{"id":686,"date":"2013-03-20T00:12:11","date_gmt":"2013-03-20T03:12:11","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/?p=686"},"modified":"2013-03-31T11:18:39","modified_gmt":"2013-03-31T14:18:39","slug":"a-regra-da-fe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/2013\/03\/20\/a-regra-da-fe\/","title":{"rendered":"A Regra da F\u00e9"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em um mundo no qual o mote &#8220;viver sem regras&#8221; vende filmes, livros de auto ajuda e produtos de alta tecnologia, a ideia de uma &#8220;regra de f\u00e9&#8221; n\u00e3o soa muito bem. At\u00e9 mesmo em contextos religiosos o discurso sobre uma espiritualidade &#8220;sem regras&#8221; d\u00e1 uma sensa\u00e7\u00e3o de liberdade, de frescor, de algo org\u00e2nico e vital.<\/p>\n<p>Mas a vida tem regras; est\u00e1 cheia delas. De leis matem\u00e1ticas \u00e0 legisla\u00e7\u00e3o de tr\u00e2nsito, da biologia humana, que insiste em seguir as mesmas leis sem nenhum interesse especial pelos anseios libert\u00e1rios da cultura hipermoderna \u00e0 linguagem de programa\u00e7\u00e3o oculta por tr\u00e1s de uma tela retina de alta tecnologia na qual at\u00e9 uma crian\u00e7a escreve com o dedo. Alguns desses processos s\u00e3o bem mec\u00e2nicos e intencionais; outros s\u00e3o org\u00e2nicos e autom\u00e1ticos; mas as regras est\u00e3o l\u00e1, e n\u00e3o podem ser ignoradas sem que os processos que dela dependem sejam destru\u00eddos. E no campo da f\u00e9 n\u00e3o \u00e9 diferente. <!--more--><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Uma Regra para a F\u00e9<\/strong><\/p>\n<p>O ato de crer envolve regras; ele sempre nos coloca, por exemplo, em uma rela\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia emocional em rela\u00e7\u00e3o \u00e0quilo no que cremos, de modo que quando as expectativas de confian\u00e7a s\u00e3o frustradas, a sensa\u00e7\u00e3o de desamparo \u00e9 profunda. Sempre envolve tamb\u00e9m um conte\u00fado no\u00e9tico, que pode ser traduzido em proposi\u00e7\u00f5es e analisado racionalmente. Outro elemento indispens\u00e1vel da f\u00e9 \u00e9 a submiss\u00e3o: aquele que acredita na ci\u00eancia, sem preju\u00edzo do questionamento racional e do ju\u00edzo investigativo, deposita confian\u00e7a em revistas acad\u00eamicas <i>peer-reviewed<\/i>, nos modelos e tradi\u00e7\u00f5es dominantes em um campo de pesquisa, na autoridade dos grandes nomes do campo e, \u00e9 claro, submete-se ao consenso de uma comunidade cient\u00edfica.<\/p>\n<p>As Escrituras Crist\u00e3s s\u00e3o a &#8220;regra de f\u00e9 e pr\u00e1tica&#8221; para os Crist\u00e3os protestantes porque literalmente regulam o modo como a nossa confian\u00e7a em Deus deve se expressar. Os crist\u00e3os entendem que a revela\u00e7\u00e3o de Deus deve governar o nosso modo de se aproximar dele por uma raz\u00e3o \u00f3bvia: nossa confian\u00e7a em qualquer pessoa (e isso inclui a pessoa de Deus) se fundamenta naquilo que conhecemos sobre essa pessoa, e na palavra que ela nos d\u00e1. A confian\u00e7a \u00e9 uma resposta que ocorre dentro de um ato de comunica\u00e7\u00e3o pessoal, no qual o que ouvimos do outro passa a representar de forma suficiente tudo aquilo que n\u00e3o sabemos mas n\u00e3o temos como verificar. A face e a voz do outro se tornam para n\u00f3s a evid\u00eancia suficiente do que precisamos saber.<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;As Escrituras Crist\u00e3s s\u00e3o a &#8220;regra de f\u00e9 e pr\u00e1tica&#8221; para os Crist\u00e3os protestantes porque literalmente regulam o modo como a nossa confian\u00e7a em Deus deve se expressar&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Jesus e a B\u00edblia<\/strong><\/p>\n<p>A pr\u00e1tica de considerar as Escrituras do Antigo e do Novo Testamento como a pr\u00f3pria &#8220;Palavra de Deus&#8221; \u00e9 muito antiga e nos foi dada junto com a f\u00e9 Crist\u00e3. H\u00e1 uma abund\u00e2ncia de exemplos de autores b\u00edblicos tratando textos can\u00f4nicos como a palavra de Deus, sendo que os mais importantes nos foram dados pelo pr\u00f3prio Senhor Jesus Cristo. Para citar um exemplo: em Mt 19.5 Jesus cita Gn 2.24 como se fossem as palavras que o pr\u00f3prio Criador disse, muito embora, em G\u00eanesis, elas pudessem ser interpretadas como palavras do redator humano. Na verdade Jesus estava reproduzindo uma cren\u00e7a corrente no juda\u00edsmo da \u00e9poca de que os textos canonizados (reconhecidos como Escritura inspirada por Deus) deveriam ser considerados a pr\u00f3pria Palavra de Deus em linguagem humana.<\/p>\n<p>Jesus nada fez para &#8220;corrigir&#8221; essa no\u00e7\u00e3o &#8211; como fez sem titubear com muitas outras ideias religiosas da \u00e9poca. Pelo contr\u00e1rio, ele a empregou amplamente e a ensinou aos seus disc\u00edpulos, tornando invi\u00e1vel a sugest\u00e3o de que ele havia meramente se &#8220;acomodado&#8221; \u00e0s concep\u00e7\u00f5es da \u00e9poca. Ele afirmava que a Escritura &#8220;n\u00e3o pode falhar&#8221; (Jo\u00e3o 10.35) e, a despeito da sua pluralidade liter\u00e1ria e hist\u00f3rica, tratava o seu testemunho de forma org\u00e2nica. Depois da ressurrei\u00e7\u00e3o encontramos Jesus se encontrando com dois disc\u00edpulos no caminho de Ema\u00fas e ensinando que tudo o que lhe aconteceu havia sido predito &#8220;na Lei, nos Profetas e nos Salmos&#8221; (Lc 24.44,45).<\/p>\n<p>Para quem n\u00e3o sabe, essa express\u00e3o tripla era um modo de referir-se \u00e0 totalidade dos textos do antigo testamento: a &#8220;lei&#8221; era o pentateuco; os &#8220;profetas&#8221;, os textos hist\u00f3ricos que tratam dos per\u00edodos do minist\u00e9rio prof\u00e9tico em Israel e em Jud\u00e1, e a totalidade dos profetas &#8220;maiores&#8221; e &#8220;menores&#8221;; e os &#8220;Salmos&#8221; eram a senha para o terceiro bloco, tamb\u00e9m chamado de &#8220;escritos&#8221;, que inclu\u00eda os Salmos, textos de sabedoria, alguns documentos hist\u00f3ricos tardios e o profeta Daniel.<\/p>\n<p>Ou seja: Jesus toma esses blocos de textos sagrados que compunham o &#8220;c\u00e2non&#8221; (do grego <em>kanon<\/em>, &#8220;medida&#8221; e, eventualmente, &#8220;regra&#8221;) mais aceito na \u00e9poca, colecionado <em>sabe-se l\u00e1 como e por quem<\/em> (na verdade, temos uma boa ideia de como isso aconteceu!) e os trata <i>organicamente<\/i>, assumindo que eles apresentam um testemunho coerente a respeito dele mesmo, o Messias divino. E que esse tratamento n\u00e3o consistia de mera repeti\u00e7\u00e3o servil da tradi\u00e7\u00e3o religiosa, fica evidente pelo fato de que essa compreens\u00e3o org\u00e2nica do Antigo Testamento s\u00f3 foi alcan\u00e7ada pelos disc\u00edpulos <i>depois da ressurrei\u00e7\u00e3o<\/i>. O Cristo ressurreto \u00e9 quem abriu as Escrituras para os seus disc\u00edpulos.<\/p>\n<p>E os ap\u00f3stolos realmente herdaram essa forma de ler a B\u00edblia, n\u00e3o apenas assumindo que o c\u00e2non fora de algum modo produzido por Deus para dar testemunho de Jesus, e que suas palavras seriam as palavras de Deus, mas tamb\u00e9m que seu tema central seria o pr\u00f3prio Jesus Cristo. Leia-se os Evangelhos, o livro dos Atos dos ap\u00f3stolos, e suas cartas: essa atitude para com as Escrituras est\u00e1 l\u00e1, claramente vis\u00edvel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>E o Novo Testamento?<\/strong><\/p>\n<p>Depois de apontar esse fato &#8211; que o Antigo Testamento \u00e9 a palavra de Deus, para n\u00f3s, porque era a Palavra de Deus para Jesus Cristo &#8211; \u00e9 comum ouvirmos perguntas sobre o <i>Novo Testamento<\/i>. Como fica a sua autoridade, j\u00e1 que Jesus validou apenas a B\u00edblia de sua \u00e9poca?<\/p>\n<p>Para come\u00e7ar, precisamos ter em mente que o Antigo Testamento n\u00e3o se tornou Escritura Sagrada apenas depois de Jesus valid\u00e1-lo; a B\u00edblia j\u00e1 era B\u00edblia quando Jesus a empregou. N\u00e3o seria muito inteligente, portanto, ignorar o modo como Deus produziu a primeira parte do c\u00e2non, ao considerar o que pensamos sobre a segunda parte!<\/p>\n<p>Sabemos que Deus usou profetas e escribas para receber a revela\u00e7\u00e3o e coloc\u00e1-la na forma de livros. Al\u00e9m disso, usou a pr\u00f3pria comunidade de f\u00e9 para colecionar os livros sagrados, reconhec\u00ea-los, separando-os de textos esp\u00farios, e transmiti-los. Jesus n\u00e3o validou apenas os textos, mas esse processo longo, comunit\u00e1rio e assistem\u00e1tico. A implica\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica \u00e9 clara: foi o pr\u00f3prio Deus quem controlou providencialmente esse processo.<\/p>\n<blockquote><p>Deus usou a pr\u00f3pria comunidade de f\u00e9 para colecionar os livros sagrados, reconhec\u00ea-los, separando-os de textos esp\u00farios, e transmiti-los. Jesus n\u00e3o validou apenas os textos, mas esse processo longo, comunit\u00e1rio e assistem\u00e1tico.<\/p><\/blockquote>\n<p>Ocorre que <i>a forma\u00e7\u00e3o do Novo Testamento segue o mesmo padr\u00e3o<\/i>. O per\u00edodo do Novo Testamento caracteriza-se por ser um novo momento revelat\u00f3rio, com muitos profetas e ap\u00f3stolos em intensa atividade. Os textos que eles produziram foram providencialmente colecionados, transmitidos e reconhecidos pela Igreja entre o s\u00e9culo I e o s\u00e9culo III. Em termos formais o processo foi semelhante. Se algu\u00e9m acredita que Deus usou esse processo longo e assistem\u00e1tico para formar a primeira parte da B\u00edblia, n\u00e3o h\u00e1 porque recus\u00e1-lo no tocante \u00e0 segunda.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, n\u00e3o podemos nos esquecer do <i>car\u00e1ter apost\u00f3lico da Igreja primitiva<\/i>. Jesus escolheu ap\u00f3stolos e profetas porque ele realmente atuaria e falaria atrav\u00e9s deles, e eles atuariam e falariam em nome de Jesus, como se ele pr\u00f3prio estivesse presente. \u00c9 claro ent\u00e3o, que Jesus tamb\u00e9m validou o Novo Testamento; s\u00f3 que, dessa fez, ao inv\u00e9s de valid\u00e1-lo depois, validou-o antes de sua reda\u00e7\u00e3o, ao autorizar seus representantes e garantir-lhes a assist\u00eancia especial do Esp\u00edrito de Deus (Jo 16.13-15; Ef 3.1-6; 1Co 14.37). Ora, tanto a evid\u00eancia interna dos textos neotestament\u00e1rios quanto a evid\u00eancia externa da igreja primitiva mostram que cada um dos documentos do Novo Testamento &#8211; os Evangelhos, os Atos, as Cartas e o Apocalipse &#8211; \u00e9 produto da atividade evangel\u00edstica, pedag\u00f3gica e revelat\u00f3ria dos ap\u00f3stolos e profetas de Jesus Cristo. Por meio deles, Jesus levou adiante a sua obra.<\/p>\n<p>Mas acima de tudo est\u00e1 o fato de todos esses textos neotestament\u00e1rios terem surgido sob o impacto do mais alto evento revelat\u00f3rio da hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o, a manifesta\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio Verbo de Deus em carne, e <i>terem no testemunho desse evento a sua mensagem central <\/i>(Hb 1.1-4). \u00c9 isso que lhes d\u00e1 o car\u00e1ter de Escritura: assim como Jesus mostrou que o Antigo Testamento dava testemunho dele, cada um desses textos do Novo Testamento d\u00e1 testemunho de Jesus Cristo. O fato de todos estarem plenos do Evangelho de Jesus \u00e9 o que os coloca lado a lado com as Escrituras judaicas. E assim temos uma obra completa: o Antigo Testamento anuncia a Jesus como promessa, e o Novo Testamento o anuncia como cumprimento. Mas ambos tem Jesus Cristo como o seu fundamento e sua mensagem central.<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;&#8230;acima de tudo est\u00e1 o fato de todos esses textos neotestament\u00e1rios terem surgido sob o impacto do mais alto evento revelat\u00f3rio da hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o&#8230;&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O Tema Central e os Limites do C\u00e2non<br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 por isso tamb\u00e9m que dizemos que o c\u00e2non das Escrituras est\u00e1 &#8220;fechado&#8221;. N\u00e3o s\u00e3o poucos os Crist\u00e3os que me perguntam se Deus n\u00e3o teria mais coisas para revelar, e porque o c\u00e2non foi fechado com os livros atuais. Isso n\u00e3o seria uma limita\u00e7\u00e3o da liberdade do Esp\u00edrito?<\/p>\n<p>Mas a compreens\u00e3o da fonte da autoridade b\u00edblica d\u00e1 tamb\u00e9m a solu\u00e7\u00e3o desse problema. Deus n\u00e3o vai revelar &#8220;mais coisas&#8221;, e provavelmente n\u00e3o teremos mais livros inspirados para serem postos no c\u00e2non, porque n\u00e3o h\u00e1 nada mais para ser revelado, qualitativamente falando. Pois a revela\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 feita de <i>bites <\/i>de informa\u00e7\u00e3o. A revela\u00e7\u00e3o \u00e9 algo qualitativamente supremo e definitivo; se o pr\u00f3prio Verbo de Deus se manifestou, e Deus, que antes usou profetas, agora nos falou pelo seu Filho (Hb 1.1-4), que outra revela\u00e7\u00e3o pode haver? O que pode &#8220;complementar&#8221; o evangelho da encarna\u00e7\u00e3o, morte e ressurrei\u00e7\u00e3o do Filho de Deus, ensinado por ele pr\u00f3prio e por seus ap\u00f3stolos?<\/p>\n<blockquote><p>O c\u00e2non n\u00e3o est\u00e1 fechado porque Deus reteve novas informa\u00e7\u00f5es, mas porque nenhuma informa\u00e7\u00e3o jamais ser\u00e1 maior do que o conhecimento de Deus o Pai, por meio de Jesus Cristo, o unig\u00eanito, no Esp\u00edrito Santo.<\/p><\/blockquote>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 outra revela\u00e7\u00e3o depois dessa, a n\u00e3o ser a pr\u00f3pria volta do Filho de Deus, a <i>parousia<\/i>. N\u00e3o porque Deus queira reter alguma informa\u00e7\u00e3o, mas porque nenhuma informa\u00e7\u00e3o jamais ser\u00e1 maior do que o conhecimento de Deus o Pai, por meio de Jesus Cristo, o unig\u00eanito, no Esp\u00edrito Santo. S\u00f3 uma coisa poder\u00e1 ser &#8220;maior&#8221; do que isso: o momento de vermos face a face aquele que hoje vemos como por um espelho (1Co 13.10-12); mas mesmo ent\u00e3o n\u00e3o ser\u00e1 &#8220;outra&#8221; revela\u00e7\u00e3o, e sim <em>a mesma<\/em>, em toda a sua clareza e extens\u00e3o, transformando e elevando o significado de todas as outras coisas que pensamos saber e da nossa hist\u00f3ria, a ponto de nos parecer que \u00e9ramos crian\u00e7as, e que jamais soubemos coisa alguma. Mas j\u00e1 temos esse saber hoje, de forma seminal; e \u00e9 disso que as Escrituras testemunham: a respeito de Jesus, o Filho de Deus, e de nossa ado\u00e7\u00e3o por meio dele (Jo 5.39, 46, 47; Lc 24.44-48; At 18.24,28; Rm 1.1-4).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Toda a Escritura \u00e9 Inspirada<\/strong><\/p>\n<p>As Escrituras n\u00e3o s\u00e3o a palavra de Deus apenas porque foram &#8220;eleitas&#8221; para tanto e inclu\u00eddas em um c\u00e2non, e nem unicamente porque testificam de Jesus. Fica impl\u00edcito no fato de Deus ter usado profetas, escribas e ap\u00f3stolos, e de ele garantir a unidade org\u00e2nica do testemunho dos documentos b\u00edblicos, que cada um dos livros da Escritura tem uma g\u00eanese especial. N\u00e3o s\u00e3o livros comuns.<\/p>\n<p>Em 2Tm 3.16 o ap\u00f3stolo Paulo diz que &#8220;toda a Escritura \u00e9 inspirada por Deus e \u00fatil para o ensino, para a repreens\u00e3o, para a corre\u00e7\u00e3o e para a educa\u00e7\u00e3o na justi\u00e7a&#8221;. Temos aqui dois fatos muito importantes sobre a B\u00edblia. O primeiro \u00e9 a express\u00e3o &#8220;inspirada por Deus&#8221;, do grego <i>theopneustia<\/i>. Temos aqui a ideia de inspira\u00e7\u00e3o divina: Deus moveu homens para escrever, &#8220;soprou&#8221; neles significados divinos, de tal modo que as pr\u00f3prias palavras de Deus foram postas em linguagem humana. Uma ideia semelhante encontra-se em 2Pe 1.21: que as profecias b\u00edblicas foram o resultado de um discurso humano movido pelo Esp\u00edrito de Deus. Deus, ent\u00e3o, causa atos de discurso; ele fala por meio da fala de um ser humano.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem pense que Deus se revelou aos profetas e eles escreveram o que viram por sua pr\u00f3pria conta, sem uma assist\u00eancia divina especial. Contra isso, Pedro nos diz que o seu discurso foi movido pelo Esp\u00edrito Santo. Mas ainda assim, h\u00e1 quem pense que os profetas e ap\u00f3stolos falaram sob inspira\u00e7\u00e3o divina, mas a B\u00edblia seria um registro fal\u00edvel e secund\u00e1rio desses discursos. Nada disso faz justi\u00e7a ao ensino b\u00edblico sobre inspira\u00e7\u00e3o, no entanto. Paulo nos diz que n\u00e3o apenas os autores foram inspirados, mas a pr\u00f3pria Escritura foi inspirada. <i>A inspira\u00e7\u00e3o \u00e9 uma qualidade do texto, e n\u00e3o apenas dos autores<\/i>.<\/p>\n<p>Quais textos tem essa qualidade? 1Tm 3.16 nos diz que seria &#8220;toda a Escritura&#8221;. Essa declara\u00e7\u00e3o de Paulo \u00e9 muito esclarecedora. Ele n\u00e3o diz que &#8220;as Escrituras que s\u00e3o inspiradas&#8221; s\u00e3o \u00fateis para o ensino, mas que &#8220;toda a Escritura \u00e9 inspirada&#8221; e por isso \u00fatil para o ensino. O que ocorre \u00e9 que o termo &#8220;Escritura&#8221; aqui tem um sentido t\u00e9cnico, equivalente a &#8220;B\u00edblia&#8221; ou &#8220;textos can\u00f4nicos&#8221;. Paulo est\u00e1 dizendo que todo o texto que estiver no c\u00e2non deve ser considerado inspirado e por isso \u00fatil. Em outras palavras, ter sido canonizado e inclu\u00eddo no conjunto chamado &#8220;Escritura&#8221; \u00e9 um marcador, para n\u00f3s, de que o texto foi inspirado por Deus. Deus usou a canoniza\u00e7\u00e3o como meio para disponibilizar os textos que ele inspirou.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A Forma\u00e7\u00e3o Crist\u00e3<\/strong><\/p>\n<p>Uma vez que se reconhe\u00e7a o car\u00e1ter da Escritura como Palavra de Deus, nossa atitude em rela\u00e7\u00e3o a ela precisa mudar. Tire-a da estante! Leia com cuidado, com frequ\u00eancia, e com vontade de compreender. N\u00e3o apenas assuma que ela tem algo de essencial para lhe ensinar; ou\u00e7a-a com rever\u00eancia e com imagina\u00e7\u00e3o, como se fosse a voz do pr\u00f3prio Deus, no instante em que voc\u00ea l\u00ea &#8211; e na verdade, voc\u00ea descobrir\u00e1 que ela \u00e9 exatamente isso. Deus usa a sua Palavra para nos dar sabedoria e nos conduzir em sucesso (Js 1.7-8), para curar as nossas almas e abrir nosso cora\u00e7\u00e3o para a vontade de Deus (Sl 19.7-11), e para nos educar para a vida no reino de Deus (2Tm 2.15; 3.14-17).<\/p>\n<p>O texto do Sl 19 chama a minha aten\u00e7\u00e3o: a palavra do Senhor cura, ilumina o cora\u00e7\u00e3o, orienta a vida, e alegra o cora\u00e7\u00e3o (vs 8). Ser\u00e1 que o leitor j\u00e1 pensou sobre isso? Que a alegria do Crist\u00e3o dependa da medita\u00e7\u00e3o nas Escrituras? Quantos Crist\u00e3os sofrem com a tristeza n\u00e3o exatamente em raz\u00e3o dos dissabores da vida (que est\u00e3o a\u00ed, em abund\u00e2ncia), mas porque carecem de recursos para enfrentar esses mesmos dissabores. Ser\u00e1 que o leitor j\u00e1 descobriu em sua B\u00edblia uma fonte de consolo e alegria?<\/p>\n<blockquote><p>Nada na igreja funciona sem a B\u00edblia. E se funcionar, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais igreja; \u00e9 outra coisa.<\/p><\/blockquote>\n<p>E quanto a 2Tm 2.15 e 3.16-17? \u00c9 tr\u00e1gico que tantas igrejas evang\u00e9licas desprezem completamente o ensino sistem\u00e1tico e inteligente das Escrituras como estrat\u00e9gia b\u00e1sica de forma\u00e7\u00e3o Crist\u00e3. No entanto ela \u00e9 necess\u00e1ria n\u00e3o apenas para formar Crist\u00e3os, mas tamb\u00e9m para formar obreiros Crist\u00e3os. Assim, nada na igreja funciona sem a B\u00edblia. E se funcionar, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais igreja; \u00e9 outra coisa.<\/p>\n<p>Mas de todos os textos, talvez 2Tm 3.15 seja o mais chocante: &#8220;as sagradas letras &#8230; podem tornar-te s\u00e1bio para a salva\u00e7\u00e3o&#8221;. Tenho conversado com muitos l\u00edderes crist\u00e3os sobre a minha preocupa\u00e7\u00e3o com o analfabetismo religioso dos crist\u00e3os m\u00e9dios, como os tenho encontrado por a\u00ed. Cresce a minha sensa\u00e7\u00e3o de que muitos membros de igreja hoje nada sabem sobre Deus, sobre Jesus, e sobre o Esp\u00edrito Santo. Antes eu tratava isso como um problema de subnutri\u00e7\u00e3o espiritual, ou de falha pedag\u00f3gica, apenas. Mas trata-se de uma falha missiol\u00f3gica. Pois as Escrituras \u00e9 que nos tornam s\u00e1bios para a salva\u00e7\u00e3o. Sinto que muitos desses membros de igreja na verdade nem s\u00e3o Crist\u00e3os mesmo. E n\u00e3o s\u00e3o Crist\u00e3os por culpa do p\u00falpito evang\u00e9lico, que substituiu a B\u00edblia por mensagens moralistas ou motivacionais. Reaprender a &#8220;regra da f\u00e9&#8221; \u00e9 uma quest\u00e3o de vida ou morte para os evang\u00e9licos de hoje.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Continua&#8230;<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Em um mundo no qual o mote &#8220;viver sem regras&#8221; vende filmes, livros de auto ajuda e produtos de alta tecnologia, a ideia de uma &#8220;regra de f\u00e9&#8221; n\u00e3o soa muito bem. 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