{"id":548,"date":"2012-07-24T02:10:58","date_gmt":"2012-07-24T05:10:58","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/?p=548"},"modified":"2012-07-25T11:41:19","modified_gmt":"2012-07-25T14:41:19","slug":"como-ser-voce-mesmo-parte-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/2012\/07\/24\/como-ser-voce-mesmo-parte-2\/","title":{"rendered":"Como ser voc\u00ea mesmo &#8211; Parte 2"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p>De que modo nossa identidade se relaciona com o que fazemos? Essa pergunta foi introduzida<a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/2012\/07\/04\/como-ser-voce-mesmo-parte-1\/\" target=\"_blank\"> no artigo anterior sobre identidade,<\/a> e aqui vamos avan\u00e7ar em nossa reflex\u00e3o, mas dessa vez mergulhando um pouquinho mais no texto b\u00edblico. Vamos retomar a quest\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o entre o Ser e o Agir, sob os termos &#8220;gra\u00e7a&#8221; e &#8220;obras&#8221;, focalizando G\u00eanesis 1-2 e Romanos 12.<\/p>\n<p>Como mencionamos no artigo anterior, a identidade humana \u00e9 insepar\u00e1vel da rela\u00e7\u00e3o do homem com Deus. O homem \u00e9 mesmo definido por essa rela\u00e7\u00e3o, de modo que toda reflex\u00e3o sobre a identidade humana atingir\u00e1 um n\u00facleo fundamentalmente teol\u00f3gico. Mas aten\u00e7\u00e3o: \u00e9 f\u00e1cil se confundir aqui. Muitas pessoas concordar\u00e3o que, naturalmente, isso \u00e9 assim para os crist\u00e3os; eles buscar\u00e3o representar o homem a partir de sua concep\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica, que \u00e9 vista ent\u00e3o com um &#8220;acr\u00e9scimo edificante&#8221; a um saber que por natureza \u00e9 neutro e fundado na antropologia cient\u00edfica ou filos\u00f3fica. Mas n\u00e3o \u00e9 disso \u00e9 falamos; <!--more--> se a identidade humana for mesmo um s\u00edmbolo de Deus, um espelho da divindade, ela ser\u00e1 necessariamente misteriosa de um ponto de vista n\u00e3o-teol\u00f3gico, ou n\u00e3o judaico-crist\u00e3o; no lugar de reivindicar uma palavra definitiva sobre o homem, os outros saberes, se n\u00e3o quiserem ser falsos, se calar\u00e3o em sil\u00eancio. E se n\u00e3o se calarem, \u00e9 por que s\u00e3o falsos; n\u00e3o por que foram assim declarados arbitrariamente, mas porque haver\u00e1 no pr\u00f3prio \u00e2mago do homem como que um buraco sem fundo. O que esses saberes podem descobrir, talvez, \u00e9 que esse buraco n\u00e3o d\u00e1 para baixo, mas para cima, e s\u00f3.<\/p>\n<p>E o crist\u00e3o proceder\u00e1 em sua investiga\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica: se o homem \u00e9 imagem de Deus, quem \u00e9 Deus? A mais b\u00e1sica das respostas \u00e9 tamb\u00e9m a mais \u00f3bvia: se o homem foi declarado feito \u00e0 imagem de Deus, em G\u00eanesis 1, importa saber como o pr\u00f3prio Deus se apresenta nesses primeiros cap\u00edtulos de G\u00eanesis. E a\u00ed descobrimos diversas coisas salutares. A primeira \u00e9 que Deus \u00e9 o criador e o aben\u00e7oador de sua cria\u00e7\u00e3o, o que de imediato estabelece o pano de fundo para a compreens\u00e3o da tarefa do homem rec\u00e9m-criado, de cultivar e guardar o jardim de Deus; e como este trabalhou seis dias e descansou no s\u00e9timo, o homem deve trabalhar seis dias, cultivando e protegendo, e descansar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: medium;\">D\u00e1diva divina e Obra<\/span><span style=\"font-size: medium;\"> humana<\/span><\/strong><\/p>\n<p>Mas o que significa o s\u00e9timo dia? Na imagem de mundo pag\u00e3, t\u00edpica do crescente f\u00e9rtil sob influ\u00eancia sum\u00e9ria, os homens teriam sido criados para serem escravos dos deuses, aliviando a sua carga de produzir alimentos e servindo-os com sacrif\u00edcios. Quando os deuses enviaram o dil\u00favio, para eliminar o homem da terra (pois este fazia barulho demais!) houve grande fome no c\u00e9u, com o fim dos sacrif\u00edcios. At\u00e9 que o &#8220;no\u00e9&#8221; sum\u00e9rio-babil\u00f4nico ofereceu um sacrif\u00edcio e, de acordo com o mito, &#8220;os deuses se amontoaram em torno do altar como moscas&#8221;.<\/p>\n<p>O Criador B\u00edblico \u00e9 completamente diferente. Ele n\u00e3o cria o homem porque se cansou de trabalhar, como se houvesse um castigo eterno sobre ele. O Criador tem poder absoluto, e por isso \u00e9 capaz de concluir o trabalho. O s\u00e9timo dia n\u00e3o est\u00e1 ali, em G\u00eanesis, para sugerir que Deus se cansou de trabalhar; pelo contr\u00e1rio, est\u00e1 ali para dizer que o Deus todo-poderoso \u00e9 o \u00fanico capaz de construir algo perfeito e completo, e que por isso n\u00e3o depende do trabalho humano! E ele n\u00e3o se alimenta dos sacrif\u00edcios do homem; pelo contr\u00e1rio, ele \u00e9 que planta um jardim para alimentar o homem. Tudo isso est\u00e1 embutido na vis\u00e3o hebraica de s\u00e1bado. E assim compreendemos o seu significado: o s\u00e9timo dia significa que todo o trabalho humano, seja ele qual for (excluindo-se a escravid\u00e3o e a aliena\u00e7\u00e3o), <em>deveria ser<\/em> uma resposta ao trabalho divino e assim, essencialmente, um desfrute; n\u00f3s cultivamos um jardim que <em>Ele<\/em> plantou; edificamos uma casa que <em>Ele<\/em> construiu; vigiamos uma cidade que <em>Ele<\/em> guardou; &#8220;porque pela gra\u00e7a sois salvos, mediante a f\u00e9; e isso n\u00e3o vem de v\u00f3s, \u00e9 dom de Deus; n\u00e3o vem de obras, para que ningu\u00e9m se glorie. Pois somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou de antem\u00e3o para que and\u00e1ssemos nelas&#8221; (Ef\u00e9sios 2.8-10).<\/p>\n<p>De certa forma, ent\u00e3o, a a\u00e7\u00e3o criadora e formativa que o homem exerce no trabalho n\u00e3o-alienado \u00e9 uma express\u00e3o divina; Deus \u00e9 o criador, e o homem \u00e9 um co-criador criado. Mas todo o trabalho humano \u00e9 secund\u00e1rio em rela\u00e7\u00e3o ao trabalho divino, e a cada sete dias o homem deve parar e se lembrar disso: ao trabalhar, o homem se torna aquilo que \u00e9, ou que foi feito para ser; ele cultiva e guarda um jardim, mas ele e o jardim foram plantados por Deus. A a\u00e7\u00e3o \u00e9 parte e resposta necess\u00e1ria ao ser, mas a a\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem prioridade sobre o ser. A d\u00e1diva \u00e9 o fundamento de tudo o que o homem faz e daquilo em que ele se torna, se vive em comunh\u00e3o com Deus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;\"><strong>Destrui\u00e7\u00e3o e Renova\u00e7\u00e3o da Identidade<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Em sua carta aos Romanos, o ap\u00f3stolo Paulo nos presenteia com uma maravilhosa exposi\u00e7\u00e3o do seu Evangelho. Como normalmente se observa, a primeira parte da carta, que vai do cap\u00edtulo 1 ao cap\u00edtulo 11, tem um foco doutrinal bem evidente; e do cap\u00edtulo 12 em diante o texto ganha um teor mais exortativo, de aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica. Assim \u00e9 comum admitir que, o que quer que seja apresentado do cap\u00edtulo 12 em diante, trata-se de uma aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica do que est\u00e1 no princ\u00edpio.<\/p>\n<p>Em concord\u00e2ncia com alguns exegetas, quero fazer uma sugest\u00e3o adicional: o cap\u00edtulo 1 e o cap\u00edtulo 12 de Romanos tem uma rela\u00e7\u00e3o especial, pois o primeiro visa expor a condi\u00e7\u00e3o humana <em>sem<\/em> o evangelho, e o outro visa exp\u00f4r as possibilidades humanas <em>com<\/em> o evangelho. E no centro da quest\u00e3o humana est\u00e1 o que nos interessa agora: o problema da identidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>1 Portanto, irm\u00e3os, rogo-lhes pelas miseric\u00f3rdias de Deus que se ofere\u00e7am em sacrif\u00edcio vivo, santo e agrad\u00e1vel a Deus; este \u00e9 o culto racional de voc\u00eas.<br \/>\n2 N\u00e3o se amoldem ao padr\u00e3o deste mundo, mas transformem-se pela renova\u00e7\u00e3o da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agrad\u00e1vel e perfeita vontade de Deus.<br \/>\n3 Pois pela gra\u00e7a que me foi dada digo a todos voc\u00eas: ningu\u00e9m tenha de si mesmo um conceito mais elevado do que deve ter; mas, pelo contr\u00e1rio, tenha um conceito equilibrado, de acordo com a medida da f\u00e9 que Deus lhe concedeu.<\/em><\/p>\n<p>(Carta de Paulo aos Romanos 12.1-3)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>J\u00e1 nesses primeiros versos temos um retorno daqueles temas fundamentais de G\u00eanesis 1-2, e do ensino da gra\u00e7a de Deus como a base para tudo o que n\u00f3s somos:<\/p>\n<p>&#8211; Primeiro, as miseric\u00f3rdias de Deus s\u00e3o referidas como o fundamento do que fazemos &#8211; o cap\u00edtulo 11 \u00e9 encerrado com um louvor \u00e0 miseric\u00f3rdia de Deus, e o cap\u00edtulo 12 se abre com uma convoca\u00e7\u00e3o ao sacrif\u00edcio de toda a vida a Deus, sobre a base de sua demonstra\u00e7\u00e3o de miseric\u00f3rdia;<br \/>\n&#8211; Em seguida, o texto fala sobre a renova\u00e7\u00e3o da mente; n\u00e3o apenas de novas id\u00e9ias, mas de um &#8220;paladar&#8221; renovado, de uma mudan\u00e7a na <em>natureza da percep\u00e7\u00e3o<\/em>. Paulo fala sobre ser capaz de &#8220;provar&#8221; a vontade de Deus como algo bom, perfeito e agrad\u00e1vel. De certa forma, ele fala sobre uma mudan\u00e7a de percep\u00e7\u00e3o est\u00e9tica; o que era mau fica bom e o bom fica mau; o que parecia feio, fica bonito, e o que o mundo acha bonito agora \u00e9 feio; o que antes cheirava bem, agora fede; e o que antes parecia cheirar mal, agora \u00e9 perfume.<br \/>\n&#8211; Finalmente, Paulo fala sobre a necessidade de pensarmos diferentemente a respeito de&#8230; n\u00f3s mesmos! Porque ser\u00e1 que o ap\u00f3stolo introduziu esse tema exatamente aqui?<\/p>\n<p>Para entender o que est\u00e1 acontecendo, precisamos voltar a Romanos, cap\u00edtulo 1. Ali Paulo se refere aos tr\u00eas pontos acima, quando descreve a nossa condi\u00e7\u00e3o como seres humanos ca\u00eddos:<br \/>\n<em><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>18 Portanto, a ira de Deus \u00e9 revelada do c\u00e9u contra toda impiedade e injusti\u00e7a dos homens que suprimem a verdade pela injusti\u00e7a,<br \/>\n19 pois o que de Deus se pode conhecer \u00e9 manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou.<br \/>\n20 Pois desde a cria\u00e7\u00e3o do mundo os atributos invis\u00edveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, t\u00eam sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas, de forma que tais homens s\u00e3o indesculp\u00e1veis;<br \/>\n21 porque, tendo conhecido a Deus, n\u00e3o o glorificaram como Deus, nem lhe renderam gra\u00e7as, mas os seus pensamentos tornaram-se f\u00fateis e os seus cora\u00e7\u00f5es insensatos se obscureceram.<br \/>\n22 Dizendo-se s\u00e1bios, tornaram-se loucos<br \/>\n23 e trocaram a gl\u00f3ria do Deus imortal por imagens feitas segundo a semelhan\u00e7a do homem mortal, bem como de p\u00e1ssaros, quadr\u00fapedes e r\u00e9pteis.<br \/>\n24 Por isso Deus os entregou \u00e0 impureza sexual, segundo os desejos pecaminosos dos seus cora\u00e7\u00f5es, para a degrada\u00e7\u00e3o dos seus corpos entre si.<br \/>\n25 Trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram a coisas e seres criados, em lugar do Criador, que \u00e9 bendito para sempre. Am\u00e9m.<br \/>\n26 Por causa disso Deus os entregou a paix\u00f5es vergonhosas. At\u00e9 suas mulheres trocaram suas rela\u00e7\u00f5es sexuais naturais por outras, contr\u00e1rias \u00e0 natureza.<br \/>\n27Da mesma forma, os homens tamb\u00e9m abandonaram as rela\u00e7\u00f5es naturais com as mulheres e se inflamaram de paix\u00e3o uns pelos outros. Come\u00e7aram a cometer atos indecentes, homens com homens, e receberam em si mesmos o castigo merecido pela sua pervers\u00e3o.<br \/>\n28 Al\u00e9m do mais, visto que desprezaram o conhecimento de Deus, ele os entregou a uma disposi\u00e7\u00e3o mental reprov\u00e1vel, para praticarem o que n\u00e3o deviam.<\/em><\/p>\n<p>(Carta aos Romanos 1.18-28)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8211; Temos ent\u00e3o, primeiro, que os homens tinham o conhecimento de Deus, mas se tornaram ingratos, falhando em ador\u00e1-lo. A ingratid\u00e3o surge, assim, como o elemento vertical do pecado original;<br \/>\n&#8211; Para buscar consist\u00eancia dentro da ingratid\u00e3o, os homens reconstroem suas imagens do universo eliminando o Deus verdadeiro, e isso os conduz \u00e0 idolatria. Para viabilizar a substitui\u00e7\u00e3o de Deus por \u00eddolos, a mente humana precisa mergulhar na tolice e em racioc\u00ednios falsos. H\u00e1, pois, uma corrup\u00e7\u00e3o espiritual da racionalidade.<br \/>\n&#8211; Como resultado da ingratid\u00e3o e da loucura, os homens perdem a autocompreens\u00e3o. Isso se reflete na refer\u00eancia insistente ao pecado sexual. J\u00e1 se sugeriu que essa refer\u00eancia ao desvio sexual seria uma esp\u00e9cie de fixa\u00e7\u00e3o religiosa, mas esse tipo de leitura falha em reconhecer a estrutura ret\u00f3rica do texto. Paulo est\u00e1 fazendo aqui uma esp\u00e9cie de leitura midr\u00e1shica de G\u00eanesis; e em Gn 1.27-28 a imagem de Deus \u00e9 diretamente relacionada \u00e0 distin\u00e7\u00e3o entre macho (ish) e f\u00eamea (ishah) como modos do humano (Adam). A confus\u00e3o no &#8220;uso natural&#8221; do sexo, como as rela\u00e7\u00f5es de &#8220;homens com homens&#8221; e &#8220;mulheres com mulheres&#8221; \u00e9 no argumento paulino um exemplo paradigm\u00e1tico da confus\u00e3o na identidade humana, e da perda da capacidade de representar Deus. Em outras palavras, n\u00e3o se trata apenas de sexo, mas da identidade humana.<\/p>\n<p>Ora, n\u00e3o \u00e9 exatamente isso o que temos em Romanos 12? Toda a discuss\u00e3o sobre dons espirituais deve ser lida em uma luz muito diferente do que estamos acostumados atualmente. N\u00e3o se trata apenas de capacidades para o trabalho da igreja (que \u00e9, normalmente, o interesse principal de muitos l\u00edderes crist\u00e3os), mas dos dons como express\u00f5es de uma autocompreens\u00e3o renovada: aquele que (1) se livra da ingratid\u00e3o por meio das miseric\u00f3rdias de Deus, e (2) tem sua mente renovada para compreender e perceber a realidade de forma clara (3) necessariamente <em>se reencontrar\u00e1 a partir de um novo centro, que \u00e9 o Deus da gra\u00e7a. E assim sua identidade ser\u00e1 restaurada<\/em>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;\"><strong>O que \u00e9 &#8220;Renova\u00e7\u00e3o da Mente&#8221;?<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Para alguns leitores o salto em nosso racioc\u00ednio pode ter sido muito grande, ent\u00e3o vamos nos aproximar mais do texto para acompanhar os detalhes. Antes de tudo, \u00e9 preciso dar aten\u00e7\u00e3o para a transi\u00e7\u00e3o entre o verso 2 e o verso 3. Em nossas tradu\u00e7\u00f5es temos um &#8220;pois&#8221;, ou um &#8220;porque&#8221;. No grego, \u00e9 a part\u00edcula &#8220;gar&#8221;, um conectivo inferencial. Isso significa que o arrazoado que se segue, no verso 3, sobre a necessidade de &#8220;pensar de n\u00f3s mesmos como conv\u00e9m&#8221;, \u00e9 uma aplica\u00e7\u00e3o direta do ensino sobre a renova\u00e7\u00e3o da mente. Isso \u00e9 muito importante: renovar a mente n\u00e3o \u00e9 meramente refazer as nossas id\u00e9ias sobre o mundo; \u00e9, antes de tudo, reconsiderar a nossa posi\u00e7\u00e3o no mundo, o lugar que ocupamos. Isso \u00e9 altamente existencial; n\u00e3o estou dizendo que n\u00e3o seja doutrin\u00e1rio, mas que \u00e9 muito mais do que doutrin\u00e1rio. Na verdade, o conhecimento doutrin\u00e1rio que n\u00e3o alterar a nossa autocompreens\u00e3o e nosso lugar no mapa da realidade n\u00e3o \u00e9 ainda a renova\u00e7\u00e3o da mente da qual Paulo fala.<\/p>\n<p>E que essa renova\u00e7\u00e3o da mente n\u00e3o \u00e9 meramente obra da intelig\u00eancia ou da boa vontade do crist\u00e3o, fica muito claro no pr\u00f3prio verso 23, quando o ap\u00f3stolo diz que, para pensar de si mesmo como conv\u00e9m, o homem deve pensar de acordo com a &#8220;medida da f\u00e9 que Deus repartiu a cada um&#8221;. F\u00e9 (grego &#8220;pistis&#8221;), aqui, tem o mesmo sentido que logo \u00e0 frente, em Romanos 14.22-23: o de uma convic\u00e7\u00e3o de consci\u00eancia, uma intui\u00e7\u00e3o que algu\u00e9m tem diante de si mesmo e de Deus, \u00e0 qual deve obedecer. Paulo fala portanto de uma convic\u00e7\u00e3o interna e honesta, sem excessos megaloman\u00edacos, que nasce da rela\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m com Deus, sobre os dons e capacidades que ele recebeu.<\/p>\n<p>Essa &#8220;f\u00e9&#8221; deve ser diferenciada da mera autoconfian\u00e7a, a qual, por natureza, n\u00e3o diz respeito ao reconhecimento da d\u00e1diva divina, mas sim a um julgamento aut\u00f4nomo do homem sobre si mesmo que pode estar associado a uma baixa auto-estima ou a tend\u00eancias narc\u00edsicas. N\u00e3o; essa f\u00e9 diz respeito a uma gra\u00e7a recebida; \u00e9 uma convic\u00e7\u00e3o sobre o que sou capaz de fazer cujas ra\u00edzes s\u00e3o as mesmas da gratid\u00e3o: o sentido da gra\u00e7a divina, de que algo me foi dado e que preciso compartilhar; de que h\u00e1 um dom em minhas m\u00e3os, que n\u00e3o \u00e9 de mim mas est\u00e1 em mim, e precisa ser comunicado. Essa &#8220;f\u00e9&#8221; \u00e9 um sentido carism\u00e1tico, uma consci\u00eancia sacerdotal espec\u00edfica que cada crist\u00e3o tem e precisa alimentar.<\/p>\n<p>Renovar a mente \u00e9, ent\u00e3o, pensar a pr\u00f3pria exist\u00eancia a partir desse reconhecimento: da gra\u00e7a que est\u00e1 em mim, e que posso comunicar. Na medida em que minha exist\u00eancia se ordena em torno da gra\u00e7a que sei ter recebido, e do aprendizado de modos mais eficazes e puros de distribuir essa gra\u00e7a, ent\u00e3o minha identidade ser\u00e1 muito mais Cristo em mim do que simplesmente eu, at\u00e9 que eu possa dizer, como Paulo, &#8220;trabalhei mais do que todos eles&#8230; todavia n\u00e3o eu, mas a gra\u00e7a de Deus comigo&#8221;. O que seria se em cada espa\u00e7o da minha exist\u00eancia &#8211; trabalho, casa, igreja &#8211; o que sou fosse definido pela gra\u00e7a que transborda em mim, e nunca pelo molde do mundo ou de meus desejos e preconceitos carnais? \u00c9 disso que fala o restante de nosso trecho em Romanos 12.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;\"><strong>Dons<\/strong><strong> Espirituais, Comunidade e Identidade<br \/>\n<\/strong><\/span><\/p>\n<p><em>4 Assim como cada um de n\u00f3s tem um corpo com muitos membros e esses membros n\u00e3o exercem todos a mesma fun\u00e7\u00e3o,<br \/>\n5 assim tamb\u00e9m em Cristo n\u00f3s, que somos muitos, formamos um corpo, e cada membro est\u00e1 ligado a todos os outros.<br \/>\n6 Temos diferentes dons, de acordo com a gra\u00e7a que nos foi dada. Se algu\u00e9m tem o dom de profetizar, use-o na propor\u00e7\u00e3o da sua f\u00e9<br \/>\n7 Se o seu dom \u00e9 servir, sirva; se \u00e9 ensinar, ensine;<br \/>\n8 se \u00e9 dar \u00e2nimo, que assim fa\u00e7a; se \u00e9 contribuir, que contribua generosamente; se \u00e9 exercer lideran\u00e7a, que a exer\u00e7a com zelo; se \u00e9 mostrar miseric\u00f3rdia, que o fa\u00e7a com alegria.<\/em><\/p>\n<p>(Romanos 12:4-8)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 nesse argumento em torno da autocompreens\u00e3o que se inserem as refer\u00eancias de Paulo aos dons espirituais nos versos seguintes. Os versos 4 a 6 falam sobre o corpo de Cristo por meio de um movimento de racioc\u00ednio que vai do reconhecimento da unidade para a \u00eanfase na diversidade, com a qual a listagem de dons \u00e9 introduzida na metade do verso 6. E a origem desses diferentes dons \u00e9 &#8220;a gra\u00e7a que nos foi dada&#8221;, diz o verso 6.<\/p>\n<p>Por isso mesmo, cada um deles deve ser exercido segundo a propor\u00e7\u00e3o da &#8220;f\u00e9&#8221;, come\u00e7ando com a profecia. Quem profetizar\u00e1, e com qual intensidade e ousadia o far\u00e1, depende da gra\u00e7a e da consci\u00eancia carism\u00e1tica que cada um tem. Um se sabe profeta; outro di\u00e1cono; outro administrador, e outro filantropo; o importante \u00e9 que cada um fa\u00e7a o que \u00e9 seu pr\u00f3prio, sem imaginar-se outra coisa, sem tentar se fazer \u00e0 imagem do pr\u00f3ximo, sem desprezar nem supervalorizar a si mesmo. Cada um deve aprender a gratid\u00e3o, e servir a partir daquilo que recebeu, com alegria. Cada um deve forjar sua vis\u00e3o de si mesmo a partir do dom divino.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 isso bem diferente do que estamos acostumados a ouvir? Muitas vezes n\u00f3s, l\u00edderes crist\u00e3os (e eu mesmo sou culpado desse erro tamb\u00e9m) empregamos o discurso sobre dons espirituais apenas para movimentar o povo crist\u00e3o, para fazer o trabalho avan\u00e7ar, mas n\u00e3o nos preocupamos muito com o que isso significa para o pr\u00f3prio crist\u00e3o. Mas a quest\u00e3o \u00e9 muito mais s\u00e9ria do que o lugar de algu\u00e9m &#8220;na equipe&#8221;. A quest\u00e3o de fundo \u00e9 a pr\u00f3pria identidade de cada crist\u00e3o, e n\u00e3o podemos jogar com isso de forma pragm\u00e1tica. Os dons espirituais tem a ver, sim, com o funcionamento org\u00e2nico da igreja; mas esse funcionamento org\u00e2nico \u00e9 inquebravelmente dependente da individualidade robusta e madura de cada pessoa. <em>A identidade da igreja como Corpo de Cristo, em cada lugar, n\u00e3o \u00e9 algo que possa ser obtido sem a identidade de cada membro ser firmemente estabelecida.<\/em> Como ensinou <em>Soren Kierkegaard:<\/em> n\u00e3o h\u00e1 comunidade forte sem indiv\u00edduos fortes; sem eles temos apenas a coletividade, a massa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;\"><strong>Concluindo&#8230;<\/strong><\/span><\/p>\n<p>As Escrituras nos convidam a pensar quem somos de um modo muit\u00edssimo diferente de como o mundo imp\u00f5e, com seus moldes. Na antiguidade, o homem deveria se ver como escravo dos deuses, e o G\u00eanesis foi inspirado por Deus, para ensinar que o Deus verdadeiro \u00e9 gra\u00e7a e a fonte do poder para trabalhar; que o homem \u00e9 definido pela d\u00e1diva divina. Hoje um dilema semelhante nos assalta; como citamos no artigo anterior, o terr\u00edvel peso da autodetermina\u00e7\u00e3o foi posto sobre os ombros de cada um pela modernidade, mas o homem n\u00e3o foi desenhado para suportar essa carga. A invers\u00e3o moderna de Ser e Agir \u00e9 insustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>Novamente, as Escrituras tem a resposta: n\u00e3o \u00e9 o meu desempenho, nem a minha carreira, nem os sistemas de valores da hipermodernidade que me definem; \u00e9 a gra\u00e7a de Deus o que me define. E na medida em que eu reconhecer a gra\u00e7a na minha vida, pela gratid\u00e3o, e distribuir essa gra\u00e7a aos outros pelo servi\u00e7o, essa identidade oculta se revelar\u00e1. Isso n\u00e3o significa, no entanto, que minha a\u00e7\u00e3o n\u00e3o faz diferen\u00e7a; pelo contr\u00e1rio, ela \u00e9 o lugar no qual a gra\u00e7a de Deus se expressa e se aperfei\u00e7oa. \u00c9 como acontece com a salva\u00e7\u00e3o: n\u00e3o sou salvo pelas obras, em sim pela f\u00e9; mas nas obras a f\u00e9 se aperfei\u00e7oa e ganha concretude.<\/p>\n<p>Embora ainda haja muito o que dizer sobre identidade, essa \u00e9 a resposta definitiva \u00e0 interroga\u00e7\u00e3o sobre quem eu sou: o mundo n\u00e3o pode dizer isso, e tampouco eu posso dizer a mim mesmo o que serei: a resposta ser\u00e1 encontrada olhando para Ele, e servindo em seu jardim.<\/p>\n<p>O sentido de identidade \u00e9 um dom reservado aos que aprendem o caminho da gratid\u00e3o; e a gratid\u00e3o se realiza quando nos levantamos para servir uns aos outros com aquilo que temos. Na gratid\u00e3o, ser e a\u00e7\u00e3o, gra\u00e7a e obras, tem o seu ponto de converg\u00eancia; e \u00e9 nesse lugar que encontramos a n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; De que modo nossa identidade se relaciona com o que fazemos? Essa pergunta foi introduzida no artigo anterior sobre identidade, e aqui vamos avan\u00e7ar em nossa reflex\u00e3o, mas dessa vez mergulhando um pouquinho mais no texto b\u00edblico. Vamos retomar a quest\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o entre o Ser e o Agir, sob os termos &#8220;gra\u00e7a&#8221; e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":23,"featured_media":549,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[116,7642],"tags":[11691,9877,164],"class_list":["post-548","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","category-sociedade","tag-etica-e-comportamento","tag-identidade","tag-vida-crista","count-0","even alt","author-guilhermevrc","last"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/548","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/users\/23"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=548"}],"version-history":[{"count":15,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/548\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":565,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/548\/revisions\/565"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/media\/549"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=548"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=548"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=548"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}