{"id":271,"date":"2012-02-14T02:31:37","date_gmt":"2012-02-14T05:31:37","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/?p=271"},"modified":"2013-03-20T11:25:14","modified_gmt":"2013-03-20T14:25:14","slug":"todo-mundo-e-crente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/2012\/02\/14\/todo-mundo-e-crente\/","title":{"rendered":"Todo mundo \u00e9 crente. At\u00e9 quem n\u00e3o \u00e9&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>&#8220;Creio em Deus Pai, todo-poderoso,<\/em><em> Criador do c\u00e9u e da terra.<\/em><em><\/em><\/p>\n<p><em>Creio em Jesus Cristo,<\/em><em> seu \u00fanico Filho<\/em><em> nosso Senhor; <\/em><em>que foi concebido pelo poder do Esp\u00edrito Santo<\/em>,<em> nasceu da Virgem Maria,<\/em><em> padeceu sob P\u00f4ncio Pilatos,<\/em><em> foi crucificado, morto e sepultado,<\/em><em> ressuscitou ao terceiro dia,<\/em><em> subiu aos C\u00e9us<\/em><em>, est\u00e1 sentado \u00e0 direita de Deus Pai Todo-Poderoso,<\/em><em> donde h\u00e1 de vir julgar os vivos e mortos.<\/em><\/p>\n<p><em>Creio no Esp\u00edrito Santo,<\/em><em> na santa Igreja cat\u00f3lica (ou universal),<\/em><em> na comunh\u00e3o dos santos,<\/em><em> na remiss\u00e3o dos pecados,<\/em><em> na ressurrei\u00e7\u00e3o da carne,<\/em><em> e na vida eterna.&#8221;<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O &#8220;Credo&#8221; Apost\u00f3lico, que remonta aos primeiros s\u00e9culos do cristianismo, come\u00e7a (obviamente) com o verbo &#8220;crer&#8221;, como observa quase toda introdu\u00e7\u00e3o que se escreve a ele. \u00c9 claro que o Credo \u00e9 antes de tudo uma confiss\u00e3o a respeito da f\u00e9, mas nada podemos falar do ato da Confiss\u00e3o sem antes considerar a natureza da cren\u00e7a.<\/p>\n<p>Sob certo \u00e2ngulo, \u00e9 verdade que ocupar-se demasiado do &#8220;crer&#8221; enquanto verbo, a\u00e7\u00e3o e posicionamento do homem pode nos tirar completamente do foco, uma vez que o Credo jamais foi a celebra\u00e7\u00e3o ou an\u00fancio de uma condi\u00e7\u00e3o subjetiva do indiv\u00edduo; pelo contr\u00e1rio, ele est\u00e1 completamente absorvido pelo objeto da cren\u00e7a, exatamente como o estado de crer \u00e9 um estado voltado para fora, ext\u00e1tico, intencional, tanto que enquanto falamos do interior da cren\u00e7a, n\u00e3o temos consci\u00eancia de sua for\u00e7a ou estrutura, e sim de seu interesse.<\/p>\n<p>E talvez pud\u00e9ssemos nos mover diretamente para isso que \u00e9 o nosso interesse comum, n\u00e3o fosse &#8220;a cren\u00e7a&#8221; em geral e &#8220;a cren\u00e7a religiosa&#8221;, em particular, uma quest\u00e3o t\u00e3o controversa no mundo de hoje. E na verdade a natureza do ato de f\u00e9 \u00e9 realmente algo confuso na cabe\u00e7a dos pr\u00f3prios crist\u00e3os. De modo que n\u00e3o h\u00e1 como seguir sem tocar no assunto.<!--more--><\/p>\n<p>Como pre\u00e2mbulo ao conceito de f\u00e9, \u00e9 preciso mencionar que a &#8220;cren\u00e7a&#8221; n\u00e3o \u00e9 privil\u00e9gio (ou sina, como queira) de pessoas religiosas. Em termos gerais, a cren\u00e7a \u00e9 incontorn\u00e1vel; pois devido \u00e0 estrutura da consci\u00eancia humana, tendemos a estabelecer objetivos para as nossas a\u00e7\u00f5es; somos seres conscientemente intencionais. E lan\u00e7amos m\u00e3o da imagina\u00e7\u00e3o para construir quadros poss\u00edveis sobre o resultado das nossas a\u00e7\u00f5es, suplantando com isso a pris\u00e3o de outras criaturas ao instinto. Ocorre que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel construir esses quadros e julgar os melhores cursos de a\u00e7\u00e3o sem formar cren\u00e7as sobre como as coisas s\u00e3o, sobre como o mundo funciona, sobre o que \u00e9 poss\u00edvel e imposs\u00edvel, e sobre o que \u00e9 melhor para n\u00f3s. \u00c9 muito comum que as pessoas associem esse tipo de discuss\u00e3o \u00e0 id\u00e9ia de racionalidade; mas a raz\u00e3o \u00e9 apenas uma ferramenta construtiva; os blocos com os quais ela trabalha s\u00e3o experi\u00eancias do mundo e as cren\u00e7as que formamos sobre elas. Por essa raz\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 hoje livro-texto sobre a natureza do conhecimento que n\u00e3o discuta o assunto em termos de &#8220;cren\u00e7as&#8221;.<\/p>\n<p>Mas quando passamos das cren\u00e7as em geral para as &#8220;cren\u00e7as religiosas&#8221;, muita gente imediatamente pensa que isso n\u00e3o lhe diz respeito. Afinal &#8220;cren\u00e7as religiosas&#8221; seriam &#8220;cren\u00e7as sobre deuses ou coisas sobrenaturais&#8221;. Tenho constatado que essa suposi\u00e7\u00e3o \u00e9 uma das confus\u00f5es mais comuns e amplamente disseminadas entre os leigos no campo da filosofia da religi\u00e3o; e por isso mesmo ela tem sido facilmente explorada pelos cr\u00edticos da religi\u00e3o tradicional, os quais se sentem confort\u00e1veis e justificados em considerar a descren\u00e7a, por exemplo, em um Deus &#8220;sobrenatural&#8221; a condi\u00e7\u00e3o humana &#8220;default&#8221;, como se a descren\u00e7a fosse a neutralidade, e a cren\u00e7a o acr\u00e9scimo contingente e inessencial \u00e0 condi\u00e7\u00e3o humana pura, i.\u00e9., &#8220;secular&#8221;.<br \/>\n<strong><br \/>\n<span style=\"font-size: medium;\">\u00c9 o &#8220;Secular&#8221;, Secular?<\/span><br \/>\n<\/strong><br \/>\nOcorre, no entanto, que toda essa id\u00e9ia da seculariza\u00e7\u00e3o como a remo\u00e7\u00e3o de um &#8220;excesso&#8221; de cren\u00e7a, de uma &#8220;sobra cultural&#8221; distinta da natureza humana \u00e9 provavelmente uma constru\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, formada a partir de algumas das ci\u00eancias humanas nascidas no interior da modernidade e destinadas, desde sua concep\u00e7\u00e3o, a naturalizar o pr\u00f3prio fen\u00f4meno da modernidade, como observou muito bem o Dr. John Milbank em &#8220;Theology and Social Theory&#8221; e mais recentemente Charles Taylor em &#8220;A Secular Age&#8221;, quanto \u00e0 vis\u00e3o da seculariza\u00e7\u00e3o como uma &#8220;subtra\u00e7\u00e3o&#8221;. Pelo contr\u00e1rio, h\u00e1 sinais de que em lugar de uma &#8220;subtra\u00e7\u00e3o&#8221;, o que tivemos foi uma &#8220;substitui\u00e7\u00e3o&#8221;; a modernidade n\u00e3o <em>eliminou<\/em>, mas apenas <em>relocou <\/em>a cren\u00e7a religiosa, como observou o Dr. Colin Gunton (King\u2019s College London):<\/p>\n<p><em>&#8220;A modernidade \u00e9 a era que deslocou Deus como o foco para a unidade significado do ser. O que quero dizer com isso? Antes de tudo, que as fun\u00e7\u00f5es atribu\u00eddas a Deus n\u00e3o foram abolidas, mas trocadas &#8211; relocadas, como se diz hoje. [&#8230;]. Deus n\u00e3o \u00e9 mais necess\u00e1rio para dar conta da coer\u00eancia e significado do mundo, de forma que o assento da racionalidade e do significado se torne n\u00e3o o mundo, mas a raz\u00e3o e a vontade humana&#8221; .<\/em> \/Conlin Gunton, The One, the Three and the Many: God, Creation and the Culture of Modernity. The 1992 Bampton Lectures. Cambridge: CUP, 1993, p. 28.\/<\/p>\n<p>Mas nada como um bom exemplo. Consideremos o seguinte quadro de Frida Kahlo:<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2012\/02\/Kahlo.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-272 alignleft\" title=\"Kahlo\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2012\/02\/Kahlo.jpg\" alt=\"\" width=\"183\" height=\"228\" \/><\/a>Em \u201co marxismo dar\u00e1 sa\u00fade aos doentes\u201d (1954) a atribui\u00e7\u00e3o de fun\u00e7\u00f5es soteriol\u00f3gicas e messi\u00e2nicas ao materialismo dial\u00e9tico simbolizado pela figura de Marx, assim como a identifica\u00e7\u00e3o do mal com o \u201cTio Sam\u201d exemplificam um padr\u00e3o que se repete na cultura secular, embora nem sempre de forma t\u00e3o clara.<\/p>\n<p>Ou seja, a compreens\u00e3o do mundo contempor\u00e2neo passaria pelo rastreamento da fun\u00e7\u00f5es divinas relocadas na cultura secular, e pela compreens\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o que o homem &#8220;secular&#8221; tem com os objetos que absorveram essas fun\u00e7\u00f5es. Mas como rastrear essas fun\u00e7\u00f5es divinas? Uma vez que elas sempre foram objeto de f\u00e9, o caminho mais direto seria rastrear as cren\u00e7as religiosas. E isso nos leva de volta ao tema do post:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: medium;\">O que \u00e9 uma Cren\u00e7a Religiosa?<\/span><\/strong><\/p>\n<p>A cren\u00e7a religiosa n\u00e3o se define pela identidade concreta \u201cobjeto\u201d, mas <em>pela rela\u00e7\u00e3o que \u00e9 estabelecida com esse \u201cobjeto\u201d.<\/em> Ou seja, com sua fun\u00e7\u00e3o no sistema de cren\u00e7as (tamb\u00e9m chamado de &#8220;estrutura no\u00e9tica\u201d, express\u00e3o que vem do grego &#8220;nous&#8221; [mente] e que nada tem a ver com &#8220;No\u00e9&#8221;!). Uma forma bastante popular de distinguir &#8220;secularismo&#8221; de &#8220;religi\u00e3o&#8221; \u00e9 distinguir a forma como seus respectivos sistemas de cren\u00e7a s\u00e3o constru\u00eddos. A religi\u00e3o seria constru\u00edda com &#8220;Dogmas&#8221; sobre realidades \u201csobrenaturais\u201d \u2013 os infames \u201cdogmas religiosos\u201d. E o secularismo moderno construiria suas cren\u00e7as de forma aberta e n\u00e3o-dogm\u00e1tica, por meio de justificativas racionais controladas pela consci\u00eancia aut\u00f4noma (adulta, iluminada).<\/p>\n<p>Num ponto, essa vis\u00e3o est\u00e1 correta: cren\u00e7as religiosas s\u00e3o cren\u00e7as sustentadas com for\u00e7a dogm\u00e1tica. Isso acontece porque a cren\u00e7a religiosa veicula um \u201cinteresse supremo\u201d. Essa caracter\u00edstica \u00e9 compartilhada em diversas religi\u00f5es, e indica qual a caracter\u00edstica central da cren\u00e7a religiosa: o que caracteriza a religi\u00e3o n\u00e3o \u00e9 nem a cren\u00e7a em \u201csobrenaturais\u201d (o Budismo e o Pitagorismo, por exemplo, ignoram o &#8220;sobrenatural&#8221;), nem a presen\u00e7a de um dogma explicitamente formulado (como \u00e9 o caso em religi\u00f5es tradicionais abor\u00edgenes, por exemplo), mas a fun\u00e7\u00e3o que um objeto concreto ou imagin\u00e1rio desempenha na organiza\u00e7\u00e3o do universo humano.<\/p>\n<p>&#8211; <em>Falemos desses objetos: quais s\u00e3o eles?<\/em><\/p>\n<p>Aqui entra um fato curioso. Qualquer coisa pode operar como objeto de devo\u00e7\u00e3o religiosa. Os pitag\u00f3ricos, por exemplo, cantavam hinos de adora\u00e7\u00e3o ao n\u00famero &#8220;10&#8221;; e tem gente hoje que adora &#8220;p\u00e9s&#8221; (\u00e9, a podolatria existe mesmo). A cr\u00edtica da filosofia da religi\u00e3o ao &#8220;secularismo moderno&#8221; n\u00e3o \u00e9 meramente que n\u00e3o devemos profanar objetos &#8220;religiosos&#8221; e ignor\u00e1-los privilegiando coisas &#8220;seculares&#8221;. Pois a rigor, n\u00e3o existem objetos religiosos e seculares. \u00c9 a rela\u00e7\u00e3o que temos com alguma coisa que a torna ou n\u00e3o religiosa. Coisas &#8220;sagradas&#8221; em uma religi\u00e3o podem ser &#8220;profanas&#8221; em outra. Don Richardson, em <em>o Totem da Paz<\/em>, conta a hist\u00f3ria de como ele encontrou uma tribo na qual o her\u00f3i da hist\u00f3ria sempre era o traidor mais engenhoso, e assim inicialmente eles honraram&#8230; Judas! Isso mesmo, Judas! At\u00e9 que descobriram que Jesus se enquadrava na \u00fanica exce\u00e7\u00e3o a essa regra: ser uma d\u00e1diva de paz do inimigo (Deus, no caso).<\/p>\n<p>A cr\u00edtica da filosofia te\u00edsta crist\u00e3 ao secularism&#8221; \u00e9 de que ele, infalivelmente, desenvolve rela\u00e7\u00f5es <em>religiosas<\/em> com objetos que, na melhor das hip\u00f3teses, carecem de \u201catributos divinos\u201d suficientes para dar conta do recado e, na pior das hip\u00f3teses, produzem uma viola\u00e7\u00e3o da racionalidade. Vou dar aqui apenas um exemplo, da pena de Timothy Keller:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u201cDepois que come\u00e7ou a crise econ\u00f4mica global, em meados de 2008, seguiu-se uma tr\u00e1gica sucess\u00e3o de suic\u00eddios de indiv\u00edduos antes ricos e bem relacionados. O diretor financeiro da Freddie Mac, Federal Home Loan Mortgage Corporation (FHLMC), enforcou-se em seu por\u00e3o. O presidente executivo da Sheldon Good, uma das mais importantes imobili\u00e1rias dos Estados Unidos, deu um tiro na cabe\u00e7a ao volante de seu Jaguar vermelho. Um administrador financeiro franc\u00eas que investia a fortuna de muitas das principais fam\u00edlias europeias, inclusive de fam\u00edlias reais, tendo perdido USD 1,4 bilh\u00f5es do dinheiro de seus clientes no esquema de Bernard Madoff Ponzi, cortou os pulsos e morreu em seu escrit\u00f3rio na Madison Avenue. Um executivo s\u00eanior do Banco HSBC se enforcou no guarda-roupa de uma su\u00edte de GBP 500 por noite em Knightsbridge, Londres. Quando um executivo da Bear Sterns ficou sabendo que n\u00e3o seria contratado por J.P. Morgan Chase, que havia comprado sua empresa em fal\u00eancia, tomou uma overdose de drogas e saltou do vig\u00e9simo nono andar de seu pr\u00e9dio de escrit\u00f3rios [&#8230;] tais fatos apresentavam uma terr\u00edvel semelhan\u00e7a com os ocorridos na quebra da bolsa de 1929.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cNa d\u00e9cada de 1830, quando Alexis de Tocqueville registrou suas famosas observa\u00e7\u00f5es sobre a Am\u00e9rica, notou \u2018uma estranha melancolia que assombra os habitantes [&#8230;] no meio da abund\u00e2ncia\u2019\u201d [&#8230;].<\/em><br \/>\n<em> \u201cQual \u00e9 a causa dessa \u2018estranha melancolia\u2019 que permeia nossa sociedade mesmo em tempos de explos\u00e3o de atividade fren\u00e9tica, e que se transforma de imediato em desespero quando a prosperidade diminui? Tocqueville diz que ela vem do ato de tomar \u2018uma alegria incompleta deste mundo\u2019 e construir a vida inteira em torno dela. Esta \u00e9 a defini\u00e7\u00e3o de idolatria\u201d<\/em>. \/Keller, Timothy. Deuses Falsos. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2010, p. 9-10.\/<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>De fato, algumas cren\u00e7as e ades\u00f5es alegadamente seculares carecem de caracter\u00edsticas distintivas que as coloquem em uma categoria claramente diferente das cren\u00e7as de religi\u00f5es tradicionais em &#8220;deuses&#8221; e &#8220;poderes sobrenaturais&#8221;.<\/p>\n<p><em>&#8211; Se isso for verdade, o que define a cren\u00e7a religiosa n\u00e3o \u00e9 o objeto, mas a forma do crer. Ent\u00e3o precisamos definir melhor \u201ccren\u00e7a religiosa\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Para fins pr\u00e1ticos, vamos identificar \u201cdogma religioso\u201d com \u201ccren\u00e7a religiosa\u201d. Nesse caso, o que \u00e9 o &#8220;dogma&#8221;? O dogma n\u00e3o pode ser apenas uma &#8220;cren\u00e7a sustentada de forma absoluta e incorrig\u00edvel, sem bases racionais&#8221;. Essa defini\u00e7\u00e3o n\u00e3o explica nada. Eu posso ser dogm\u00e1tico sobre o modo correto de tomar caf\u00e9.<\/p>\n<p>Do ponto de vista da epistemologia da cren\u00e7a religiosa, um &#8220;dogma religioso&#8221; \u00e9 experimentado na consci\u00eancia do crente como <strong>(1)<\/strong> uma cren\u00e7a que tem papel fundacional no seu sistema no\u00e9tico (seu sistema de cren\u00e7as) e que, al\u00e9m disso, <strong>(2)<\/strong> parece a ele evidente e incorrigivelmente v\u00e1lida e <strong>(3)<\/strong> \u00e9 sustentada com paix\u00e3o ou interesse existencial extraordin\u00e1rio (Tillich falava em &#8220;ultimate concern&#8221;, mas isso talvez seja muito forte).<\/p>\n<p>Aqui se encaixam muitas cren\u00e7as religiosas conhecidas: o monote\u00edsmo judaico, a divindade de Jesus Cristo, a unidade do todo Brahman-Atman no hindu\u00edsmo, a cren\u00e7a em Maom\u00e9 como o maior dos profetas no Isl\u00e3, etc. Mas aonde quero chegar com essa conversa sobre cren\u00e7a religiosa? Quero chegar \u00e0 pergunta principal:<\/p>\n<p><em><br \/>\n<\/em><span style=\"font-size: medium;\"><strong>Os Sistemas de Cren\u00e7a Secularistas s\u00e3o \u201clivres\u201d de \u201cdogmas religiosos\u201d?<\/strong><\/span><\/p>\n<p>De forma alguma. O Dogma religioso permanece no interior da mente secular de forma oculta, o que revela seu car\u00e1ter ideol\u00f3gico. Vamos retomar a distin\u00e7\u00e3o entre &#8220;religioso&#8221; e &#8220;secular&#8221; (mas sem perder de vista sua relatividade, que observamos h\u00e1 pouco) em termos de &#8220;dogmas&#8221;: a modernidade de fato prop\u00f4s cren\u00e7as seculares para substituir os dogmas religiosos, alegando que seus substitutos seriam baseados na raz\u00e3o e na ci\u00eancia (da\u00ed a identifica\u00e7\u00e3o &#8220;pop&#8221; de religi\u00e3o e dogma). Mas algumas dessas cren\u00e7as seculares n\u00e3o apresentam diferen\u00e7as qualitativas suficientes para serem distinguidas de &#8220;dogmas&#8221;. E o que dizemos aqui sobre &#8220;dogmas seculares&#8221; n\u00e3o \u00e9 recurso ret\u00f3rico; \u00e9 um dos resultados importantes da filosofia no s\u00e9culo XX. Vou come\u00e7ar citando o que diz o Dr. David Ehrenfeld em &#8220;A Arrog\u00e2ncia do Humanismo&#8221; (Ed. Campus) sobre a Cultura:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>&#8220;Pondo de lado a no\u00e7\u00e3o de dignidade e valor humanos, a qual faz parte de muitas religi\u00f5es, chegamos de imediato ao \u00e2mago da religi\u00e3o do humanismo: uma f\u00e9 suprema na raz\u00e3o humana \u2013 sua capacidade para enfrentar e resolver os muitos problemas com que o ser humano se defronta, assim como para reordenar o mundo da Natureza e reformular os assuntos de homens e mulheres de modo que a vida humana prospere. Por conseguinte, assim como o humanismo est\u00e1 comprometido com a f\u00e9 incondicional no poder da raz\u00e3o, tamb\u00e9m rejeita outras afirma\u00e7\u00f5es de poder, inclusive o poder de Deus, o poder de for\u00e7as sobrenaturais e at\u00e9 o poder n\u00e3o dirigido da Natureza associado com o cego acaso. Os dois primeiros n\u00e3o existem, de acordo com o humanismo; o \u00faltimo pode, com algum esfor\u00e7o, ser dominado. Como a intelig\u00eancia humana \u00e9 a chave para o \u00eaxito humano, a principal tarefa dos humanistas \u00e9 afirmar o seu poder e proteger as suas prerrogativas toda vez que s\u00e3o questionadas ou desafiadas.&#8221;<\/em> \/Ehrenfeld, David. Arrog\u00e2ncia do Humanismo. Rio de Janeiro: Campus, 1992, p. 3\/<br \/>\n<em><br \/>\n&#8220;Os humanistas gostam de atacar a religi\u00e3o por seus pressupostos inverific\u00e1veis, mas o humanismo tamb\u00e9m possui seus pr\u00f3prios pressupostos imposs\u00edveis de testar. S\u00e3o dados, as coisas que s\u00e3o inconscientemente aceitas e raramente ou nunca debatidas. Se ocorrem em outros, os humanistas chamam-lhes supersti\u00e7\u00f5es ou, mais polidamente, artigos de f\u00e9. Como nunca s\u00e3o testados ou questionados, podem ser enunciados como hip\u00f3teses em provas matem\u00e1ticas, em breves senten\u00e7as declarativas.<br \/>\nO principal pressuposto humanista, o qual engloba todas as nossas rela\u00e7\u00f5es com o meio ambiente, assim como algumas outras quest\u00f5es, \u00e9 muito simples. Diz o seguinte:<br \/>\nTodos os problemas s\u00e3o sol\u00faveis.<br \/>\nPara deixar clara a sua liga\u00e7\u00e3o com o humanismo, basta acrescentar as duas palavras que est\u00e3o impl\u00edcitas; passa ent\u00e3o a ser:<br \/>\nTodos os problemas s\u00e3o sol\u00faveis por pessoas.<br \/>\n[e h\u00e1 as suposi\u00e7\u00f5es secund\u00e1rias]<br \/>\nMuitos problemas s\u00e3o sol\u00faveis pela tecnologia; Os problemas que n\u00e3o s\u00e3o sol\u00faveis pela tecnologia, ou apenas pela tecnologia, tem solu\u00e7\u00f5es no mundo social (pol\u00edtica, economia, etc); A civiliza\u00e7\u00e3o humana sobreviver\u00e1; O homem \u00e9 naturalmente bom e s\u00f3 \u00e9 corrompido pelo meio; O problema do mundo \u00e9 apenas a m\u00e1 distribui\u00e7\u00e3o de renda.&#8221;<\/em> \/Ehrenfeld, David. Arrog\u00e2ncia do Humanismo. Rio de Janeiro: Campus, 1992, p. 12-13\/<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Um outro exemplo muito interessante vem do fil\u00f3sofo da ci\u00eancia Thomas Kuhn:<\/p>\n<p><em>\u201cO homem que adota um novo paradigma nos est\u00e1gios iniciais de seu desenvolvimento frequentemente adota-o desprezando a evid\u00eancia fornecida pela resolu\u00e7\u00e3o de problemas. Dito de outra forma, precisa ter f\u00e9 na capacidade de um novo paradigma para resolver os grandes problemas com que se defronta, sabendo apenas que o paradigma anterior fracassou em alguns deles. Uma decis\u00e3o desse tipo s\u00f3 pode ser feito com base na f\u00e9\u201d<\/em><br \/>\n<em>[&#8230;] Mas somente a crise n\u00e3o \u00e9 suficiente. \u00c9 igualmente necess\u00e1rio que exista uma base para a f\u00e9 no candidato espec\u00edfico escolhido, embora n\u00e3o precise ser racional nem correta. Deve haver algo que pelo menos fa\u00e7a alguns cientistas sentirem que a nova proposta est\u00e1 no caminho certo e em alguns casos somente considera\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas pessoais e inarticuladas podem realizar isso.\u201d<\/em> \/Kuhn, Thomas, A Estrutura das Revolu\u00e7\u00f5es Cient\u00edficas. S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 2009, p. 201.[1]\/<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A modernidade secular prop\u00f4s um mundo sem deuses e sem religi\u00e3o. Com a eventual morte dos &#8220;deuses&#8221; da modernidade (anunciada por Nietzsche) e toda a cr\u00edtica da raz\u00e3o e da ci\u00eancia moderna no s\u00e9culo XX, tornou-se ainda mais incoerente sustentar cren\u00e7as &#8220;seculares&#8221; com paix\u00f5es &#8220;religiosas&#8221;. O &#8220;crente secular&#8221;, a princ\u00edpio n\u00e3o deveria ter desenvolvido dogmas de nenhum tipo. Ou seja: n\u00e3o deveria apresentar nenhuma cren\u00e7a que se enquadrasse na descri\u00e7\u00e3o preliminar de &#8220;dogma&#8221; que introduzimos acima:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>(1)\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 uma cren\u00e7a que tem papel fundacional no seu sistema no\u00e9tico e que, al\u00e9m disso,<br \/>\n(2)\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 parece a ele evidente e incorrigivelmente v\u00e1lida e<br \/>\n(3)\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00e9 sustentada com paix\u00e3o ou interesse existencial extraordin\u00e1rio[2]<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Entretanto, mesmo depois do desmascaramento da conting\u00eancia de seus fundamentos, e do colapso da raz\u00e3o moderna, <em>a mente secular continua se relacionando com seus valores supremos da mesma forma que a mente religiosa.<\/em> Isso \u00e9 vis\u00edvel, particularmente, na milit\u00e2ncia ligada a alguns dogmas <em>paracient\u00edficos<\/em>, como o naturalismo metaf\u00edsico de Dawkins, com sua no\u00e7\u00e3o de universo como sistema uniforme e fechado; ou o cientificismo, que trata a ci\u00eancia como \u00fanica fonte de conhecimento verdadeiro; na milit\u00e2ncia em dogmas pol\u00edticos como o libertarianismo, que defende a autonomia absoluta do indiv\u00edduo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sociedade; ou no dogma do materialismo dial\u00e9tico, com a no\u00e7\u00e3o de progresso irrevers\u00edvel por meio de s\u00ednteses revolucion\u00e1rias; ou em dogmas antropol\u00f3gicos, como o construtivismo sexual da teoria <em>Queer<\/em>, que rejeita a no\u00e7\u00e3o de normatividade sexual.<\/p>\n<p><em>Na verdade nem \u00e9 poss\u00edvel o conflito entre duas alternativas se elas n\u00e3o pertencem \u00e0 mesma categoria.<\/em> Quando o tema \u00e9 a sede, n\u00e3o pode haver conflito entre chupar uma laranja ou chutar uma pedra. Mas pode haver conflito entre chupar uma laranja ou um lim\u00e3o. O mero conflito entre o secularismo e as religi\u00f5es indica que ele pertence \u00e0 mesma categoria. A quest\u00e3o \u00e9 apenas identificar de que forma o secularismo realiza fun\u00e7\u00f5es religiosas.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse sentido que o secularismo militante tem se mostrado extraordinariamente acr\u00edtico. Como se a mera cr\u00edtica dos &#8220;deuses&#8221; fosse capaz de exorcizar atitudes de cren\u00e7a &#8220;dogm\u00e1tica&#8221; (ou, para usar a linguagem t\u00e9cnica, <strong>estados dox\u00e1sticos[3] funcionalmente religioso<em>s<\/em><\/strong>). Isso pode ser um sinal do car\u00e1ter ideol\u00f3gico do secularismo.<br \/>\n<em><br \/>\nPois ironicamente, os \u00fanicos religiosos que n\u00e3o sabem que o s\u00e3o, seriam&#8230; os secularistas.<\/em> E essa \u00e9 a raz\u00e3o porque eu ironizei, num outro dia, a sugest\u00e3o de Alain de Botton de construir um &#8220;templo&#8221; para ateus, projeto criticado por ningu\u00e9m menos que o pr\u00f3prio Richard Dawkins. Ela mostra que essa verdade, quanto ao fundo religioso oculto de secularismo e de qualquer ate\u00edsmo, ainda que seja cochichada debaixo da cama, no final ser\u00e1 &#8220;anunciada dos eirados&#8221;.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/2012\/01\/31\/alain-de-botton-e-a-evolucao-do-ateismo\/\" target=\"_blank\">Cf. Alain de Botton e a Evolu\u00e7\u00e3o do Ate\u00edsmo<\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;\"><br \/>\n<strong>Crer \u00e9 uma Op\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/span><\/p>\n<p>\u00c9 verdade que a tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 condena a &#8220;descren\u00e7a&#8221;. Mas com isso ela n\u00e3o quer dizer que haja apenas um vazio no lugar da f\u00e9; por isso a descren\u00e7a tem uma associa\u00e7\u00e3o interna com a &#8220;idolatria&#8221;, que seria o termo exato para &#8220;cren\u00e7a errada&#8221;. A &#8220;incredulidade&#8221; seria a &#8220;descren\u00e7a&#8221; em Deus acompanhada de uma &#8220;cren\u00e7a errada&#8221; que a substitui. Eu diria, em conclus\u00e3o, que o Credo \u00e9 inevit\u00e1vel; de um jeito ou de outro, todo mundo \u00e9 crente. Pois n\u00e3o h\u00e1 ser humano que n\u00e3o carregue em seu ventre (talvez mais do que em sua cabe\u00e7a) um Credo, que pode ser expl\u00edcito ou impl\u00edcito. Ele est\u00e1 l\u00e1, permeando as atitudes, organizando os afetos, colorindo o olhar de cada pessoa. N\u00e3o, a cren\u00e7a n\u00e3o \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o. O que \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o \u00e9 at\u00e9 que ponto permitiremos que a nossa cren\u00e7a seja examinada. O descrente precisa perguntar: &#8220;se n\u00e3o creio em X, porque n\u00e3o creio?&#8221; &#8220;Porque considero Y mais plaus\u00edvel?&#8221; &#8220;O que constitui o sistema de cren\u00e7as com base no qual considero o Credo Crist\u00e3o implaus\u00edvel?&#8221; &#8220;Que cren\u00e7a se esconde por tr\u00e1s da minha descren\u00e7a?&#8221; Ser\u00e1, por exemplo, um credo naturalista como este aqui (de um colega an\u00f4nimo)?<\/p>\n<p><em>Creio em um s\u00f3 Acaso, Todo-Poderoso<br \/>\nCriador do c\u00e9u e da terra<br \/>\nde todas as coisas vis\u00edveis.<br \/>\nCreio em uma s\u00f3 Raz\u00e3o, a mente humana.<br \/>\nFilha Unig\u00eanita do Acaso<br \/>\nGerada por Acaso antes que o Universo do Nada viesse a existir.<br \/>\nPelo acaso todas as coisas vieram a existir.<br \/>\nE n\u00f3s homens,<br \/>\npara a nossa pr\u00f3pria salva\u00e7\u00e3o,<br \/>\npensamos para existir. E temos consci\u00eancia de que a consci\u00eancia n\u00e3o existe,<br \/>\nQue a Verdade \u00e9 Incerta,<br \/>\nA Liberdade \u00e9 uma Ilus\u00e3o,<br \/>\nA Justi\u00e7a uma inven\u00e7\u00e3o.<br \/>\nBem como todas as coisas que n\u00e3o s\u00e3o racionalmente comprovadas,<br \/>\nAt\u00e9 serem comprovadamente \u00fateis para n\u00f3s.<br \/>\nCreio na Ci\u00eancia,<br \/>\nInquestion\u00e1vel, Universal, Absoluta, por\u00e9m Incerta.<br \/>\nConfesso uma s\u00f3 tecnologia para resolu\u00e7\u00e3o de todo mal<br \/>\nexistente no Universo e\u00a0 na Humanidade,<br \/>\npara a domina\u00e7\u00e3o final da Natureza, e a Conquista final e Esclarecimento de todos<br \/>\nos Mist\u00e9rios.<br \/>\nTecnologia essa que nos trar\u00e1 Paz, Prosperidade, Harmonia e Vida Eterna por<br \/>\nTodos os S\u00e9culos,<br \/>\nAssim Seja.<\/em><\/p>\n<p>Embora reconhecidamente caricatural e ir\u00f4nico, o Credo acima pode realmente refletir a cren\u00e7a inexpressa de muitos descrentes. E essas cren\u00e7as, mesmo que aparentem ser simples, honestas e minimalistas, precisam ser examinadas, confirmadas e plausibilizadas, tanto quanto quaisquer outras. Especialmente se, ao serem levadas \u00e0s suas consequ\u00eancias l\u00f3gicas, se mostrarem absurdas e impratic\u00e1veis. N\u00e3o basta rejeitar o Credo Apost\u00f3lico. \u00c9 preciso checar se o seu credo alternativo \u00e9 vi\u00e1vel. E at\u00e9 mesmo se \u00e9 saud\u00e1vel; pois se Chesterton estiver correto, &#8220;quando as pessoas n\u00e3o acreditam em Deus, terminam acreditando em qualquer coisa&#8221;.<\/p>\n<p>Creio que vale encerrar com uma observa\u00e7\u00e3o muito perspicaz de Timothy Keller em &#8220;F\u00e9 na Era do Ceticismo&#8221;<em>:<br \/>\n<\/em><\/p>\n<p><em> &#8220;A \u00fanica maneira de levantar d\u00favidas de forma correta e justa sobre o Cristianismo \u00e9 descobrir a cren\u00e7a alternativa por tr\u00e1s de cada uma de suas d\u00favidas e, em seguida, indagar de si mesmo os motivos que o levam a acreditar nela. Como saber se sua cren\u00e7a \u00e9 v\u00e1lida? Seria incoerente exigir maior comprova\u00e7\u00e3o da cren\u00e7a crist\u00e3 do que da sua, mas \u00e9 o que em geral acontece. Para ser justo, voc\u00ea precisa duvidar de suas d\u00favidas.&#8221;<\/em><\/p>\n<p>________________________________<\/p>\n<p>[1] O pr\u00f3prio Kuhn cita os estudos anteriores do cientista e fil\u00f3sofo da ci\u00eancia de Cambridge Michael Polanyi, particularmente em sua obra \u201cThe Tacit Dimension\u201d, onde ele descreve a estrutura t\u00e1cita\/oculta de cren\u00e7as que necessariamente fundamenta e possibilita todo e qualquer questionamento, d\u00favida e criticismo.<\/p>\n<p>[2] Na verdade a elimina\u00e7\u00e3o de cren\u00e7as com papel religioso deveria levar a uma completa de-hierarquiza\u00e7\u00e3o dox\u00e1stica (ou seja, na estrutura\u00e7\u00e3o do sistema de cren\u00e7as de algu\u00e9m), uma vez que nenhuma cren\u00e7a poderia ter papel fundacional sem que houvesse provas ou ao menos bases (num sentido externalista) suficientes para tanto. E a de-hierarquiza\u00e7\u00e3o dox\u00e1stica levaria a uma de-hierarquiza\u00e7\u00e3o afetiva, com o esvaziamento da paix\u00e3o dogm\u00e1tica. Esse esvaziamento produziria em consequ\u00eancia um estado mental de \u201capatheia\u201d dox\u00e1stica no tocante a cren\u00e7as funcionalmente religiosas. O secularismo n\u00e3o deveria, portanto, produzir nenhum tipo de milit\u00e2ncia dox\u00e1stica (o que crer ou n\u00e3o crer), como se v\u00ea no movimento neoate\u00edsta. Isso faz transparecer uma irracionalidade no secularismo, que pode ser circunstancial ou fatal. Cabe ao secularista examin\u00e1-la.<\/p>\n<p>[3] Dox\u00e1stica: do gr. \u201cdoxa\u201d, \u201copini\u00e3o\u201d. O termo \u00e9 usado com sentido t\u00e9cnico em epistemologia, para referir-se \u00e0 cren\u00e7a, \u00e0s suas condi\u00e7\u00f5es de possibilidade e \u00e0s suas condi\u00e7\u00f5es de justifica\u00e7\u00e3o ou confirma\u00e7\u00e3o. Um estado \u201cdox\u00e1stico\u201d \u00e9 um estado mental que corresponde \u00e0 ado\u00e7\u00e3o de uma determinada cren\u00e7a (sobre qualquer coisa: religi\u00e3o, ci\u00eancia, mem\u00f3ria, experi\u00eancias sensoriais, etc).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &#8220;Creio em Deus Pai, todo-poderoso, Criador do c\u00e9u e da terra. Creio em Jesus Cristo, seu \u00fanico Filho nosso Senhor; que foi concebido pelo poder do Esp\u00edrito Santo, nasceu da Virgem Maria, padeceu sob P\u00f4ncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado, ressuscitou ao terceiro dia, subiu aos C\u00e9us, est\u00e1 sentado \u00e0 direita de Deus [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":23,"featured_media":272,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[116,11699],"tags":[11694,11683,5411,26833],"class_list":["post-271","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","category-mero-cristianismo","tag-apologetica","tag-crenca","tag-cristianismo","tag-fe-e-racionalidade","count-0","even alt","author-guilhermevrc","last"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/271","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/users\/23"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=271"}],"version-history":[{"count":25,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/271\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":275,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/271\/revisions\/275"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/media\/272"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=271"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=271"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=271"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}