{"id":488,"date":"2012-06-04T00:23:33","date_gmt":"2012-06-04T03:23:33","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/?p=488"},"modified":"2012-06-04T11:46:54","modified_gmt":"2012-06-04T14:46:54","slug":"o-atomismo-social-segundo-charles-taylor-e-a-espiritualidade-crista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/2012\/06\/04\/o-atomismo-social-segundo-charles-taylor-e-a-espiritualidade-crista\/","title":{"rendered":"O Atomismo Social segundo Charles Taylor, e a Espiritualidade Crist\u00e3"},"content":{"rendered":"<h3><\/h3>\n<p><em><strong>Do Contra<\/strong><\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 de hoje que procuro meios eficientes e interessantes de criticar a experi\u00eancia moderna de autonomia humana. N\u00e3o que eu rejeite completamente a no\u00e7\u00e3o de autonomia ou, falando de forma bem mais abrangente, a id\u00e9ia de liberdade humana; mas j\u00e1 chega de modernidade, n\u00e9? Essa coisa n\u00e3o deu certo mesmo (e nem era para dar certo). Seu ideal antropol\u00f3gico &#8211; do homem absolutamente aut\u00f4nomo, feliz da vida criando mundos demiurgicamente, &#8220;livre&#8221; dos constrangimentos da autoridade, da tradi\u00e7\u00e3o, e da religi\u00e3o n\u00e3o passa de um mito naturalizado, que j\u00e1 est\u00e1 comendo o pr\u00f3prio rabo faz tempo. <!--more--><\/p>\n<p>E nem me venham falar de p\u00f3s-modernidade. Ao menos, n\u00e3o da sua vers\u00e3o consumista, massificada, ideol\u00f3gica, com um discurso sobre pessoas &#8220;diferentes&#8221;, e sobre &#8220;pluralidade&#8221;, na qual a diferen\u00e7a \u00e9 afirmada atrav\u00e9s de sua redu\u00e7\u00e3o \u00e0 insignific\u00e2ncia (n\u00e3o importa se temos valores diferentes, pois nossos valores s\u00e3o igualmente infundados); e na qual cada indiv\u00edduo se desliga de tradi\u00e7\u00f5es e constrangimentos externos para refor\u00e7ar a sua &#8220;individualidade&#8221; contra a homogeneiza\u00e7\u00e3o institucional &#8211; mas com isso alcan\u00e7a apenas um status de &#8220;consumidor exigente&#8221;.<\/p>\n<p>O problema da p\u00f3s-modernidade real &#8211; ao contr\u00e1rio daquela idealizada por alguns te\u00f3ricos militantes &#8211; \u00e9 que ela \u00e9 moderna demais.<\/p>\n<p>Pois bem, como eu ia dizendo, me sinto muito feliz (sim, isso n\u00e3o parece nem um pouco objetivo) quando encontro insights interessantes sobre a inviabilidade do que chamo de &#8220;ideal libert\u00e1rio&#8221;, que Dooyeweerd chamaria de &#8220;ideal de personalidade livre&#8221;; as propostas, presentes na economia, na pol\u00edtica, e ainda extremamente fortes no campo do pensamento acad\u00eamico, que pressup\u00f5e e\/ou promovem os direitos e poderes do indiv\u00edduo \u00e0s expensas da sociedade. Aqui, por exemplo, eu incluiria o &#8220;dogma da autonomia religiosa da raz\u00e3o&#8221; &#8211; a id\u00e9ia de que exista um pensamento te\u00f3rico livre de influ\u00eancia religiosa &#8211; o pensamento pol\u00edtico e econ\u00f4mico liberal, especialmente em sua forma an\u00e1rquica, e a pol\u00edtica socialista do trabalhismo brasileiro, de fortalecer indiv\u00edduos contra v\u00ednculos comunit\u00e1rios como a fam\u00edlia, a religi\u00e3o, as escolas, etc, para control\u00e1-los de modo mais eficiente atrav\u00e9s do Estado &#8211; um uso estatista do liberalismo.<\/p>\n<p>E incluiria tamb\u00e9m parte da atitude evang\u00e9lica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 igreja e \u00e0 sociedade.<\/p>\n<p><em><strong>Charles Taylor on Atomism<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Charles Taylor \u00e9 um dos mais geniais representantes do movimento normalmente denominado<a href=\"http:\/\/img.timeinc.net\/time\/daily\/2007\/0703\/charles_taylor0314.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft\" style=\"border: 0pt none;\" src=\"http:\/\/img.timeinc.net\/time\/daily\/2007\/0703\/charles_taylor0314.jpg\" alt=\"\" width=\"226\" height=\"260\" border=\"0\" \/><\/a> &#8220;Comunitarismo&#8221;, que recoloca de forma criativa o tema da comunidade na discuss\u00e3o sobre pol\u00edtica, direitos humanos e ordem social, sem cair na velha armadilha de simplesmente favorecer o Estado contra o indiv\u00edduo (e isto \u00e9 uma distin\u00e7\u00e3o conceitual importante entre &#8220;socialismo&#8221; e &#8220;comunitarismo&#8221;). Em termos bem gerais, os comunitaristas se op\u00f5e a toda interpreta\u00e7\u00e3o de justi\u00e7a pol\u00edtica, direitos humanos e ordem social que afirme a prioridade dos indiv\u00edduos contra as suas rela\u00e7\u00f5es com outros seres humanos e com a sociedade. Outros nomes famosos do comunitarismo s\u00e3o Alasdair MacIntyre, Michael Sandel e Michael Walzer.<\/p>\n<p>Sim, nem tudo o que Taylor diz me deixa feliz. Me incomoda, em especial, o seu Hegelianismo, do que eu sou um oponente incondicional. Mesmo assim suas percep\u00e7\u00f5es sobre a natureza do indiv\u00edduo fazem sentido.<\/p>\n<p>Um artigo importante de Taylor a respeito, que vou comentar aqui, \u00e9 Atomism (Atomismo) &#8211; um termo realmente perfeito para sintetizar a discuss\u00e3o. O artigo foi publicado inicialmente em <em>Philosophy and the Human Sciences<\/em> (1985) e depois na colet\u00e2nea <em>Communitarianism and Individualism<\/em>, de Avineri e de-Shalit (Oxford Readings in Politics and Government, 1992, 237 pp.), aonde o li.<\/p>\n<p>Taylor descreve &#8220;atomismo&#8221; como uma caracter\u00edstica das teorias de contrato social e outras cuja pressuposi\u00e7\u00e3o b\u00e1sica \u00e9 a vis\u00e3o da sociedade como &#8220;em algum sentido constitu\u00edda por indiv\u00edduos para o cumprimento de fins primariamente individuais&#8221; (p. 29). A primazia dos direitos individuais se encontra no pr\u00f3prio centro dessa tradi\u00e7\u00e3o (p. 30), segundo a qual nenhum indiv\u00edduo tem a obriga\u00e7\u00e3o de pertencer, mas apenas direitos; o &#8220;contrato&#8221; \u00e9 estabelecido para viabilizar a realiza\u00e7\u00e3o dos direitos, de modo que assim obriga\u00e7\u00f5es s\u00e3o adquiridas. Autonomia individual \u00e9, portanto, a priori, e obriga\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias seriam a posteriori.<\/p>\n<p>Para conferir plausibilidade a essa interpreta\u00e7\u00e3o dos direitos, o atomismo precisa afirmar algum tipo de auto-sufici\u00eancia do indiv\u00edduo (p. 32) &#8211; chegamos, portanto, a uma determinada vis\u00e3o do Self, e a uma antropologia.<\/p>\n<p>De acordo com Taylor, atribu\u00edmos direitos aos homens porque eles exibem certas capacidades dignas de respeito (33), sendo na verdade imposs\u00edvel racionalmente atribuir esses direitos desconsiderando completamente essas capacidades. Ele toma como exemplo particular a capacidade da liberdade, e levanta a quest\u00e3o:<\/p>\n<p><em>Se n\u00e3o podemos atribuir direitos naturais sem afirmar a dignidade de certas capacidades humanas, e se esta afirma\u00e7\u00e3o tem outras consequ\u00eancias normativas (ou seja, que dever\u00edamos estimular e nutrir essas capacidades em n\u00f3s mesmos e em outros), ent\u00e3o qualquer prova de que essas capacidades s\u00f3 podem se desenvolver em sociedade ou em uma sociedade de um certo tipo \u00e9 uma prova de que devemos pertencer ou sustentar a sociedade ou este tipo de sociedade. Mas ent\u00e3o [&#8230;] a afirma\u00e7\u00e3o da prioridade dos direitos ser\u00e1 imposs\u00edvel; pois afirmar os direitos em quest\u00e3o \u00e9 afirmar as capacidades e, uma vez que a tese social seja verdadeira no que tange a essas capacidades, implicar\u00e1 para n\u00f3s uma obriga\u00e7\u00e3o de pertencer (35-36)<\/em><\/p>\n<p>Nesse caso, portanto, as obriga\u00e7\u00f5es para com a sociedade n\u00e3o seriam o resultado adicional de um contrato, mas obriga\u00e7\u00f5es inerentes \u00e0 exist\u00eancia humana completa.<\/p>\n<p>Taylor prossegue para mostrar que essa capacidade (a liberdade) \u00e9 completamente dependente de uma sociedade complexa para emergir e se manter. A interpreta\u00e7\u00e3o libert\u00e1ria (n\u00e3o se pode julgar moralmente a liberdade individual) da liberdade s\u00f3 pode ser contradit\u00f3ria, portanto, na medida em que torna poss\u00edvel a contradi\u00e7\u00e3o ou destrui\u00e7\u00e3o da sociedade que habilita o homem a ter a capacidade da liberdade. A mera afirma\u00e7\u00e3o de um direito envolve, em si mesma, o reconhecimento de uma obriga\u00e7\u00e3o de pertencer.<\/p>\n<p>Agora, um ponto muito importante: a tradi\u00e7\u00e3o Hobbesiana de descrever o estado de natureza como um impulso para a realiza\u00e7\u00e3o de desejos (um nivelamento das capacidades humanas ao n\u00edvel de outros seres sencientes, biol\u00f3gicos) acaba por gerar uma interpreta\u00e7\u00e3o dos direitos individuais como o direito de satisfazer desejos, e tamb\u00e9m a ilus\u00e3o de que at\u00e9 as capacidades que dependem da vida social complexa (ao contr\u00e1rio das capacidades biol\u00f3gicas) s\u00e3o inatas e geram direitos. Isso nos ajuda a entender muito do que \u00e9 feito hoje em termos de direitos humanos. No campo da legisla\u00e7\u00e3o sobre sexualidade, por exemplo. Se voc\u00ea tem um desejo, ent\u00e3o tem um direito.<\/p>\n<p>Depois de uma discuss\u00e3o mais detalhada sobre a depend\u00eancia da liberdade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sociedade, Taylor responde \u00e0 quest\u00e3o:<\/p>\n<p><em>Em outras palavras, o indiv\u00edduo livre ou o agente moral aut\u00f4nomo pode apenas adquirir e manter a sua identidade em um certo tipo de cultura, com algumas facetas e atividades a que me referi brevemente. Mas essas e outras da mesma import\u00e2ncia n\u00e3o vem \u00e0 exist\u00eancia espontaneamente a cada instante sucessivo. Elas s\u00e3o mantidas por institui\u00e7\u00f5es e associa\u00e7\u00f5es que requerem estabilidade e continuidade e, frequentemente, tamb\u00e9m, apoio da sociedade como um todo [&#8230;] O meu argumento \u00e9 de que o indiv\u00edduo livre do Ocidente apenas \u00e9 o que \u00e9 em virtude de toda a sociedade e da civiliza\u00e7\u00e3o que o trouxe \u00e0 exist\u00eancia e que o nutre [&#8230;] (44-45) O ponto crucial aqui \u00e9 este: desde que o indiv\u00edduo livre pode apenas manter a sua identidade no interior de uma sociedade\/cultura de um certo tipo, ele precisa se preocupar com a forma dessa sociedade\/cultura como um todo (47)<\/em><\/p>\n<p>Taylor n\u00e3o poderia ser mais claro. \u00c9 simples. O atomismo \u00e9 imposs\u00edvel. N\u00e3o h\u00e1 um self autossuficiente, nem h\u00e1 direitos que se apliquem atomisticamente. O eu individual forte depende de uma comunidade forte, e os direitos individuais emergem inelutavelmente conectados a obriga\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias, a deveres de pertencimento e responsabilidade moral, a valores.<\/p>\n<p>Consequentemente, dir\u00edamos, n\u00e3o se pode criar direitos, juridicamente, com base em ideais ut\u00f3picos de liberdade humana, sem considerar cuidadosamente a rela\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos com as comunidades, sem atentar para os la\u00e7os pessoais e morais que sustentam os indiv\u00edduos e os direitos.<\/p>\n<p>No fundo, bem na base de tudo, entra a quest\u00e3o da identidade do indiv\u00edduo, que Taylor coloca muito bem:<\/p>\n<p><em>A tese esbo\u00e7ada acima sobre as condi\u00e7\u00f5es sociais da liberdade \u00e9 baseada na no\u00e7\u00e3o, em primeiro lugar, de que a liberdade desenvolvida requer uma certa compreens\u00e3o do self, na qual as aspira\u00e7\u00f5es \u00e0 autonomia se tornam conceb\u00edveis; e, em segundo lugar, que essa auto-compreens\u00e3o n\u00e3o \u00e9 alguma coisa que possamos sustentar por n\u00f3s mesmos, mas que nossa identidade \u00e9 sempre parcialmente definida na conversa\u00e7\u00e3o com outros ou trav\u00e9s da compreens\u00e3o comum que subjaz \u00e0s pr\u00e1ticas da nossa sociedade. A tese \u00e9 de que a identidade do indiv\u00edduo aut\u00f4nomo, auto-determinado, requer uma matriz social que, atrav\u00e9s de uma s\u00e9rie de pr\u00e1ticas reconhe\u00e7a o direito \u00e0 decis\u00e3o aut\u00f4noma e que clame pela voz individual na delibera\u00e7\u00e3o sobre a a\u00e7\u00e3o p\u00fablica. O debate entre atomistas e seus oponentes vai bem fundo, portanto; ele toca a natureza da liberdade e, al\u00e9m disso, o que significa ser um sujeito humano; o que \u00e9 a identidade humana, e como ela \u00e9 definida e sustentada [&#8230;] (p. 49)<\/em><\/p>\n<p>A identidade humana, enfim!<\/p>\n<p><em><strong>Atomismo e Presen\u00e7a Crist\u00e3<\/strong><\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 muito dif\u00edcil extrair implica\u00e7\u00f5es do argumento de Taylor, que \u00e9 bastante convincente. O te\u00f3logo Helmut Thielicke, em sua antropologia teol\u00f3gica, j\u00e1 havia apontado o problema moderno, em especial no campo da racionalidade: a vis\u00e3o kantiana de autonomia (e moderna, enfim) \u00e9 problem\u00e1tica, na medida em que ignora as fontes do aut\u00f3s. O aut\u00f3s \u00e9 t\u00e3o dependente de uma teia de rela\u00e7\u00f5es, que somos obrigados a qualificar a &#8220;autonomia&#8221;.<\/p>\n<p>Em outras palavras, n\u00e3o h\u00e1 <em>autonomia<\/em> sem <em>heteronomia<\/em>, porque n\u00e3o h\u00e1 <em>autos<\/em> sem <em>heteros<\/em>. Nos termos de Taylor, n\u00e3o h\u00e1 self sem comunidade. O que implica, diretamente, a necessidade de reconciliar liberdade e lei\/norma, bem como individualidade e comunidade. Ou melhor, de compreender a sua rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De cara, a cr\u00edtica ao atomismo implicar\u00e1 mais uma linha de ataque contra o dogma da autonomia da raz\u00e3o &#8211; a id\u00e9ia de que o pensamento te\u00f3rico seja neutro em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o e ainda em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 f\u00e9, como dimens\u00e3o da experi\u00eancia humana. Implicar\u00e1, al\u00e9m do mais, em uma severa qualifica\u00e7\u00e3o do que eu consideraria uma das marcas mais importantes da pedagogia contempor\u00e2nea: a \u00eanfase na &#8220;autonomia do aluno&#8221;, e a caricaturiza\u00e7\u00e3o de todo tipo de pedagogia baseada em tradi\u00e7\u00e3o ou valores normativos (n\u00e3o confundir com tradicionalismo metodol\u00f3gico) como &#8220;doutrina\u00e7\u00e3o&#8221;. N\u00e3o \u00e9 que ensinar valores tenha um &#8220;lado bom&#8221;; \u00e9 que a pedagogia focada na autonomia individual est\u00e1 simplesmente correndo atr\u00e1s do vento.<\/p>\n<p>Na pol\u00edtica, implicar\u00e1 em que a legisla\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode abstrair a quest\u00e3o dos direitos individuais da matriz social mais ampla, nem da sa\u00fade das comunidades. N\u00e3o se trata de mero conservadorismo, como se n\u00e3o se pudesse reformar a legisla\u00e7\u00e3o de direitos; o ponto \u00e9 que n\u00e3o se pode gerar direitos sem compreender os valores e obriga\u00e7\u00f5es que os acompanham, e como eles s\u00e3o &#8220;encaixados&#8221; com a forma presente da sociedade. As a\u00e7\u00f5es do governo petista no campo da homossexualidade no brasil, por exemplo, s\u00e3o exemplos perfeitos de insensibilidade para com a sa\u00fade comunit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Outro exemplo \u00e9 o completo desinteresse pela preserva\u00e7\u00e3o de uma estrutura familiar saud\u00e1vel, adotando pelo contr\u00e1rio a estrat\u00e9gia de meramente absorver e naturalizar as disfun\u00e7\u00f5es familiares em nome dos direitos de indiv\u00edduos em contextos disfuncionais, o que constitui prova evidente do problema que apontamos.<\/p>\n<p><em><strong>Atomismo e Igreja Evang\u00e9lica<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Finalmente, algo tinha que sobrar pra n\u00f3s. Num post anterior observei que a igreja evang\u00e9lica tende a ser muito moderna. Demais. A igreja \u00e9 vista como associa\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduos; um grupo se junta e decide: &#8220;haja a igreja&#8221;! E nem queremos saber de tradi\u00e7\u00e3o, de associa\u00e7\u00e3o com outras igrejas, de nada. A igreja evang\u00e9lica se tornou extremamente vulner\u00e1vel \u00e0 cultura de mercado, exatamente por isso. Ela procede da mesma l\u00f3gica individualista que corta o v\u00ednculo do self com a comunidade, tornando-o um ponto descontexualizado, um buraco-negro de desejos.<\/p>\n<p>Da\u00ed eu fico me perguntando: o que pode ser feito para superar o atomismo entre n\u00f3s? Isso n\u00e3o \u00e9 apenas um problema de espiritualidade individual. Tem muito evang\u00e9lico hoje &#8211; e muita gente boa &#8211; procurando renova\u00e7\u00e3o na espiritualidade, s\u00f3 que em uma base ainda moderna, de busca espiritual individual ou, no m\u00e1ximo, com alguns amigos.<\/p>\n<p>N\u00e3o d\u00e1 pra contornar a eclesiologia, ent\u00e3o. Taylor est\u00e1 basicamente certo: n<a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_WcuRgWzlRho\/SKRjyw8piSI\/AAAAAAAAAcM\/VyuREbIw-Ww\/s1600-h\/Celtic+cross+2.gif\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" id=\"BLOGGER_PHOTO_ID_5234418390695250210\" class=\"alignleft\" style=\"border: 0pt none;\" src=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_WcuRgWzlRho\/SKRjyw8piSI\/AAAAAAAAAcM\/VyuREbIw-Ww\/s320\/Celtic+cross+2.gif\" alt=\"\" width=\"192\" height=\"186\" border=\"0\" \/><\/a>\u00e3o existe self sem comunidade. O Self n\u00e3o tem realidade sem comunidade. Realidade \u00e9 comunidade, eu diria. Deus \u00e9 comunidade. A lei de Deus se resume no amor a Deus e no amor ao pr\u00f3ximo; somente na rela\u00e7\u00e3o religiosa com Deus e com o pr\u00f3ximo podemos dar um conte\u00fado a n\u00f3s mesmos. Pensar espiritualidade individual, liberdade individual, pensamento individual, etc, in abstractu, sem mergulhar em uma <em>ecclesia<\/em>, \u00e9 besteira.<\/p>\n<p>Seguindo o racioc\u00ednio de Taylor, eu diria que a liberdade de crer, que a pr\u00f3pria possibilidade de ter f\u00e9 salvadora, implica em si mesma uma obriga\u00e7\u00e3o para com a comunidade que transmite e sustenta essa f\u00e9. Extra Ecclesiam Nulla Sallus. Cat\u00f3lico demais? Talvez. Mas j\u00e1 n\u00e3o sei o que \u00e9 pior: ser cat\u00f3lico ou ser moderno.<\/p>\n<p>No final do artigo Taylor destacou que o problema todo, no fundo, \u00e9 o problema da identidade humana. O que \u00e9 o homem, e o que significa &#8220;liberdade humana&#8221;? O que Taylor nos deixa ver \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 resposta apenas formal para essas coisas. Cada civiliza\u00e7\u00e3o\/sociedade\/comunidade dar\u00e1 uma resposta. A quest\u00e3o \u00e9 que j\u00e1 nascemos dentro de uma tradi\u00e7\u00e3o, e precisamos nos ver com ela para dar essas respostas. Mas h\u00e1 uma resposta que n\u00e3o vale de jeito nenhum: o atomismo.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante (e surpreendente) que Taylor encontre Calvino aqui, fazendo a mesma discuss\u00e3o; para Calvino a identidade humana \u00e9 encontrada no relacionamento com Deus; s\u00f3 h\u00e1 autoconhecimento no conhecimento de Deus. Eu diria que o Self se constitui respondendo de um jeito ou de outro a Deus e a outros seres criados \u00e0 imagem de Deus. E igreja \u00e9 isso: Deus conosco, fazendo a paz.<\/p>\n<p>Talvez, a t\u00edtulo de sugest\u00e3o: igrejas realmente p\u00f3s-modernas, ou para-modernas, ou anti-modernas, seriam igrejas que redescobrem a tradi\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica, lit\u00fargica e pastoral (ao inv\u00e9s de querer inventar a roda), que desistem da democracia como sistema b\u00e1sico (sinto muito pelos batistas &#8211; sou um deles), que retomam o sentido sacramental, que trabalham com pequenos grupos (sim, eles est\u00e3o certos nisso), mas n\u00e3o caem no caudilhismo nem abusam de seus membros (como na massifica\u00e7\u00e3o neopentecostal). Vamos ver se essa igreja emerge <em>de verdade<\/em> por a\u00ed.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Do Contra N\u00e3o \u00e9 de hoje que procuro meios eficientes e interessantes de criticar a experi\u00eancia moderna de autonomia humana. N\u00e3o que eu rejeite completamente a no\u00e7\u00e3o de autonomia ou, falando de forma bem mais abrangente, a id\u00e9ia de liberdade humana; mas j\u00e1 chega de modernidade, n\u00e9? Essa coisa n\u00e3o deu certo mesmo (e nem [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":23,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[116,7642],"tags":[11687,5874,11703],"class_list":["post-488","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog","category-sociedade","tag-igreja-e-lideranca","tag-politica","tag-teologia-da-cultura","count-0","even alt","author-guilhermevrc","last"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/488","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/users\/23"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=488"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/488\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":490,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/488\/revisions\/490"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=488"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=488"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=488"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}