{"id":484,"date":"2012-05-25T16:05:09","date_gmt":"2012-05-25T19:05:09","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/?p=484"},"modified":"2012-06-04T10:27:25","modified_gmt":"2012-06-04T13:27:25","slug":"pequena-homilia-antilibertaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/2012\/05\/25\/pequena-homilia-antilibertaria\/","title":{"rendered":"Pequena Homilia Antilibert\u00e1ria"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Soberania<\/em>: inicialmente, como o exp\u00f4s Kuyper, um conceito simples e intuitivo. Soberania \u00e9 o direito de impor a pr\u00f3pria vontade. O direito de exercitar a liberdade, nesse sentido; mas de causar, no exerc\u00edcio da liberdade, uma <em>limita\u00e7\u00e3o<\/em> da liberdade. E a partir de seu direito ao poder, a liberdade de exercit\u00e1-lo para bloquear toda resist\u00eancia a si. Nesse sentido, sim, Deus \u00e9 a fonte de todo o poder. O Deus Trino \u00e9 o Soberano absoluto, detentor do direito e das energias necess\u00e1rias para fazer cumprir a sua vontade.<\/p>\n<p>Como poderia ser diferente? H\u00e1 quem pense hoje que tal no\u00e7\u00e3o de Soberania divina seria um reflexo de patriarcalismo, ou uma fonte de intoler\u00e2ncia e viol\u00eancia, ou o fruto de uma sensibilidade religiosa doentia, fundada no medo ou no sentimento de culpa. <!--more--><\/p>\n<p>N\u00e3o seria poss\u00edvel demorarmo-nos agora no debate com uma ou outra dessas correntes. Um tratamento justo \u00e0s teontologias libert\u00e1rias, que tentam construir uma divindade mais fr\u00e1gil e dial\u00f3gica, a bem de uma atualiza\u00e7\u00e3o da prega\u00e7\u00e3o crist\u00e3, exigir\u00e1 outro artigo.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante \u00e9 justo, aqui e agora, denunciar a um modo homil\u00e9tico o seu <em>etos<\/em>, o seu impulso fundamental. Pouco esfor\u00e7o \u00e9 preciso para reconhecer-lhe a fonte: um respeito humano desmesurado. Que perversa doutrina pretenderia arrancar das m\u00e3os do Senhor o seu cetro, puxar as suas barbas e faz\u00ea-lo dobrar-se diante de sua criatura, sen\u00e3o o nosso bom e velho humanismo secular? J\u00e1 conhecemos essa hist\u00f3ria; aumentar o espa\u00e7o da liberdade humana \u00e0 custa de reduzir o espa\u00e7o da soberania divina.<\/p>\n<p>Ora, que estrat\u00e9gia mais tola poderia ser criada? Se chegamos a empreg\u00e1-la, \u00e9 porque j\u00e1 n\u00e3o habitamos o mundo de Deus, mas o espelho de narciso. Um deus que possa ser posto a par com o homem, que tenha que se por de p\u00e9 para ceder-lhe o assento j\u00e1 \u00e9 um nada, um outro do seu tipo. Nem o milagre da encarna\u00e7\u00e3o do verbo redimiria esse maquinismo teol\u00f3gico.<\/p>\n<p>E bem a prop\u00f3sito: somente uma terr\u00edvel confus\u00e3o poderia levar um homem a entender que, na encarna\u00e7\u00e3o, Deus se tornou humano. Deus nunca foi, n\u00e3o \u00e9 e jamais ser\u00e1 humano. Deus \u00e9 divino, n\u00e3o \u00e9 uma criatura. N\u00e3o pode se transubstanciar em uma criatura, segundo os excessos especulativos da <em>communicatio idiomatum<\/em>. Jesus, o Logos, Deus de Deus, Luz de Luz, era Deus e criatura simultaneamente; mas a sua criaturidade n\u00e3o se tornou em divindade, nem a sua divindade se tornou em criaturidade. Ele era ambos, Criador e criatura, unidos em uma pessoa, sem confus\u00e3o nem mistura de subst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>Mas o humanismo, agora em nome da piedade evang\u00e9lica, deseja tornar o Le\u00e3o em gato; criar um pobre <em>deus<\/em> que vamos abrigar em nossas casas, por piedade \u2013 assim o s\u00e3o as divindades das mais variadas formas de<em> teologia libert\u00e1ria<\/em>, que repetem teimosamente o erro de separar Natureza e Gra\u00e7a, de criar um v\u00e1cuo de a\u00e7\u00e3o divina para dar livre arb\u00edtrio e \u201cresponsabilizar o homem\u201d elevando a dignidade divina pelo d\u00fabio expediente de livrar-lhe do mal a cara.<\/p>\n<p>Para se achegar ao homem, Deus n\u00e3o deixa a sua divindade. O infinito, por condescend\u00eancia, se acomoda \u00e0 finitude, mas n\u00e3o deixa nem por um momento a sua infinitude original, pois \u201cnem o c\u00e9u, nem o c\u00e9u dos c\u00e9us o podem conter\u201d:<em> finitum non capax infiniti.<\/em> O amor e a condescend\u00eancia de Deus para conosco n\u00e3o se realizam \u00e0 custa de sua Soberania e de seu Poder sobre todas as coisas. N\u00e3o deixa Ele o seu Trono para encher de fuma\u00e7a o seu templo. Nem assume o corpo infantil calando a Palavra que a tudo sustenta. Nem forma Ele a liberdade humana por meio de uma aus\u00eancia, de uma limita\u00e7\u00e3o de sua Soberania, de um v\u00e1cuo de presen\u00e7a divina; pois \u201cnele vivemos, nos movemos e existimos\u201d. O Alt\u00edssimo est\u00e1 mais perto de n\u00f3s do que n\u00f3s mesmos, e n\u00e3o criou a liberdade humana como um poder aut\u00f4nomo em rela\u00e7\u00e3o a Ele. Antes, <em>\u00e9 a Soberania divina o fundamento supremo da liberdade humana<\/em>.<\/p>\n<p>Mas, como Schaeffer tantas vezes nos advertiu, a natureza, deixada aut\u00f4noma, \u201cdevorar\u00e1 a gra\u00e7a\u201d. \u00c9 o mais fatal dos erros tentar garantir a liberdade humana reduzindo o espa\u00e7o de Deus e de sua Soberania, postulando um universo opaco, vazio da divindade, \u201csecular\u201d e entregue ao arb\u00edtrio humano. No fundo desse po\u00e7o de respeito \u00e0 dignidade e \u00e0 responsabilidade humana h\u00e1 uma serpente matreira.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem pense seria bom para o movimento de Miss\u00e3o Integral no Brasil adotar uma ou outra vers\u00e3o libert\u00e1ria da divindade, como se expandindo o campo da iniciativa humana, os crist\u00e3os viessem a se tornar menos passivos, sentindo-se mais necess\u00e1rios a seu pobre Senhor e aos pobres pecadores. Ledo engano. Se nos tornarmos mais missionais, mais ativos e mais respons\u00e1veis apenas porque temos um senso elevado de nossa autonomia humana, de nossos poderes de interven\u00e7\u00e3o, de nossa capacidade de romper as determina\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, eu pergunto: <em>de quem ser\u00e1 a gl\u00f3ria?<\/em><\/p>\n<p>Essa expectativa j\u00e1 denuncia a ru\u00edna espiritual em que estamos metidos. Deus j\u00e1 n\u00e3o nos move. Desprezamos o Deus da B\u00edblia \u2013 aquele Deus poderoso, terr\u00edvel, Soberano, Juiz, Salvador \u2013 nossa sensibilidade, nosso senso de adora\u00e7\u00e3o, nossa rever\u00eancia e nossa abertura para a<em> transpar\u00eancia do mundo<\/em> se perdeu. Vivemos num universo opaco, relativ\u00edstico, sem profundidade espiritual e sem Lei. O que nos resta? Exaltar a autonomia humana para fazer a Miss\u00e3o andar no Brasil. Que fracasso miser\u00e1vel. Melhor nos seria amarrar no pesco\u00e7o uma pedra de moinho. Ou pior: retroceder de vez para a semi-extinta teologia da liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o, sejamos progressistas! Vamos progredir <em>de volta<\/em>. De volta \u00e0 vis\u00e3o cl\u00e1ssica da divindade, sem a qual as nossas id\u00e9ias sobre a natureza da Soberania n\u00e3o passar\u00e3o de vers\u00f5es carolas do humanismo secular. N\u00e3o h\u00e1 futuro no motim libert\u00e1rio. <em>Pois a liberdade n\u00e3o \u00e9 ganha pela aus\u00eancia, mas pela presen\u00e7a de Deus.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>[O trecho acima \u00e9 parte de um cap\u00edtulo meu publicado na obra &#8220;F\u00e9 Crist\u00e3 e Cultura Contempor\u00e2nea&#8221;, da Editora Ultimato.]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Soberania: inicialmente, como o exp\u00f4s Kuyper, um conceito simples e intuitivo. Soberania \u00e9 o direito de impor a pr\u00f3pria vontade. 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