{"id":304,"date":"2012-02-24T09:09:54","date_gmt":"2012-02-24T12:09:54","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/?p=304"},"modified":"2012-02-24T11:23:49","modified_gmt":"2012-02-24T14:23:49","slug":"a-epistemologia-da-ortodoxia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/2012\/02\/24\/a-epistemologia-da-ortodoxia\/","title":{"rendered":"Chesterton e a Epistemologia da Ortodoxia"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<div><em>Se voc\u00ea discutir com um louco, \u00e9 extremamente prov\u00e1vel que leve a pior; pois sob muitos aspectos a mente dele se move muito mais r\u00e1pido por n\u00e3o se atrapalhar com coisas que costumam acompanhar o bom ju\u00edzo. Ele n\u00e3o \u00e9 embara\u00e7ado pelo senso de humor ou pela caridade, ou pelas tolas certezas da experi\u00eancia. Ele \u00e9 muito mais l\u00f3gico por perder certos afetos da sanidade. De fato, a explica\u00e7\u00e3o comum para a insanidade nesse respeito \u00e9 enganadora. O louco n\u00e3o \u00e9 um homem que perdeu a raz\u00e3o. O louco \u00e9 um homem que perdeu tudo exceto a raz\u00e3o. <!--more--> A explica\u00e7\u00e3o oferecida por um louco \u00e9 sempre exaustiva e muitas vezes, num sentido puramente racional, \u00e9 satisfat\u00f3ria. Ou, para falar com mais rigor, a explica\u00e7\u00e3o insana, se n\u00e3o for conclusiva, \u00e9 pelo menos incontest\u00e1vel. [&#8230;] Se um homem disser, por exemplo, que os homens est\u00e3o conspirando contra ele, voc\u00ea n\u00e3o pode discutir esse ponto, a n\u00e3o ser dizendo que todos os homens negam que s\u00e3o conspiradores; o que \u00e9 exatamente o que os conspiradores fariam. Apesar de tudo, ele est\u00e1 errado [&#8230;] Talvez a maneira de nos aproximarmos ao m\u00e1ximo dessa descri\u00e7\u00e3o \u00e9 dizer o seguinte: que a mente dele se move num c\u00edrculo perfeito, por\u00e9m reduzido (G. K. Chesterton, Ortodoxia).<\/em><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>E de novo acertou o impag\u00e1vel Chesterton!<em><a href=\"http:\/\/bp0.blogger.com\/_WcuRgWzlRho\/SFlCaQwMwxI\/AAAAAAAAAag\/Z-6mAJ8fjaw\/s1600-h\/chestertoncharge1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" id=\"BLOGGER_PHOTO_ID_5213271062599222034\" class=\"alignright\" style=\"border: 0pt none;\" src=\"http:\/\/bp0.blogger.com\/_WcuRgWzlRho\/SFlCaQwMwxI\/AAAAAAAAAag\/Z-6mAJ8fjaw\/s400\/chestertoncharge1.jpg\" alt=\"\" width=\"210\" height=\"320\" border=\"0\" \/><\/a><\/em><\/p>\n<p>Ao longo de minha ainda curta trajet\u00f3ria como te\u00f3logo e pastor, encontrei um sem-n\u00famero de vezes aquele tipo, descrito por ele, que defende com vontade e com uma consist\u00eancia exasperante a racionalidade de uma vis\u00e3o simplista do real.<\/p>\n<p>Simplista, seja ele quem for: do ateu ao fundamentalista evang\u00e9lico, aquele tipo estereotipado, apolog\u00e9tico, que segue com l\u00f3gica inflex\u00edvel e fatal uma id\u00e9ia que, obviamente, se n\u00e3o \u00e9 falsa, \u00e9 unilateral. N\u00e3o que seja sempre inconveniente a l\u00f3gica inflex\u00edvel; mas \u00e9 que ela \u00e9 como a beleza: pode-se ser belo e mau. Ou feio e bom.<\/p>\n<p>Sabedoria \u00e9 reconhecer quando um argumento \u00e9 l\u00f3gico mas falso, e quando \u00e9 construtivamente feio mas verdadeiro. Feio na forma, na formula\u00e7\u00e3o, na f\u00f4rma discursiva. Torto, desengon\u00e7ado, balbuciado &#8211; mas verdadeiro, e da\u00ed?<\/p>\n<p>Sim, para ser justo, preciso reconhecer que a verdade tamb\u00e9m \u00e9 feia, \u00e0s vezes. Mais vale um pouco de realidade feia do que muita falsidade bonita. E para ser justo, preciso reconhecer que \u00e0s vezes a consist\u00eancia l\u00f3gica conduz a uma conclus\u00e3o feia (e n\u00e3o bela) que \u00e9 verdadeira. Mas, no caso, a beleza da consist\u00eancia l\u00f3gica est\u00e1 em mostrar a fei\u00fara da realidade. Palmas para ela. Sua beleza serviu \u00e0 verdade. No fim, a simetria l\u00f3gica ainda tem um tipo de beleza, antecipando a harmonia proporcional da matem\u00e1tica e, assim, da m\u00fasica, como criam os Pitag\u00f3ricos.<\/p>\n<p>Quem me dera fosse sempre assim. No mais das vezes, vejo pessoas embelezando argumentos para defender bobagens como o ate\u00edsmo, o comunismo, o individualismo ou a irrelev\u00e2ncia da ci\u00eancia para a f\u00e9 (onde fundamentalistas e Dawkinianos se beijam). Ora, ora, vaias para essa consist\u00eancia l\u00f3gica. Sua beleza serviu \u00e0 mentira. Mesmo que seja bonitinha, consistente, proporcionada, n\u00e3o passa de mulher da vida&#8230;<\/p>\n<p>Este \u00e9 o &#8220;c\u00edrculo&#8221; denunciado na epistemologia de Chesterton: pode-se andar por ele at\u00e9 o infinito, mas ainda assim o movimento se dar\u00e1 em um c\u00edrculo min\u00fasculo. Min\u00fasculamente infinito, fechado para si mesmo, <em>incurvatus in se<\/em> (Lutero).<\/p>\n<p>Como o materialista que nega a realidade da personalidade humana, com a qual acorda e vai dormir todos os dias, porque n\u00e3o \u00e9 consistente com seu &#8220;sistema&#8221;. Ou o marxista que dorme e acorda todos os dias com a realidade de que o homem \u00e9 irredut\u00edvel aos &#8220;meios de produ\u00e7\u00e3o&#8221; mas quer neg\u00e1-la, porque n\u00e3o concorda com o &#8220;sistema&#8221;. Ou como o criacionista-cient\u00edfico-da-terra-jovem, que acorda e vai dormir todos os dias com a massa de evid\u00eancias da longa idade da terra, mas prefere apostar num relativismo epistemol\u00f3gico a dar cr\u00e9dito \u00e0 comunidade cient\u00edfica (exceto, naturalmente, quando ela confirma algo escrito na B\u00edblia. Da\u00ed, de repente, as regras mudam), porque n\u00e3o concorda com o &#8220;sistema&#8221; (filos\u00f3fico). Ou como o te\u00edsta-aberto que rejeita a id\u00e9ia de Soberania de Deus porque ela aparentemente n\u00e3o concorda com o &#8220;amor de Deus&#8221; (embora ambos sejam ensinados na mesma B\u00edblia), ou o calvinista que confunde a Soberania de Deus com determinismo metaf\u00edsico, igualando-se ao materialista na nega\u00e7\u00e3o da liberdade humana. E assim por diante: eliminando todos os paradoxos e todos os mist\u00e9rios, deixando o bom senso em nome da consist\u00eancia puramente abstrata.<\/p>\n<p>\u00c9 que n\u00f3s temos &#8220;raz\u00f5es te\u00f3ricas&#8221; e Deus tem a &#8220;Raz\u00e3o&#8221;, e elas n\u00e3o s\u00e3o id\u00eanticas. Podem ser anal\u00f3gicas, mas n\u00e3o iguais. \u00c9 justo ter boas raz\u00f5es, mas precisamos ter senso de propor\u00e7\u00e3o e submeter o pensamento \u00e0 exist\u00eancia, do contr\u00e1rio nos tornaremos fechados e incorrig\u00edveis, seja para o lado do dogmatismo te\u00f3rico, seja do relativismo (dogm\u00e1tico).<em><\/em><\/p>\n<p><em>Se<\/em> precisar escolher entre a consist\u00eancia permitida pela sua biblioteca e bom senso, fique com o bom senso. N\u00e3o perca tudo para ficar s\u00f3 com a (sua) &#8220;raz\u00e3o&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Se voc\u00ea discutir com um louco, \u00e9 extremamente prov\u00e1vel que leve a pior; pois sob muitos aspectos a mente dele se move muito mais r\u00e1pido por n\u00e3o se atrapalhar com coisas que costumam acompanhar o bom ju\u00edzo. Ele n\u00e3o \u00e9 embara\u00e7ado pelo senso de humor ou pela caridade, ou pelas tolas certezas da experi\u00eancia. 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