tem um centro; um \u201cself\u201d no qual tudo o que ele \u00e9 est\u00e1 concentrado. Poder\u00edamos dizer que o corpo \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o patente, e o cora\u00e7\u00e3o o corpo latente.<\/p>\n<p>Vou estender um bocadinho a met\u00e1fora e apontar algo que, creio, ela implica: que h\u00e1 uma esp\u00e9cie de \u201cdist\u00e2ncia\u201d natural entre \u201ceu\u201d e \u201ceu\u201d; mais precisamente, entre a minha autoconsci\u00eancia, e o meu corpo. A dist\u00e2ncia entre o interior e o exterior faz com que haja um \u201catraso\u201d entre os dois. <i>\u00c0s vezes o interior \u00e9 de um jeito, e o exterior de outro<\/i>. A mudan\u00e7a de um n\u00e3o implica uma resposta imediata do outro. E podemos at\u00e9 colocar um contra o outro, pasmem!<\/p>\n<p>Ora, os exemplos disso n\u00e3o faltam. O hip\u00f3crita \u00e9 de um jeito por dentro, e de outro por fora. O homem v\u00ea o exterior, mas o Senhor v\u00ea o cora\u00e7\u00e3o (1Sm 16.7). Tem gente feia por dentro e bonita por fora, feia por fora e bonita por dentro. \u201cN\u00e3o fa\u00e7o o bem que prefiro, mas o mal que n\u00e3o quero esse fa\u00e7o\u201d, disse o velho rabi. J\u00e1 me imaginei tocando piano de um jeito, mas constatei recentemente que minhas m\u00e3os n\u00e3o me obedecem. Quero chorar, mas dou um sorriso para despistar. E, se a minha \u201ccasa\u201d se desfizer, h\u00e1 outra para mim, \u201creservada nos c\u00e9us\u201d (2Co 5.1).<\/p>\n<p>Em princ\u00edpio, esse \u201catraso\u201d \u00e9 bom. Ele faz com que, de certo modo, possamos ser e n\u00e3o ser ao mesmo tempo. \u00c9 algo como a diferen\u00e7a de potencial ou tens\u00e3o entre dos fios el\u00e9tricos; justamente essa diferen\u00e7a faz surgir a corrente el\u00e9trica. A tens\u00e3o entre o homem interior e o homem exterior faz a gente ter \u201cdin\u00e2mica\u201d. Precisamos nos tornar conscientes do que somos e exercitar a vontade para harmonizar o dentro e o fora. Desse modo, a consist\u00eancia deixa de ser algo dado, para ser objeto de conquista. Ser\u00e1 preciso escolher ser consistente \u2014 escolher ser uma pessoa integrada.<\/p>\n<p>Haver\u00e1 um modo mais rigoroso de descrever essa diferen\u00e7a? Em filosofia usamos bastante a distin\u00e7\u00e3o entre \u201csujeito\u201d e \u201cobjeto\u201d. O sujeito \u00e9 aquele ao qual as coisas se referem; \u00e9 aquele que pensa e toma o mundo como o seu objeto. Os objetos s\u00e3o relativos ao sujeito, aquilo que \u00e9 pensado, vivido, descrito, e que \u00e9 possu\u00eddo pelo sujeito em seu pensamento, o que se apresenta ao sujeito, e que ele pode conquistar e dominar por palavras e a\u00e7\u00f5es. Isso inclui coisas, ideias, eventos, plantas, animais\u2026 e at\u00e9 seres humanos. Os corpos das pessoas aparecem diante de n\u00f3s como realidades \u201cobjetivas\u201d; podemos at\u00e9 trata-los como objetos (numa cirurgia; ao calcular o peso em um elevador; ao contar o n\u00famero de passageiros em um ve\u00edculo).<\/p>\n<p>Na verdade pessoas s\u00e3o sujeitos, e isso tem implica\u00e7\u00f5es \u00e9ticas: posso dizer que uma outra pessoa \u00e9 o \u201cobjeto\u201d da minha aten\u00e7\u00e3o, mas sei que ela n\u00e3o est\u00e1 aprisionada no mundo dos objetos, porque ela \u00e9 tamb\u00e9m uma pessoa, com autoconsci\u00eancia e interioridade. Em outras palavras: as pessoas est\u00e3o no universo do \u201ctu\u201d, e n\u00e3o do \u201cisso\u201d. Usamos o \u201cisso\u201d para falar do mundo dos objetos, e o \u201ctu\u201d para o mundo dos sujeitos. E a forma de conhecer cada universo \u00e9 diferente; o \u201cisso\u201d \u00e9 conhecido pelo uso; mas o \u201ctu\u201d \u00e9 conhecido pela comunh\u00e3o.<\/p>\n<p>Como isso se aplica ao caso do corpo? Curiosamente o corpo \u00e9 experimentado de forma dupla. Quando recebemos um abra\u00e7o ou um aperto de m\u00e3o, sentimos que isso se dirigia a n\u00f3s, ao self. Mas ao mesmo tempo, distinguimos o nosso self do nosso corpo \u2013 trata-se da \u201cdist\u00e2ncia\u201d \u00e0 qual nos referimos h\u00e1 pouco. Creio que isso acontece porque, muito embora tenhamos um tipo de conhecimento \u201cdireto\u201d (ou imediato) de nosso eu, atrav\u00e9s da autorreflex\u00e3o, temos um conhecimento \u201cindireto\u201d (ou mediato) de n\u00f3s mesmos por meio do corpo. Isso significa que <b>o seu eu aparece como um objeto diante de voc\u00ea mesmo por meio do corpo<\/b>. Ou, colocando em outros termos, o seu corpo \u00e9 uma oportunidade de se relacionar com voc\u00ea mesmo <i>como se voc\u00ea fosse um objeto<\/i>. Por isso, a sua rela\u00e7\u00e3o com o seu corpo n\u00e3o pode ser separada de sua rela\u00e7\u00e3o com voc\u00ea mesmo.<\/p>\n<p>Assim, a diferen\u00e7a entre o \u201cdentro\u201d e o \u201cfora\u201d \u00e9 a possibilidade de dar uma express\u00e3o concreta \u00e0 rela\u00e7\u00e3o que temos conosco. De um modo misterioso a rela\u00e7\u00e3o que temos com a nossa alma se expressa na rela\u00e7\u00e3o que temos com o nosso corpo \u2013 seja ela desprezo, o amor, desespero ou seguran\u00e7a, perfeccionismo ou aceita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Dentro sem fora e fora sem dentro?<\/strong><\/p>\n<p>E aqui, como sempre, temos que falar do pecado. Por causa da queda do homem e de seu afastamento de Deus criou-se, mais do que um descompasso, uma ruptura entre o dentro e o fora. A ponto de \u201co p\u00f3 voltar para a terra, e o esp\u00edrito voltar para Deus, que o deu\u201d. Cada homem, por causa do pecado, vive morrendo; vive o processo de ser lentamente rasgado, at\u00e9 que a corrente \u201cel\u00e9trica\u201d cesse dentro de si. E a caracter\u00edstica dessa ruptura final \u00e9 a perda do corpo, a sua superf\u00edcie. Isso \u00e9 o que significa a morte: n\u00e3o h\u00e1 mais imagem; n\u00e3o h\u00e1 mais uma face com m\u00fasculos para mostrar o sorriso da alma.<\/p>\n<p>Claramente, se nos damos conta dessa dist\u00e2ncia, compreenderemos que a morte \u00e9 o que se mostra no alargamento dessa dist\u00e2ncia. \u00c9 mortal tudo aquilo que me impede de ser consistente, de manter a conex\u00e3o entre o interno e o externo. Todo conceito, decis\u00e3o ou processo que produz a inconsist\u00eancia \u00e9 mortal; tudo o que promove a independ\u00eancia da alma em rela\u00e7\u00e3o ao corpo, ou do corpo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 alma, \u00e9 mortal.<\/p>\n<p>Mortal \u00e9 a filosofia de Descartes. Pois ele estabeleceu a raz\u00e3o como crit\u00e9rio absoluto da verdade, e por isso duvidou de tudo o que n\u00e3o pudesse demonstrar racionalmente. Por isso duvidou at\u00e9 da exist\u00eancia do seu corpo, a \u201cres extensa\u201d, e identificou o seu ego com o pensamento, a \u201cres cogitans\u201d: \u201cPenso, logo existo\u201d. Da\u00ed pra frente, demonstrar como a alma racional se relaciona com o corpo virou um problem\u00e3o. O pensamento ocidental permaneceu oscilando entre dois extremos: diminuir o corpo material (idealismo), ou negar a exist\u00eancia da alma (empirismo Humeano), dissolvendo-a no corpo.<\/p>\n<p>A \u00faltima op\u00e7\u00e3o anda bem popular hoje em dia. Mortal \u00e9 o pensamento de Daniel Dennett, que considera a liberdade uma ilus\u00e3o criada pelo c\u00e9rebro, o qual n\u00e3o passaria de uma m\u00e1quina bioqu\u00edmica. Mortal \u00e9 o pensamento do grande Claude Levi-Strauss, que aguardava ansiosamente pela aniquila\u00e7\u00e3o definitiva das ideias de \u201ceu\u201d, \u201cself\u201d ou \u201calma\u201d, a partir de uma esp\u00e9cie de materialismo racionalista (segundo o professor Ivan Domingues). Deve ter sido uma decep\u00e7\u00e3o para ele descobrir-se tendo um eu sem corpo \u2014 o que \u00e9 a sua condi\u00e7\u00e3o atual desde o fim de outubro de 2011.<\/p>\n<p>Assim, dentro da filosofia, se tra\u00e7a um suic\u00eddio do humano, negando-se a distin\u00e7\u00e3o entre o dentro e o fora, ou esticando-se a conex\u00e3o at\u00e9 a ruptura \u2014 tudo sempre em nome de uma supera\u00e7\u00e3o do dualismo. Mas n\u00e3o se pode confundir dualidade com dualismo. Mortal \u00e9 a destrui\u00e7\u00e3o da dualidade.<\/p>\n<p><strong>Da filosofia para o sexo<\/strong><\/p>\n<p>Antes que o leitor desista de esperar, vou dizer logo o que isso tudo tem que ver com sexo, e com impureza sexual. Alguns leitores mais atentos provavelmente j\u00e1 pegaram a pista. \u00c9 que h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o interna entre a nossa \u00e9tica sexual contempor\u00e2nea e a ruptura da dualidade fora\/dentro, consci\u00eancia\/corpo.<\/p>\n<p>O que os modernos pensam a respeito do homem \u00e9 que ele deve ser livre. \u00c9 preciso promover a liberdade humana nas artes, no pensamento, na pol\u00edtica, e na sexualidade. E a liberdade significa a indetermina\u00e7\u00e3o, ou o arb\u00edtrio. Fala-se \u00e0s vezes, devo conceder, em \u201cautonomia\u201d no sentido de que o homem deve \u201cdar a si mesmo a lei universal\u201d; mas essa ideia de autonomia, inventada por Kant, perdeu a legitimidade com a crise de fundamenta\u00e7\u00e3o da modernidade, e prevalece cada vez mais a vers\u00e3o Nietzschiana de autonomia, segundo a qual a vontade de poder e a decis\u00e3o individual criam \u201cex nihilo\u201d a lei que o homem \u201ccapaz de prometer\u201d dar\u00e1 a si mesmo. A \u201cliberdade\u201d no mundo p\u00f3s-moderno \u00e9 a liberdade Nietzschiana.<\/p>\n<p>Converteu-se, portanto, a liberdade, em liberdade para comprar e consumir produtos, liberdade para n\u00e3o ter posicionamentos pol\u00edticos definidos, liberdade de criar a pr\u00f3pria religi\u00e3o, ou de pertencer a todas e a nenhuma, de n\u00e3o ser de ningu\u00e9m, para ser de todo mundo e todo mundo ser meu tamb\u00e9m. Campe\u00e3s nisso s\u00e3o as empresas de telefonia, garantindo que, se comprarmos seus produtos, teremos muito mais liberdade e viveremos num mundo \u201csem fronteiras\u201d.<\/p>\n<p>Com a necessidade de abrir espa\u00e7os para o exerc\u00edcio da liberdade arbitr\u00e1ria, o corpo humano tornou-se a <b>v\u00edtima imediata<\/b>. Pois o corpo \u00e9 o \u201cobjeto\u201d que est\u00e1 mais pr\u00f3ximo do eu. <i>O corpo \u00e9 o eu, mas o eu aparecendo de forma objetiva para mim, o eu revestido de objetividade e por isso vulner\u00e1vel<\/i>. E a forma sexual do corpo \u00e9 constitutiva dessa express\u00e3o objetiva do meu eu. Desde a inf\u00e2ncia aprendo, observando e sentido o meu corpo, que meu eu tem uma forma sexual.<\/p>\n<p>Instrumentalizar o corpo sexual para aumentar a liberdade de escolha interessa ao eu, quando este anseia por livrar-se de limita\u00e7\u00f5es r\u00edgidas, e interessa ao sistema, que precisa ampliar seus mercados. \u00c9 claro que uma \u00e9tica sexual que limite a explora\u00e7\u00e3o do prazer por meio do corpo constituir\u00e1 um s\u00e9rio obst\u00e1culo ao crescimento da liberdade humana, desse ponto de vista libert\u00e1rio. A \u00e9tica sexual crist\u00e3 faz-se assim um problema pol\u00edtico.<\/p>\n<p>E foi assim que teve in\u00edcio a <b>grilagem sexual e o loteamento comercial do corpo<\/b>, da filosofia moderna com seu incontrol\u00e1vel impulso libert\u00e1rio-prometeico, para a dissolu\u00e7\u00e3o de todos os valores, h\u00e1bitos e estruturas sociais que impliquem o cerceamento da liberdade do prazer na sociedade contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p>Da\u00ed o corpo vai virando esse campo de experimenta\u00e7\u00e3o da liberdade: ele deve ser pintado, tatuado, cirurgicamente modificado; perfurado, dobrado, bombado, e cyborgificado; sua cor pode ser modificada, e todos os seus buracos deveriam ser experimentados, mas sempre ao gosto do cliente; pode-se at\u00e9 cuidar bem dele, mas como se cuida muito bem de um autom\u00f3vel sem considera-lo parte da fam\u00edlia; se minha alma tem um sexo diferente, ent\u00e3o o corpo ser\u00e1 trocado; se ainda n\u00e3o pode ser trocado, ser\u00e1 mutilado; se est\u00e1 gr\u00e1vido de um feto indesejado, ser\u00e1 libertado; pois h\u00e1 que se preservar o absoluto e arbitr\u00e1rio dom\u00ednio do indiv\u00edduo sobre o seu pr\u00f3prio corpo. Como se o indiv\u00edduo n\u00e3o estivesse escondido no corpo de seu \u201cusu\u00e1rio\u201d.<\/p>\n<p><strong>Civilizar a desonra<\/strong><\/p>\n<p>Ora, muitos dir\u00e3o que isso \u00e9 uma apropria\u00e7\u00e3o mais madura do corpo; que as pessoas hoje em dia t\u00eam mais liberdade para se expressar com o corpo e possu\u00ed-lo. Eu digo que n\u00e3o. S\u00f3 um esp\u00edrito vencido aceitaria explica\u00e7\u00e3o t\u00e3o sonsa.<\/p>\n<p>Pois \u00e9 claro como o dia que todos esses usos do corpo sexual s\u00e3o <i>instrumentais<\/i>. S\u00e3o id\u00eanticos, no conjunto, aos usos que fazemos da natureza, derrubando florestas naturais e plantando capim ou reflorestando com eucaliptos; ou queimando combust\u00edveis f\u00f3sseis em excesso, destruindo nascentes e emporcalhando os litorais. Fa\u00e7amos um exerc\u00edcio de autocr\u00edtica: a sociedade autoconsciente pode ser comparada a uma \u201calma\u201d, incorporada em um \u201ccorpo\u201d biof\u00edsico, que \u00e9 a biosfera. Ora, n\u00e3o \u00e9 verdade que, para aumentar a liberdade humana (de consumir produtos, basicamente), estamos estuprando o meio ambiente? N\u00e3o h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o interna entre o impulso libert\u00e1rio da cultura moderna e a viol\u00eancia?<\/p>\n<p>Pois ent\u00e3o compreendamos, e vou dizer sem meias palavras, o que est\u00e1 por tr\u00e1s da presente cultura da \u201cpega\u00e7\u00e3o\u201d, da libera\u00e7\u00e3o sexual, da criminaliza\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica ao comportamento homossexual, do aborto, do poliamorismo, e de coisas ainda mais estranhas: nada menos que o estupro do corpo, perpetrado pelo pr\u00f3prio \u201cself\u201d. A nega\u00e7\u00e3o da subjetividade do corpo sexual, e sua redu\u00e7\u00e3o ao objeto. <b>A viol\u00eancia do eu externo pelo eu interno.<\/b><\/p>\n<p>O estupro \u00e9 a viol\u00eancia de fonte biol\u00f3gica; a viol\u00eancia para assegurar o prazer, o sentido de dom\u00ednio, e a propaga\u00e7\u00e3o da carga gen\u00e9tica. No mundo humano, o estupro literal \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o sexual de uma puls\u00e3o de viol\u00eancia que se manifesta em outros n\u00edveis, como no do Estado totalit\u00e1rio, da intoler\u00e2ncia religiosa, da guerra (se voc\u00ea duvida, preste aten\u00e7\u00e3o nesses grafites de banheiros universit\u00e1rios: porque a viol\u00eancia e o insulto aparecem associados ao sexo?). \u00c9 claro que a sociedade moderna precisaria canalizar essas for\u00e7as de algum modo \u2014 e isso \u00e9 o que est\u00e1 por tr\u00e1s do discurso sobre \u201caumento da liberdade\u201d dos modernos. O fato \u00e9 que a forma mais eficiente de manipula\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica do desejo humano encontrada pelos modernos foi a cultura do consumo, da qual a libera\u00e7\u00e3o sexual \u00e9 uma parte essencial.<\/p>\n<p>N\u00e3o seria aceit\u00e1vel, no entanto, que as pessoas se estuprassem mutuamente com uso direto de viol\u00eancia. Seria preciso, para canalizar os impulsos de prazer e viol\u00eancia dos indiv\u00edduos, facilitar o acesso ao corpo (a natureza a ser explorada e consumida) e modificar a vontade moral dos indiv\u00edduos. Enfim: n\u00e3o dissolver o desejo do estupro como domina\u00e7\u00e3o instrumental (de usar sexualmente o outro), mas dissolver a resist\u00eancia do indiv\u00edduo \u00e0 instrumentaliza\u00e7\u00e3o do seu corpo. Em outras palavras, seria necess\u00e1rio civilizar essa instrumentaliza\u00e7\u00e3o do corpo, civilizar o estupro. Mas como \u00e9 que isso se pode implementar?<\/p>\n<p><b>\u00c9 aqui que chegamos ao verdadeiro cora\u00e7\u00e3o do problema.<\/b> Ora, se estupro o meu corpo sexual, n\u00e3o posso ter uma rela\u00e7\u00e3o demasiado \u00edntima com ele. N\u00e3o posso trat\u00e1-lo como o meu eu, ou como parte do meu eu, se vou explor\u00e1-lo indiscriminadamente. A solu\u00e7\u00e3o \u00e9 tratar o pr\u00f3prio corpo como express\u00e3o apenas contingente do eu, desonrando-o. <i>O corpo se torna objeto puro para uma vontade narcisista e arbitr\u00e1ria<\/i>. Assim o indiv\u00edduo poder\u00e1 dar livremente o seu corpo, sem entregar a sua alma juntamente com ele. Homens e mulheres podem oferecer seus corpos, instrumentaliz\u00e1-los, e utiliz\u00e1-los como quiserem; n\u00e3o h\u00e1 mais pervers\u00e3o sexual, pois n\u00e3o se pode julgar o car\u00e1ter de algu\u00e9m pela forma como ele faz sexo; pois o car\u00e1ter do indiv\u00edduo \u2014 acredita-se \u2014 nada tem que ver com o seu uso do corpo<b>. Enfim: o corpo n\u00e3o sou eu; o corpo \u00e9 \u201cmeu\u201d.<\/b> A desonra \u00e9, assim, a morte espiritual; \u00e9 a entrega do corpo ao fogo.<\/p>\n<p>N\u00e3o que o corpo seja \u201cliteralmente\u201d destru\u00eddo pelo fogo. O cuidado com o corpo pode at\u00e9 mesmo aumentar, como acontece de fato. Mas isso n\u00e3o \u00e9 feito por amor ao corpo, e sim para otimiz\u00e1-lo com fins ainda narcisistas (como quando o tratamento \u00e9tico dos funcion\u00e1rios \u00e9 justificado em termos econ\u00f4micos para a empresa). Da\u00ed que at\u00e9 mesmo a sa\u00fade corporal \u00e9 instrumentalizada pela moldagem do corpo com vistas ao aumento do poder sexual, e o aumento do poder sexual se d\u00e1 para satisfazer aos anseios da alma, muito mais do que \u00e0s necessidades do corpo. <i>Pois de fato as Escrituras n\u00e3o ligam a concupisc\u00eancia ao corpo, mas ao cora\u00e7\u00e3o!<\/i><\/p>\n<p>Note-se a rela\u00e7\u00e3o e distin\u00e7\u00e3o entre o estupro e a desonra: esta \u00faltima tem a ver com o s\u00edmbolo. Desonra-se uma na\u00e7\u00e3o pisando-se a sua bandeira, que \u00e9 o seu s\u00edmbolo. <b>Desonra-se igualmente a pessoa (o interno) banalizando o seu s\u00edmbolo vis\u00edvel (o externo).<\/b><\/p>\n<p>Assim como, para abusar da natureza, o homem moderno precisou construir uma imagem da cultura como algo \u201cfora\u201d da natureza, como se ele estivesse muito al\u00e9m dela, o libertinismo sexual se torna psicologicamente vi\u00e1vel pelo desligamento moral entre eu e corpo. Esse desligamento \u00e9 evidente no discurso de que o uso sexual dado ao corpo n\u00e3o \u00e9 importante, desde que traga prazer e aumente a liberdade do indiv\u00edduo. Tenta-se uma evacua\u00e7\u00e3o do corpo de qualquer significado moral ou espiritual.<\/p>\n<p>Ocorre, no entanto, que tal separa\u00e7\u00e3o ou evacua\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser feita. H\u00e1 um atraso entre interno e externo, mas n\u00e3o uma separa\u00e7\u00e3o absoluta. <i>A corporeidade \u00e9 um teste moral: o corpo parece ser s\u00f3 mais um objeto para o sujeito, mas na verdade \u00e9 ele mesmo quem se oculta no corpo.<\/i> Por isso, em \u00faltima inst\u00e2ncia, aquilo que o homem faz com o seu corpo, faz a si mesmo. O corpo \u00e9 o s\u00edmbolo vis\u00edvel do cora\u00e7\u00e3o. Portanto, a separa\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica feita pelo homem ao usar seu corpo como instrumento externo de prazer \u00e9 uma separa\u00e7\u00e3o ilus\u00f3ria, completamente falsa. O atraso entre o interno e o externo torna poss\u00edvel que o interno estupre a si mesmo, como se n\u00e3o fosse a si mesmo, mas a um outro. Mas o outro (o corpo) ainda \u00e9 o si mesmo. Ao estuprar o seu corpo, o homem estupra a si mesmo. Ao desonrar o seu corpo, o homem n\u00e3o pode amar a si mesmo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, na medida em que estupra a si mesmo o indiv\u00edduo n\u00e3o tem mais porque resistir ao estupro do outro; se um corpo humano \u00e9 instrumentalizado, todos o s\u00e3o igualmente por um princ\u00edpio de reciprocidade (exatamente da mesma forma como o amor a mim mesmo e o amor ao pr\u00f3ximo est\u00e3o unidos). A afirma\u00e7\u00e3o da liberdade humana passa a equivaler assim \u00e0 instrumentaliza\u00e7\u00e3o generalizada do corpo, com o desenvolvimento de uma nova \u00e9tica sexual p\u00fablica (sim, exatamente como o faz atualmente o Estado brasileiro), que pretende <b>plausibilizar a distin\u00e7\u00e3o entre pessoa e seu corpo sexual<\/b> policiando questionamentos p\u00fablicos dessa distin\u00e7\u00e3o (do que a PLC 122\/06 \u00e9 apenas um exemplo). A \u00e9tica sexual secular \u00e9 a \u00e9tica da desonra.<\/p>\n<p><b>Impureza sexual<\/b><strong> e desonra na B\u00edblia<\/strong><\/p>\n<p>Ora, o que descrevemos acima \u00e9 o que Paulo diz em <b>Romanos 1.24-27<\/b>: que os homens rejeitaram o conhecimento de Deus e foram por isso entregues \u00e0s concupisc\u00eancias do seu cora\u00e7\u00e3o, <i>\u201cpara desonrarem os seus corpos entre si\u201d<\/i>, mudando o modo de suas rela\u00e7\u00f5es \u00edntimas, praticando coisas contra a natureza etc. N\u00e3o \u00e9 por acaso que o ap\u00f3stolo associa a concupisc\u00eancia \u00e0 desonra do pr\u00f3prio corpo e do corpo do outro. \u00c9 que a concupisc\u00eancia leva ao desamor; cessa o amor por mim mesmo e pelo meu pr\u00f3ximo, e o fim do amor aparece em nossa rela\u00e7\u00e3o com o s\u00edmbolo da alma, que \u00e9 o corpo. A impureza sexual traz dentro de si o desprezo do indiv\u00edduo por si mesmo e pelo seu pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>\u00c9 Paulo quem diz de novo: <i>\u201cFugi da impureza. Qualquer outro pecado que uma pessoa cometer \u00e9 fora do corpo; mas aquele que pratica a imoralidade peca contra o pr\u00f3prio corpo\u201d<\/i> (<b>1Co 6.18<\/b>).<\/p>\n<p>Gra\u00e7as a Deus por um verso t\u00e3o claro: a impureza sexual \u00e9 o pecado do homem contra si mesmo; \u00e9 a contradi\u00e7\u00e3o, a desonra do pr\u00f3prio corpo sexual, que deixa de ser tratado como o santu\u00e1rio de Deus, destinado \u00e0 ressurrei\u00e7\u00e3o dos mortos. Pois a impureza trata o corpo como um instrumento descart\u00e1vel, como alguns crentes helenistas faziam: <i>\u201cOs alimentos s\u00e3o para o est\u00f4mago, e o est\u00f4mago para os alimentos; mas Deus destruir\u00e1 tanto estes como aquele\u201d. Em outras palavras, \u201ccomamos e bebamos, porque amanh\u00e3 morreremos\u201d.<\/i> N\u00e3o h\u00e1 futuro para o corpo; ele \u00e9 s\u00f3 uma ferramenta tempor\u00e1ria. Por isso alguns dos Cor\u00edntios at\u00e9 perderam a f\u00e9 na ressurrei\u00e7\u00e3o (1Co 15). Por tr\u00e1s da desonra do corpo est\u00e1 o desespero.<\/p>\n<p>Paulo prossegue, afirmando que aquele que se une \u00e0 prostituta \u00e9 uma s\u00f3 carne com ela, e o que se une ao Senhor \u00e9 um esp\u00edrito com ele; e que n\u00e3o podemos tornar os membros de Cristo membros de uma meretriz. Ora, tudo isso implica que o corpo n\u00e3o pode ser concebido \u00e0 parte do eu. O seu destino \u00e9 o mesmo do eu; as suas rela\u00e7\u00f5es s\u00e3o as mesmas do eu. <i>Se dou meu corpo \u00e0 meretriz, dei-lhe tamb\u00e9m minha alma; se dou a Cristo a minha alma, dei-lhe tamb\u00e9m o meu corpo.<\/i> Para Paulo, o hebreu, era inconceb\u00edvel imaginar que o corpo pudesse ser empregado de qualquer jeito, impunemente, segundo o del\u00edrio dos gn\u00f3sticos. Amar a Deus, amar ao pr\u00f3ximo, amar a si \u2014 tudo isso implica honrar o corpo: <i>\u201cQue cada um de v\u00f3s saiba possuir o pr\u00f3prio corpo em santifica\u00e7\u00e3o e honra, n\u00e3o com o desejo de lasc\u00edvia, como os gentios que n\u00e3o conhecem a Deus; e que, nesta mat\u00e9ria, ningu\u00e9m ofenda nem defraude a seu irm\u00e3o; porque o Senhor, contra todas estas coisas, como antes vos avisamos e testificamos claramente, \u00e9 o vingador\u201d<\/i> (1Ts 4.4-6).<\/p>\n<p>O ensino n\u00e3o permanece consistente? O corpo deve ser honrado; ceder \u00e0 lasc\u00edvia \u00e9 desonra; usar o corpo do outro \u00e9 desonr\u00e1-lo, defraud\u00e1-lo reduzindo seu valor. Desonrar o corpo sexual \u00e9 matar e morrer; \u00e9 tentar separar o interno e o externo, mas destruir ambos.<\/p>\n<p><strong>Da desonra \u00e0 consist\u00eancia atrav\u00e9s da esperan\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p>O que me impressiona \u00e9 que o rem\u00e9dio de Paulo para a impureza-desonra do corpo seja escatol\u00f3gico. Ele poderia ter prescrito ch\u00e1s, banhos frios, ou quem sabe uma boa terapia, mas em vez disso lan\u00e7a sobre os pobres fornicadores de Corinto um petardo teol\u00f3gico: <i>\u201cO corpo n\u00e3o \u00e9 para a impureza, mas para o Senhor, e o Senhor para o corpo. Deus ressuscitou o Senhor e tamb\u00e9m nos ressuscitar\u00e1 a n\u00f3s pelo seu poder\u201d<\/i> (1Co 6.14).<\/p>\n<p>De que modo a ressurrei\u00e7\u00e3o \u00e9 uma resposta? Em primeiro lugar, ela \u00e9 o inverso da desonra do corpo; \u00e9 a honraria absoluta. Ela significa que o corpo tem um valor singular e eterno \u2014 pois se destina ao pr\u00f3prio Senhor. A doutrina da ressurrei\u00e7\u00e3o nos diz que o pr\u00eamio m\u00e1ximo para o eu \u00e9 a vitalidade eterna do seu corpo; que a vida espiritual que habita no homem interior finalmente brilhar\u00e1 \u2014 embora, como dissemos, com algum atraso \u2014 atrav\u00e9s do homem exterior. Portanto, vale a pena amar o corpo e honr\u00e1-lo.<\/p>\n<div>\n<p>Ora, isso \u00e9 o que chamamos antes de consist\u00eancia ou integridade. No n\u00facleo da \u00e9tica sexual crist\u00e3 deve estar a seguinte doutrina: que o corpo n\u00e3o deve ser o que a alma n\u00e3o pode ser. O corpo e a alma devem estar juntos, e o corpo deve se tornar transparente ao esp\u00edrito. Ou seja, n\u00e3o posso ser no corpo o que n\u00e3o puder ser no cora\u00e7\u00e3o. Meu corpo deve se tornar transl\u00facido em minhas rela\u00e7\u00f5es com o meu pr\u00f3ximo. Minha face n\u00e3o pode ser uma m\u00e1scara a ocultar minhas inten\u00e7\u00f5es, mas uma janela para meu homem interior; meu corpo deve ser amado e honrado \u2014 seja ele alto ou baixo, novo ou velho, bonito ou feio, gordo ou magro \u2014 porque o seu valor \u00e9 o valor da minha alma. Ele \u00e9 o s\u00edmbolo, a parte vis\u00edvel daquilo que tem valor incondicional. Devo unir-me ao meu corpo, de modo que o meu cora\u00e7\u00e3o fique \u00e0 flor da pele.<\/p>\n<\/div>\n<p>Por isso, n\u00e3o posso me relacionar sexualmente com algu\u00e9m se n\u00e3o puder entregar a minha alma na mesma propor\u00e7\u00e3o. Se amo a Deus, amo a mim mesmo. Se amo a mim mesmo, compreendo minha sexualidade como parte da minha identidade moral, e n\u00e3o como minha identidade animal. E assim amo ao meu corpo sexual, que \u00e9 a superf\u00edcie vis\u00edvel do que eu amo. E se compreendo a natureza do corpo, compreendo que o amor ao pr\u00f3ximo \u00e9 mediado pela sacralidade do seu corpo, e que o seu amor por mim \u00e9 mediado pela sacralidade do meu pr\u00f3prio corpo. Quem quer instrumentalizar o corpo sexual do outro n\u00e3o o ama, nem se ama; quem aceita ser desonrado pelo outro tamb\u00e9m n\u00e3o se ama.<\/p>\n<p><b>E a esperan\u00e7a?<\/b> \u00c9 aquilo que abre meus olhos para o valor do meu corpo, e para o desejo de ser consistente.<\/p>\n<p>Se algu\u00e9m n\u00e3o consegue reconhecer sua pr\u00f3pria dignidade, nem pode ver valor em ser consistente, \u00e9 porque lhe falta a esperan\u00e7a. Ele s\u00f3 v\u00ea a morte diante de si. Todo homem que defende a libertinagem sexual s\u00f3 v\u00ea a morte diante de si, pois \u00e9 o desespero o que arranca do homem a integridade e o faz entregar o corpo sexual ao prazer impuro.<\/p>\n<p>Por isso Paulo deu aquela resposta escatol\u00f3gica: \u201cLembre-se da ressurrei\u00e7\u00e3o\u201d! Ela \u00e9 a certeza de que o seu corpo tem valor e deve ser amado, e que o seu corpo e a sua alma n\u00e3o devem ser separados, pois foram feitos um para o outro \u2014 ou melhor, eles foram feitos para ser um s\u00f3. E que outra coisa poderia ser a \u201cpureza sexual\u201d? N\u00e3o \u00e9 essa a pureza das crian\u00e7as?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2013\/06\/arte2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter  wp-image-750\" alt=\"arte2\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2013\/06\/arte2.jpg\" width=\"614\" height=\"266\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2013\/06\/arte2.jpg 1024w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2013\/06\/arte2-300x130.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2013\/06\/arte2-150x65.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 614px) 100vw, 614px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>SAIBA MAIS SOBRE A CONFER\u00caNCIA LABRI 2013 NO SITE: <a href=\"http:\/\/labri.org.br\/conferencialabribrasil\/\" target=\"_blank\">http:\/\/labri.org.br\/conferencialabribrasil\/<\/a><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O meu corpo sou eu, ou n\u00e3o sou eu, afinal de contas? Os esp\u00edritas e alguns irm\u00e3os neopentecostais dizem que somos esp\u00edritos que habitam em corpos \u2014 mas isso n\u00e3o pode ser verdade. Afinal, Deus disse a Ad\u00e3o: \u201cTu \u00e9s p\u00f3\u201d. Ent\u00e3o o corpo tamb\u00e9m sou eu. 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