{"id":331,"date":"2012-02-29T11:57:10","date_gmt":"2012-02-29T14:57:10","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/?p=331"},"modified":"2013-03-20T11:24:28","modified_gmt":"2013-03-20T14:24:28","slug":"o-amante-o-amado-e-o-amor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/2012\/02\/29\/o-amante-o-amado-e-o-amor\/","title":{"rendered":"O Amante, o Amado e o Amor: Deus, segundo o Cristianismo"},"content":{"rendered":"<p>No \u00e2mago do cristianismo est\u00e1 <em>o conhecimento de Deus.<\/em> No \u00e2mago do cristianismo est\u00e1 o an\u00fancio de que Deus veio at\u00e9 n\u00f3s, e est\u00e1 conosco. \u00c9 assim que a igreja primitiva compreendeu a revela\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo, conforme a antiga profecia de Isa\u00edas:<br \/>\n<em><br \/>\nPortanto, o Senhor mesmo vos dar\u00e1 um sinal: eis que a virgem conceber\u00e1 e dar\u00e1 \u00e0 luz um filho e lhe chamar\u00e1 Emanuel. (Is 7.14)<\/em><\/p>\n<p>Emanuel, &#8220;Deus conosco&#8221;. O Deus Crist\u00e3o \u00e9 outro, ou no m\u00ednimo mais do que o deus dos fil\u00f3sofos, por dar<em> a si mesmo<\/em> na revela\u00e7\u00e3o. Pois a revela\u00e7\u00e3o b\u00edblica n\u00e3o \u00e9 a revela\u00e7\u00e3o de uma determinada quantidade de informa\u00e7\u00f5es, ou mesmo de informa\u00e7\u00f5es a respeito de Deus, mas \u00e9 a revela\u00e7\u00e3o de Deus, <em>dele pr\u00f3prio<\/em> em sua concretude e factualidade, como um supremo Sujeito e um supremo Objeto (n\u00e3o al\u00e9m da rela\u00e7\u00e3o sujeito-objeto, como o quer Tillich) que se apresenta ao homem e que \u00e9 um fato final, incontorn\u00e1vel, inabsorv\u00edvel para o pensamento te\u00f3rico. Inabsorv\u00edvel para a ci\u00eancia e a filosofia, mas nem por isso sem significado (como se fosse o <em>fato-bruto-sem-significado<\/em> dos te\u00f3logos Kantianos) mas um fato que \u00e9 ao mesmo tempo cheio de significado em si mesmo, e que por isso comunica veracidade ao discurso humano; um fato que n\u00e3o \u00e9 completamente inef\u00e1vel, ainda que n\u00e3o seja completamente diz\u00edvel.<\/p>\n<p>Como \u00e9 esse Deus Crist\u00e3o? Quem \u00e9 ele? <!--more--> A resposta crist\u00e3 cl\u00e1ssica \u00e9: a Trindade. Trindade \u00e9 o nome crist\u00e3o para Deus, e \u00e9 por isso que o Credo Apost\u00f3lico guarda uma estrutura trinit\u00e1ria, abrindo cada um dos artigos principais com uma refer\u00eancia a uma das pessoas da trindade: &#8220;Creio em Deus Pai&#8230; E em Jesus Cristo, seu \u00fanico Filho&#8230; Creio no Esp\u00edrito Santo&#8221;. Na verdade, compreender a Deus como trindade \u00e9 compreender a estrutura essencial da f\u00e9 e de toda a teologia crist\u00e3, e compreender exatamente a singularidade do cristianismo at\u00e9 mesmo diante de todas as religi\u00f5es ou religiosidades te\u00edstas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;\"><strong>A Confus\u00e3o Evang\u00e9lica sobre Deus<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Um dos mais graves problemas do movimento evang\u00e9lico atual \u00e9 a incompreens\u00e3o de Deus e, particularmente, da trindade. Dependendo do setor desse movimento, encontraremos \u00eanfases teol\u00f3gicas completamente desequilibradas a respeito. Em alguns lugares a \u00eanfase, no louvor, no p\u00falpito e na espiritualidade, est\u00e1 nas experi\u00eancias com o poder do Esp\u00edrito Santo; em outros, na justifica\u00e7\u00e3o pela f\u00e9; em outros, na adora\u00e7\u00e3o b\u00edblica; em outros, na transforma\u00e7\u00e3o moral, ou na miss\u00e3o, e assim por diante. Tudo isso \u00e9 importante, mas n\u00e3o pode ficar no centro. Por uma raz\u00e3o que n\u00e3o poderia ser mais simples e autoevidente: <em>s\u00f3 Deus pode ficar no centro de nossos pensamentos e atividades.<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 de lamentar o <em>antropocentrismo <\/em>que tomou conta dos evang\u00e9licos, seja na \u00eanfase na responsabilidade humana (a &#8220;nossa parte&#8221;) que vemos nos setores menos agostinianos da Miss\u00e3o Integral, seja no tecnicismo eclesiol\u00f3gico das megaigrejas ou no ativismo ligado ao movimento dos &#8220;sete montes da cultura&#8221;. Toda a controv\u00e9rsia atual sobre o te\u00edsmo aberto \u00e9 no fundo uma controv\u00e9rsia sobre a posi\u00e7\u00e3o do homem no universo. Tudo pode parecer muito piedoso, mas nunca ser\u00e1 realmente piedoso um cristianismo que tira Deus do centro.<\/p>\n<p>E uma das provas mais claras de que Deus foi tirado do centro \u00e9 a completa incompreens\u00e3o da trindade. Tipicamente, o crente comum pensa que trindade \u00e9 algo sobre como &#8220;deus \u00e9 um e tr\u00eas ao mesmo tempo, n\u00e3o me pergunte como!&#8221;\u00a0 \u00c9 um paradoxo matem\u00e1tico. Um enigma num\u00e9rico justificado com alguns textos-prova destinados a eliminar parte da ansiedade e dar uma resposta &#8220;\u00e0quelas testemunhas de Jeov\u00e1 que n\u00e3o me d\u00e3o sossego&#8221;. N\u00e3o \u00e9 por acaso que muitos se tornaram presas f\u00e1ceis de tend\u00eancias como o movimento judaico messi\u00e2nico brasileiro (que, ao contr\u00e1rio do internacional, \u00e9 amb\u00edguo e eventualmente her\u00e9tico rejeitando a divindade de Cristo), ou at\u00e9 mesmo de evangelistas isl\u00e2micos que come\u00e7am a despontar no Brasil.<\/p>\n<p>At\u00e9 mesmo entre os c\u00edrculos evang\u00e9licos mais esclarecidos e ortodoxos, que prezam todas as doutrinas crist\u00e3s cl\u00e1ssicas e a pr\u00f3pria doutrina da trindade, \u00e9 comum perceber uma perda da conex\u00e3o org\u00e2nica entre a vis\u00e3o de Deus e a soteriologia. Elas s\u00e3o tratadas como campos separados, unidos tematicamente e organizados a partir de cole\u00e7\u00f5es de evid\u00eancias b\u00edblicas, sem o necess\u00e1rio <em>insight <\/em>na rela\u00e7\u00e3o interna, por exemplo, entre justifica\u00e7\u00e3o pela f\u00e9 e encarna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E h\u00e1 outro problema: o das conex\u00f5es da igreja evang\u00e9lica com o cristianismo hist\u00f3rico. Uma das falhas nas rela\u00e7\u00f5es de evang\u00e9licos com, por exemplo, os crist\u00e3os ortodoxos orientais, \u00e9 a perda do centro trinit\u00e1rio. A recupera\u00e7\u00e3o desse centro para a espiritualidade, a teologia e o culto \u00e9 essencial diante dos desafios do secularismo organizado, do Isl\u00e3 e das igrejas neopentecostais que come\u00e7am agora a negar o pr\u00f3prio consenso Niceno-Constantinopolitano.<\/p>\n<p>Ao exp\u00f4r a estrutura e mensagem do <em>Credo Apost\u00f3lico<\/em> eu tenho sempre recorrido ao hino de Paulo na sua carta aos Ef\u00e9sios, cap\u00edtulo 1 versos 3 a 14, que \u00e9 onde eu encontro a mais bela e perfeita express\u00e3o da f\u00e9 trinit\u00e1ria em sua formula\u00e7\u00e3o primitiva. O texto se divide em tr\u00eas se\u00e7\u00f5es principais, cada uma finalizando com a express\u00e3o &#8220;para o louvor da sua gl\u00f3ria&#8221; (vs 6, 12, 14). Cada se\u00e7\u00e3o focaliza uma das pessoas da trindade: primeiro o Pai, depois o Filho, e depois o Esp\u00edrito Santo. Em cada se\u00e7\u00e3o esse foco se traduz em um tema soteriol\u00f3gico distinto: primeiro a nossa elei\u00e7\u00e3o e ado\u00e7\u00e3o pelo Pai, depois a reden\u00e7\u00e3o por meio de Cristo, e por \u00faltimo o selo do Esp\u00edrito Santo. E para exp\u00f4r nossa compreens\u00e3o, vamos empregar a linguagem trinit\u00e1ria de Agostinho: Deus \u00e9 o <em>Amante, o Amado e o Amor<\/em>.<\/p>\n<p>Assim o nosso texto come\u00e7a bendizendo a Deus como o &#8220;Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo&#8221;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;\"><strong>O Amante<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Ora, Deus \u00e9 a fonte, a causa e prop\u00f3sito de todas as coisas. \u00c9 a origem ou o <em>arch\u00e9<\/em>, como dizem os fil\u00f3sofos. Mas antes de tudo ele \u00e9 o <em>Pai<\/em>, e isso significa que ele existe no interior de uma rela\u00e7\u00e3o. Deus n\u00e3o se tornou o Pai em certo momento, n\u00e3o adquiriu essa qualidade como uma caracter\u00edstica acidental ou contingente, como se ele pudesse ter sido outra coisa; mas <em>desde sempre<\/em> foi o Pai de nosso Senhor, e isso \u00e9 t\u00e3o essencial \u00e0 sua identidade quando o ser Filho \u00e9 essencial \u00e0 identidade de Jesus Cristo. A pr\u00f3pria paternidade humana n\u00e3o \u00e9 &#8211; ao contr\u00e1rio do que alguns te\u00f3logos alegam &#8211; a proje\u00e7\u00e3o de uma analogia humana no c\u00e9u, como o fim de esclarecer a experi\u00eancia religiosa, mas o modelo a partir do qual a paternidade humana foi analogicamente criada por Deus, e continuaremos sempre necessitando da analogia criada, ainda que corrompida pela perversidade humana.<\/p>\n<p>Deus \u00e9 o Pai, a fonte de todas as coisas, e isso significa que ele tem um Filho antes da funda\u00e7\u00e3o do mundo. A f\u00edsica moderna revelou que antes do Big Bang n\u00e3o havia nem tempo nem espa\u00e7o (pois eles s\u00e3o relativos entre si). Sem d\u00favida antes da funda\u00e7\u00e3o do mundo n\u00e3o houve &#8220;antes&#8221;, a n\u00e3o ser metaforicamente; ou talvez existisse outra ordem temporal, correndo em outro universo sobre outro eixo direcional, em si mesmo independente do nosso tempo-espa\u00e7o (ou at\u00e9 outros universos, com outros eixos). Mas ent\u00e3o, &#8220;antes&#8221; da funda\u00e7\u00e3o do mundo Deus, j\u00e1 era o Pai de seu Filho e j\u00e1 &#8220;tinha&#8221; nos escolhido para sermos &#8220;santos e irrepreens\u00edveis diante dele&#8221;.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o h\u00e1, antes de tudo, antes do G\u00eanesis, uma <em>rela\u00e7\u00e3o<\/em>. Antes do princ\u00edpio havia essa rela\u00e7\u00e3o. O mais maravilhoso, no entanto, \u00e9 que nosso destino estivesse associado exatamente a essa rela\u00e7\u00e3o. Pois antes de todas as coisas fomos escolhidos &#8220;Nele&#8221;. E &#8220;Ele&#8221; \u00e9 o Filho de Deus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;\"><strong>O Amado<\/strong><\/span><\/p>\n<p>O Filho estava l\u00e1 antes de tudo; &#8220;nele foram criadas todas as coisas, e nele tudo subsiste&#8221; (Cl 1.17). Mais do que isso: &#8220;tudo foi criado por meio dele e para ele&#8221; (Cl 1.18). O mundo foi feito para o pr\u00f3prio Senhor Jesus. Ent\u00e3o &#8211; que coisa chocante! &#8211; o mundo inteiro \u00e9 um epis\u00f3dio desse relacionamento do Pai com o Filho; pois o Pai fez o mundo por meio de Cristo, mas n\u00e3o fez para si mesmo, e sim para o pr\u00f3prio Jesus Cristo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>&#8220;Sem Jesus Cristo o mundo n\u00e3o existiria, pois teria que ser destru\u00eddo ou se transformaria em um tipo de inferno.<br \/>\nSe o mundo existisse para ensinar o homem sobre Deus, sua divindade brilharia em todas as suas partes de uma forma incontest\u00e1vel. Mas como ele existe apenas atrav\u00e9s de Jesus Cristo e para Jesus Cristo, e para ensinar o homem sua corrup\u00e7\u00e3o e sua reden\u00e7\u00e3o, tudo nele fa\u00edsca com provas dessas duas verdades.&#8221;<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Blaise Pascal, Pens\u00e9es<\/em><strong><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ora, se o mundo existe para Jesus, n\u00e3o h\u00e1 a menor possibilidade de entender o mundo e muito menos de se relacionar corretamente com ele sem compreender Jesus Cristo, ou seja, sem colocar-se a seu lado, andar com ele, aprender dele a olhar as coisas. E quando aprendermos a olhar as coisas, aprenderemos que elas existem dentro do relacionamento do Pai e do Filho, n\u00e3o tendo qualquer sentido fora dele. Por isso o homem jamais encontrar\u00e1 Deus no mundo, sem olhar para Jesus Cristo. Pelo contr\u00e1rio, ele deve estar em Jesus Cristo para compreender o mundo.<\/p>\n<p>Assim o texto de Paulo prossegue dizendo que nosso destino \u00e9 a <em>Ado\u00e7\u00e3o<\/em>; fomos predestinados para a ado\u00e7\u00e3o de filhos por meio do Filho. E essa \u00e9 uma revela\u00e7\u00e3o ainda mais supreendente: que em Jesus Cristo somos incorporados na rela\u00e7\u00e3o eterna que havia antes entre o Pai e o Filho, sendo exatamente esse o sentido da &#8220;Gra\u00e7a gratuita&#8221; no vers\u00edculo 6. A obra divina de enviar seu Filho para o sacrif\u00edcio da cruz visava nos incluir Nele, para nos tornar co-participantes de sua posi\u00e7\u00e3o elevada de Filho e Herdeiro do mundo. Pois o objetivo de Deus \u00e9 realmente fazer tudo convergir em Cristo, diz o verso 10;<em> o mundo \u00e9 um epis\u00f3dio dessa rela\u00e7\u00e3o; mas se somos postos em Cristo, aben\u00e7oados, escolhidos e adotados nele, ent\u00e3o o pr\u00f3prio mundo se torna um epis\u00f3dio da nossa pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o com Deus, em Jesus Cristo<\/em> (1Co 3.21-23).<\/p>\n<p>\u00c9 assim tamb\u00e9m que devemos entender o sentido da <em>Encarna\u00e7\u00e3o<\/em>. N\u00e3o se trata apenas de que o Verbo precisasse assumir plenamente a natureza humana para receber o ju\u00edzo do pecado e produzir uma obedi\u00eancia humana perfeita &#8211; o que \u00e9, sem d\u00favida, verdadeiro e maravilhoso &#8211; mas que sem a encarna\u00e7\u00e3o o humano continuaria sendo t\u00e3o somente o criatural com seus direitos criaturais; na encarna\u00e7\u00e3o o humano \u00e9 abra\u00e7ado pelo divino, \u00e9 feito seu irm\u00e3o e seu Filho, recebendo direitos inimagin\u00e1veis para a mera criatura. N\u00e3o, a encarna\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas reverte os efeitos da Queda; ela eleva o homem para uma outra posi\u00e7\u00e3o, transportando-o para o seio da divindade. Ela nos torna &#8220;co-participantes da Natureza Divina&#8221; (1Pe 1.4). N\u00e3o, \u00e9 claro, no sentido de uma alegada &#8220;inje\u00e7\u00e3o de divindade&#8221;, como alguns her\u00e9ticos neopentecostais alegaram anos atr\u00e1s, mas por <em>ado\u00e7\u00e3o e transfigura\u00e7\u00e3o<\/em>. Isso \u00e9 a verdade da <em>theosis<\/em>, t\u00e3o preciosa aos crist\u00e3os orientais. Sem encarna\u00e7\u00e3o, poderia haver, talvez, perd\u00e3o, mas jamais ado\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E tudo o que diz respeito a essa rela\u00e7\u00e3o divina nos \u00e9 comunicado. Nos tornamos, assim, amados como ele \u00e9 &#8211; &#8220;o Amado&#8221; (vs 6). E essa express\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 a\u00ed, em Ef\u00e9sios, por acaso. Esse \u00e9 o t\u00edtulo dado a ele pelo Pai quando de seu batismo, quando o Esp\u00edrito tamb\u00e9m desce sobre ele (Mt 3.16,17). A descida do Esp\u00edrito Santo sinaliza a identidade e a rela\u00e7\u00e3o que o Filho tem com o Pai. E isso com certeza tamb\u00e9m diz respeito \u00e0 nossa experi\u00eancia de Deus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;\"><strong>O Amor<\/strong><\/span><\/p>\n<p>O Esp\u00edrito Santo \u00e9 o selo que recebemos com a f\u00e9, que n\u00e3o apenas garante, mas que sinaliza a nossa verdadeira identidade e destino, que \u00e9 herdar o mundo com Cristo e sermos recebidos pelo Pai atrav\u00e9s de Cristo. O Esp\u00edrito foi chamado por Agostinho de <em>Vinculum Caritatem<\/em>, ou <em>Vinculus Amoris<\/em>, o v\u00ednculo do amor, a verdadeira comunh\u00e3o entre o Pai e o Filho. Da\u00ed a tradi\u00e7\u00e3o dizer que o Esp\u00edrito procede do Pai e do Filho. N\u00e3o \u00e9 por acaso que o dom do Esp\u00edrito est\u00e1 sempre associado \u00e0 nossa uni\u00e3o e inclus\u00e3o em Cristo: Paulo dir\u00e1 que por estarmos em Cristo recebemos o Esp\u00edrito (Gl 3.14,16,22,27-29); Pedro diz que a promessa do Esp\u00edrito foi dada a Cristo, antes de tudo, e que apenas em seu nome ela poderia ser recebida (At 2.33, 38).<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o sentido da alegoria do batismo de Jesus: ele \u00e9 o homem que ao aceitar a identifica\u00e7\u00e3o com os pecadores no batismo, recebe tanto o Esp\u00edrito, representado na pomba, como o testemunho do Pai, &#8220;Tu \u00e9s o meu Filho Amado&#8221;. O testemunho do Pai interpreta a a\u00e7\u00e3o do Pai: o Pai d\u00e1 o amor, no Esp\u00edrito, e por isso diz &#8220;tu \u00e9s meu Filho Amado&#8221;. Igualmente, quando nos batizamos aceitando a identifica\u00e7\u00e3o realizada por Cristo, somos &#8220;revestidos&#8221; dele, e o Esp\u00edrito pode descer sobre n\u00f3s. E quando ele desce, ouvimos a voz do Pai, pois &#8220;o pr\u00f3prio Esp\u00edrito testifica com o nosso esp\u00edrito de que somos filhos de Deus&#8221; (Rm 8.17) e tamb\u00e9m testifica que, j\u00e1 que somos filhos, participaremos tanto do sofrimento quanto da heran\u00e7a de Cristo (Rm 8.18). <em>O Esp\u00edrito \u00e9 assim a presen\u00e7a de Deus em n\u00f3s, e ao mesmo tempo a nossa presen\u00e7a no seio de Deus<\/em>; no Esp\u00edrito vivenciamos a rela\u00e7\u00e3o entre o Pai e o Filho, para o interior da qual fomos transportados pela Encarna\u00e7\u00e3o. Por isso, o Esp\u00edrito \u00e9 o amor-comunh\u00e3o do Pai e do Filho, e tamb\u00e9m a nossa comunh\u00e3o com o Pai e com o Filho (Jo 14.17-20). Assim como o Filho \u00e9 a &#8220;Palavra&#8221; mas n\u00e3o deixa de ser uma <em>pessoa<\/em>, o Esp\u00edrito \u00e9 a &#8220;Comunh\u00e3o&#8221; sem deixar de ser uma <em>pessoa <\/em>divina; ele \u00e9 o amor, a <em>comunh\u00e3o pessoal<\/em> da trindade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;\"><strong>A Experi\u00eancia Crist\u00e3 \u00e9 Trinit\u00e1ria<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Assim o Pai \u00e9 a fonte do Amor, o Filho o dep\u00f3sito do Amor, e o Esp\u00edrito Santo a comunh\u00e3o do Amor; e para n\u00f3s essa rela\u00e7\u00e3o se torna a Origem do Amor, a d\u00e1diva do amor (Gra\u00e7a) e a comunh\u00e3o do amor, exatamente como descreve a b\u00ean\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica (1Co 13.13). A diferen\u00e7a est\u00e1 em Cristo: pois pela Encarna\u00e7\u00e3o e pela P\u00e1scoa ele se tornou, de dep\u00f3sito eterno do Amor do Pai, em d\u00e1diva hist\u00f3rica do amor divino. Jesus \u00e9 o ponto de conex\u00e3o com Deus, pois nele somos introduzidos na eterna rela\u00e7\u00e3o divina.<\/p>\n<p>Por isso, o cristianismo \u00e9 a um s\u00f3 tempo trinit\u00e1rio e cristoc\u00eantrico. Mas o cristocentrismo existe dentro do trinitarismo. Cristo \u00e9 a porta para entrarmos na comunh\u00e3o divina; mas ele \u00e9 a porta para uma comunh\u00e3o de tr\u00eas pessoas em uma \u00fanica divindade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>por ele, ambos temos acesso ao Pai em um Esp\u00edrito. (Ef\u00e9sios 2.18)<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Acesso <em>ao Pai<\/em>; acesso, <em>por ele<\/em>; acesso<em> em um mesmo Esp\u00edrito<\/em>, o que nos torna um \u00fanico corpo, uma fam\u00edlia e um templo (Ef 2.16-22). Ora, o que temos, enfim, \u00e9 <em>uma experi\u00eancia trinit\u00e1ria de aceita\u00e7\u00e3o<\/em>. O Deus crist\u00e3o foi experimentado trinitariamente, como o Deus todo poderoso que enviou seu Filho Jesus, como o Deus-homem, o verbo encarnado no tempo e no espa\u00e7o, que podia ser tocado e que confrontou o mal diretamente na cruz e na ressurrei\u00e7\u00e3o, e como a presen\u00e7a divina que assegura o amor divino e nos faz orar &#8220;Aba, Pai&#8221;. Ser um crist\u00e3o \u00e9 experimentar Deus dessa forma tripla, como o infinito pessoal que originou todas as coisas, revelado na pessoa de Jesus e presente como consolador no cora\u00e7\u00e3o e na Igreja; \u00e9 reconhecer o mesmo Deus nas tr\u00eas experi\u00eancias, e compreender que as tr\u00eas experi\u00eancias s\u00e3o indissoci\u00e1veis da f\u00e9 em Jesus Cristo.<\/p>\n<p>Por isso a doutrina da trindade n\u00e3o \u00e9 e n\u00e3o pode ser ensinada como um &#8220;dilema matem\u00e1tico&#8221; de &#8220;tr\u00eas ou um&#8221;. N\u00e3o se trata de n\u00fameros, mas de rela\u00e7\u00f5es. \u00c9 claro que h\u00e1 um paradoxo, mas ele nem mesmo \u00e9 num\u00e9rico; \u00e9 <em>ontol\u00f3gico<\/em>. N\u00e3o podemos explicar como um ser pode ser pessoal, infinito e ainda tri\u00fano &#8211; C. S. Lewis diz que isso seria o &#8220;superpessoal&#8221;, ao que estou inclinado a concordar. Pois se h\u00e1 um Deus, faz todo sentido que seu ser seja n\u00e3o somente necess\u00e1rio e incondicionado, mas tamb\u00e9m transcendente e ultimamente insol\u00favel em termos da raz\u00e3o finita. Mas<em> compreender a trindade n\u00e3o \u00e9 especular sobre a natureza do Ser ou sobre o &#8220;tr\u00eas-em-um&#8221;, e sim entrar na rela\u00e7\u00e3o trinit\u00e1ria.<\/em> O mais importante n\u00e3o \u00e9 o mist\u00e9rio incompreens\u00edvel, mas o que nos \u00e9 revelado e seu significado absolutamente pr\u00e1tico, urgente, e existencialmente supremo.<\/p>\n<p>Por isso tamb\u00e9m, Santo Atan\u00e1sio disse que ningu\u00e9m poderia ser salvo sem crer na trindade. N\u00e3o \u00e9 porque crer na trindade seja uma condi\u00e7\u00e3o de membresia no &#8220;checklist&#8221; do c\u00e9u. \u00c9 porque ser salvo e ser admitido na comunh\u00e3o trinit\u00e1ria s\u00e3o uma e a mesma coisa. Conhecer a Deus \u00e9 conhecer o Deus que se d\u00e1 a n\u00f3s em Jesus, nos unindo a ele pelo Esp\u00edrito Santo. E \u00e9 isso o que o Credo Apost\u00f3lico descreve de forma resumida: <em>a experi\u00eancia de encontrar o Deus que est\u00e1 presente<\/em>:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;\"><strong>No Centro, a Beleza<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Nunca vou me esquecer quando li, h\u00e1 uns dez anos atr\u00e1s, a entrevista de Rubem Alves \u00e0 revista <em>Veja <\/em>dizendo que o centro da teologia crist\u00e3 (ou ser\u00e1 protestante? N\u00e3o tenho certeza quanto a esse ponto) era o inferno, e que ao se <a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2012\/02\/TrindadeRublev02.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright  wp-image-333\" title=\"TrindadeRublev02\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2012\/02\/TrindadeRublev02-243x300.jpg\" alt=\"\" width=\"247\" height=\"304\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2012\/02\/TrindadeRublev02-243x300.jpg 243w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2012\/02\/TrindadeRublev02-121x150.jpg 121w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2012\/02\/TrindadeRublev02.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 247px) 100vw, 247px\" \/><\/a>remover o inferno todos os parafusos e pinos da teologia crist\u00e3 se soltariam. Na \u00e9poca eu ainda n\u00e3o sabia exatamente porque, mas tinha certeza de que algo estava errado.<\/p>\n<p>E o tempo mostrou que o que estava errado era <em>tudo<\/em>. Seria dif\u00edcil ser mais misantr\u00f3pico que isso. <em>O centro da teologia crist\u00e3 n\u00e3o \u00e9 o inferno, \u00e9 a trindade<\/em>. E a trindade significa, para n\u00f3s, <em>ado\u00e7\u00e3o<\/em>. N\u00f3s, criaturas, n\u00e3o somos filhos por natureza; Pai-Filho \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o interna da divindade, incriada e eterna. Salva\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 meramente ser livrado do inferno, mas acima de tudo ser trazido para dentro dessa rela\u00e7\u00e3o, Nele. Isso \u00e9 mais do que livrar-se da ira divina; \u00e9 um conhecimento exclusivo, incriado e eterno, que s\u00f3 o Filho tinha, e s\u00f3 ele poderia compartilhar (Mt 11.27). Rubem Alves errou duas vezes, mas seu maior erro n\u00e3o foi rejeitar a doutrina do inferno (pois essa \u00e9 uma doutrina boa e necess\u00e1ria), e sim n\u00e3o enxergar a verdade sobre o c\u00e9u. Pois no centro da f\u00e9 crist\u00e3 mora a beleza, que est\u00e1 guardada nos c\u00e9us e nos espera de bra\u00e7os abertos.<\/p>\n<p>Pensemos no \u00edcone do grande Rublev, &#8220;a Hospitalidade de Abra\u00e3o&#8221;. Ali est\u00e3o as tr\u00eas figuras, duas olhando uma para a outra, uma na posi\u00e7\u00e3o central, e uma terceira olha para a rela\u00e7\u00e3o das outras duas. O \u00edcone representa a trindade; mas o \u00edcone \u00e9 tamb\u00e9m um convite. A hospitalidade de Abra\u00e3o \u00e9 na verdade a recep\u00e7\u00e3o de Abra\u00e3o na comunh\u00e3o divina, como um amigo de Deus; muito mais do que isso, o Novo Testamento revelaria, como um Filho de Deus. Agora estamos dentro da pintura, sendo olhados pelo Pai em seu Filho, sob as asas do Esp\u00edrito Santo; e a vinda do Amado em carne \u00e9 a hospitalidade divina que iluminou para sempre o nosso destino.<\/p>\n<p>Encerro com as palavras de Karl Barth:<br \/>\n<em><br \/>\n&#8220;O que Deus \u00e9 e faz em seu Filho, concerne diretamente a voc\u00ea, vale para voc\u00ea e lhe beneficia. O que \u00e9 verdadeiro na eternidade, no pr\u00f3prio Deus, torna-se verdadeiro aqui e agora no tempo. De que se trata? Nem mais nem menos de que de uma repeti\u00e7\u00e3o da vida divina, repeti\u00e7\u00e3o que n\u00f3s n\u00e3o podemos nem provocar, nem suprimir, que o pr\u00f3prio Deus suscita no mundo que ele criou, vale dizer, fora dele. Gl\u00f3ria a Deus nos lugares alt\u00edssimos!&#8221;<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Am\u00e9m!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No \u00e2mago do cristianismo est\u00e1 o conhecimento de Deus. No \u00e2mago do cristianismo est\u00e1 o an\u00fancio de que Deus veio at\u00e9 n\u00f3s, e est\u00e1 conosco. \u00c9 assim que a igreja primitiva compreendeu a revela\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo, conforme a antiga profecia de Isa\u00edas: Portanto, o Senhor mesmo vos dar\u00e1 um sinal: eis que a virgem [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":23,"featured_media":333,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[116,11699],"tags":[5411,6051,164],"class_list":["post-331","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","category-mero-cristianismo","tag-cristianismo","tag-teologia","tag-vida-crista","count-0","even alt","author-guilhermevrc","last"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/331","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/users\/23"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=331"}],"version-history":[{"count":17,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/331\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":693,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/331\/revisions\/693"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/media\/333"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=331"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=331"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=331"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}