{"id":1074,"date":"2016-01-11T09:56:16","date_gmt":"2016-01-11T12:56:16","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/?p=1074"},"modified":"2016-01-11T14:28:45","modified_gmt":"2016-01-11T17:28:45","slug":"fe-em-busca-de-catolicidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/2016\/01\/11\/fe-em-busca-de-catolicidade\/","title":{"rendered":"F\u00e9 em Busca de Catolicidade"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Trecho adaptado do cap\u00edtulo: \u201cCat\u00f3lica: as dimens\u00f5es da miss\u00e3o\u201d, que escrevi como contribui\u00e7\u00e3o para o livro \u201cHarmonia\u201d, a ser lan\u00e7ado pela editora Mundo Crist\u00e3o em 2016 (Pedro Dulci, Ed.)<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 fato que o termo \u201ccat\u00f3lico\u201d se tornou um nome institucional da igreja romana, e isso quase inviabilizou\u00a0o seu emprego entre os crist\u00e3os evang\u00e9licos Brasileiros; mas essa n\u00e3o \u00e9 uma perda aceit\u00e1vel. O termo, uma translitera\u00e7\u00e3o do grego <strong>kath\u2019holou<\/strong> que significa literalmente \u201cconforme o todo, e assim \u201cinteiro\u201d, \u201ccompleto\u201d ou \u201cgeral\u201d e \u201cuniversal\u201d[1], tem um ineg\u00e1vel pedigree. Ele aparece pela primeira vez nos pais apost\u00f3licos (em In\u00e1cio de Antioquia e no \u201cMart\u00edrio de Policarpo\u201d) e nas vers\u00f5es mais recentes do Credo Apost\u00f3lico, a mais antiga confiss\u00e3o de f\u00e9 ecum\u00eanica, como adjetivo da igreja e artigo de f\u00e9. Mas seu emprego mais importante na antiguidade \u2013 e decisivo para n\u00f3s \u2013 encontra-se no Credo Niceno-Constantinopolitano, produzido no Conc\u00edlio de Constantinopla (381 d.C.) e aceito por todas grandes as igrejas Crist\u00e3s, para descrever as quatro marcas da verdadeira igreja: \u201cUna, Santa, Cat\u00f3lica e Apost\u00f3lica\u201d.[2] Este \u00faltimo, por si s\u00f3, torna o ponto um artigo de f\u00e9 e obrigat\u00f3ria a discuss\u00e3o do assunto. <!--more--><\/p>\n<p>Posteriormente o termo foi extensivamente empregado pela igreja medieval, e mesmo a Reforma Protestante n\u00e3o destruiu sua legitimidade. Um exemplo antigo e citado com frequ\u00eancia \u00e9 o do importante te\u00f3logo reformado William Perkins, que publicou em 1597 uma obra intitulada \u201cUm Cat\u00f3lico Reformado\u201d, expressando esses instintos de catolicidade.[3] Filipe Melanchton, o principal sucessor de Lutero, descreveu a confiss\u00e3o de Augsburgo como \u201cum documento cat\u00f3lico\u201d, e afirmava que os luteranos seriam parte da \u201cigreja cat\u00f3lica\u201d, no sentido da igreja universal. Robert Letham demonstrou recentemente que a busca da catolicidade est\u00e1 claramente presente na constru\u00e7\u00e3o da Confiss\u00e3o de Westminster[4]. Todd Billings apresenta tamb\u00e9m v\u00e1rios exemplos dessa consci\u00eancia de catolicidade no protestantismo[5] e, n\u00e3o podemos nos esquecer, a comunh\u00e3o Anglicana, um dos mais importantes ramos do protestantismo e igreja de l\u00edderes importantes para a hist\u00f3ria recente do movimento evang\u00e9lico como C.S. Lewis, John Stott, James Packer, Alister McGrath e N.T. Wright, desde sempre considera a catolicidade um aspecto essencial de sua identidade.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata, ent\u00e3o, de mera palavra. Como veremos, todo um campo de sentidos e valores muito importantes articula-se organicamente sob a ideia de catolicidade, e n\u00e3o h\u00e1 outro termo hoje que seja capaz de dar conta do recado. Para comunicar a import\u00e2ncia do conceito, eu diria ao leitor que a sua f\u00e9 n\u00e3o pode ser verdadeira, se n\u00e3o for cat\u00f3lica. Jesus Cristo era cat\u00f3lico; a igreja \u00e9 cat\u00f3lica, a f\u00e9 \u00e9 cat\u00f3lica; e, por isso, a miss\u00e3o crist\u00e3 tamb\u00e9m \u00e9 cat\u00f3lica. E esse ser\u00e1 o nosso assunto no presente cap\u00edtulo: a catolicidade da f\u00e9 Crist\u00e3.<\/p>\n<p><strong>Muitas Catolicidades<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2016\/01\/Saint_Cyril_of_Jerusalem.jpg\" rel=\"attachment wp-att-1083\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-1083\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2016\/01\/Saint_Cyril_of_Jerusalem.jpg\" alt=\"Saint_Cyril_of_Jerusalem\" width=\"165\" height=\"146\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2016\/01\/Saint_Cyril_of_Jerusalem.jpg 600w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2016\/01\/Saint_Cyril_of_Jerusalem-300x264.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/files\/2016\/01\/Saint_Cyril_of_Jerusalem-150x132.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 165px) 100vw, 165px\" \/><\/a>O emprego mais trivial do termo \u201ccat\u00f3lica\u201d visa sem d\u00favida destacar a presen\u00e7a da igreja em todo o mundo, bem como o compartilhamento por todas as igrejas do mundo da \u00fanica f\u00e9 verdadeira. Mas desde a antiguidade o conceito j\u00e1 era reconhecidamente mais rico e denso, denotando diversas dimens\u00f5es da universalidade ao mesmo tempo. \u00c9 o que se v\u00ea por exemplo nas palavras de Cirilo de Jerusal\u00e9m (313-386 d.C.):<\/p>\n<blockquote><p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cA Igreja, ent\u00e3o, \u00e9 chamada Cat\u00f3lica porque se espalhou por todo o mundo, de um extremo ao outro da terra, e porque ela nunca cessa de ensinar em toda a sua plenitude cada doutrina que os homens devem ser levados a conhecer: e isso com respeito a coisas vis\u00edveis e invis\u00edveis, no c\u00e9u e na terra. Ela \u00e9 chamada Cat\u00f3lica tamb\u00e9m porque traz \u00e0 obedi\u00eancia todo tipo de homens, governantes e governados, eruditos e simples, e porque \u00e9 um tratamento e cura universal para cada tipo de pecado perpetrado, seja pela alma ou pelo corpo, e possui nela cada forma de virtude que se nomeia, seja isso expresso em atos ou obras ou em cada gra\u00e7a espiritual que se pode descrever.\u201d[6]<\/p><\/blockquote>\n<p>Catolicidade, ent\u00e3o, \u00e9 universalidade horizontal, geogr\u00e1fica e multicultural (todo o mundo), mas tamb\u00e9m envolve outros n\u00edveis de totalidade ou inteireza: todas as partes do universo, homens em todas as classes ou fun\u00e7\u00f5es sociais, todos os tipos de curas, todos os tipos de virtudes, e toda a plenitude da doutrina. Essa extens\u00e3o multidimensional nos permitiria falar em \u201ccatolicidades\u201d, como nota o te\u00f3logo cat\u00f3lico Avery Dulles:<\/p>\n<blockquote><p>Na tradi\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica a catolicidade veio a conotar a aus\u00eancia de barreiras, ilimita\u00e7\u00e3o, transcend\u00eancia. O que quer que restrinja ou divida op\u00f5e-se \u00e0 catolicidade. Mas desde que h\u00e1 muitos tipos de barreiras ou limites, h\u00e1 tamb\u00e9m muitos tipos de catolicidade.[7]<\/p><\/blockquote>\n<p>Essa pluricatolicidade ou catolicidade multidimensional poderia ser descrita, numa linguagem missiol\u00f3gica moderna surpreendentemente aproximada, como \u201ctodo o evangelho, para o homem todo, e para todos os homens\u201d. O que o discurso sobre a \u201cintegralidade\u201d do evangelho ou da miss\u00e3o pretende acessar, de um modo nem sempre consciente, \u00e9 o que as igrejas Crist\u00e3s chamam, desde a antiguidade, de \u201ccatolicidade\u201d.<\/p>\n<p>Uma vantagem, no entanto, do conceito de catolicidade, \u00e9 que por sua riqueza ele abrange outros n\u00edveis de plenitude que o movimento evang\u00e9lico precisa considerar: n\u00e3o apenas a catolicidade intensiva ou \u201ccosmol\u00f3gica\u201d, no sentido j\u00e1 posto de \u201c<strong>integralidade<\/strong>\u201d, que significa que todo o homem e todos os campos da vida s\u00e3o impactados pelo evangelho, mas tamb\u00e9m a catolicidade extensiva ou social, ou \u201c<strong>universalidade<\/strong>\u201d, compreendida n\u00e3o apenas geogr\u00e1fica e transculturalmente, mas tamb\u00e9m para todos os homens (contra a segrega\u00e7\u00e3o\u00a0racista, por exemplo) e entre classes e grupos sociais (contra as ideologias que validam a luta de classes e querem acirr\u00e1-la como instrumento de &#8220;miss\u00e3o&#8221;), a catolicidade teol\u00f3gica ou confessional ou \u201c<strong>integridade<\/strong>\u201d, que consiste no an\u00fancio do evangelho \u201ctodo\u201d, sem amput\u00e1-lo nem reduzi-lo a um campo particular de aplica\u00e7\u00e3o (diminui\u00e7\u00f5es evidentes, por exemplo, no caso da \u201cCruz de Espinal\u201d, que j\u00e1 tratamos aqui, ou no caso da &#8220;teologia da prosperidade&#8221;) e finalmente a catolicidade temporal ou tradicional, ou \u201c<strong>continuidade<\/strong>\u201d, que nos ajuda a pensar a igreja e a f\u00e9 em liga\u00e7\u00e3o humilde e consciente com o passado: os pais da Igreja, os doutores, os Reformadores, e as pr\u00e1ticas lit\u00fargicas, devocionais e missionais do passado.<\/p>\n<p>Sobre esse \u00faltimo ponto h\u00e1 muito o que pensar e fazer. \u00c9 comum ouvirmos que o movimento evang\u00e9lico hoje precisa desesperadamente de &#8220;reforma&#8221;. Mas o que significaria reforma hoje, considerando a situa\u00e7\u00e3o real da igreja evang\u00e9lica? Penso que a \u00fanica reforma poss\u00edvel para n\u00f3s hoje \u00e9 a redescoberta da catolicidade da igreja. A igreja evang\u00e9lica n\u00e3o sofre por falta de protestantismo, mas de catolicidade. \u00c9 por isso que ela se fragmenta em um punhado de seitas pseudoevang\u00e9licas.<\/p>\n<p>E antes que algu\u00e9m se assuste, asseguro que\u00a0essa catolicidade n\u00e3o est\u00e1 no romanismo, embora ela nos habilite a apreciar alguns de seus m\u00e9ritos. A raiz da catolicidade est\u00e1 no evangelho e na universalidade de Jesus Cristo. Mas enquanto a igreja romana perde o evangelho por falta de reforma, a igreja evang\u00e9lica perde o evangelho por falta de catolicidade e, particularmente, da catolicidade temporal ou continuidade com seus ve\u00edculos: credos, comunh\u00e3o, tradi\u00e7\u00e3o, unidade natureza-gra\u00e7a, hist\u00f3ria, her\u00f3is, e a vis\u00e3o de um Deus Trino que seja maior dos que os nossos sentimentos e projetos religiosos.<\/p>\n<p>[1] Dulles, Avery. Catholicity and Catholicism. Concordia Theological Quaterly, April 1986:81.<br \/>\n[2] Harrison, E.F. Cat\u00f3lico. Em: Elwell, Walter A. Enciclop\u00e9dia Hist\u00f3rico-Teol\u00f3gica da Igreja Crist\u00e3, Vol. 1. S\u00e3o Paulo: EVN, 1988, p.260.<br \/>\n[3] Allen, Michael, Swain, Scott R. Reformed Catholicity: the promise of retrieval for theology and biblical interpretation. Grand Rapids: Baker, 2015, p.3.<br \/>\n[4] Letham, Robert. Catholicity Global and Historical: Constantinople, Westminster and the Church in the Twenty-First Century. Westminster Theological Journal 72 (2010):43-57.<br \/>\n[5] Billings, J. Todd. Catholic and Reformed: Rediscovering a Tradition. Pro Ecclesia XXIII:2:140-141.<br \/>\n[6] Cirilo de Jerusal\u00e9m, \u201cEp\u00edstolas Catequ\u00e9ticas\u201d (XVIII, 23). Cyril of Jerusal\u00e9m and Nemesius of Emesa, ed. William Telfer, The Library of Christian Classics, IV (Philadelphia: The Westminster Press, 1955), p. 186. Apud: Bavinck, Herman. The Catholicity of Christianity and the Church, Calvin Theological Journal 27, 1992:221, n.3 (John Bolt, nota do tradutor).<br \/>\n[7] Dulles, \u201cCatholicity\u201d, p. 81-2.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Trecho adaptado do cap\u00edtulo: \u201cCat\u00f3lica: as dimens\u00f5es da miss\u00e3o\u201d, que escrevi como contribui\u00e7\u00e3o para o livro \u201cHarmonia\u201d, a ser lan\u00e7ado pela editora Mundo Crist\u00e3o em 2016 (Pedro Dulci, Ed.) \u00c9 fato que o termo \u201ccat\u00f3lico\u201d se tornou um nome institucional da igreja romana, e isso quase inviabilizou\u00a0o seu emprego entre os crist\u00e3os evang\u00e9licos Brasileiros; [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":23,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[116],"tags":[],"class_list":["post-1074","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog","count-0","even alt","author-guilhermevrc","last"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1074","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/users\/23"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1074"}],"version-history":[{"count":13,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1074\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1089,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1074\/revisions\/1089"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1074"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1074"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1074"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}