{"id":621,"date":"2012-09-27T20:47:58","date_gmt":"2012-09-27T23:47:58","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/?p=621"},"modified":"2012-09-28T23:32:11","modified_gmt":"2012-09-29T02:32:11","slug":"crazy-for-god-francis-schaeffer-segundo-franky-schaeffer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/2012\/09\/27\/crazy-for-god-francis-schaeffer-segundo-franky-schaeffer\/","title":{"rendered":"&#8220;Crazy for God&#8221;: Francis Schaeffer segundo Franky Schaeffer"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Por Rodolfo Amorim e Guilherme de Carvalho <\/em><\/p>\n<p>O livro <em>Crazy for God<\/em>, de Frank Schaeffer (2007, Carrol &amp; Graf), causou sensa\u00e7\u00e3o entre admiradores e cr\u00edticos do apologista Francis Schaeffer, fundador de L\u2019Abri e pai do autor; mas acima de tudo, entre as pessoas preocupadas com a rela\u00e7\u00e3o entre pol\u00edtica e religi\u00e3o na Am\u00e9rica do Norte. Produziu tamb\u00e9m certa curiosidade no Brasil, mas ficou sem tradu\u00e7\u00e3o (talvez porque a discuss\u00e3o n\u00e3o fizesse muito sentido nessas terras).<\/p>\n<p>Muito embora o <em>frisson <\/em>j\u00e1 tenha passado, ainda consideramos relevante comentar a obra, mormente porque diz respeito, indiretamente, ao nosso trabalho em L\u2019Abri. <!--more--> O que se segue \u00e9 uma apresenta\u00e7\u00e3o do livro preparada pelo Rodolfo Amorim, obreiro de L\u2019Abri Brasil, com uma avalia\u00e7\u00e3o final feita junto com Guilherme de Carvalho, tamb\u00e9m de L&#8217;Abri.<\/p>\n<p>A perspectiva do texto, naturalmente, \u00e9 a de algu\u00e9m que n\u00e3o conhece de primeira m\u00e3o os fatos que circundavam a vida dos Schaeffer no contexto do minist\u00e9rio L\u2019Abri \u2013 ainda que o contato com os veteranos de L\u2019Abri seja constante. Outras cr\u00edticas mais bem informadas do livro j\u00e1 t\u00eam sido escritas, como <a href=\"http:\/\/www.booksandculture.com\/articles\/2008\/marapr\/1.32.html?start=1\" target=\"_blank\">o artigo de Os Guinness<\/a> e de outros obreiros de L\u2019Abri pelo mundo. Publica\u00e7\u00f5es mais recentes e muito relevantes s\u00e3o a excelente biografia de Schaeffer, por Colin Duriez,<a href=\"http:\/\/www.amazon.com\/Francis-Schaeffer-An-Authentic-Life\/dp\/1581348576\" target=\"_blank\"><em> \u201cFrancis Schaeffer: an Authentic Life\u201d<\/em><\/a> (2008, Crossway), e a colet\u00e2nea de estudos editada pelo Dr. Bruce A. Little, diretor do Center for Faith and Action: <a href=\"http:\/\/www.amazon.com\/Francis-Schaeffer-Mind-Heart-God\/dp\/1596381612\/ref=sr_1_4?s=books&amp;ie=UTF8&amp;qid=1348828693&amp;sr=1-4&amp;keywords=mind+and+heart+for+god+little\" target=\"_blank\"><em>\u201cFrancis Schaeffer: a Mind and Heart for God\u201d <\/em><\/a>(2010, P&amp;R).<\/p>\n<p>O livro de Frank deveria, supostamente, ser uma autobiografia focalizando seu envolvimento com o meio evang\u00e9lico e culminando em seu papel como um dos propulsores do movimento pol\u00edtico da direita evang\u00e9lica republicana americana, que ele associa com a polariza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica nacional e a ascens\u00e3o ao poder de l\u00edderes como Reagan e a fam\u00edlia Bush. O que conduzira a na\u00e7\u00e3o \u00e0 ades\u00e3o de pol\u00edticas belicosas e moralistas que estariam prejudicando o pa\u00eds interna e externamente. Por\u00e9m os desacertos da fam\u00edlia e da comunidade evang\u00e9lica se tornam o centro de um quase jornalismo de den\u00fancia sensacionalista.<\/p>\n<p>Para facilitar a compreens\u00e3o do conte\u00fado do livro, dividirei os temas centrais abordados por Frank como a vida em fam\u00edlia, sua vida no contexto do minist\u00e9rio de L\u2019Abri, seu envolvimento com o evangelicalismo norte-americano, e os eventos pessoais de sua vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\"><strong>Vida na Fam\u00edlia Schaeffer<\/strong><\/span><\/p>\n<p>A perspectiva de Frank sobre sua fam\u00edlia \u00e9 marcada pela ambival\u00eancia, uma mistura de amor e \u00f3dio, respeito e desonra. Segundo ele, Edith sempre foi o motor da fam\u00edlia e do minist\u00e9rio L\u2019Abri, iniciado na Su\u00ed\u00e7a na d\u00e9cada de 50. Edith, criada na China e filha de pais mission\u00e1rios, tivera uma educa\u00e7\u00e3o privilegiada e desfrutou de condi\u00e7\u00f5es nobres de vida em sua inf\u00e2ncia, sempre cercada de cuidados especiais e em contato com os movimentos culturais do ocidente, principalmente na m\u00fasica e as artes visuais. Francis, por sua vez, \u00e9 descrito como um filho da classe m\u00e9dia baixa americana, bruto em seus modos e convertido em uma tenda de reavivamento quando tinha 19 anos. Frank come\u00e7a suas revela\u00e7\u00f5es em tom quase de tabl\u00f3ide sensacionalista apontando como posteriormente seu pai associou sua convers\u00e3o a uma experi\u00eancia de contato direto com as Escrituras enquanto buscava, filosoficamente, sentido para a exist\u00eancia e respostas para os dilemas da vida.<\/p>\n<p>Este tom de revela\u00e7\u00e3o ir\u00f4nica das fraquezas dos pais permeia todo o livro de Frank e inclui acusa\u00e7\u00f5es como abusos de viol\u00eancia de seu pai em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua m\u00e3e; momentos em que sua m\u00e3e supostamente teria se envolvido emocionalmente com visitantes de L\u2019Abri, gerando uma s\u00e9rie de conflitos na fam\u00edlia e sua depend\u00eancia de antidepressivos; as depress\u00f5es e desejos intensos de suic\u00eddio do pai, a suposta hipocrisia relacionada ao desejo dos Schaeffers em depender de Deus para a provis\u00e3o do sustento no minist\u00e9rio, dentre outras. No entanto, em muitos outros momentos, Frank louva a autenticidade dos pais e sinceridade em conduzir o minist\u00e9rio que criam ter por parte de Deus. Ele exalta a humildade e acessibilidade dos pais ao tratar todas as pessoas com igual cuidado, ao receber pessoas de todos os contextos e nas mais diversas situa\u00e7\u00f5es com o mesmo amor incondicional, e de comunicar com a gera\u00e7\u00e3o hippie e com a cultura ocidental como nenhum outro crist\u00e3o antes ou ap\u00f3s eles.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o de Frank com sua fam\u00edlia \u00e9 claramente marcada pela revolta e pela gratid\u00e3o. Sua revolta se expressa, sobretudo, em seu abandono quando de sua inf\u00e2ncia e juventude, quando o minist\u00e9rio dos pais se tornava mundialmente conhecido e demandava quase todo seu tempo. Obreiros de L\u2019Abri ou at\u00e9 mesmo estudantes eram a companhia e influ\u00eancia constante de Frank, e com quem aprendia as coisas da vida. Em momentos do livro ele afirma que se houvera morrido em meio ao alvoro\u00e7o de L\u2019Abri, seriam necess\u00e1rias algumas semanas para seus pais darem falta de sua pessoa. Esta aus\u00eancia paterna est\u00e1 claramente evidenciada no livro, e serve como base para suas den\u00fancias e exposi\u00e7\u00e3o dos erros dos pais, os quais foram, segundo Frank, tornados em verdadeiros santos por todo o movimento evang\u00e9lico internacional.<\/p>\n<p>Entre as den\u00fancias gerais de Frank em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 fam\u00edlia est\u00e3o o forte pietismo e misticismo dos pais e o fundamentalismo nos primeiros anos de sua inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia. Tamb\u00e9m acusa o zelo pela pureza doutrin\u00e1ria dos cunhados e algumas irm\u00e3s (tinha tr\u00eas) que gerava s\u00e9rios debates e rupturas no seio da fam\u00edlia, e certa discrimina\u00e7\u00e3o entre crist\u00e3os e crist\u00e3os no meio evang\u00e9lico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\"><strong>Vida no L\u2019Abri<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Quanto a L\u2019Abri, Frank tamb\u00e9m apresenta uma rela\u00e7\u00e3o amb\u00edgua e confusa. Em alguns momentos do livro ele declara que sua fam\u00edlia sobreviveu apenas porque vivia no ambiente de uma comunidade que o acolheu e deu suporte nos momentos de crise e conflito. Frank declara que permaneceu casado e assumiu sua filha, fruto de uma gravidez n\u00e3o planejada, anterior ao casamento, em virtude do cuidado e aceita\u00e7\u00e3o das pessoas que pertenciam a L\u2019Abri enquanto ali vivia.<\/p>\n<p>Em outros momentos, Frank aponta a confus\u00e3o e tens\u00e3o de se viver entre pessoas de todas as partes do mundo, de todos os contextos, desde l\u00edderes evang\u00e9licos americanos, como Billy Graham, a hippies e solteiras gr\u00e1vidas usu\u00e1rios de drogas que vinham em busca de um ref\u00fagio para sua bagun\u00e7ada exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Frank aponta nos primeiros cap\u00edtulos do livro que sua fam\u00edlia evoluiu em seus conceitos entre o in\u00edcio do minist\u00e9rio, na d\u00e9cada de 50, e sua expans\u00e3o na d\u00e9cada de 60 e 70. Em sua origem, L\u2019Abri era influenciado pela mentalidade evang\u00e9lica norte americana tradicional, com todos os seus tabus como n\u00e3o poder beber, fumar, dan\u00e7ar, assistir a filmes, etc. Com os anos de experi\u00eancia no L\u2019Abri Frank percebeu que na d\u00e9cada de 60 seu pai ficava totalmente \u00e0 vontade em meio aos hippies e todos os tipos de pessoas que chegavam de todas as partes em L\u2019Abri. Al\u00e9m de se comunicar facilmente com os \u201cseekers\u201d de sua gera\u00e7\u00e3o, Francis e Edith reconheciam a autenticidade da cr\u00edtica destes \u00e0 plasticidade e vazio da vida burguesa do t\u00edpico crist\u00e3o norte-americano.<\/p>\n<p>Segundo Frank, muitas pessoas tiveram suas vidas transformadas para melhor ao passar por L\u2019Abri, muitas delas estendendo sua estadia por meses e at\u00e9 mesmo anos. Em sua opini\u00e3o, o envolvimento de seu pai com o movimento pol\u00edtico \u201cpr\u00f3 vida\u201d do evangelicalismo americano desvirtuou o minist\u00e9rio de seu pai, e Frank assume a responsabilidade sobre este feito, sendo influenciado para tal pelo ent\u00e3o l\u00edder da Gospel Films, uma entidade que utilizou Schaeffer como o guru evang\u00e9lico na mobiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica evangelical posteriormente assumida por nomes como o Dr. Dobson, Pat Robertson, Jerry Fallwel e Gary North, entre outros.<\/p>\n<p>A luta pela pureza doutrin\u00e1ria e inerr\u00e2ncia b\u00edblica foram, segundo Frank, e os elementos principais que trouxeram divis\u00f5es no trabalho de L\u2019Abri e na pr\u00f3pria fam\u00edlia Schaeffer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\"><strong>Vida no Meio Evang\u00e9lico<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Permeando todo o livro de Frank est\u00e1 sua decep\u00e7\u00e3o com o estilo de vida proposto pelo evangelicalismo em geral, e o norte-americano em particular. Ap\u00f3s viver no contexto de L\u2019Abri e compartilhar de muitos de seus princ\u00edpios e de sua fam\u00edlia, como a abertura ao diferente, a demonstra\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica de amor e a consci\u00eancia da for\u00e7a da cultura e a necessidade de di\u00e1logo cr\u00edtico e construtivo, Frank relata sua transi\u00e7\u00e3o para o mainstream da cultura evangelical norte americana.<\/p>\n<p>Em seguida a algumas experi\u00eancias amadoras de filmagem no contexto da fam\u00edlia e minist\u00e9rio, Frank recebeu a proposta de Billy Zeolli, um diretor da <em>Gospel Films,<\/em> dos EUA, de dirigir uma s\u00e9rie de document\u00e1rios ao lado de seu pai. A proposta de Billy, que obteve uma relutante aceita\u00e7\u00e3o de Francis Schaeffer, era de levar a cr\u00edtica cultural crist\u00e3 desenvolvida por Francis Schaeffer para o centro da discuss\u00e3o sobre rela\u00e7\u00e3o entre Crist\u00e3o e a cultura nos EUA, que estaria sendo assolada pelo secularismo e conseq\u00fcente afrouxamento moral e pobreza est\u00e9tica. Ap\u00f3s ser convidado por Billy a dirigir o document\u00e1rio, Frank convenceu seu pai a incluir nos dois \u00faltimos cap\u00edtulos da s\u00e9rie uma den\u00fancia e convoca\u00e7\u00e3o aos crist\u00e3os norte-americanos a se posicionar frente \u00e0s recentes legisla\u00e7\u00f5es aprovando a escolha individual na decis\u00e3o sobre o aborto (e como qualquer um pode constatar, os dois \u00faltimos cap\u00edtulos tem uma rela\u00e7\u00e3o nitidamente artificial com o restante do trabalho).<\/p>\n<p>Segundo Frank, seu sucesso em convencer o Pai lan\u00e7ou o fundamento do que viria a se tornar o envolvimento pol\u00edtico evang\u00e9lico nos EUA e as origens do que seria denominada a direita evang\u00e9lica republicana dos EUA. Este epis\u00f3dio, ocorrido em meio \u00e0 din\u00e2mica produ\u00e7\u00e3o e apresenta\u00e7\u00e3o do document\u00e1rio <em>\u201cHow should we than live?\u201d<\/em> foi tamb\u00e9m o in\u00edcio de todo o seu processo de decep\u00e7\u00e3o com o evangelicalismo. Lideran\u00e7as com sede de poder, dinheiro e controle sobre os processos pol\u00edticos que viriam a surgir s\u00e3o apresentados detalhadamente por Frank, demonstrando a profunda hipocrisia, superficialidade e fei\u00fara de grande parte da lideran\u00e7a evang\u00e9lica dos EUA.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s se ganhar notoriedade como uma das lideran\u00e7as do movimento, dirigir outros document\u00e1rios como <em>\u201cWhatever Happened to the Human Race?\u201d<\/em> e escrever e editar v\u00e1rios livros, como <em>\u201cTime for Anger\u201d<\/em>, Frank relata seu processo de conscientiza\u00e7\u00e3o sobre a aliena\u00e7\u00e3o e hipocrisia de todo o movimento que ajudou a levantar. Francis Schaeffer, antes mesmo de Frank, e j\u00e1 no in\u00edcio do c\u00e2ncer, se afastou do processo pol\u00edtico, e se concentrou na defesa de pontos teol\u00f3gicos e da inerr\u00e2ncia b\u00edblica, o que tamb\u00e9m \u00e9 denunciado por Frank como um afastamento de todas as \u00eanfases da fase \u201cdourada\u201d que via seu pai viver em L\u2019Abri por toda a d\u00e9cada de 60 e meados de 70.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s relatar seu afastamento e imediato ostracismo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 direita religiosa e o evangelicalismo americano, Frank relata sua convers\u00e3o casual \u00e0 ortodoxia crist\u00e3, valorizando aspectos da tradi\u00e7\u00e3o e imagina\u00e7\u00e3o em contraste com a sede de poder e superficialidade do evengelicalismo que ele mesmo havia vivido e defendido.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\"><strong>A vida pessoal<\/strong><\/span><\/p>\n<p>O relato de sua pr\u00f3pria vida, contextos imediatos e reflex\u00f5es subjetivas sobre os eventos de sua mem\u00f3ria formam o eixo central do livro. Todos os eventos rememorados s\u00e3o narrados do ponto de vista de uma experi\u00eancia p\u00f3s-evang\u00e9lica de piedade e cristianismo. Todas as experi\u00eancias t\u00edpicas da piedade e pr\u00e1tica evangelical, particularmente as de sua fam\u00edlia, s\u00e3o narradas por Frank com um ar de aliena\u00e7\u00e3o, estreiteza de percep\u00e7\u00e3o e engano. Pr\u00e1ticas como ora\u00e7\u00e3o por sustento, prega\u00e7\u00e3o do evangelho, vida de santidade, como abstin\u00eancia sexual fora do matrim\u00f4nio, o esfor\u00e7o por uma doutrina pura, etc. s\u00e3o ironizados por Frank e colocados em contraste com sua atitude supostamente iluminada e honesta em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 complexidade e ambig\u00fcidades da vida.<\/p>\n<p>Come\u00e7ando por sua inf\u00e2ncia no contexto de uma miss\u00e3o crist\u00e3, passando por suas descobertas sexuais e de outros delitos morais como uso de drogas, a busca de aventuras, etc. Frank relata sua constante dist\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o a tudo a sua volta, sua experi\u00eancia de casamento com Genie ap\u00f3s uma gravidez indesejada e o incentivo de sua fam\u00edlia para assumir o relacionamento, e a expans\u00e3o de sua fam\u00edlia com a chegada de mais filhos. Ao final do livro, relata sua mudan\u00e7a para os EUA, ruptura com o passado evang\u00e9lico e a experi\u00eancia recente de autor de romances, quase todos parafraseando suas intensas experi\u00eancias na juventude no contexto de uma fam\u00edlia e comunidade moralista e superficial.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\"><strong>A Contribui\u00e7\u00e3o de Frank<\/strong><\/span><\/p>\n<p>O trabalho de Frank \u00e9 muito \u00fatil para a autocr\u00edtica urgente do movimento evang\u00e9lico, inclusive para o nosso contexto particular que \u00e9 o Brasil. Entre os pontos positivos do livro se destaca a sua den\u00fancia do modo desarticulado e precipitado de envolvimento pol\u00edtico da comunidade evang\u00e9lica norte-americana, sua acusa\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas excessivamente legalistas de sua fam\u00edlia no in\u00edcio de seu minist\u00e9rio na Europa, a afirma\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas peculiares dos Schaeffers em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o da mensagem do evangelho \u00e0 gera\u00e7\u00e3o dos 60 e 70, e a honestidade em assumir a responsabilidade por muitos dos problemas causados na sociedade e em sua pr\u00f3pria fam\u00edlia, al\u00e9m de faltas pessoais, apesar do tom de confiss\u00e3o sensacionalista de seus deslizes pessoais.<\/p>\n<p>Segundo as impress\u00f5es de obreiros de L\u2019Abri que foram pr\u00f3ximos, tanto de Francis como do seu filho Frank, aparentemente foi o sentimento de culpa pela aus\u00eancia paterna que levou Schaeffer a ceder aos apelos de seu filho em um caminho que n\u00e3o refletia as realidades de L\u2019Abri. Os Guinness chega a dizer que<em> &#8220;a influ\u00eancia nefasta de Frank sobre o seu pai \u00e9 um exemplo paradigm\u00e1tico de como minist\u00e9rios Crist\u00e3os podem ser arruinados pelo enfraquecimento de seus pr\u00f3prios princ\u00edpios &#8211; no caso, atrav\u00e9s do nepotismo e da pol\u00edtica familiar&#8221;<\/em>. Poucos anos depois da morte de Schaeffer a sensa\u00e7\u00e3o entre muitos obreiros era de que essa superexposi\u00e7\u00e3o de L\u2019Abri, associada \u00e0 direita crist\u00e3 americana n\u00e3o refletiu adequadamente o <em>ethos <\/em>da comunidade e teria sido um dos grandes erros de Schaeffer. Quanto a isso, Frank teve a honestidade de reconhecer sua responsabilidade em todo o epis\u00f3dio.<\/p>\n<p>Nada disso significa, naturalmente, que uma resposta teol\u00f3gica ou pol\u00edtica adequada seja alinhar-se ideologicamente como Frank se alinhou. O erro de Schaeffer n\u00e3o foi meramente o de alinhar-se \u00e0 direita, mas o de se deixar manipular por aquela direita, com sua agenda estreita, pragm\u00e1tica e pouco cruciforme. E ningu\u00e9m est\u00e1 livre de ser engolido por agendas pragm\u00e1ticas e anticrist\u00e3s, seja \u00e0 direita, seja \u00e0 esquerda. Se h\u00e1 uma li\u00e7\u00e3o para aprender aqui, \u00e9 esta: <em>n\u00e3o venda a sua miss\u00e3o a uma agenda secular<strong>.<\/strong><\/em><\/p>\n<p>E h\u00e1 ainda espa\u00e7o para a d\u00favida: <em>Os Guinness<\/em>, que foi um dos melhores amigos de Frank Schaeffer na juventude, e cuja obra \u00e9 muito mais criativa e interessante na atualidade, nega veementemente que o quadro pintado por Frank seja realista. Segundo ele, o livro n\u00e3o est\u00e1 apenas eivado de crueldade e ingratid\u00e3o, mas falta com a verdade; no tocante, por exemplo, \u00e0 qualidade da aten\u00e7\u00e3o dada por sua m\u00e3e, Edith Schaeffer, ou a seu retrato &#8220;ignorante&#8221; das realidades do cristianismo evang\u00e9lico americano &#8211; campo no qual a contribui\u00e7\u00e3o de Os Guinness \u00e9 amplamente reconhecida. Mas o pior de tudo, o que Guinness considerou &#8220;an\u00e1tema&#8221;, foi a sugest\u00e3o de que Schaeffer houvesse sido qualquer coisa pr\u00f3xima de um &#8220;enlouquecido por Deus&#8221;. Sua paix\u00e3o pela verdade e pela consist\u00eancia foi testemunhada por ele e por outros veteranos de L&#8217;Abri que moraram com a fam\u00edlia por anos a fio; e se algu\u00e9m realmente ficou &#8220;enlouquecido pela religi\u00e3o&#8221;, foi o pr\u00f3prio Frank.\u00a0 Para os que podem ler em ingl\u00eas, <a href=\"http:\/\/www.booksandculture.com\/articles\/2008\/marapr\/1.32.html?start=1\" target=\"_blank\">vale a pena ler a resposta de Os Guinness: o artigo &#8220;Fathers and Sons&#8221;<\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\"><strong>Um Sat\u00e9lite<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Em termos globais, o livro <em>Crazy for God <\/em>pode ser visto como uma cr\u00edtica ao estilo de vida evang\u00e9lico, j\u00e1 que Frank assume ao final como deixou a religi\u00e3o dos pais e se entregou a uma esp\u00e9cie de espiritualidade ortodoxa em que percebe Deus nos fatos da vida, nos erros e acertos, sem qualquer tipo de \u2018dogmatismo\u2019 ou \u2018pr\u00e1ticas pietistas\u2019.<\/p>\n<p>O excesso de den\u00fancias de faltas de pessoas pr\u00f3ximas, sobretudo dos pais, desloca o eixo do livro de uma autobiografia ao estilo mais pr\u00f3ximo a um jornalismo sensacionalista. E isto fortalece, em rela\u00e7\u00e3o a Frank Schaeffer, o estigma de sempre gravitar em sua obra pessoal \u2013 ele publicou uma trilogia de sucesso onde romanceia sua aventura de crian\u00e7a e jovem emancipado em meio aos ideais religiosos dos pais \u2013 na esteira da ainda celebrada imagem de seus pais agradando, sobretudo, \u00e0queles que rejeitam a proposta evang\u00e9lica de vida.<\/p>\n<p>Em uma obra mais recente, <em>\u201cSex, Mom, and God: How the Bible&#8217;s Strange Take on Sex Led to Crazy Politics&#8211;and How I Learned to Love Women (and Jesus) Anyway\u201d<\/em>, publicada pela Da Capo Press em 2011, Frank continua na mesma dire\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria de<em> \u201cCrazy For God\u201d<\/em>, revelando em pormenores as tens\u00f5es de uma vida localizada entre dois mundos de apelos distintos, o evangelicalismo dos pais, e as buscas e aventuras pessoais de Frank em sua quebra insistente dos tabus at\u00e9 ent\u00e3o estabelecidos. Mas agora o foco \u00e9 lan\u00e7ado sobre as ambig\u00fcidades de suas experi\u00eancias sexuais e sua admira\u00e7\u00e3o pela for\u00e7a dos pais de manterem, mesmo em meio \u00e0s tens\u00f5es do dia a dia de intenso minist\u00e9rio e os vales sentimentais, intactos os v\u00ednculos familiares mais preciosos a Frank, principalmente na figura de sua m\u00e3e, Edith Schaeffer. Para muitos, o tom de admira\u00e7\u00e3o e respeito em rela\u00e7\u00e3o aos pais \u00e9 mais moderado em <em>\u201cSex, Mom and God\u201d<\/em>, ainda que o t\u00edtulo e a tem\u00e1tica pare\u00e7am mais controversos, \u00e0 primeira vista.<\/p>\n<p>Aqui vale uma impress\u00e3o mais aned\u00f3tica. No livro Franky descreveu a si mesmo como um &#8220;cabe\u00e7a-quente destemperado&#8221;, mas n\u00e3o parece ter mudado muito ao longo de sua vida; desde cedo se percebeu, inclusive por <em>workers<\/em> de L\u2019Abri que cuidaram dele na inf\u00e2ncia, que ele sempre com raiva de alguma coisa. No seu momento \u201cevang\u00e9lico\u201d, atacou duramente o secularismo (<em>\u201cA Time for Anger\u201d<\/em>); depois atacou a mediocridade evang\u00e9lica por dentro; depois a partir de fora; rompeu com quase todos os amigos dos tempos de L\u2019Abri; e um de seus \u00faltimos movimentos foi o conflito e abandono do Cristianismo Ortodoxo Oriental, cuja espiritualidade ele vira como solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\"><strong>Mais Sat\u00e9lites?<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Mas at\u00e9 a pior caracter\u00edstica de Frank pode ter sua import\u00e2ncia, embora por um vi\u00e9s bastante tr\u00e1gico. \u00c9 que, como Frank em suas fases, muitos cr\u00edticos da \u201cortodoxia reformada\u201d, tristemente, n\u00e3o s\u00e3o movidos pelo amor ou pela descoberta de uma ideia ou pratica verdadeiramente bela, apaixonante e criadora; tudo o que sabem \u00e9 no que n\u00e3o querem acreditar. Mas isso n\u00e3o os torna muito diferentes de almas penadas, vagando como sat\u00e9lites em torno de seus captores. Falta-lhes a percep\u00e7\u00e3o de que ainda s\u00e3o verdadeiramente definidos, embora negativamente, pelas \u201cortodoxias mortas\u201d que querem combater. Esse n\u00e3o \u00e9 um bom modo de existir; a fealdade pode desviar nossos olhos da beleza por um instante, mas s\u00f3 uma beleza maior deveria faz\u00ea-lo para sempre.<\/p>\n<p>Nesse sentido \u00e9 tr\u00e1gico encontrar crentes cansados da f\u00e9 evang\u00e9lica, no Brasil, tomando Frank Schaeffer como refer\u00eancia, por sua cr\u00edtica ao evangelicismo tradicional. Sem saber, aliam-se n\u00e3o apenas a um dos mentores confessos da direita crist\u00e3 americana (mais do que o pr\u00f3prio Schaeffer), mas a uma personalidade nada dial\u00f3gica. De que adianta livrar-se do \u201cfundamentalismo doutrinal\u201d e substitu\u00ed-lo por um esp\u00edrito amargo?<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o s\u00e3o apenas os \u201ccrentes c\u00ednicos\u201d que precisam recalcular suas \u00f3rbitas. Um desiludido como Frank j\u00e1 foi um fundamentalista ressentido. O pr\u00f3prio Schaeffer foi um desses, antes da crise espiritual que o levou a fundar o L\u2019Abri e a escrever \u201cA Verdadeira Espiritualidade\u201d. Os fundamentalistas e conservadores ressentidos deveriam reconsiderar sua posi\u00e7\u00e3o e voltar atr\u00e1s, se n\u00e3o pelo exemplo de Francis, ao menos pela trajet\u00f3ria de Frank. Pois o esgotamento espiritual e o cinismo s\u00e3o o futuro de cada fundamentalista enraivecido, assim como a fixa\u00e7\u00e3o fundamentalista \u00e9 o passado de cada c\u00ednico amargurado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\"><strong>Schaeffer, e Al\u00e9m&#8230;<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Uma das raz\u00f5es porque L\u2019Abri sobreviveu a Schaeffer \u00e9 que, percebendo o erro de definir-se pelo ressentimento que marca uma parte significativa da direita religiosa americana (n\u00e3o toda ela, diga-se), preferiu retornar a seu <em>ethos<\/em> original, caracterizado pela hospitalidade e di\u00e1logo, sem preju\u00edzo da verdade e da confiss\u00e3o da f\u00e9. A decis\u00e3o de se afastar da rota de <em>Franky<\/em> e se aproximar do caminho de <em>Francis<\/em> foi crucial para essa sobreviv\u00eancia. A \u00eanfase de Schaeffer no \u201cfalar a verdade em amor\u201d continua sendo o cora\u00e7\u00e3o de L\u2019Abri.<\/p>\n<p>Enfim, ir al\u00e9m de Schaeffer n\u00e3o significa, apenas, aprender com seus erros; e com certeza n\u00e3o significa desaprender as boas li\u00e7\u00f5es que ele deixou. Em termos de teologia, espiritualidade crist\u00e3 e di\u00e1logo cultural, h\u00e1 tanto que Schaeffer apenas rascunhou! Seus admiradores n\u00e3o deveriam permanecer paralisados, nem diante de seus erros, nem diante de seus acertos. Conv\u00e9m que Schaeffer diminua, para que Cristo cres\u00e7a. E isso vale para todos n\u00f3s.<\/p>\n<p><em><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/2012\/02\/08\/francis-schaeffer-para-o-seculo-21\/\" target=\"_blank\">SAIBA MAIS SOBRE FRANCIS SCHAEFFER <strong>AQUI<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Por Rodolfo Amorim e Guilherme de Carvalho O livro Crazy for God, de Frank Schaeffer (2007, Carrol &amp; Graf), causou sensa\u00e7\u00e3o entre admiradores e cr\u00edticos do apologista Francis Schaeffer, fundador de L\u2019Abri e pai do autor; mas acima de tudo, entre as pessoas preocupadas com a rela\u00e7\u00e3o entre pol\u00edtica e religi\u00e3o na Am\u00e9rica do [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":23,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[8229],"tags":[11691,5563,26832],"class_list":["post-621","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-labri","tag-etica-e-comportamento","tag-francis-schaeffer","tag-labri","count-0","even alt","author-guilhermevrc","last"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/621","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/users\/23"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=621"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/621\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":624,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/621\/revisions\/624"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=621"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=621"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=621"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}