{"id":658,"date":"2013-02-04T12:01:45","date_gmt":"2013-02-04T15:01:45","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/?p=658"},"modified":"2013-02-05T08:06:49","modified_gmt":"2013-02-05T11:06:49","slug":"o-chao-que-me-sustenta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/2013\/02\/04\/o-chao-que-me-sustenta\/","title":{"rendered":"O Ch\u00e3o que me Sustenta"},"content":{"rendered":"<blockquote><p>\u201c- Qual \u00e9 o seu \u00fanico conforto, na vida e na morte?\u201d<\/p>\n<p>\u201c- O meu \u00fanico conforto \u00e9 meu fiel Salvador Jesus Cristo.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Com estas palavras abre-se o <a href=\"http:\/\/www.heidelberg-catechism.com\/pt\/\" target=\"_blank\">catecismo de Heidelberg<\/a>, que em janeiro completou 450 anos e \u00e9 reconhecidamente um dos mais importantes s\u00edmbolos confessionais do protestantismo. N\u00e3o apenas seu car\u00e1ter Cristoc\u00eantrico, como tamb\u00e9m seu profundo sentido espiritual revelam-se ao longo de todo o primeiro artigo:<\/p>\n<blockquote><p>\u201c- A Ele perten\u00e7o, em corpo e alma, na vida e na morte, e n\u00e3o perten\u00e7o a mim mesmo. Com seu precioso sangue Ele pagou por todos os meus pecados e me libertou de todo o dom\u00ednio do diabo. Agora Ele me protege de tal maneira que, sem a vontade do meu Pai do c\u00e9u, n\u00e3o perderei nem um fio de cabelo. Al\u00e9m disto, tudo coopera para o meu bem. Por isso, pelo Esp\u00edrito Santo, Ele tamb\u00e9m me garante a vida eterna e me torna disposto a viver para Ele, daqui em diante, de todo o cora\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Captura a minha aten\u00e7\u00e3o, nesse primeiro artigo do catecismo, a conex\u00e3o imediata entre a doutrina e a exist\u00eancia. O texto n\u00e3o fala de algo abstrato, puramente teol\u00f3gico, mas de algo dram\u00e1tico, duma quest\u00e3o de vida e morte. O que pode ser t\u00e3o amplo que abarque a vida e tamb\u00e9m a morte? E n\u00e3o apenas amplo mas tamb\u00e9m urgente, j\u00e1 que a vida est\u00e1 o tempo inteiro \u00e0 beira da morte? <!--more--><\/p>\n<p>A quest\u00e3o que \u00e9 de &#8220;vida e morte&#8221; \u00e9 a quest\u00e3o do meu consolo \u00faltimo, do esteio da minha exist\u00eancia; e aqui as coisas se tornam n\u00e3o apenas momentosas, urgentes e solenes, mas profundamente afetivas e \u00edntimas. \u201cO meu conforto na vida e na morte\u201d \u00e9 coisa sobre a qual n\u00e3o posso me pronunciar sem respirar fundo e at\u00e9 fechar os olhos. Pois n\u00e3o se trata apenas de uma confiss\u00e3o sobre o que se concorda ou sobre corre\u00e7\u00e3o doutrin\u00e1ria, mas sobre a minha posi\u00e7\u00e3o agora, nesse instante, sobre como eu me sinto a respeito de mim e do meu destino &#8211; por isso, aparentemente, uma tradu\u00e7\u00e3o Brasileira do catecismo traz a palavra &#8220;fundamento&#8221; no lugar de &#8220;conforto&#8221; ou &#8220;consolo&#8221; (como alertou-me em tempo o meu amigo <a href=\"http:\/\/danieldliver.blogspot.com.br\/\" target=\"_blank\">Daniel<\/a>). Trata-se de algo sobre &#8220;o que \u00e9 o meu ch\u00e3o&#8221;, parafraseando a tradu\u00e7\u00e3o Brasileira. Qual \u00e9 o fundamento da minha exist\u00eancia? O que d\u00e1 sentido para minha vida, e orienta\u00e7\u00e3o, e seguran\u00e7a?<\/p>\n<p>Todo o primeiro artigo do catecismo gira em torno da <em>seguran\u00e7a<\/em>: <em>\u201ca ele perten\u00e7o&#8230; e n\u00e3o perten\u00e7o a mim mesmo&#8230; Agora ele me protege&#8230; tudo coopera para o meu bem&#8230; Ele tamb\u00e9m me garante a vida eterna e me torna disposto a viver para Ele&#8230;\u201d<\/em> A Reforma compreendeu muito bem que a realidade da salva\u00e7\u00e3o \u00e9 expressa em uma reorganiza\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia em torno de Cristo, e que uma das primeiras express\u00f5es disso \u00e9 a seguran\u00e7a Crist\u00e3 &#8211; talvez n\u00e3o a primeira em termos temporais, mas certamente em import\u00e2ncia real. Essa seguran\u00e7a precisa ser exposta, trazida \u00e0 frente e alimentada at\u00e9 tornar-se uma autodefini\u00e7\u00e3o: \u201cEu sou <em>isso<\/em>: eu sou <em>algu\u00e9m que est\u00e1 nas m\u00e3os de Jesus Cristo<\/em>, algu\u00e9m que viver\u00e1 e morrer\u00e1 Nele\u201d. Ela \u00e9 natural para o crist\u00e3o, mas n\u00e3o \u00e9 autom\u00e1tica: precisa receber chuva e sol, sobreviver a ventos e pragas, lan\u00e7ar ra\u00edzes e engrossar; e um dos modos de alimentar essa planta \u00e9 a <em>confiss\u00e3o da f\u00e9<\/em>, quando dizemos para Deus, para o mundo, e para n\u00f3s o que cremos e o que somos.<\/p>\n<p>Para mim \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o pensar, aqui, nas palavras do ap\u00f3stolo Paulo em Romanos, naquele cap\u00edtulo crucial e clim\u00e1tico da Escritura: \u201cAquele que n\u00e3o poupou o seu pr\u00f3prio Filho, antes, por todos n\u00f3s n\u00e3o dar\u00e1 graciosamente com ele todas as cousas?&#8221; (Rm 8.32). Essa \u00e9 a l\u00f3gica do cristianismo: \u00e9 a <em>hermen\u00eautica fiel.<\/em> N\u00e3o hermen\u00eautica da B\u00edblia apenas, e nem mesmo uma hermen\u00eautica filos\u00f3fica, mas algo muito mais visceral e que condicionar\u00e1 tanto a nossa leitura B\u00edblica quanto a nossa interpreta\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica: aquele \u201csentimento da exist\u00eancia\u201d cheio de gratid\u00e3o e seguran\u00e7a, e que n\u00e3o pode sen\u00e3o inferir do evangelho que todas as coisas cooperam para o meu bem (Rm 8.28), e que celebra isso secretamente com um sorriso suave diante da vida e diante da morte, um sorriso que n\u00e3o \u00e9 destru\u00eddo nem quando se chora de tristeza.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cAquele que n\u00e3o poupou o seu pr\u00f3prio Filho, antes, por todos n\u00f3s n\u00e3o dar\u00e1 graciosamente com ele todas as cousas?\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>\u201cO Esp\u00edrito testifica com o nosso esp\u00edrito que somos Filhos de Deus\u201d (Rm 8.14). Cert\u00edssimos estavam os puritanos e, exatamente nesse ponto, o Dr. Martin Lloyd Jones, que me introduziu a eles: a certeza da salva\u00e7\u00e3o \u00e9 mesmo muito importante, e n\u00e3o deve ser trivializada nem dificultada. Trata-se de uma pedra muito preciosa que j\u00e1 est\u00e1 l\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o do regenerado, talvez ainda em estado bruto aguardando lapida\u00e7\u00e3o; mas a seu tempo ela ser\u00e1 vis\u00edvel, em seu devido lugar: a j\u00f3ia espl\u00eandida que s\u00f3 pode ser encontrada no dedo dos eleitos.<\/p>\n<p>O que o catecismo quer comunicar n\u00e3o \u00e9 apenas uma doutrina, mas o <em>pathos<\/em> apropriado a ela, e far\u00edamos muito bem em apreend\u00ea-lo. Eu apenas acrescentaria que ser\u00e1 extremamente \u00fatil lan\u00e7ar luz sobre a presen\u00e7a e o car\u00e1ter dos \u00eddolos contempor\u00e2neos, aos quais nos agarramos para constituir nossa identidade e ganhar seguran\u00e7a. Pois com facilidade essa confiss\u00e3o sobre Jesus ser o \u00fanico conforto \u00e9 pronunciada hipocritamente ou, no mais das vezes, desatentamente, enquanto ainda buscamos conforto em outras fontes, que podem ser o sucesso vocacional, o marido e a esposa, um bom videogame ou uma ideologia pol\u00edtica (\u00eddolo corriqueiro entre evang\u00e9licos \u00e0 esquerda e \u00e0 direita do mundo).<\/p>\n<p>Francis Schaeffer usava uma interessante met\u00e1fora para descrever o modo como preparava as pessoas para o evangelho: \u201carrancar o telhado\u201d. As pessoas costumam viver inconscientes da contradi\u00e7\u00e3o irreconcili\u00e1vel entre sua descren\u00e7a em Deus (descren\u00e7a que sempre pressup\u00f5e cren\u00e7as alternativas) e sua condi\u00e7\u00e3o humana. Expor e denunciar essa tens\u00e3o, mostrar que \u00e9 imposs\u00edvel ser humano sem Deus, seria \u201carrancar o telhado\u201d pelo bem da pessoa.<\/p>\n<p>Arrancar o ch\u00e3o da falsa seguran\u00e7a \u00e9 frequentemente mais dif\u00edcil que arrancar o telhado da ideologia. N\u00e3o d\u00e1 pra fazer somente com palavras e di\u00e1logo; primeiro a casa inteira tem que cair. \u00c9 sempre Deus mesmo quem tira o ch\u00e3o de algu\u00e9m, quando quebra seus \u00eddolos e exp\u00f5e com toda a crueza a sua vaidade. Deus \u00e9 quem promove em n\u00f3s uma santa inseguran\u00e7a, at\u00e9 \u00e0s raias do desespero, para que encontremos nele a seguran\u00e7a genu\u00edna, a consola\u00e7\u00e3o que transborda por meio de Cristo (2Co 1.8-9). Mas se pudemos dialogar com as pessoas e interpretar esse ju\u00edzo, depois, durante ou mesmo antes da quebra dos \u00eddolos, estaremos talvez \u201cpreparando o caminho do Senhor\u201d. N\u00e3o podemos produzir a f\u00e9 correta, mas \u00e9 nosso dever despertar a d\u00favida sobre a f\u00e9 id\u00f3latra. E nada como uma boa d\u00favida para dissolver devo\u00e7\u00f5es ilus\u00f3rias e nos relan\u00e7ar na rota da seguran\u00e7a aut\u00eantica!<\/p>\n<blockquote><p>Ro\u00e7ar a terra do cora\u00e7\u00e3o, para deixar a Esperan\u00e7a nascer&#8230;<\/p><\/blockquote>\n<p>Qual \u00e9 o ch\u00e3o sobre o qual pisamos? \u00c9 mesmo o ch\u00e3o da confiss\u00e3o de f\u00e9, a \u00fanica fonte poss\u00edvel de conforto? O que \u00e9 pra n\u00f3s a fonte de significado e seguran\u00e7a, aquilo que sustenta nosso senso de estabilidade, que \u00e9 o ponto de partida para nossas incurs\u00f5es no mundo do trabalho e na cultura, e o lugar de retorno sobre o qual constru\u00edmos nossas expectativas e planejamos o futuro?<\/p>\n<p>Jesus \u00e9 o \u00fanico consolo porque \u00e9 o Novo Homem; porque nele o Pai fez &#8220;novas todas as coisas&#8221;. Ele \u00e9 o primog\u00eanito e a raiz da Nova Cria\u00e7\u00e3o. Nele todas as coisas s\u00e3o reconciliadas com Deus; nele temos a Deus e a n\u00f3s mesmos de forma perfeita. Ele \u00e9, <em>objetivamente<\/em>, o \u00fanico fundamento e o \u00fanico conforto. Mas \u00e9 preciso que ele seja <em>o meu e o seu conforto; <\/em>e n\u00e3o apenas o nosso consolo para ganhar o c\u00e9u, mas tamb\u00e9m<em> o consolo para vivermos e morrermos; um fundamento para sermos humanos no mundo. <\/em>Se desejamos que a seguran\u00e7a Crist\u00e3 transpare\u00e7a em nosso viver ordin\u00e1rio, \u00e9 preciso que cada aspecto desse viver ordin\u00e1rio seja fundamentado e enraizado no extraordin\u00e1rio, que \u00e9 Cristo. E onde Cristo n\u00e3o for o ch\u00e3o da casa tudo ser\u00e1 incerto, inseguro, dominado pelo pavor da finitude e do vazio. Porque n\u00e3o h\u00e1 outro ch\u00e3o. Sem esse ch\u00e3o s\u00f3 h\u00e1 a areia fina da finitude. Pense nisso, medite nisso: a vaidade e a fragilidade de tudo o que somos e fazemos, \u00e0 parte de Jesus Cristo. N\u00e3o, isso n\u00e3o \u00e9 cultivar o des\u00e2nimo; \u00e9 ro\u00e7ar a terra do cora\u00e7\u00e3o para deixar a Esperan\u00e7a nascer.<\/p>\n<p>Lembremo-nos do catecismo de Heidelberg, e do ap\u00f3stolo Paulo, que inspirou o catecismo: n\u00e3o h\u00e1 outro conforto sen\u00e3o aquele que vem do Deus de toda a consola\u00e7\u00e3o (2Co 1.3-10). N\u00e3o h\u00e1 outro, n\u00e3o apenas para a \u201cvida religiosa\u201d, para a \u201csalva\u00e7\u00e3o eterna\u201d, para o p\u00falpito e para organizar a vida na comunidade eclesi\u00e1stica; n\u00e3o h\u00e1 outro raz\u00e3o para <em>sermos humanos, mesmo em face da morte.<\/em> Voc\u00ea estar\u00e1 perfeitamente firme e seguro, se desistir de construir sobre a areia e plantar sua casa em uma rocha; se permitir que Deus desfa\u00e7a todas as suas seguran\u00e7as no fogo do desespero, para que sua seguran\u00e7a esteja apenas naquele que ressuscita os mortos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201c- Qual \u00e9 o seu \u00fanico conforto, na vida e na morte?\u201d \u201c- O meu \u00fanico conforto \u00e9 meu fiel Salvador Jesus Cristo.\u201d Com estas palavras abre-se o catecismo de Heidelberg, que em janeiro completou 450 anos e \u00e9 reconhecidamente um dos mais importantes s\u00edmbolos confessionais do protestantismo. 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