{"id":386,"date":"2012-03-30T17:07:15","date_gmt":"2012-03-30T20:07:15","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/?p=386"},"modified":"2012-04-03T08:38:14","modified_gmt":"2012-04-03T11:38:14","slug":"como-assistir-a-arvore-da-vida-de-terrence-malick-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/2012\/03\/30\/como-assistir-a-arvore-da-vida-de-terrence-malick-3\/","title":{"rendered":"Como assistir \u201cA \u00c1rvore da Vida\u201d de Terrence Malick"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Guilherme de Carvalho \u2013 L\u2019Abri Brasil<a title=\"\" href=\"#_ftn1\">[1]<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2012\/03\/A-Arvore-da-Vida-Poster-696x1024.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright  wp-image-390\" title=\"A-Arvore-da-Vida-Poster-696x1024\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2012\/03\/A-Arvore-da-Vida-Poster-696x1024-203x300.jpg\" alt=\"\" width=\"224\" height=\"329\" \/><\/a><\/p>\n<p>\u201c\u00c1rvore da Vida\u201d (<em>The Tree of Life,<\/em> 2011) n\u00e3o \u00e9 uma unanimidade. Em <em>Cannes<\/em> foi criticado por metade da plateia e aplaudido pela outra metade. Levou a <em>Palme D\u2019Or<\/em> em Cannes (2011) e n\u00e3o levou nada no Oscar (2012), a despeito das indica\u00e7\u00f5es. Foi assistido quatro, cinco, seis vezes pelos f\u00e3s, e abandonado na metade ou antes por quase a metade do publico (ao menos na sala de cinema aonde eu estava). Pelo que ouvi, quase sempre no mesmo ponto (a parte do \u201cdinossauro\u201d).<\/p>\n<p>Pessoalmente, considero este filme como uma das grandes obras-primas da hist\u00f3ria do cinema, e como uma das maiores pe\u00e7as de arte religiosa desde que a s\u00e9tima arte foi inventada. E muita gente diria am\u00e9m, seja pela sua qualidade t\u00e9cnica e art\u00edstica, seja por sua profundidade espiritual.<\/p>\n<p>Que tipo de filme poderia levar crist\u00e3os e n\u00e3o crist\u00e3os a \u201ccuspir\u201d sobre ele e ao mesmo tempo em que um ateu professo como o apresentador da Globo <em>Zeca Camargo<\/em> chega a reconhecer publicamente que seu ate\u00edsmo foi abalado pela pel\u00edcula? (Veja o seu artigo,<a href=\"http:\/\/g1.globo.com\/platb\/zecacamargo\/2011\/08\/22\/o-comico-e-o-cosmico\/\" target=\"_blank\"> \u201cO C\u00f4mico e o C\u00f3smico\u201d<\/a>).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>PORQUE MUITA GENTE N\u00c3O ENTENDEU MALICK<\/strong><\/p>\n<p>Com a licen\u00e7a dos leitores, vou agora ferir nervos sens\u00edveis: exceto, talvez, por uma estreita faixa da assist\u00eancia que n\u00e3o gostou do filme por raz\u00f5es genuinamente t\u00e9cnicas ou ideol\u00f3gicas, suspeito que a maior parte dos crist\u00e3os e n\u00e3o crist\u00e3os que viram e n\u00e3o gostaram <!--more--> n\u00e3o souberam ver o filme, devido aos longos anos de condicionamento televisivo e hollywoodiano.<\/p>\n<p>Ou melhor: n\u00e3o sabemos ver cinema como arte. Uma das observa\u00e7\u00f5es mais duras do cineasta russo <em>Andrei Tarkovski<\/em> sobre o cinema \u00e9 exatamente essa: que o cinema deixou de ser uma arte relacionada \u00e0 imagem e \u00e0 imagem no tempo e se tornou teatro filmado.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><em>\u201c&#8230; os filmes de Lumi\u00e8re foram os primeiros a conter a semente de um novo princ\u00edpio est\u00e9tico. Logo a seguir, por\u00e9m, o cinema distanciou-se da arte e empenhou-se em seguir o caminho mais seguro dos interesses med\u00edocres e lucrativos. Nas duas d\u00e9cadas seguintes, filmou-se praticamente toda a literatura mundial, al\u00e9m de um grande n\u00famero de obras teatrais. O cinema foi explorado com o objetivo direto e sedutor de registrar o desempenho teatral; tomou o caminho errado&#8230;\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Andrei Tarkovski, Esculpir o Tempo, Martins Fontes, p. 71.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 preciso ser purista nem gostar dos filmes de Tarkovski (o que, na verdade, \u00e9 dif\u00edcil) para reconhecer que h\u00e1 algo verdadeiro a\u00ed. Se o cinema for apenas teatro filmado, n\u00e3o \u00e9 uma forma de arte distinta. Se for apenas tecnologia de efeitos especiais, o cinema e o <em>game<\/em> poderiam ser a mesma coisa.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 pecado em assistir a um filme por pura divers\u00e3o \u2013 \u00e9 para isso que serve o filme \u201cpipoca\u201d \u2013 e ningu\u00e9m tem a obriga\u00e7\u00e3o de gostar e de aprender a gozar de cada forma de arte criada pelo homem. Mas n\u00e3o \u00e9 inteligente utilizar o entretenimento como crit\u00e9rio final de julgamento da arte.<\/p>\n<p>Mais do que isso, talvez possamos at\u00e9 dizer que se <em>Blaise Pascal<\/em> estiver certo, e o entretenimento for uma forma do homem evitar a consci\u00eancia de sua ru\u00edna espiritual e de sua necessidade de Deus, \u00e9 <em>subecrist\u00e3o<\/em> considerar o poder de entretenimento um crit\u00e9rio final para qualquer coisa, e muito menos para a arte.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2012\/03\/space.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft  wp-image-406\" title=\"space\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2012\/03\/space.png\" alt=\"\" width=\"354\" height=\"240\" \/><\/a>A quest\u00e3o \u00e9 que o \u00faltimo filme de Malick n\u00e3o \u00e9, definitivamente, uma pe\u00e7a de entretenimento. Vou aqui tentar interpret\u00e1-la como uma obra de arte no sentido Tarkovskiano, que gira em torno do princ\u00edpio est\u00e9tico pr\u00f3prio do cinema, da cria\u00e7\u00e3o de \u201cesculturas\u201d temporais; e que evita perder-se no teatro, ou no recurso tecnol\u00f3gico. N\u00e3o se pode assistir <em>The Tree of Life<\/em> como se assiste \u201cO Homem Aranha\u201d. N\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o se possa assistir \u201cO Homem Aranha\u201d, mas que n\u00e3o se pode assistir aos dois filmes com o mesmo esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Assistir \u201cA \u00c1rvore da Vida\u201d \u00e9 mais como ir a um museu de arte, para ter a chance de ver um <em>Rembrandt<\/em>: prende-se a respira\u00e7\u00e3o e gastam se pensamentos e emo\u00e7\u00f5es na busca de uma experi\u00eancia est\u00e9tica <em>intencional<\/em>. N\u00e3o se trata de uma \u201cdistra\u00e7\u00e3o\u201d, de buscar algo para \u201crir um pouco\u201d, nem do est\u00edmulo de uma hist\u00f3ria aventuresca. Se algu\u00e9m nunca foi a um museu de arte e jamais quis ir a um; se a \u00fanica m\u00fasica que ele escuta \u00e9 a do r\u00e1dio (para n\u00e3o se sentir sozinho em casa) ou aquela m\u00fasica que evoca as sensa\u00e7\u00f5es da \u00faltima balada, \u00e9 evidente que tal pessoa n\u00e3o est\u00e1 preparada para avaliar o cinema de Malick.<\/p>\n<p>Repito: se voc\u00ea sabe ver um filme como arte e n\u00e3o gostou de <em>Tree of Life<\/em>, isso n\u00e3o se aplica a voc\u00ea. \u00c9 perfeitamente adequado desaprovar de forma inteligente uma obra de arte. Mas infelizmente isso n\u00e3o se aplica \u00e0 maioria do p\u00fablico brasileiro; de modo que uma leve e saud\u00e1vel suspeita de si mesmo pode ajudar bastante ao cin\u00e9filo.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 algo mais em jogo. Segundo minha percep\u00e7\u00e3o, o filme de Malick n\u00e3o \u00e9 apenas uma obra de arte, mas uma obra de arte <em>religiosa<\/em>. E isso acrescenta uma segunda complexidade: \u00e9 que assistir \u201cA \u00c1rvore da Vida\u201d \u00e9 um pouco como ir \u00e0 Igreja; ou, para aqueles com uma espiritualidade mais ampla, ter uma vis\u00e3o espiritual de uma paisagem natural grandiosa. De fato \u201cTerry\u201d chega \u00e0 ousadia de transformar a sala de cinema em uma igreja ao botar o p\u00fablico para ouvir o serm\u00e3o de um padre, dentro de uma capela, baseado no livro de J\u00f3; e um serm\u00e3o de arrancar o couro (veja o texto<a href=\"http:\/\/www.terrencemalick.org\/2011\/10\/giant-in-attic.html\" target=\"_blank\"> AQUI<\/a>). Quem, hoje, teria a coragem, a capacidade, e a autoridade para fazer uma coisa dessas? Uns poucos&#8230; e <em>Terrence Malick<\/em>.<\/p>\n<p>E da\u00ed a d\u00favida: a igreja estava em Cannes? Ou ser\u00e1 que Cannes foi \u00e0 igreja? Uma coisa \u00e9 certa: se voc\u00ea n\u00e3o sentiu essa fus\u00e3o religiosa ao ver o filme, ent\u00e3o <em>voc\u00ea ainda n\u00e3o viu o filme<\/em>. E essa \u00e9 a outra raz\u00e3o, creio, porque muita gente n\u00e3o entendeu Malick: \u00e9 que lhes faltavam categorias espirituais e at\u00e9 mesmo teol\u00f3gicas para assistir ao filme. Posso citar uma: <em>A \u00c1rvore da Vida<\/em> \u00e9 inacess\u00edvel sem uma categoria teol\u00f3gica b\u00e1sica, um <em>teosofema<\/em> que \u00e9 enunciado explicitamente por Malick no princ\u00edpio do filme como sua subestrutura fundamental: a distin\u00e7\u00e3o de<strong> Natureza e Gra\u00e7a<\/strong>, que tem uma longa hist\u00f3ria no ocidente desde suas ra\u00edzes b\u00edblicas, passando por Agostinho, Tom\u00e1s de Aquino, Calvino, Pascal, at\u00e9 o pensamento crist\u00e3o do s\u00e9culo XX (Tillich, Barth, Dooyeweerd, de Lubac, entre outros).<\/p>\n<p>A completa ignor\u00e2ncia sobre a profundidade e a import\u00e2ncia dessas categorias bloquearam a compreens\u00e3o do filme para uma mir\u00edade de cr\u00edticos de cinema \u2013 alguns at\u00e9 experientes \u2013 que tentaram reduzi-lo a uma leitura psicol\u00f3gica <em>edipiana<\/em>, ou a uma cr\u00edtica da sociedade americana dos anos 50, ou a um experimento surrealista, ou uma imita\u00e7\u00e3o de <em>Kubrick<\/em> em &#8220;2001&#8221; (absurdo dos absurdos), ou a mais rid\u00edcula de todas: uma cole\u00e7\u00e3o sem prop\u00f3sito de imagens e sons na esteira dos document\u00e1rios da <em>NatGeo<\/em>. E quando esse secularismo raso se misturava com a falta de educa\u00e7\u00e3o art\u00edstica, os resultados s\u00f3 poderiam ser catastr\u00f3ficos. Ao que parece esses cr\u00edticos simplesmente assumem que as categorias teol\u00f3gicas crist\u00e3s (que, a prop\u00f3sito, foram essenciais para a pr\u00f3pria constitui\u00e7\u00e3o das categorias filos\u00f3ficas modernas) &#8220;n\u00e3o podem&#8221; ser essenciais para compreender uma obra-prima contempor\u00e2nea. N\u00e3o podem porque isso seria anacr\u00f4nico, porque seria kitsch, porque &#8220;ningu\u00e9m usa isso mais&#8221;, porque isso n\u00e3o \u00e9 coisa de gente &#8220;inteligente&#8221;, porque seria &#8220;propaganda religiosa&#8221;&#8230; E assim eles prosseguem, arrancando os pr\u00f3prios olhos bem diante da evid\u00eancia.<\/p>\n<p>De novo, preciso observar que alguns expectadores e cr\u00edticos realmente entenderam a carga religiosa e existencial do filme, e n\u00e3o gostaram exatamente disso. Ao que se sabe essa foi a motiva\u00e7\u00e3o de parte das vaias em Cannes; mas n\u00e3o dever\u00edamos esperar algo diferente de um filme que pretende atingir o expectador em sua raiz espiritual. Isso d\u00f3i tanto quanto tocar na raiz de um dente.<\/p>\n<p>Assim, sugiro \u00e0queles que viram o filme e n\u00e3o o entenderam, ou n\u00e3o gostaram dele, que<em> tentem de novo<\/em>. Tentem diferente, com outra atitude. Mais do que isso: orem (ou meditem, se n\u00e3o forem crist\u00e3os) antes e depois de ver o filme. N\u00e3o d\u00e1 pra assistir <em>A \u00c1rvore da Vida<\/em> s\u00f3 com os olhos. Tem que ser com a alma.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2012\/03\/Tree-of-Life-igreja.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter  wp-image-400\" title=\"Tree-of-Life-igreja\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2012\/03\/Tree-of-Life-igreja.jpg\" alt=\"\" width=\"602\" height=\"334\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2012\/03\/Tree-of-Life-igreja.jpg 1000w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2012\/03\/Tree-of-Life-igreja-300x166.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2012\/03\/Tree-of-Life-igreja-150x83.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 602px) 100vw, 602px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>MALICK E O FILME<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2012\/03\/Malick.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft  wp-image-402\" title=\"Malick\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2012\/03\/Malick-300x211.jpg\" alt=\"\" width=\"264\" height=\"187\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2012\/03\/Malick-300x211.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2012\/03\/Malick-150x105.jpg 150w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2012\/03\/Malick.jpg 610w\" sizes=\"auto, (max-width: 264px) 100vw, 264px\" \/><\/a>N\u00e3o temos espa\u00e7o para uma sinopse aqui, ent\u00e3o recomendo a <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/A_%C3%81rvore_da_Vida_%28filme%29\" target=\"_blank\">Sinopse da Wikip\u00e9dia<\/a>, onde h\u00e1 detalhes sobre o enredo.<\/p>\n<p>Quanto ao diretor, tamb\u00e9m n\u00e3o faltam websites com informa\u00e7\u00f5es, embora faltem, efetivamente, informa\u00e7\u00f5es! Terrence Malick \u00e9 uma das figuras mais enigm\u00e1ticas do cinema contempor\u00e2neo. Avesso a fotografias, a entrevistas, ausentou-se at\u00e9 mesmo de Cannes para evitar publicidade.<\/p>\n<p>Malick nasceu em Waco, Texas, em 30 de Novembro de 1943, cresceu num contexto rural, estudou filosofia em Harvard (aluno de<em> Stanley Cavell,<\/em> importante estudioso de Heidegger, Kierkegaard e Wittgenstein, e fil\u00f3sofo do cinema) e no Madgalen College de Oxford (sem completar sua tese). Entre seus maiores interesses, a filosofia de <em>Martin Heidegger<\/em>, o qual ele conheceu pessoalmente. Tornou-se jornalista freelance e chegou a ensinar filosofia no M.I.T. quando se voltou para estudos de cinema, j\u00e1 em 1969. Desde ent\u00e3o realizou poucos filmes que o projetaram como um dos maiores diretores americanos contempor\u00e2neos (Lanton Mills, 1969; Badlands, 1973; Dias do Para\u00edso, 1978; Al\u00e9m da Linha Vermelha, 1988; Novo Mundo, 2005; A \u00c1rvore da Vida, 2011).<\/p>\n<p>Vale mencionar que suas origens espirituais s\u00e3o crist\u00e3s; o pai era crist\u00e3o maronita, de origem ass\u00edria-libanesa, e o pr\u00f3prio Malick foi educado em uma escola episcopal em Austin, Texas. Atualmente ele frequenta uma Igreja Episcopal em Austin (especula-se que seria a Igreja Episcopal \u201cGood Shepherd\u201d) com sua esposa Ecky Wallace, que \u00e9 filha de um pastor episcopal, estudou teologia e \u00e9 descrita como \u201cmuito devota\u201d (mais do que o marido, talvez!). At\u00e9 onde vai a f\u00e9 pessoal de Malick, no entanto, \u00e9 dif\u00edcil dizer j\u00e1 que ele n\u00e3o parece interessado em anuncia-la publicamente. No momento o melhor que temos \u00e9, provavelmente, a pr\u00f3pria obra de Malick.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>TEMA E M\u00c9TODO<\/strong><\/p>\n<p>O tema do filme \u00e9 a \u201c\u00e1rvore da vida\u201d, uma imagem b\u00edblica que representa a Vida Eterna no \u00c9den. Malick associa essa imagem a outro tema b\u00edblico tradicional: a dos \u201cdois caminhos\u201d (de fato o endere\u00e7o oficial do filme na internet \u00e9 \u201cdois caminhos atrav\u00e9s da vida\u201d, <a href=\"http:\/\/www.twowaysthroughlife.com\" target=\"_blank\">http:\/\/www.twowaysthroughlife.com<\/a>). H\u00e1 dois caminhos poss\u00edveis para responder \u00e0 \u00e1rvore, segundo se anuncia logo nas primeiras cenas do filme: um \u00e9 o caminho da Natureza, que rejeita desapegar-se de si e alimentar-se da \u00e1rvore, que insiste em sua rigidez e por isso se quebra, e o caminho da Gra\u00e7a, que aceita a dor com esperan\u00e7a e que v\u00ea na \u00c1rvore tanto a fonte \u00faltima da Natureza como a \u00fanica capaz de leva-la \u00e0 Vida Eterna. O s\u00edmbolo da \u00e1rvore aparece do in\u00edcio ao fim do filme, e em todos os seus momentos cruciais. \u00c0s vezes como uma pequena planta, \u00e0s vezes como uma \u00e1rvore frondosa.<\/p>\n<p>O filme \u00e9 aparentemente irregular, descont\u00ednuo, ignorando a demanda intuitiva que todos n\u00f3s temos pela linearidade temporal e por conex\u00f5es l\u00f3gicas de causalidade. Mas n\u00e3o \u00e9 que elas sejam negadas no filme; \u00e9 que sua apresenta\u00e7\u00e3o \u00e9 organizada em uma <strong>estrutura po\u00e9tica<\/strong>. Na poesia as rela\u00e7\u00f5es entre as coisas s\u00e3o captadas de forma est\u00e9tica, por meio de associa\u00e7\u00f5es imag\u00e9ticas, r\u00edtmicas, sonoras, e conceituais, mas sem afirma\u00e7\u00f5es diretas e rigores silog\u00edsticos. Isso \u00e9 poss\u00edvel em um filme porque poesia n\u00e3o \u00e9 apenas um g\u00eanero, mas \u201cuma consci\u00eancia do mundo, uma forma espec\u00edfica de relacionamento com a realidade\u201d (Tarkovski, 18) e assim o artista<\/p>\n<p><em>\u201c&#8230; \u00e9 capaz de perceber as caracter\u00edsticas que regem a organiza\u00e7\u00e3o po\u00e9tica da exist\u00eancia. Ele \u00e9 capaz de ir al\u00e9m dos limites da l\u00f3gica linear, para poder exprimir a verdade e a complexidade profundas das liga\u00e7\u00f5es imponder\u00e1veis e dos fen\u00f4menos ocultos da vida.\u201d (Tarkovski, 19).<\/em><\/p>\n<p>Para superar o inc\u00f4modo da aus\u00eancia de linearidade o expectador precisa saltar da atitude naturalista para uma atitude po\u00e9tica, e explorar as analogias e conex\u00f5es est\u00e9ticas entre as partes aparentemente \u201csoltas\u201d do filme, exatamente como na poesia escrita. A diferen\u00e7a \u00e9 que a poesia agora \u00e9 feita de imagens e narrativas. E na verdade a vida \u00e9 muito mais po\u00e9tica do que &#8220;naturalista&#8221; (Tarkovski, 20); a mesma intui\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para ver o sentido das nossas vidas concretas \u00e9 a atitude necess\u00e1ria para ver esse sentido no filme de Malick; quando ela est\u00e1 ausente em um, estar\u00e1 ausente no outro e vice versa. Nesse sentido o filme se torna uma <em>pedagogia do significado da vida<\/em>; a imagina\u00e7\u00e3o po\u00e9tica que v\u00ea o sentido espiritual da vida no universo do filme ganha a capacidade de imagin\u00e1-lo em sua pr\u00f3pria exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Outro ponto importante \u00e9 que o filme \u00e9 completamente <strong>autoral<\/strong>. Quase sempre, quando vemos um filme, ficamos impressionados (ou n\u00e3o) com a atua\u00e7\u00e3o dos atores. Mas em nosso filme a experi\u00eancia \u00e9 completamente diferente. Apesar das grandes atua\u00e7\u00f5es e dos grandes nomes, o que vem \u00e0 mente \u00e9 o diretor, n\u00e3o os atores. Nisso Malick \u00e9 fiel ao programa Tarkovskiano de \u201ccinema de autor\u201d. O filme n\u00e3o pretende p\u00f4r \u00e0 frente o ator, a atua\u00e7\u00e3o, nem ser fiel a uma narrativa escrita anterior, mas exprime a interioridade do diretor, sua experi\u00eancia do mundo e sua percep\u00e7\u00e3o po\u00e9tica das coisas. \u201cS\u00f3 em presen\u00e7a de sua vis\u00e3o pessoal, quando ele se torna uma esp\u00e9cie de fil\u00f3sofo, \u00e9 que o diretor emerge como artista \u2013 e o cinema como arte\u201d (Tarkovski, 68).<\/p>\n<p>Quem acompanhou as not\u00edcias sobre o filme deve ter topado com a cr\u00edtica de Sean Penn &#8211; o &#8220;subjecto&#8221; principal do filme, embora n\u00e3o o papel principal &#8211; a Malick numa entrevista do<a href=\"http:\/\/www.lefigaro.fr\/cinema\/2011\/08\/20\/03002-20110820ARTFIG00009-sean-penn-l-indomptable.php\" target=\"_blank\"> jornal franc\u00eas Le Figaro<\/a>: \u201ceu n\u00e3o encontrei na tela a emo\u00e7\u00e3o do roteiro, que \u00e9 o mais magnificente que jamais li. Uma narrativa mais clara e convencional teria ajudado o filme sem, na minha opini\u00e3o, reduzir sua beleza e seu impacto &#8230; Francamente, ainda estou tentando descobrir o que \u00e9 que estou fazendo a li e o que eu deveria adicionar naquele contexto &#8230; Terry nunca conseguiu me explicar isso claramente\u201d. O filme foi por outro lado defendido incondicionalmente por Brad Pitt, que faz outro papel central.<\/p>\n<p>Na verdade tudo faz sentido quando o filme \u00e9 visto como um filme completa e radicalmente autoral. Mas al\u00e9m disso, Jack (representado a vida adulta por Penn) tem uma presen\u00e7a m\u00faltipla no filme, como crian\u00e7a, adulto, e mente autorreflexiva; ele claramente n\u00e3o poderia estar contido na atua\u00e7\u00e3o de Penn. \u00c9 claro que pode ter havido uma falha de Malick em rela\u00e7\u00e3o ao seu pr\u00f3prio roteiro (ainda mais grandioso que o filme?), mas o resultado final n\u00e3o diz respeito \u00e0 atua\u00e7\u00e3o de Penn, e sim \u00e0 poesia de Malick, e \u00e9 sobre ele que nos perguntamos assim que pisamos fora da sala de cinema: quem \u00e9 esse poeta, fil\u00f3sofo e \u2013 segundo vou alegar ao final do artigo \u2013 esse te\u00f3logo?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>ORGANIZA\u00c7\u00c3O NARRATIVA<\/strong><\/p>\n<p>Quero sugerir, sem nenhuma prova incontest\u00e1vel (exceto a intui\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio expectador, quando assistir ao filme munido dos meus palpites) que temos <em>quatro n\u00edveis po\u00e9ticos\/narrativos\/temporais<\/em> no filme, e \u00e9 de grande ajuda identificar os quatro n\u00edveis e o que \u00e9 contado em cada um deles, pois Malick salta repetidamente de um n\u00edvel ao outro sem aviso, mas sempre para estabelecer conex\u00f5es po\u00e9ticas entre esses diferentes n\u00edveis narrativos. E a mesma hist\u00f3ria \u00e9 contada em todos os n\u00edveis, embora com recursos distintos, de forma que \u00e9 preciso interpretar um n\u00edvel temporal a partir do outro, discernindo como a mesma no\u00e7\u00e3o \u00e9 apresentada de um jeito em n\u00edvel, e de outro em outro n\u00edvel.<\/p>\n<p>Meus alegados \u201cn\u00edveis narrativos\u201d s\u00e3o os seguintes:<\/p>\n<p>(1) O <strong>Tempo Interno<\/strong>, que acontece dentro de Jack O\u2019Brian (<em>Sean Penn<\/em>). \u00c9 o tempo da autorreflex\u00e3o de Jack, um homem adulto e \u201cbem sucedido\u201d do ponto de vista secular, trabalhando em Nova Iorque. Toda a hist\u00f3ria do filme acontece dentro da autorreflex\u00e3o de Jack, iniciada com a not\u00edcia da morte do irm\u00e3o. No encontro com a fam\u00edlia O\u2019Brian (mais para o fim do filme) ele se pergunta como \u00e9 que a m\u00e3e, a senhora O\u2019Brian (<em>Jessica Chastain<\/em>) suportou a perda do irm\u00e3o. Essa pergunta reflete o que deixa Jack intrigado: o mist\u00e9rio da gra\u00e7a na vida de sua m\u00e3e. Ele encontrar\u00e1 a resposta no final do filme.<\/p>\n<p>(2) O <strong>tempo hist\u00f3rico<\/strong> \u00e9 repassado na mem\u00f3ria de Jack, mas \u00e9 contado de uma forma mais completa, de um ponto de vista narrativamente privilegiado, como um di\u00e1logo entre a m\u00e3e e Deus. Esse tempo \u00e9 tamb\u00e9m iniciado com a perda do filho pela m\u00e3e, e pelas perguntas que a m\u00e3e faz a Deus (ou seja, a resposta \u00e0 pergunta de Jack depende da rela\u00e7\u00e3o entre a m\u00e3e e Deus). Essas perguntas introduzem a apresenta\u00e7\u00e3o do terceiro e do quarto n\u00edvel temporal, de que falaremos mais adiante.<\/p>\n<p>A perda do filho leva a m\u00e3e a uma crise profunda, que a faz perguntar a Deus \u201cpor que\u201d. A sogra, numa conversa particular, sugere a ela que n\u00e3o devemos nos prender a nada temporal, e que ela deveria esquecer o filho para evitar a dor. A m\u00e3e \u00e9 submetida \u00e0 mais terr\u00edvel tenta\u00e7\u00e3o quando a sogra diz que o Senhor \u201cenvia moscas \u00e0s feridas que deveria curar\u201d (e a sogra desaparece na cena final do filme). Enquanto ela e Jack fazem essas perguntas, somos levados ao terceiro n\u00edvel temporal. Mas o fato \u00e9 que a m\u00e3e supera essa tenta\u00e7\u00e3o; mais ao final do filme ela \u00e9 representada entre muitas \u00e1rvores, caminhando e confessando a sua f\u00e9 em Deus.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2012\/03\/mother.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-398\" title=\"mother\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2012\/03\/mother-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2012\/03\/mother-300x200.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2012\/03\/mother-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2012\/03\/mother-150x100.jpg 150w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2012\/03\/mother.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Mas voltemos ao segundo n\u00edvel: o tempo hist\u00f3rico \u00e9 o tempo da fam\u00edlia, no interior da qual o problema da rela\u00e7\u00e3o entre Natureza e Gra\u00e7a se desdobra. Esse problema \u00e9 anunciado verbalmente na abertura do filme pela senhora O\u2019Brien, a m\u00e3e, ao mesmo tempo em que as imagens revelam como ela foi ensinada sobre isso por seu pr\u00f3prio pai, cuja face n\u00e3o aparece. Com ele ela aprende a recorrer \u00e0 gra\u00e7a diante da dor na natureza (na cena do contato com uma vaca).<\/p>\n<p>A dualidade de natureza e gra\u00e7a \u00e9 mostrada no conflito progressivamente revelado entre o patriarca da fam\u00edlia O\u2019Brian (<em>Brad Pitt<\/em>), que existe de forma contradit\u00f3ria e cega, negando a Gra\u00e7a, mas dependendo dela em todos os momentos, e a m\u00e3e, que escolheu viver pela Gra\u00e7a e, por assim dizer, \u201cdan\u00e7ar em torno da \u00e1rvore da vida\u201d (a \u201cdan\u00e7a no ar\u201d, quando a m\u00e3e flutua em torno da \u00e1rvore, \u00e9 a prop\u00f3sito um tema caracter\u00edstico de Andrei Tarkovski). O Pai ensina aos filhos o caminho da Natureza, e a M\u00e3e o da Gra\u00e7a. Por isso eles entram em conflito constante.<a title=\"\" href=\"#_ftn2\">[2]<\/a><\/p>\n<p>Um interessante exemplo da tolice espiritual do pai \u00e9 o momento do serm\u00e3o, quando o Padre explica na igreja a mensagem de J\u00f3, de que n\u00e3o existe ponto de estabilidade e garantias de felicidade dentro do tempo, e que ningu\u00e9m pode impor condi\u00e7\u00f5es a Deus, nem negar sua presen\u00e7a em raz\u00e3o do sofrimento. Logo depois o pai tenta ensinar aos filhos que a m\u00e3e \u00e9 ing\u00eanua, e que o caminho da natureza, em sua busca ego\u00edsta por seguran\u00e7a, \u00e9 o melhor caminho. Mas a m\u00e3e tamb\u00e9m ensina. Ela comunica a necessidade do amor para alcan\u00e7ar a felicidade.<a title=\"\" href=\"#_ftn3\">[3]<\/a><\/p>\n<p>Dentro de si mesmo Jack (representado na inf\u00e2ncia pela atua\u00e7\u00e3o espl\u00eandida de<em> Hunter McCracken<\/em>) incorpora esse conflito, tendo dificuldades para ser consistente, e sofrendo com grandes d\u00favidas sobre a exist\u00eancia e a bondade de Deus. Ele passa por momentos de gra\u00e7a e tamb\u00e9m por momentos de \u201cQueda\u201d, quando se torna perverso e pensa at\u00e9 em matar o pai (na cena em que ele est\u00e1 debaixo do carro consertando-o). Mas ele \u00e9 \u201cresgatado\u201d atrav\u00e9s de sua m\u00e3e e principalmente de seu irm\u00e3o, reconciliando-se por causa deles com seu pai<a title=\"\" href=\"#_ftn4\">[4]<\/a>.<\/p>\n<p>Ao final da narrativa da fam\u00edlia o pai, depois de perder o emprego e ver o fracasso de seus projetos temporais, confessa que a gl\u00f3ria j\u00e1 estava em torno dele sem que ele o soubesse. E eles precisam deixar a casa onde cresceram num processo de grande luto, encerrando-se assim o relato do tempo hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>(3) O <strong>tempo c\u00f3smico<\/strong> \u00e9 o tempo do universo natural, de sua origem at\u00e9 o seu fim. Ap\u00f3s a pergunta da m\u00e3e sobre o porqu\u00ea da perda de seu filho, Malick nos leva para uma viagem at\u00e9 a origem de todas as coisas, quando Deus criou o universo, desde o Big Bang, passando pela origem das gal\u00e1xias, do sistema solar, da terra, dos continentes, a evolu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica, incluindo tanto o sofrimento como a gra\u00e7a como estando presentes desde o princ\u00edpio. Tudo sendo contextualizado pelas ora\u00e7\u00f5es da m\u00e3e, inspiradas no livro de J\u00f3.<\/p>\n<p>Depois que a narrativa da hist\u00f3ria da fam\u00edlia \u00e9 encerrada, com a perda da casa, o luto profundo dos irm\u00e3os, e a cena da casa se afastando a partir do interior do carro, o tempo c\u00f3smico \u00e9 retomado, contando a hist\u00f3ria do fim do mundo. O fim do mundo \u00e9 representado com categorias cient\u00edficas, como o crescimento do Sol para se tornar uma estrela gigante-vermelha (previsto para alguns bilh\u00f5es de anos no futuro), o que levar\u00e1 \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o total da vida na terra, seguido pelo colapso do sol, que se tornar\u00e1 uma estrela an\u00e3-branca. Essa parte do filme representa a mortalidade e efetivamente a morte de tudo o que \u00e9 Natural. Com isso Malick quer dizer que <em>a Natureza, por si s\u00f3, n\u00e3o tem um futuro. \u00c9 vaidade<\/em>.<\/p>\n<p>(4) O quarto n\u00edvel \u00e9 o <strong>tempo Escatol\u00f3gico<\/strong>, ou seja, o tempo da a\u00e7\u00e3o redentiva de Deus, que se consumar\u00e1 no futuro. \u00c9 o tempo da F\u00e9. Depois do luto da fam\u00edlia e do luto do universo, Malick viaja para a realidade al\u00e9m do tempo c\u00f3smico atual, e faz Jack imaginar sua pr\u00f3pria passagem pela morte (uma pequena porta), enquanto segue uma mulher (um s\u00edmbolo da Gra\u00e7a?) por um caminho deserto (que possivelmente representa a incerteza e a necessidade de esperan\u00e7a).<\/p>\n<p>Segue-se uma s\u00e9rie de met\u00e1foras da ressurrei\u00e7\u00e3o, com corpos mortos no campo, e em seguida com a mulher (a gra\u00e7a?) aproximando-se com a vela acesa e acendendo a vela de outra pessoa (ou seja, ressuscitando-a), uma noiva morta que de repente \u00e9 vista viva novamente, algu\u00e9m dentro de um buraco que olha para cima e v\u00ea a m\u00e3o (da gra\u00e7a) estendendo-se para tir\u00e1-lo de l\u00e1, uma escada para cima, que convida \u00e0 subida. Mais \u00e0 frente, a dire\u00e7\u00e3o da morte e <a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2012\/03\/na-praia1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright  wp-image-395\" title=\"CA.0512.tree.of.life.\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2012\/03\/na-praia1-200x300.jpg\" alt=\"\" width=\"160\" height=\"238\" \/><\/a>esfriamento do cosmo (com a terra devastada ocultando a luz azul do sol-an\u00e3-branca) \u00e9 revertida com um reaparecimento e um s\u00fabito resplandecer do sol \u2013 cena que aparece de forma muito r\u00e1pida e de relance.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Jack chega a um lugar na beira do mar (signo do infinito?), onde os seres humanos se encontram, reconciliados. Ali ele v\u00ea seus familiares, e v\u00ea a sua M\u00e3e (mas os pais de seu pai, o Sr. O\u2019Brian, n\u00e3o aparecem ali, o que possivelmente significa o seu desaparecimento). A pr\u00f3pria \u00e1rvore da vida aparece ali, como a \u00fanica \u00e1rvore restante, mas surge como um pequenino arbusto na beira d\u2019agua, plantado na areia.<\/p>\n<p>Acompanhando sua m\u00e3e Jack \u00e9 levado ao passado novamente, embora de forma simb\u00f3lica, e v\u00ea o momento em que ela entrega o irm\u00e3o que morreu, quando ele ainda era crian\u00e7a, nas m\u00e3os de Deus, deixando-o passar por uma porta onde se v\u00ea apenas a plan\u00edcie e o Sol atr\u00e1s dele. Nessa hora a entrega que a m\u00e3e faz \u00e9 representada como uma dan\u00e7a em que a m\u00e3e abre suas m\u00e3os, enquanto \u00e9 ajudada por duas outras figuras femininas<a title=\"\" href=\"#_ftn5\">[5]<\/a>.<\/p>\n<p>A escolha da m\u00e3e \u00e9 a resposta para a pergunta de Jack, sobre como a m\u00e3e foi capaz de superar a perda do filho \u2013 muito embora a pr\u00f3pria m\u00e3e n\u00e3o tenha recebido uma resposta clara sobre a raz\u00e3o do seu sofrimento (o que \u00e9 indicado, inclusive, pela cita\u00e7\u00e3o de J\u00f3 na abertura do filme: &#8220;Onde estavas tu, quando eu fundava a terra? &#8230; Quando as estrelas da alva juntas alegremente cantavam, e todos os filhos de Deus jubilavam?&#8221;). O \u201cmilagre\u201d do filme \u00e9, portanto, mostrar como a f\u00e9 e a vida na Gra\u00e7a tornam-se elas mesmas sinais divinos no mundo; a m\u00e3e e o irm\u00e3o levam Jack de volta para Deus.<\/p>\n<p>Depois disso o filme retorna para o n\u00edvel 1, com Jack refletindo e sorrindo levemente com a compreens\u00e3o da Gra\u00e7a, enquanto ao fundo a imagem da \u00e1rvore se contrap\u00f5e \u00e0 dos edif\u00edcios e aparentemente poderosos projetos humanos. Sutilmente se sugere que a \u00e1rvore pequena e os edif\u00edcios enormes n\u00e3o reflete a propor\u00e7\u00e3o verdadeira das coisas. \u00c9 preciso intui\u00e7\u00e3o po\u00e9tica e <em>insight<\/em> religioso para descobrir a verdade sobre o mundo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2012\/03\/chamatreeoflife.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft  wp-image-396\" title=\"chamatreeoflife\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2012\/03\/chamatreeoflife-300x161.png\" alt=\"\" width=\"195\" height=\"106\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2012\/03\/chamatreeoflife-300x161.png 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2012\/03\/chamatreeoflife.png 495w\" sizes=\"auto, (max-width: 195px) 100vw, 195px\" \/><\/a>(5) Acima de todos os n\u00edveis narrativos est\u00e1 <strong>o eterno<\/strong>. Ele \u00e9 representado pela <em>chama<\/em>. A chama de onde o mundo veio \u00e9 apresentada no in\u00edcio do filme e no final, e tamb\u00e9m aparece durante o filme duas vezes, em momentos de mudan\u00e7a de n\u00edvel narrativo (como Vanessa Belmonte do L\u2019Abri observou). O eterno aparece dentro do temporal principalmente representado pelo Sol, que surge atr\u00e1s da m\u00e3e ou dominando sutilmente a cena em momentos importantes. No Quarto n\u00edvel temporal (o \u201cescatol\u00f3gico\u201d) h\u00e1 uma esp\u00e9cie de encontro do eterno com o temporal, de modo que o papel do Sol fica bem claro. Ele representa Deus como a fonte da Gra\u00e7a, que existe antes da Natureza, na Natureza, e depois da Natureza. Por isso no final do filme a chama n\u00e3o apaga progressivamente; o filme termina subitamente com a chama ainda acesa, para indicar sua eternidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>ESTRUTURAS METAF\u00d3RICAS<\/strong><em><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2012\/03\/cortina.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright  wp-image-397\" title=\"cortina\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2012\/03\/cortina-300x151.png\" alt=\"\" width=\"256\" height=\"131\" \/><\/a><\/em><em><\/em><\/p>\n<p>\u00c9 preciso dar muita aten\u00e7\u00e3o aos s\u00edmbolos visuais. Tenho algumas sugest\u00f5es sobre os principais e seus poss\u00edveis significados: a <em>\u00e1rvore<\/em> (vida eterna); as <em>dan\u00e7as\/brincadeiras<\/em> (a pericorese trinit\u00e1ria<a title=\"\" href=\"#_ftn6\">[6]<\/a>, amor, alegria); a <em>viol\u00eancia e <\/em><em>possessividade<\/em> do pai; a media\u00e7\u00e3o da gra\u00e7a (por exemplo, quando a m\u00e3e<em> enrola o filho em uma cortina e o beija<\/em> atrav\u00e9s dela, indicando que Deus <em><\/em>est\u00e1 presente, embora de forma misteriosamente oculta); a <em>luz<\/em> do sol e das velas; o <em>v\u00f4o<\/em> da m\u00e3e em torno da \u00e1rvore; o movimento em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 <em>janela<\/em> do s\u00f3t\u00e3o (em um momento Jack, cheio de d\u00favidas, para de andar e fica brincando de bicicleta no meio do caminho), o <em>vitral com a imagem de Cristo<\/em>, num momento cr\u00edtico do serm\u00e3o do padre, e as <em>m\u00e3os<\/em>, que se repetem<em> ad infinitum<\/em> como express\u00f5es n\u00e3o apenas afetivas e espirituais. Particularmente bela \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica da fecunda\u00e7\u00e3o e do nascimento de Jack.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2012\/03\/girass\u00f3is.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft  wp-image-399\" title=\"girass\u00f3is\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2012\/03\/girass\u00f3is-300x168.jpg\" alt=\"\" width=\"258\" height=\"147\" \/><\/a>Entre todas as met\u00e1foras visuais, a que representa mais diretamente o tema do diretor, e minha opini\u00e3o, s\u00e3o os <strong>girass\u00f3is<\/strong>. Eles aparecem no in\u00edcio do filme, quando a m\u00e3e compreende o caminho da Gra\u00e7a, e no final da narrativa do tempo da F\u00e9, que \u00e9 encerrada com o campo de girass\u00f3is. Os girass\u00f3is representam de forma indireta a vis\u00e3o de Deus (pois eles est\u00e3o sempre virados para o Sol), e o campo de Girass\u00f3is simboliza a \u201cVisio Dei\u201d, ou<em> vis\u00e3o beat\u00edfica<\/em>, a vis\u00e3o final da face de Deus profetizada em Apocalipse (o que \u00e9 exatamente o tema da m\u00fasica de fundo, nessa cena).<\/p>\n<p>A m\u00e3e, possivelmente, representa tamb\u00e9m <em>Maria <\/em>(o que \u00e9 bem plaus\u00edvel, considerando as origens espirituais de Malick); ela \u00e9 o paradigma de como o ser humano deve viver em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 natureza e \u00e0 gra\u00e7a, e ao tornar-se paradigma torna-se tamb\u00e9m ve\u00edculo de gra\u00e7a e ilumina\u00e7\u00e3o para os que a observam. Descontando o uso id\u00f3latra potencial dessa figura\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso dizer que considerar Maria um paradigma de santidade crist\u00e3 e incorpora\u00e7\u00e3o da gra\u00e7a, capaz de desafiar e desmascarar a escolha do caminho da natureza \u00e9 algo perfeitamente compat\u00edvel com a f\u00e9 protestante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>RECURSOS DE CINEMATOGRAFIA E FUNDAMENTA\u00c7\u00c3O CIENT\u00cdFICA<br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2012\/03\/the_tree_of_life_efeitos.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft  wp-image-404\" title=\"the_tree_of_life_efeitos\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2012\/03\/the_tree_of_life_efeitos-300x151.png\" alt=\"\" width=\"286\" height=\"147\" \/><\/a>O filme usa a n\u00e3o-linearidade para criar uma instabilidade, for\u00e7ando uma transcend\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o ao tempo. N\u00e3o porque Malick queira desestabilizar num sentido p\u00f3s-moderno (negar que exista sentido), mas porque deseja sugerir a relatividade do tempo em rela\u00e7\u00e3o ao eterno. e sua presen\u00e7a n\u00e3o-linear dentro da consci\u00eancia humana (e n\u00e3o \u00e9 nesse <em>vai-e-vem<\/em> que cada um de n\u00f3s vivencia o tempo?). Essa quebra da linearidade \u00e9 assim um <em>recurso po\u00e9tico<\/em>, um modo de comunica\u00e7\u00e3o est\u00e9tica que vai al\u00e9m da l\u00f3gica (embora n\u00e3o esteja em contradi\u00e7\u00e3o com ela) para nos atingir diretamente na alma.<\/p>\n<p>Malick evita a computa\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica sempre que poss\u00edvel. Assim, por exemplo, toda a representa\u00e7\u00e3o inicial da cria\u00e7\u00e3o do universo \u00e9 feita usando filmagens em alta defini\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00f5es em<em> slow-motion<\/em> de manipula\u00e7\u00e3o de l\u00edquidos e subst\u00e2ncias qu\u00edmicas. Aqui ocorreu uma \u00f3bvia semelhan\u00e7a com <em>Stanley Kubrick<\/em> em <em>2001: A Space Odyssey<\/em> (1968), at\u00e9 porque Malick recorreu ao amigo Douglas Trumbull, que trabalhou nos efeitos especiais de 2001. Al\u00e9m disso, houve recurso at\u00e9 mesmo a experts da NASA para realizar as simula\u00e7\u00f5es sobre a origem do cosmo. A teoria da evolu\u00e7\u00e3o bem como os estudos mais recentes sobre as origens do <em>altru\u00edsmo animal<\/em> s\u00e3o empregados nas pol\u00eamicas sequ\u00eancias com os &#8220;dinossauros&#8221;. O filme \u00e9 assim simultaneamente artesanal e cientificamente<em> up-to-date<\/em>.<a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2012\/03\/the-tree-of-life-movie-poster-01.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-393\" title=\"the-tree-of-life-movie-poster-01\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2012\/03\/the-tree-of-life-movie-poster-01-191x300.jpg\" alt=\"\" width=\"191\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2012\/03\/the-tree-of-life-movie-poster-01-191x300.jpg 191w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2012\/03\/the-tree-of-life-movie-poster-01-651x1024.jpg 651w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2012\/03\/the-tree-of-life-movie-poster-01-95x150.jpg 95w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2012\/03\/the-tree-of-life-movie-poster-01.jpg 764w\" sizes=\"auto, (max-width: 191px) 100vw, 191px\" \/><\/a> Isso \u00e9, por sinal, uma das muitas evid\u00eancias contra as interpreta\u00e7\u00f5es surrealistas ou puramente psicanal\u00edticas: essa figura\u00e7\u00e3o precisa e informada da hist\u00f3ria natural n\u00e3o \u00e9 meramente simb\u00f3lica ou para produzir uma impress\u00e3o visual, mas para colocar a sentido da gra\u00e7a contra o fundo real\u00edstico da ci\u00eancia moderna e vice versa. Que outra raz\u00e3o haveria para introduzir dinossauros no meio do filme?<\/p>\n<p>Cada imagem com seus detalhes \u00e9 uma obra intencional; o filme \u00e9 menos produto de acasos interessantes enquanto a captura de imagens era feita<a title=\"\" href=\"#_ftn7\">[7]<\/a>, e mais uma sequ\u00eancia de pinturas. O cinema de Malick \u00e9 completamente \u201cautoral\u201d, como observamos antes: cada sequ\u00eancia \u00e9 quadro, e o diretor aparece mais do que os atores. A imagem \u00e9 sempre metaf\u00f3rica \u2013 n\u00e3o s\u00f3 as coisas que aparecem, mas os di\u00e1logos, os eventos, etc.<\/p>\n<p>Um exemplo disso \u00e9 o <em>movimento ascendente da c\u00e2mera<\/em>, que se repete insistentemente. A c\u00e2mera sobe at\u00e9 mostrar o c\u00e9u, quase sempre em conex\u00e3o com a \u00e1rvore. Com isso Malick quer reproduzir a experi\u00eancia que a Catedral G\u00f3tica pretendia produzir no passado, oferecendo ao fiel uma experi\u00eancia de grandeza, transcend\u00eancia e ascens\u00e3o, apontando para Deus. Isso fica evidente quando a pr\u00f3pria m\u00e3e diz que Deus mora l\u00e1 em cima, \u201cno c\u00e9u\u201d. Outro exemplo \u00e9 o insistente posicionamento da c\u00e2mera contra o Sol, que \u00e9 mostrado atr\u00e1s da \u00e1rvore (como que apontando para ela), ou quando Jack retorna \u00e0 sua m\u00e3e, ap\u00f3s o roubo do lingerie da vizinha, \u00e9 mostrado sempre atr\u00e1s da cabe\u00e7a da m\u00e3e, emulando o halo de santidade que vemos na pintura medieval.<\/p>\n<p>O realismo fant\u00e1stico de Tarkovski aparece no voo da m\u00e3e, na representa\u00e7\u00e3o metaf\u00f3rica do ato sexual e do nascimento de Jack, e assim por diante. Nisso ele lembra a arte medieval que usava a fantasia para falar da realidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>TRILHA SONORA<\/strong><\/p>\n<p>Por \u00faltimo, aten\u00e7\u00e3o para a trilha sonora organizada por Alexandre Desplat (pode ser adquirida <a href=\"http:\/\/www.amazon.com\/Tree-Original-Motion-Picture-Soundtrack\/dp\/B004V9J4L2\" target=\"_blank\">AQUI<\/a>). Al\u00e9m de outras pe\u00e7as cl\u00e1ssicas, h\u00e1 um emprego intencional do <em>minimalismo sacro<\/em> (<em>Arvo Part, Gorecki, Tavener,<\/em> e outros) que talvez revele a paridade entre o projeto de Malick e o desses compositores sacros contempor\u00e2neos, de representar o eterno na arte. (Veja um exemplo de <a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=miLV0o4AhE4\" target=\"_blank\">Gorecki que aparece no filme AQUI <\/a>e uma entrevista de <a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=2pDjT1UNT3s\" target=\"_blank\">Bj\u00f6rk com Arvo Part AQUI<\/a>).<\/p>\n<p>Particularmente significativo \u00e9 o recurso ao \u201cRequiem\u201d, a missa f\u00fanebre. O texto do Requiem \u00e9 sempre o mesmo (com origens Medievais), mas cada compositor cria uma m\u00fasica diferente para ele (o mais famoso de todos \u00e9, naturalmente, o de Mozart, mas muita gente n\u00e3o sabe que h\u00e1 v\u00e1rios Requiems). De forma absolutamente reveladora, a cria\u00e7\u00e3o da Natureza j\u00e1 \u00e9 iniciada com a <a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=1WvuJwMFPz4\" target=\"_blank\">\u201cLacrimosa 2\u201d de Zbigniew Preisner <\/a>(dedicada ao grande cineasta Krzysztof Kie\u015blowski), que \u00e9 um lamento pela perdi\u00e7\u00e3o do homem e uma ora\u00e7\u00e3o pedindo miseric\u00f3rdia. Como isso se sugere que a Natureza est\u00e1 desde o princ\u00edpio limitada e que o homem que nela se fia est\u00e1 condenado. E no final de tudo, quando chegamos ao tempo da f\u00e9 e a sequ\u00eancia da \u201cpraia\u201d, s\u00e3o executadas as \u00faltimas duas pe\u00e7as do Requiem, a primeira (<em>Agnus Dei<\/em> de Berlioz) dizendo \u201ccordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo, d\u00ea a eles descanso\u201d (<em>Agnus Dei qui tollis peccata mundi, dona eis requiem<\/em>) e a segunda (<em>Communion<\/em>) sobre o descanso final do servos de Deus, quando eles ver\u00e3o a luz eterna brilhando sobre eles e encontrar\u00e3o o descanso eterno <em>(Lux aeterna, luceat eis, Domine, cum sanctis tuis in aeternum, quia pius es. Requiem aeternam dona eis, Domine, et lux perpetua luceat eis<\/em>). A composi\u00e7\u00e3o da imagem do campo de girass\u00f3is com o tema da <em>Communion<\/em> representa a Vis\u00e3o Beat\u00edfica final.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>MINHA INTERPRETA\u00c7\u00c3O&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2012\/03\/ondeDeusvive.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-403\" title=\"ondeDeusvive\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2012\/03\/ondeDeusvive-300x164.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"164\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2012\/03\/ondeDeusvive-300x164.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2012\/03\/ondeDeusvive-150x82.jpg 150w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2012\/03\/ondeDeusvive.jpg 540w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Quem teve a paci\u00eancia de ler todo o artigo pode estar pensando agora sobre a fonte dessa interpreta\u00e7\u00e3o. Pl\u00e1gio? Informa\u00e7\u00e3o privilegiada? <em>Nonsense<\/em> absoluto? Nesse ponto preciso lembrar a todos que a despeito da tonalidade de convic\u00e7\u00e3o do meu texto, trata-se apenas da minha hip\u00f3tese sobre o filme. Pode estar certa, meio-certa, ou errada \u2013 muito embora eu, naturalmente, defenda que ela est\u00e1 em algum lugar entre \u201ccerta\u201d e \u201cmeio-certa\u201d!<\/p>\n<p>Mas realmente penso que o centro do filme \u00e9 a escolha da m\u00e3e pela Gra\u00e7a, mesmo diante da confus\u00e3o do sofrimento, e o impacto revelador que isso tem sobre o sentido do mundo, como evid\u00eancia divina, como sinal e caminho da Vida Eterna. Isso \u00e9 <em>a \u00c1rvore da Vida<\/em>.<\/p>\n<p>E Jack, o personagem principal, representa o homem moderno, esquecido de suas origens (crist\u00e3s), que mergulhou na &#8220;Natureza&#8221; e que j\u00e1 n\u00e3o compreende o caminho da Gra\u00e7a. O itiner\u00e1rio autorreflexivo de Jack \u00e9 o ponto de identifica\u00e7\u00e3o e de contato pedag\u00f3gico com o expectador secularizado contempor\u00e2neo, para que sua imagina\u00e7\u00e3o po\u00e9tica seja reaberta e ele pr\u00f3prio reconsidere o seu caminho.<\/p>\n<p>Certamente Terrence Malick emerge da obra como poeta e fil\u00f3sofo; mas minha hip\u00f3tese pessoal \u00e9 que ele emerge tamb\u00e9m como te\u00f3logo natural. Para mim, <em>\u201cA \u00c1rvore da Vida\u201d \u00e9 uma pe\u00e7a de teologia natural,<\/em> que aponta o sentido divino do mundo para o homem moderno (de fato, ele pergunta e discursa sobre o problema do mal, sobre o bem, sobre a Gra\u00e7a e sobre o destino do mundo), mas o faz transformando a experi\u00eancia visual-temporal em algo quase sacramental. Deus \u00e9 incessantemente revelado diante do expectador, de forma consistentemente indireta e sutil; mas voc\u00ea reconhecer\u00e1 a sua presen\u00e7a, se j\u00e1 tiver escolhido o caminho da Gra\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>OBS: NO PR\u00d3XIMO POST SOBRE O FILME VAMOS DISCUTIR CRITICAMENTE <strong>A SUA CONCEP\u00c7\u00c3O DE NATUREZA E GRA\u00c7A<\/strong>.<\/p>\n<div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr align=\"left\" size=\"1\" width=\"33%\" \/>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> guilherme.religion@gmail.com.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref2\">[2]<\/a> Curiosamente, a m\u00e3e aprendeu o caminho da Gra\u00e7a com seu o seu Pai, no princ\u00edpio do filme; mas os pais da m\u00e3e n\u00e3o tem identidade temporal definida, ao contr\u00e1rio dos av\u00f3s paternos de Jack, que aparecem com identidades humanas, desaparecem na narrativa e nunca mais reaparecem \u2013 nem mesmo na cena final da praia. Creio que eles representam a vaidade da natureza e tamb\u00e9m a perdi\u00e7\u00e3o de todo o que nela se fixa.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref3\">[3]<\/a> Quando a m\u00e3e ensina as primeiras li\u00e7\u00f5es a Jack, temos uma interessant\u00edssima sequ\u00eancia na brincadeira com o cavalo de brinquedo em que ela diz tr\u00eas vezes a Jack \u201cjump, jump, jump\u201d, sendo que na terceira vez a palavra \u00e9 pronunciada no escuro \u2013 e no momento seguinte, passamos \u00e0 cena em que pela primeira vez Jack v\u00ea seu irm\u00e3o, no colo.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref4\">[4]<\/a> Por isso o filme abre com Jack dizendo \u201cmother, brother\u201d e reconhecendo que eles lhe mostraram o caminho.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref5\">[5]<\/a> Talvez Malick tenha se referido \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o mitol\u00f3gica antiga das \u201ctr\u00eas gra\u00e7as\u201d, sendo a gra\u00e7a central a deusa \u201ccharitas\u201d (termo latino, do grego \u201cCharis\u201d, \u201cGra\u00e7a\u201d). Essa imagem surge na tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria e iconogr\u00e1fica medieval, renascentista e barroca das com v\u00e1rios exemplos interessantes. Uma busca de imagens na internet revelar\u00e1 exemplos emblem\u00e1ticos como as \u201ctr\u00eas gra\u00e7as\u201d de <em>Botticelli<\/em>. No fundo mitol\u00f3gico, a gra\u00e7a tem a ver com a beleza humana, a criatividade e a fertilidade. Mas Malick as transforma em s\u00edmbolos teol\u00f3gicos com <em>M\u00e3e<\/em> tornando-se o novo paradigma do verdadeiro significado e \u201cgra\u00e7a\u201d, relacionando-o com a f\u00e9 e o amor crist\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref6\">[6]<\/a> O termo \u201cpericorese\u201d foi empregado pelos pais da igreja para se referir \u00e0 m\u00fatua habita\u00e7\u00e3o das pessoas da trindade, unindo-as no que foi descrito por Santo Atan\u00e1sio como uma \u201cdan\u00e7a\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref7\">[7]<\/a> Com not\u00e1veis exce\u00e7\u00f5es como a cena da borboleta pousando nas m\u00e3os da senhora O\u2019Brien, que foi n\u00e3o intencional e certamente uma d\u00e1diva providencial \u2013 eu diria.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Guilherme de Carvalho \u2013 L\u2019Abri Brasil[1] \u201c\u00c1rvore da Vida\u201d (The Tree of Life, 2011) n\u00e3o \u00e9 uma unanimidade. Em Cannes foi criticado por metade da plateia e aplaudido pela outra metade. Levou a Palme D\u2019Or em Cannes (2011) e n\u00e3o levou nada no Oscar (2012), a despeito das indica\u00e7\u00f5es. 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