{"id":1026,"date":"2015-07-16T15:22:46","date_gmt":"2015-07-16T18:22:46","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/?p=1026"},"modified":"2015-07-17T12:58:32","modified_gmt":"2015-07-17T15:58:32","slug":"1026","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/2015\/07\/16\/1026\/","title":{"rendered":"A Teologia da Miss\u00e3o e a Linguagem da Transforma\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em 2005 um grupo de amigos se reuniu para \u00a0discutir novos rumos para a reflex\u00e3o evang\u00e9lica sobre Cristianismo e Cultura e, particularmente, sobre as limita\u00e7\u00f5es e possibilidades da teologia da miss\u00e3o integral. Desses encontros surgiu o livro &#8220;Cosmovis\u00e3o Crist\u00e3 e Transforma\u00e7\u00e3o&#8221;, publicado pela editora Ultimato em 2006. A este livro se seguiu outro pela mesma editora, intitulado &#8220;F\u00e9 Crist\u00e3 e Cultura Contempor\u00e2nea&#8221;, e uma s\u00e9rie de iniciativas de tradu\u00e7\u00e3o de autores reformacionais, palestras gravadas e artigos. O \u00faltimo desdobramento liter\u00e1rio desse movimento foi o indispens\u00e1vel livro do fil\u00f3sofo e te\u00f3logo goiano Pedro Lucas Dulci, &#8220;Ortodoxia Integral&#8221;, que impulsionou novas reflex\u00f5es no \u00a0movimento.<\/p>\n<p>As reflex\u00f5es tem nos levado recentemente a um ponto de inflex\u00e3o, na medida em que \u00a0nos perguntamos: \u00e9 o projeto historicamente denominado &#8220;Teologia da Miss\u00e3o Integral&#8221; ainda f\u00e9rtil e adequado para responder aos desafios da hipermodernidade e \u00e0s necessidades da igreja evang\u00e9lica brasileira no s\u00e9culo XXI ou estar\u00edamos no meio de uma crise paradigm\u00e1tica &#8220;Khuneana&#8221; que pode nos levar \u00e0 ruptura e a um novo paradigma de teologia p\u00fablica? Os pr\u00f3ximos anos ou meses dir\u00e3o; mas as atitudes dos representantes do paradigma atual sugerem\u00a0que ele est\u00e1 irrecuperavelmente calcificado; seus atos e palavras mostrar\u00e3o a verdade no futuro pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>Neste artigo vamos problematizar o uso da linguagem da transforma\u00e7\u00e3o no contexto da miss\u00e3o integral. As respostas s\u00e3o apenas parciais. Na reflex\u00e3o sobre o assunto, descobrimos que a pr\u00f3pria tradi\u00e7\u00e3o neocalvinista compartilha de alguns dos erros agora vis\u00edveis no discurso popular sobre a miss\u00e3o integral, embora n\u00e3o do mesmo modo, sugerindo que a mera substitui\u00e7\u00e3o da teologia de miss\u00e3o integral pelo neocalvinismo holand\u00eas seria insuficiente para articular uma teologia p\u00fablica radicalmente evang\u00e9lica no contexto do s\u00e9culo XXI.<!--more--><\/p>\n<p>PARA ACESSAR A VERS\u00c3O EM \u00c1UDIO DESSA PALESTRA, GRAVADA NA CONFER\u00caNCIA L&#8217;ABRI 2014, <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=dOm763PqqYk\" target=\"_blank\">CLIQUE AQUI.<\/a><\/p>\n<ol>\n<li><strong>A Miss\u00e3o Integral e a Linguagem da Transforma\u00e7\u00e3o<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>A preocupa\u00e7\u00e3o com a transforma\u00e7\u00e3o social tem sido um elemento bastante comum no discurso Crist\u00e3o sobre a tarefa da Igreja. Como James D. Hunter observa, o discurso da transforma\u00e7\u00e3o est\u00e1 presente nas defini\u00e7\u00f5es de miss\u00e3o das mais variadas denomina\u00e7\u00f5es crist\u00e3s, ag\u00eancias mission\u00e1rias, e organiza\u00e7\u00f5es crist\u00e3s do terceiro setor.<\/p>\n<p>Essa linguagem tamb\u00e9m est\u00e1 muito presente no discurso do movimento de Miss\u00e3o Integral da Igreja, tamb\u00e9m chamado de \u201cMovimento Lausanne\u201d. O pacto de Lausanne foi estabelecido a partir da grande confer\u00eancia de Lausanne, na Su\u00ed\u00e7a, em Julho de 1974, sob a lideran\u00e7a de John Stott. Seu principal efeito no pensamento Crist\u00e3o foi o acordo e a afirma\u00e7\u00e3o de que a miss\u00e3o da igreja inclui tanto a evangeliza\u00e7\u00e3o quanto a responsabilidade social: \u201co evangelho todo para o homem todo pelo mundo todo\u201d.<\/p>\n<blockquote><p>Ainda que a reconcilia\u00e7\u00e3o com o homem n\u00e3o seja o mesmo que a reconcilia\u00e7\u00e3o com Deus, nem o compromisso social seja o mesmo que a evangeliza\u00e7\u00e3o, nem a liberta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica seja o mesmo que salva\u00e7\u00e3o; n\u00e3o obstante, afirmamos que a evangeliza\u00e7\u00e3o e a a\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica s\u00e3o parte de nosso dever crist\u00e3o.<\/p><\/blockquote>\n<p>Entre as principais contribui\u00e7\u00f5es teol\u00f3gicas para o pacto de Lausanne, encontra-se o trabalho de um grupo de te\u00f3logos latino-americanos, ligados \u00e0 Fraternidade Teol\u00f3gica Latino-Americana, fundada em novembro de 1970 em Cochabamba (Bol\u00edvia). Entre os nomes mais conhecidos est\u00e3o Orlando Costas, Ren\u00e9 Padilla e Samuel Escobar. Esses pensadores estavam preocupados com a nega\u00e7\u00e3o anglo-sax\u00f4nica de que o an\u00fancio do evangelho implica em um posicionamento evang\u00e9lico diante das estruturas de injusti\u00e7a dentro da cultura, tanto do comunicador quanto do receptor. A miss\u00e3o n\u00e3o poderia ser reduzida \u00e0 \u201cmultiplica\u00e7\u00e3o de crist\u00e3os e de igrejas por meio da evangeliza\u00e7\u00e3o\u201d.<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p>Na elabora\u00e7\u00e3o das implica\u00e7\u00f5es do evangelho para a cultura, a FTLA e o movimento Lausanne empregaram extensivamente a linguagem da \u201ctransforma\u00e7\u00e3o\u201d. Assim, segundo Samuel Escobar, no artigo \u201cMiss\u00e3o Crist\u00e3 e Transforma\u00e7\u00e3o Social\u201d (no livro \u201cServido a Deus entre os Pobres\u201d),<\/p>\n<blockquote><p>Jesus n\u00e3o entendia sua miss\u00e3o e seu trabalho separado da iniciativa divina que est\u00e1 em a\u00e7\u00e3o no mundo&#8230; A palavra de Deus entra na hist\u00f3ria humana, se torna hist\u00f3ria e marca a hist\u00f3ria&#8230; a presen\u00e7a de Jesus no mundo&#8230; \u00e9 uma presen\u00e7a transformadora, sanadora, desafiadora, inquietante, que convoca para mudan\u00e7a radical e entrega.<\/p>\n<p>A recupera\u00e7\u00e3o de um senso de dignidade pessoal, a participa\u00e7\u00e3o em uma comunidade onde florescem os talentos e dons espirituais e humanos, a transforma\u00e7\u00e3o pessoa com suas consequ\u00eancias \u00e9ticas&#8230; o ascetismo agrad\u00e1vel que permite a melhora de vida e a capitaliza\u00e7\u00e3o&#8230; tudo isto ajuda a sair da mis\u00e9ria opressiva, rompendo com o fatalismo do ambiente. \u00c9 a base de um processo de transforma\u00e7\u00e3o social geral pela nova f\u00e9 em Cristo.<\/p>\n<p>Uma olhada na hist\u00f3ria da rela\u00e7\u00e3o entre miss\u00e3o crist\u00e3 e transforma\u00e7\u00e3o social \u00e9 um exerc\u00edcio que leva \u00e0 admira\u00e7\u00e3o e \u00e0 gratid\u00e3o pelas p\u00e1ginas belas que se encontra.<\/p><\/blockquote>\n<p>A linguagem da transforma\u00e7\u00e3o \u00e9 incorporada e torna-se um conceito central no movimento de Lausanne a partir da <strong>Consulta de Wheaton<\/strong>, Illinois, em Junho de <strong>1983<\/strong>, com a publica\u00e7\u00e3o do documento: <a href=\"http:\/\/www.lausanne.org\/content\/statement\/transformation-the-church-in-response-to-human-need\" target=\"_blank\">\u201cTransforma\u00e7\u00e3o: A Igreja em resposta \u00e0s necessidades humanas\u201d<\/a>. Segundo Ren\u00e9 Padilla,<\/p>\n<blockquote><p>Este documento, que pode ser considerado como a afirma\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica mais s\u00f3lida do compromisso com a miss\u00e3o integral das \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo 20, sem muitos rodeios, afirma que \u201ca maldade n\u00e3o est\u00e1 unicamente no cora\u00e7\u00e3o humano, mas tamb\u00e9m nas estruturas sociais&#8230; A miss\u00e3o da igreja inclui a proclama\u00e7\u00e3o do evangelho e sua demonstra\u00e7\u00e3o. Devemos, portanto, evangelizar, responder a necessidades humanas imediatas e pressionar em prol da transforma\u00e7\u00e3o.\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><strong>[2]<\/strong><\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>O documento destaca que o termo \u201cdesenvolvimento\u201d n\u00e3o \u00e9 adequado para descrever a dire\u00e7\u00e3o da contribui\u00e7\u00e3o crist\u00e3, j\u00e1 que o \u201cdesenvolvimentismo\u201d n\u00e3o \u00e9 claro sobre a cr\u00edtica ao crescimento econ\u00f4mico no sentido capitalista liberal. O termo adequado seria \u201ctransforma\u00e7\u00e3o\u201d, porque ele aponta para mudan\u00e7as estruturais que consideram os pobres, que o \u201cdesenvolvimento\u201d exclui. Sobre a natureza dessa transforma\u00e7\u00e3o, fazem-se considera\u00e7\u00f5es importantes:<\/p>\n<p>a)\u00a0<em>H\u00e1 uma admiss\u00e3o de que <strong>o sentido de \u201ctransforma\u00e7\u00e3o\u201d precisa ter bases b\u00edblicas<\/strong>:<\/em><\/p>\n<blockquote><p>\u201cPreocupamo-nos, no entanto, que tanto os objetivos quanto os processos de transforma\u00e7\u00e3o sejam vistos \u00e0 luz das Boas Novas sobre Jesus, o Messias. Nos comprometemos e urgimos que outros crentes Crist\u00e3os rejeitem as for\u00e7as culturais e sociais do secularismo, que t\u00e3o frequentemente formatam nossas ideias sobre uma boa sociedade. Cremos que no\u00e7\u00f5es estranhas ao plano de Deus para a vida humana s\u00e3o frequentemente mais poderosas em formar nossas opini\u00f5es sobre o que \u00e9 certo para uma na\u00e7\u00e3o do que a mensagem da pr\u00f3pria Escritura.<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>b) <em>A proposta que \u00e9 feita para a compreens\u00e3o da transforma\u00e7\u00e3o \u00e9 a de que ela envolve <strong>tanto a mudan\u00e7a espiritual quanto nas condi\u00e7\u00f5es de vida<\/strong>:<\/em><\/p>\n<blockquote><p>\u201cDe acordo com a vis\u00e3o b\u00edblica da vida humana, ent\u00e3o, a transforma\u00e7\u00e3o \u00e9 a mudan\u00e7a de uma condi\u00e7\u00e3o de exist\u00eancia humana contr\u00e1ria aos prop\u00f3sitos de Deus para outra na qual as pessoas sejam capazes de desfrutar a plenitude da vida em harmonia com Deus (Jo\u00e3o 10.10; Cl 3.8-15; Ef 5.13).<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>c) <em>O paradigma para compreender a transforma\u00e7\u00e3o se baseia nos temas b\u00edblicos de <strong>Cria\u00e7\u00e3o, Queda e Reden\u00e7\u00e3o, como se v\u00ea implicitamente no trecho abaixo <\/strong>(item 12):<\/em><\/p>\n<blockquote><p>\u201cH\u00e1 v\u00e1rios temas na B\u00edblia que nos ajudam a ter foco quanto ao modo de compreendermos a transforma\u00e7\u00e3o. A doutrina da cria\u00e7\u00e3o fala sobre a dignidade de cada homem, mulher e crian\u00e7a, da responsabilidade dos seres humanos de cuidar dos recursos da natureza (Gn 1.26-30) e de compartilhar esses recursos de forma equitativa com nossos vizinhos. A doutrina da Queda destaca a tend\u00eancia inata dos seres humanos de servir a seus pr\u00f3prios interesses, com as consequ\u00eancias da gan\u00e2ncia, inseguran\u00e7a, viol\u00eancia, e cobi\u00e7a pelo poder. \u2018O ju\u00edzo de Deus retamente cai sobre os que fazem tais coisas\u2019 (Rm 2.2). A doutrina da reden\u00e7\u00e3o proclama o perd\u00e3o dos pecados por Deus e a liberdade que Cristo d\u00e1 para um modo de vida dedicado a servir a outros, falando-lhes sobre as Boas Novas da Salva\u00e7\u00e3o, trazendo reconcilia\u00e7\u00e3o entre inimigos, e perdendo a pr\u00f3pria vida para ver a justi\u00e7a estabelecida para todos os povos explorados.\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>d) <em>O <strong>prop\u00f3sito da transforma\u00e7\u00e3o<\/strong> \u00e9 descrito por meio da vis\u00e3o b\u00edblica do \u201cReino de Deus\u201d, com a submiss\u00e3o da vida ao Senhor, com suas muitas facetas (item 13)<\/em><\/p>\n<p>e) <em>A <strong>compreens\u00e3o da Cultura<\/strong> \u00e9 a de que ela traz as marcas da gra\u00e7a comum, da influ\u00eancia demon\u00edaca e de mecanismos de explora\u00e7\u00e3o. Os elementos pecaminosos devem ser confrontados (item 23)<\/em><\/p>\n<p>f) <em>Tanto os modelos \u201cfuncionalistas\u201d quanto os \u201cconflitivos\u201d (na interpreta\u00e7\u00e3o s\u00f3cio-anal\u00edtica) podem ser empregados para compreender esse contexto, mas tendo em mente que <strong>ambas as abordagens s\u00e3o falhas e est\u00e3o sob ju\u00edzo divino<\/strong>:<\/em><\/p>\n<blockquote><p>\u201cPor meio da aplica\u00e7\u00e3o das Escrituras, no poder do Esp\u00edrito, buscamos discernir a verdadeira realidade de todas as situa\u00e7\u00f5es socioculturais. Precisamos aprender criticamente tanto das abordagens funcionalistas \u00e0 cultura humana quanto das abordagens conflitivas. A abordagem da \u201csocio-antropologia funcionalista\u201d enfatiza o aspecto harmonioso das diferentes culturas e promove uma atitude tolerante para com as estruturas existentes. Essa posi\u00e7\u00e3o \u00e9 frequentemente adotada em nome da \u201cobjetividade cient\u00edfica\u201d. Em contraste, a abordagem do \u201cconflito\u201d exp\u00f5e a natureza contradit\u00f3ria das estruturas sociais e nos faz conscientes dos conflitos de interesse subjacentes. Precisamos nos lembrar de que ambas as abordagens est\u00e3o sob o ju\u00edzo de Deus.<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>No conjunto, concordo absolutamente com Ren\u00e9 Padilla em que o documento de Wheaton 1983 \u00e9 altamente preciso e pertinente, sendo ainda indispens\u00e1vel nas discuss\u00f5es que se desenham hoje, em todo o mundo evang\u00e9lico, ao redor dos problemas da rela\u00e7\u00e3o entre Cristianismo e cultura, sobre filosofia social e sobre os modelos dispon\u00edveis de teologia p\u00fablica. Destaca-se a sua clareza e utilidade ao explicitar a natureza sist\u00eamica do pecado e a necessidade de uma miss\u00e3o evang\u00e9lica \u201cpos-liberal\u201d no sentido pol\u00edtico; ou \u201cpos-individualista\u201d. Mas acima de tudo, salta \u00e0 vista sua clareza no tocante aos problemas do uso da \u201clinguagem da transforma\u00e7\u00e3o\u201d. O documento reconhece que h\u00e1 riscos no emprego dessa linguagem, e que ela deve ser cuidadosamente definida.<\/p>\n<p>Vale mencionar que a propriedade do uso dessa linguagem est\u00e1 hoje em discuss\u00e3o; a despeito do trabalho profundo e praticamente can\u00f4nico em muitos c\u00edrculos missiol\u00f3gicos do Sul Africano David Bosch em \u201cA Miss\u00e3o Transformadora\u201d (<a href=\"http:\/\/www.monergismo.com\/textos\/resenhas\/res_missao-davidbosch_tiago.pdf\" target=\"_blank\">Veja uma resenha bem introdut\u00f3ria AQUI<\/a>), novos debates no \u00e2mbito protestante problematizaram o emprego dessa linguagem, com posicionamentos mutuamente cr\u00edticos: os defensores contempor\u00e2neos da teoria dos \u201cDois Reinos\u201d (David VanDrunner), que criticam, em bloco, o neocalvinismo, a teologia da miss\u00e3o integral, e as novas ideias sobre escatologia e miss\u00e3o de N. T. Wright como manifesta\u00e7\u00f5es do mesmo tipo de \u201ctransformacionismo\u201d missiol\u00f3gico, e os cr\u00edticos do modelo transformacional de engajamento cultural Crist\u00e3o, como Andy Crouch (em \u201cCulture Making\u201d, IVP) e, sobretudo, James Davison Hunter (em \u201cTo Change the World\u201d, Yale University Press).<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 adequa\u00e7\u00e3o do uso da linguagem da transforma\u00e7\u00e3o, tanto a teologia da miss\u00e3o integral quanto o neocalvinismo est\u00e3o \u201cno mesmo barco\u201d, e precisam urgentemente sofisticar e qualificar o seu uso da linguagem da transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>II. Os Riscos da Linguagem da Transforma\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol>\n<li><strong>A Pr\u00e9-hist\u00f3ria Ideol\u00f3gica do Termo<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>J\u00e1 mencionamos que na consulta de Wheaton o termo \u201cdesenvolvimento\u201d foi rejeitado, como forma de conceber a dimens\u00e3o cultural da miss\u00e3o da igreja, por ser ideologicamente condicionado pelo desenvolvimentismo progressista do capitalismo global. Mas seria o termo \u201ctransforma\u00e7\u00e3o\u201d isento?<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil encontrar um precedente ideologicamente oposto para o uso da palavra transforma\u00e7\u00e3o; o mais famoso est\u00e1 nas &#8220;Teses sobre Feuerbach&#8221;:<\/p>\n<blockquote><p>Os fil\u00f3sofos t\u00eam apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a quest\u00e3o, por\u00e9m, \u00e9 transform\u00e1-lo.<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><strong>[7]<\/strong><\/a> \u2013 Karl Marx<\/p><\/blockquote>\n<p>Pode-se objetar que a tradu\u00e7\u00e3o mais literal seria \u201cmudar\u201d o mundo; mas essa \u00e9 uma quest\u00e3o secund\u00e1ria. O ponto no uso do termo \u201ctransforma\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 exatamente de que coisas precisam ser mudadas. Isso \u00e9 inquestion\u00e1vel; mas significa que o termo \u201ctransforma\u00e7\u00e3o\u201d no sentido missiol\u00f3gico tem uma pr\u00e9-hist\u00f3ria complexa, e inclusive, pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Na verdade o termo \u201ctransforma\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 um rio que tem outros afluentes al\u00e9m do pensamento de esquerda. Poder\u00edamos incluir, aqui, o afluente \u201ctecnol\u00f3gico\u201d e o pr\u00f3prio ideal iluminista de progresso; mas vamos focalizar o caso da esquerda.<\/p>\n<p>Na vis\u00e3o de Marx, o motor da hist\u00f3ria \u00e9 o conflito de classes: a tens\u00e3o entre a classe que det\u00e9m os meios de produ\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e a classe trabalhadora, que \u00e9 explorada pela classe \u201csuperior\u201d e alienada de seu trabalho. A base ou \u201cestrutura\u201d da sociedade seria material: o modo de produ\u00e7\u00e3o. A \u201csuperestrutura\u201d seria o conjunto dos bens culturais e valores resultantes do trabalho material do homem. Na perspectiva de Marx, o modo capitalista de produ\u00e7\u00e3o seria inerentemente contradit\u00f3rio, gerando um conflito dial\u00e9tico de classes que eventualmente levaria ao colapso do sistema e sua supera\u00e7\u00e3o em uma futura sociedade comunista, sem classes.<\/p>\n<p>Ainda na vis\u00e3o de Marx, ideias n\u00e3o teriam poder de mudar a situa\u00e7\u00e3o. A quest\u00e3o \u00e9 que as ideias s\u00e3o, em si mesmas, resultado do modo de produ\u00e7\u00e3o. Ideologias s\u00e3o vis\u00f5es distorcidas de mundo que ocultam a natureza material da realidade e a natureza e origem das contradi\u00e7\u00f5es do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista.<\/p>\n<p>Assim, a pr\u00e1xis revolucion\u00e1ria seria a \u00fanica postura \u201cverdadeira\u201d, no sentido de responder \u00e0 realidade de forma n\u00e3o ideol\u00f3gica, e de tornar-se participante construtivo do movimento dial\u00e9tico da hist\u00f3ria. Aqueles que n\u00e3o percebem o conflito hist\u00f3rico corretamente e n\u00e3o se engajam de forma revolucion\u00e1ria seriam \u201creacion\u00e1rios\u201d, carentes de vontade e consci\u00eancia hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>A ideia de \u201cpr\u00e1xis revolucion\u00e1ria\u201d \u00e9 muito importante e interessante. Ela envolve uma percep\u00e7\u00e3o de que h\u00e1 um processo hist\u00f3rico que tem uma vanguarda, e que \u00e9 preciso participar dessa vanguarda. E tamb\u00e9m uma suspeita radical de \u201cideologias\u201d que naturalizam estruturas sociais presentes, consideradas express\u00f5es secund\u00e1rias de certo est\u00e1gio da evolu\u00e7\u00e3o cultural. O resultado dessa postura \u00e9 uma vis\u00e3o \u201crevolucionista\u201d do engajamento cultural, como um \u201cconflito\u201d em que se busca ardentemente uma utopia de liberta\u00e7\u00e3o final.<\/p>\n<p>Inicialmente o foco da atividade revolucion\u00e1ria era o conflito de classes e a subvers\u00e3o do modo capitalista de produ\u00e7\u00e3o, segundo as vers\u00f5es mais \u201cortodoxas\u201d e \u201cestruturalistas\u201d do marxismo. Com a crise e fracasso dessa estrat\u00e9gia, a vis\u00e3o dominante foi questionada pelo chamado \u201cmarxismo humanista\u201d, para o qual a transforma\u00e7\u00e3o seria obtida por meio de uma hegemonia no n\u00edvel da superestrutura \u2013 o n\u00edvel da cultura. O principal articulador dessa proposta foi o italiano Antonio Gramsci.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante considerar a forma como Gramsci descrevia o marxismo. Esteve Morera inicia sua discuss\u00e3o citando a afirma\u00e7\u00e3o de Gramsci, de que <strong>o Marxismo seria \u201co historicismo absoluto\u201d<\/strong><a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>.<\/p>\n<p>Esse ponto tem sido assunto de interessantes conversas em Belo Horizonte com o Dr. Leonardo Ramos, presidente da Associa\u00e7\u00e3o Kuyper e tamb\u00e9m reconhecido especialista em Gramsci.\u00a0Porque isso \u00e9 importante? Por causa das origens da vis\u00e3o historicista de mundo, que envolvem <em>a nega\u00e7\u00e3o de que existam estruturas n\u00e3o hist\u00f3ricas na cultura<\/em>. Para o historicismo, tudo o que h\u00e1 na cultura \u00e9 inven\u00e7\u00e3o humana, produto historicamente condicionado da cria\u00e7\u00e3o humana, e por isso tudo pode ser transformado pelo homem. Vale citar o autor:<\/p>\n<blockquote><p>&#8230; Gramsci concebe o Marxismo como \u201ca absoluta mundanidade e terrenalidade do pensamento, um absoluto humanismo da hist\u00f3ria.\u201d &#8230; o historicismo \u00e9 \u201ca liberta\u00e7\u00e3o de qualquer \u2018ideologismo\u2019 abstrato, a real conquista do mundo hist\u00f3rico o princ\u00edpio de uma nova civiliza\u00e7\u00e3o\u201d.<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\"><sup><strong><sup>[9]<\/sup><\/strong><\/sup><\/a><\/p>\n<p>Se pudermos dar um sentido geral ao humanismo de Gramsci, deve ser o de que a hist\u00f3ria deve ser compreendida como um processo humano, em oposi\u00e7\u00e3o a um processo divino ou biol\u00f3gico; como consequ\u00eancia, cientistas sociais devem procurar quadros explanat\u00f3rios nas rela\u00e7\u00f5es entre seres humanos e da humanidade com a natureza.<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\"><sup><strong><sup>[10]<\/sup><\/strong><\/sup><\/a><\/p>\n<p>O humanismo de Gramsci, ent\u00e3o, deve ser tomado primeiro como uma teoria filos\u00f3fica que compreende a a\u00e7\u00e3o humana como uma condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria de desenvolvimento hist\u00f3rico e que rejeita qualquer explica\u00e7\u00e3o baseada em entidades como Deus ou a provid\u00eancia, que n\u00e3o s\u00e3o em si mesmas humanas, ou o resultado da a\u00e7\u00e3o humana. Assim, a hist\u00f3ria \u00e9 o desenvolvimento das sociedades humanas, bem como entre os seres humanos e a natureza.<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\"><sup><strong><sup>[11]<\/sup><\/strong><\/sup><\/a><\/p>\n<p>Gramsci, seguindo Marx, argumenta que a natureza humana \u00e9 o conjunto das rela\u00e7\u00f5es sociais, e assim ele afirma a transig\u00eancia da assim-chamada natureza humana. A natureza humana n\u00e3o \u00e9 anterior \u00e0 hist\u00f3ria, \u00e9 \u201cum fato hist\u00f3rico que pode ser verificado, dentro de certos limites, com m\u00e9todos filol\u00f3gicos e cr\u00edticos\u201d.<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\"><sup><strong><sup>[12]<\/sup><\/strong><\/sup><\/a><\/p>\n<p>Em termos simples, o historicismo Gramsciano \u00e9 a vis\u00e3o de que todos os fen\u00f4menos sociais existem como aspectos de um processo, e assim o m\u00e9todo hist\u00f3rico \u00e9 o \u00fanico cient\u00edfico. Mas o m\u00e9todo hist\u00f3rico n\u00e3o \u00e9 meramente uma narrativa de eventos. \u00c9 antes o estudo da transitoriedade das formas sociais de acordo com uma rede de necessidade. Essas estruturas de necessidade n\u00e3o s\u00e3o simples constru\u00e7\u00f5es l\u00f3gicas que se encaixam com os eventos, mas formas reais de vida social. Al\u00e9m disso, s\u00e3o em \u00faltima inst\u00e2ncia a obra de homens e mulheres reais, mesmo quando aparecem como cadeias externas que os esmagam.<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\"><sup><strong><sup>[13]<\/sup><\/strong><\/sup><\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>O que \u00e9 importante, aqui, n\u00e3o \u00e9 apenas a \u00eanfase na mudan\u00e7a ou na transforma\u00e7\u00e3o. \u00c9 a cren\u00e7a de que a hist\u00f3ria \u00e9 feita pelo homem, e que as estruturas da vida humana s\u00e3o aspectos de um processo hist\u00f3rico transit\u00f3rio, cujos limites s\u00e3o constru\u00eddos pelo pr\u00f3prio homem.<\/p>\n<p>Que implica\u00e7\u00f5es esse tipo de ideologia pode ter? Podemos citar um exemplo. No site do movimento INSURG\u00caNCIA, ligado ao PSOL, um partido pol\u00edtico de esquerda que tem o pensamento Gramsciano como uma de suas bases principais, encontramos o artigo \u201cA luta LGBT como estrat\u00e9gia para a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade Socialista\u201d.<\/p>\n<blockquote><p>O feminismo marxista nos oferece a base para a compreens\u00e3o das estruturas patriarcais que nos oprimem e nos coloca a necessidade de lutar contra essas estruturas, enquanto a teoria queer amplia nossos horizontes ao desconstruir a l\u00f3gica biologizante sobre a qual o feminismo havia sido constru\u00eddo. \u201cQueer\u201d \u00e9 um conceito libertador para ambos os sexos, para todas as orienta\u00e7\u00f5es sexuais e para todos os g\u00eaneros. \u201cQueer\u201d questiona a naturaliza\u00e7\u00e3o das identidades, problematiza, desconstr\u00f3i. Uma pol\u00edtica LGBT socialista, deveria, portanto, perceber que essas duas tradi\u00e7\u00f5es n\u00e3o necessariamente se op\u00f5em, pelo contr\u00e1rio, elas podem estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o de complementariedade. Hoje \u00e9\u00a0 imposs\u00edvel pensar a quest\u00e3o da diversidade sexual sem considerar os estudos queer, assim como \u00e9 imposs\u00edvel pensar nessa luta sem pautar a necessidade de enfrentar as estruturas patriarcais lado a lado com as mulheres, sejam elas cis, trans ou l\u00e9sbicas. O feminismo marxista e a teoria queer, portanto, devem ser nossas bases te\u00f3ricas.<\/p>\n<p>O casamento civil igualit\u00e1rio \u00e9 outro bom exemplo de como a luta democr\u00e1tica, embora cheia de armadilhas, pode ser t\u00e1tica para a verdadeira emancipa\u00e7\u00e3o LGBT. Vivemos em uma democracia burguesa, na qual reivindicar o casamento entre pessoas do mesmo sexo significa basicamente explorar a contradi\u00e7\u00e3o liberal (a sociedade da igualdade e da liberdade n\u00e3o oferece de fato liberdade e igualdade a todos). E o casamento entre pessoas do mesmo sexo, por si s\u00f3, representa algum tipo de avan\u00e7o dentro desse regime&#8230; Basicamente, muda a fun\u00e7\u00e3o do casamento na sociedade burguesa.<\/p>\n<p>Entretanto, n\u00e3o podemos cair no erro de tornar essa uma pauta com um fim em si mesma&#8230; nossa luta pelo casamento igualit\u00e1rio precisa ter como norte a supera\u00e7\u00e3o da institui\u00e7\u00e3o casamento, que lembremos, sempre foi uma institui\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel por oprimir as LGBT e as mulheres. \u201c\u00c9 preciso ter clareza de que n\u00e3o podemos cair no erro de usar, com a melhor das inten\u00e7\u00f5es libertadoras, exatamente os mecanismos que nos oprimiram e que continuam nos oprimindo\u201d (COLLING, L.2010).<\/p>\n<p>Se n\u00f3s queremos uma sociedade em que as diferen\u00e7as n\u00e3o sejam motor de desigualdades, ent\u00e3o devemos lutar para que todo o ser humano possa ser pleno tamb\u00e9m na express\u00e3o da sua individualidade, da sua sexualidade e dos seus desejos. E a luta LGBT, a partir de seus in\u00fameros questionamentos, pode ser uma ferramenta importante neste sentido. Essa \u00e9 sem d\u00favida a maior contribui\u00e7\u00e3o que podemos dar a luta socialista e revolucion\u00e1ria.<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\"><strong>[14]<\/strong><\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>O ponto importante, aqui, \u00e9 que de um ponto de vista historicista-revolucion\u00e1rio, a transforma\u00e7\u00e3o social frequentemente envolve <em>a subvers\u00e3o de estruturas que consideramos fundamentalmente boa<\/em>s, mas que, numa interpreta\u00e7\u00e3o totalizante<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a> e sist\u00eamica da sociedade, s\u00e3o vistas como partes integrantes de um sistema contradit\u00f3rio que precisa ser superado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li>A Compreens\u00e3o Err\u00f4nea dos Processos de Transforma\u00e7\u00e3o<\/li>\n<\/ol>\n<p>Em seu livro revolucion\u00e1rio, James Davison Hunter mostrou que os processos de transforma\u00e7\u00e3o cultural n\u00e3o se d\u00e3o, como muitos evang\u00e9licos pensam, pela mudan\u00e7a de mentes e cora\u00e7\u00f5es apenas. A raz\u00e3o disso \u00e9 que Culturas s\u00e3o constitu\u00eddas de institui\u00e7\u00f5es, objetos culturais, e ideias, de forma que somente ideias incorporadas em contextos institucionais adequados tem potencial transformador. Desse modo, apenas a \u201cmudan\u00e7a espiritual\u201d do avivamento (pietismo) ou a mudan\u00e7a de \u201ccosmovis\u00e3o\u201d, n\u00e3o poderia mudar o mundo.<\/p>\n<p>Essa cr\u00edtica tem sido importante para o neocalvinismo brasileiro, uma vez que p\u00f5e \u00e0 luz a modifica\u00e7\u00e3o idealista do neocalvinismo, sofrida no contexto Norteamericano. Obras sobre cosmovis\u00e3o crist\u00e3 relativamente influenciadas pelo neocalvinismo, bastante \u00fateis, no geral &#8211; como os trabalhos de \u00a0James Sire &#8211; costumam localizar o eixo da quest\u00e3o no nivel intelectual-credal. Mas na forma original dessa tradi\u00e7\u00e3o &#8211; em Kuyper, Bavinck e, acima de tudo, em Herman Dooyeweerd &#8211; a cultura n\u00e3o \u00e9 governada, em primeiro lugar, nem por ideias, nem por estruturas materiais ou por formas de praxis, mas por motivos religiosos\/espirituais fundamentais, a partir do centro religioso do homem, que \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o. Embora sua inten\u00e7\u00e3o seja destacar o papel de institui\u00e7\u00f5es, pr\u00e1ticas discursivas e sensibilidades na constitui\u00e7\u00e3o da cultura, a supera\u00e7\u00e3o do idealismo do discurso de cosmovis\u00e3o foi um efeito colateral significativo. Os leitores observar\u00e3o que essa \u00a0tens\u00e3o entre idealismo e pensamento wetsidee j\u00e1 est\u00e1 presente no pr\u00f3prio &#8220;Cosmovis\u00e3o Crist\u00e3 e Transforma\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Mas al\u00e9m disso, e mais em linha com seus objetivos declarados, Hunter mostrou que os discursos da direita e da esquerda evang\u00e9lica s\u00e3o hoje dominados pelo ressentimento e pelo desejo de tomar o poder pol\u00edtico para impor projetos ut\u00f3picos ou conservadores sobre os outros. Hunter argumenta que o modelo de \u201cmudar o mundo\u201d, de\u00a0 forma totalizante, \u00e9 um modelo irrealiz\u00e1vel, e que devido \u00e0 excessiva politiza\u00e7\u00e3o, gera um\u00a0 mau testemunho.<\/p>\n<p>Segundo ele o caminho melhor seria, ao inv\u00e9s de \u201ctransforma\u00e7\u00e3o\u201d, uma \u201cpresen\u00e7a fiel\u201d, atingindo os lugares em que estamos, sem pretens\u00f5es de \u201cmudar o mundo\u201d. Entendo que essa proposta, em linhas gerais, oferece um excelente corretivo tanto para o movimento de miss\u00e3o integral quanto para o neocalvinismo, como uma lembran\u00e7a de que nossas ansiedades escatol\u00f3gicas e ut\u00f3picas n\u00e3o deveriam macular a miss\u00e3o e justificar alian\u00e7as em nome da efetividade hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>III. Qual Transforma\u00e7\u00e3o? Quatro Qualificadores Teol\u00f3gicos<\/strong><\/p>\n<p>Proponho quatro crit\u00e9rios teol\u00f3gicos para pensar a transforma\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol>\n<li><strong>A Transforma\u00e7\u00e3o temporal n\u00e3o \u00e9 o OBJETIVO principal da miss\u00e3o, mas uma DIMENS\u00c3O subjacente e secund\u00e1ria (Horizonte Teleol\u00f3gico)<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>\u00c0s vezes o objetivo principal da miss\u00e3o \u00e9 descrito de forma temporal, como uma vis\u00e3o ideal de sociedade renovada, como uma escatologia voltada para o tempo. Isso \u00e9 muito comum, por exemplo, nas discuss\u00f5es sobre miss\u00e3o integral da Igreja. Vejamos, por exemplo, o que diz Ren\u00e9 Padilla na edi\u00e7\u00e3o recente de seu livro \u201cMiss\u00e3o Integral\u201d:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;n\u00e3o faz sentido nenhum falar de &#8216;prioridade da evangeliza\u00e7\u00e3o&#8217;! A miss\u00e3o \u00e9 crist\u00e3 na medida em que se orienta para a plena satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades humanas b\u00e1sicas, tanto espirituais como psicol\u00f3gicas, f\u00edsicas e materiais, tanto pessoais como sociais, tanto privadas como p\u00fablicas.&#8221; <a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\"><strong>[16]<\/strong><\/a>&#8211; Ren\u00e9 Padilla.<\/p><\/blockquote>\n<p>O que h\u00e1 de errado com essa formula\u00e7\u00e3o? Creio que uma cita\u00e7\u00e3o b\u00edblica basta para problematiz\u00e1-la:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;a multid\u00e3o entrou tamb\u00e9m nos barquinhos e foi para Cafarnaum em busca de Jesus. Ao encontr\u00e1-lo no outro lado do mar, perguntaram-lhe: Rabi, quando chegaste aqui? Jesus lhes respondeu: Em verdade, em verdade vos digo que me buscais, n\u00e3o porque vistes sinais, mas porque comestes do p\u00e3o e ficastes satisfeitos. Trabalhai n\u00e3o pela comida que se acaba, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do homem vos dar\u00e1. Deus, o Pai, o aprovou, pondo nele o seu selo. Perguntaram-lhe, ent\u00e3o: Que faremos para realizar as obras de Deus? Jesus lhes respondeu: A obra de Deus \u00e9 esta: Crede naquele que ele enviou.&#8221; Jo\u00e3o 6.24-29<\/p><\/blockquote>\n<p>Concordo com Padilla que o evangelho se dirige ao homem todo &#8211; afinal, Jesus alimentou a multid\u00e3o sim. Mas discordo em um ponto: dizer que todas as suas necessidades t\u00eam igual import\u00e2ncia, e que n\u00e3o haja um tipo hierarquia funcional entre as obras e a f\u00e9, como ele faz, \u00e9 decididamente inadequado. H\u00e1 muita evid\u00eancia b\u00edblica a respeito disso; mas a refer\u00eancia acima \u00e9 suficiente para fazer acender as luzes em nosso painel.<\/p>\n<p>Qual \u00e9 a quest\u00e3o, aqui? \u00c9 que n\u00e3o podemos ter uma vis\u00e3o adequada do processo hist\u00f3rico se n\u00e3o colocamos o tempo e a hist\u00f3ria no contexto mais amplo que \u00e9 a eternidade. Eu seu trabalho Ren\u00e9 Padilla trata essa dualidade b\u00edblica fundamental como se fosse meramente a reprodu\u00e7\u00e3o de um padr\u00e3o ideol\u00f3gico plat\u00f4nico dentro do discurso crist\u00e3o, que supostamente destruiria a integralidade da vida humana e da miss\u00e3o. Mas a diferen\u00e7a entre o eterno e o temporal \u00e9 uma categoria b\u00edblica fundamental:<\/p>\n<blockquote><p>Por isso n\u00e3o nos desanimamos. Ainda que o nosso exterior* esteja se desgastando, o nosso interior est\u00e1 sendo renovado todos os dias.<\/p>\n<p>Pois nossa tribula\u00e7\u00e3o leve e passageira produz para n\u00f3s uma gl\u00f3ria incompar\u00e1vel, de valor eterno,<\/p>\n<p>pois n\u00e3o fixamos o olhar nas coisas vis\u00edveis, mas naquelas que n\u00e3o se veem; pois as vis\u00edveis s\u00e3o tempor\u00e1rias, ao passo que as que n\u00e3o se veem s\u00e3o eternas.<a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\"><strong>[17]<\/strong><\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>Um exemplo b\u00edblico que considero essencial para compreender essa vis\u00e3o \u00e9 Abra\u00e3o. Ele recebe a promessa de b\u00ean\u00e7\u00e3o e o chamado de Deus, e sai em peregrina\u00e7\u00e3o para cumprir esse chamado. No entanto a sua peregrina\u00e7\u00e3o consiste em uma s\u00e9rie de experi\u00eancias de desprendimento e sacrif\u00edcio, no qual a b\u00ean\u00e7\u00e3o \u00e9 condicionada \u00e0 perda de todas as coisas, e a uma transfigura\u00e7\u00e3o de seu car\u00e1ter. A peregrina\u00e7\u00e3o de Abra\u00e3o era, na verdade, uma ascens\u00e3o, na qual o objetivo final se encontrava al\u00e9m de qualquer destino terreno:<\/p>\n<blockquote><p>Pela f\u00e9, Abra\u00e3o obedeceu quando foi chamado, partindo para um lugar que receberia por heran\u00e7a; e partiu, sem saber para onde ia.<\/p>\n<p>Pela f\u00e9, peregrinou na terra da promessa, como se fosse terra estrangeira, habitando em tendas com Isaque e Jac\u00f3, herdeiros com ele da mesma promessa.<\/p>\n<p>Porque ele esperava a cidade que tem fundamentos, da qual Deus \u00e9 o arquiteto e construtor.<a href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\"><strong>[18]<\/strong><\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>Isso nos leva a algumas infer\u00eancias importantes. Reproduzo aqui um post despretensioso que lancei nas redes sociais h\u00e1 algum tempo:<\/p>\n<blockquote><p>O que \u00e9 essa heresia que caracteriza a IURD e a teologia da prosperidade (TdP), de modo geral? Na raiz, \u00e9 uma heresia teleol\u00f3gica; trata-se da tentativa, n\u00e3o de negar, mas de absorver o eterno no temporal e assim, desviar o telos da vida Crist\u00e3; \u00e9 o oposto do gnosticismo Crist\u00e3o antigo, que foi a absor\u00e7\u00e3o do temporal no eterno.<\/p>\n<p>A heresia da TdP \u00e9 similar \u00e0 heresia da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o &#8211; a TdL que, no caso, pretende a absor\u00e7\u00e3o do eterno no tempo hist\u00f3rico &#8211; muito embora sem a sua sofistica\u00e7\u00e3o (e ningu\u00e9m deve se enganar a respeito disso: a sofistica\u00e7\u00e3o acad\u00eamica n\u00e3o tem poder nenhum contra o mal). As duas diferem quanto ao presente da sociedade hiperconsumista &#8211; se j\u00e1 \u00e9 o destino final dos desejos do cora\u00e7\u00e3o, ou apenas uma contradi\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica caminhando para a s\u00edntese final.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 alternativa entre essas duas, a fuga para o eterno ou a morte no temporal? A alternativa deve ser tal que una o temporal e o eterno sem destruir sua diferen\u00e7a nem corromper a sua rela\u00e7\u00e3o, exatamente como ensina a Cristologia ortodoxa: &#8220;sem separa\u00e7\u00e3o, sem confus\u00e3o, sem mistura&#8221;. Nessa alternativa o foco da jornada Crist\u00e3 necessariamente integrar\u00e1 as duas grandezas sem destru\u00ed-las.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o de transcend\u00eancia entre o foco eterno e o impacto hist\u00f3rico, mais ou menos como a mat\u00e9ria org\u00e2nica da c\u00e9lula \u00e9 envolvida nos seus processos vitais. Nossa compreens\u00e3o do prop\u00f3sito da miss\u00e3o precisa reproduzir nela mesma a dualidade criador-criatura e a natureza teoc\u00eantrica da ordem temporal.<\/p>\n<p>Cabe uma pergunta cr\u00edtica: como \u00e9 que n\u00f3s, evang\u00e9licos, temos relacionado o temporal e o eterno em nossas perspectivas sobre a vida Crist\u00e3, a esperan\u00e7a Crist\u00e3, e a miss\u00e3o Crist\u00e3?<\/p><\/blockquote>\n<p>Esse \u00e9 mais um dos problemas internos recorrentes no contexto da Teologia de Miss\u00e3o Integral. Em 2014 foi realizada a<a href=\"http:\/\/www.ultimato.com.br\/conteudo\/humildade-integridade-e-simplicidade\" target=\"_blank\"> Consulta Teol\u00f3gica e Pastoral \u201cUm chamado \u00e0 humildade, \u00e0 integridade e \u00e0 simplicidade\u201d<\/a>, de 3 a 5 de abril em Atibaia (SP). A chamada do evento cobria um amplo espectro tem\u00e1tico: \u201cEntre os temas que ser\u00e3o discutidos est\u00e3o: a verdadeira natureza do discipulado b\u00edblico, a resposta b\u00edblica \u00e0 pobreza, a abordagem equilibrada sobre assuntos de economia, pol\u00edtica e poder; gest\u00e3o dos recursos \u00e0 luz da generosidade de Deus; compromisso da Igreja com os pobres.\u201d<\/p>\n<p>Sendo realizada na esteira de um evento maior e internacional para discutir o posicionamento evang\u00e9lico diante do desafio da \u201cTeologia da Prosperidade\u201d, a Consulta contemplou particularmente essa quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu mesmo estava presente, ouvindo com aten\u00e7\u00e3o e procurando trazer minhas pr\u00f3prias contribui\u00e7\u00f5es; e discutimos com os colegas Marcel Camargo (CADI), Igor Miguel (OMCV) e Abmael (PIBA) o que nos pareceu um tra\u00e7o preocupante do primeiro esbo\u00e7o do documento produzido pela consulta, cuja reda\u00e7\u00e3o foi feita por Clemir Fernandes e, se n\u00e3o me falha a mem\u00f3ria, Lyndon de Ara\u00fajo. Esse tra\u00e7o foi, inclusive, questionado por Igor Miguel na plen\u00e1ria.<\/p>\n<p>Mas quest\u00e3o, em termos simples, \u00e9 a seguinte: na interpreta\u00e7\u00e3o da natureza do erro da Teologia da Prosperidade, toda a carga cr\u00edtica foi colocada por sua subservi\u00eancia \u00e0 l\u00f3gica do capitalismo de consumo e \u00e0 submiss\u00e3o \u00e0 l\u00f3gica de morte que \u00e9 propagada pelo capital, e <em>praticamente nenhuma cr\u00edtica foi expressa quanto \u00e0 natureza propriamente religiosa e doxol\u00f3gica do erro do \u201cEvangelho\u201d da Prosperidade, que \u00e9 a imanentiza\u00e7\u00e3o das promessas do evangelho e a rela\u00e7\u00e3o idol\u00e1trica para com bens terrenos que \u00e9 produzida por esse falso evangelho<\/em>.<\/p>\n<p>Desse modo, como j\u00e1 observei num artigo anterior, a cr\u00edtica teol\u00f3gica \u00e9 absorvida dentro de uma polaridade pr\u00f3pria das quest\u00f5es de economia pol\u00edtica. Penso que esse \u00e9 mais um sinal de que h\u00e1, no interior do pr\u00f3prio movimento de miss\u00e3o integral, a mesma proverbial perda de transcend\u00eancia que acomete as teologias latino-americanas da liberta\u00e7\u00e3o, e uma recorrente dificuldade\u00a0de transcender o n\u00edvel ideol\u00f3gico do discurso. Por isso mesmo, a pr\u00f3pria TMI tem se mostrado incapaz de combater a idolatria ideol\u00f3gica de esquerda. Mais tempo e conversa ser\u00e3o necess\u00e1rios para verificar essa suspeita, mas os ind\u00edcios de que a teologia da prosperidade e a teologia de alguns setores (n\u00e3o todos) do progressismo evang\u00e9lico <em>s\u00e3o irm\u00e3s na perda do eterno pela concupisc\u00eancia do temporal<\/em> s\u00e3o p\u00fablicos e not\u00f3rios.<\/p>\n<p>Para comunicar com mais clareza essa falha religiosa, tenho empregado a express\u00e3o \u201cfalha teleol\u00f3gica\u201d ou \u201c<strong>heresia teleol\u00f3gica<\/strong>\u201d, que pode ou n\u00e3o acometer um pensador ou um grupo crist\u00e3o. Penso que <strong>tanto o neocalvinismo holand\u00eas <\/strong>(por raz\u00f5es \u00a0que apresentarei em um estudo posterior)<strong> quanto a teologia latino-americana da miss\u00e3o integral tem se tornado culpados desse erro fundamental e, por isso, perdido o seu car\u00e1ter cat\u00f3lico<\/strong>. Mais do que outras falhas ideol\u00f3gicas ou teol\u00f3gicas, considero este a grande amea\u00e7a espiritual que paira sobre o evangelicismo brasileiro, e que est\u00e1 provavelmente por tr\u00e1s at\u00e9 mesmo do erro hermen\u00eautico da \u201cCristologia Superestrutural\u201d. \u00c9 um erro espiritual que n\u00e3o pode ser corrigido apenas com melhor teologia; precisamos, para venc\u00ea-lo, de um avivamento ou de um despertamento espiritual no interior do evangelicismo brasileiro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li><strong>A A\u00e7\u00e3o transformadora n\u00e3o \u00e9 \u201cRevolucion\u00e1ria\u201d mas \u201cReformacional\u201d, devido \u00e0 Ordem Criacional (Horizonte Cosmol\u00f3gico)<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Esse ponto fica bastante claro no tratamento que o ap\u00f3stolo Paulo nos d\u00e1 das estruturas sociais e a f\u00e9 Crist\u00e3, em suas cartas. Paulo introduz os leitores a uma rela\u00e7\u00e3o cr\u00edtica com a fam\u00edlia romana, que era a c\u00e9lula b\u00e1sica de poder pol\u00edtico, social e econ\u00f4mico na \u00e9poca do Imp\u00e9rio. Paulo nem valida a institui\u00e7\u00e3o na forma em que operava, nem a rejeita, propondo uma \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d. O que ele introduz \u00e9 uma renova\u00e7\u00e3o cr\u00edtica \u2013 uma reforma (Cl 3-4). Discutimos esse aspecto j\u00e1 h\u00e1 alguns anos, no texto <a href=\"https:\/\/www.academia.edu\/1063849\/O_Senhorio_de_Cristo_e_a_Miss%C3%A3o_da_Igreja_na_Cultura_A_Id%C3%A9ia_de_Soberania_e_sua_Aplica%C3%A7%C3%A3o\" target=\"_blank\">\u201cO Senhorio de Cristo e a Miss\u00e3o\u00a0da Igreja na Cultura\u201d<\/a>, publicado no livro \u201cF\u00e9 Crist\u00e3 e Cultura contempor\u00e2nea\u201d (Ultimato) e dispon\u00edvel <a href=\"https:\/\/www.academia.edu\/1063849\/O_Senhorio_de_Cristo_e_a_Miss%C3%A3o_da_Igreja_na_Cultura_A_Id%C3%A9ia_de_Soberania_e_sua_Aplica%C3%A7%C3%A3o\" target=\"_blank\">AQUI<\/a>.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, por ser <em>reformacional<\/em>, a a\u00e7\u00e3o transformadora crist\u00e3 \u00e9 sempre antit\u00e9tica: ela reconhece que h\u00e1 um conflito entre a Cidade de Deus e a Cidade do Homem (Agostinho), e que por isso a a\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica n\u00e3o segue uma dire\u00e7\u00e3o progressiva sem ambiguidade. Deus age no processo hist\u00f3rico, mas sua a\u00e7\u00e3o pode muitas vezes ser oposta ao que parece ser um movimento hist\u00f3rico progressivo (ela pode parecer \u201creacion\u00e1ria\u201d aos olhos da idolatria revolucionista).<\/p>\n<p>A \u201cqueda\u201d se expressa um desvio intratemporal da consci\u00eancia e uma consequente revolta contra a estrutura da ordem temporal. Por isso processos reacion\u00e1rios e revolucion\u00e1rios s\u00e3o inerentemente ca\u00eddos, sempre; e por isso n\u00e3o podemos jamais \u201cbatizar\u201d quaisquer deles. Nossos compromissos com processos hist\u00f3ricos \u201crevolucion\u00e1rios\u201d ou \u201creacion\u00e1rios\u201d devem ser sempre profundamente c\u00e9ticos, qualificados e prudentes.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre \u201chist\u00f3ria\u201d e o \u201cresto\u201d da realidade humana, vale mencionar: h\u00e1 uma lei operante do desenvolvimento hist\u00f3rico, que deve no entanto ser positivada; e essa lei \u00e9 coerente com as leis de outras esferas da vida. O fil\u00f3sofo Herman Dooyeweerd, afastando-se tanto dos historicismos dominantes (como o rom\u00e2ntico-dial\u00e9tico, o marxiano e o p\u00f3s-estruturalista) quanto da cr\u00edtica positivista a qualquer no\u00e7\u00e3o de lei hist\u00f3rica (como a den\u00fancia cl\u00e1ssica por Karl Popper em \u201cA Mis\u00e9ria do Historicismo\u201d), esfor\u00e7ou-se por mostrar que processos hist\u00f3ricos s\u00e3o tamb\u00e9m ordenados mas perfazem apenas uma das dimens\u00f5es do \u201ctempo c\u00f3smico\u201d, sendo a experi\u00eancia da temporalidade muito mais ampla e multidimensional do que a experi\u00eancia da historicidade (para compreens\u00e3o introdut\u00f3ria da no\u00e7\u00e3o de progressividade hist\u00f3rica na tradi\u00e7\u00e3o wetsidee, recomendamos o texto <a href=\"http:\/\/www.reformationalpublishingproject.com\/pdf_books\/Scanned_Books_PDF\/TheCriteriaofProgressiveandReactionaryTendenciesinHistory.pdf\" target=\"_blank\">&#8220;O Crit\u00e9rio para tend\u00eancias Progressivas e Reacion\u00e1rias na Hist\u00f3ria&#8221;, dispon\u00edvel em ingl\u00eas AQUI<\/a>).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li><strong>A A\u00e7\u00e3o Transformadora \u00e9 Imponder\u00e1vel, porque sujeita \u00e0 Vontade Divina\u00a0(Horizonte Providencial)<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica, principalmente a partir de Max Weber, destaca as consequ\u00eancias n\u00e3o-intencionadas da a\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica; o que Paul Freston costuma destacar como o aspecto \u201cir\u00f4nico\u201d da atividade do soci\u00f3logo. Embora o discernimento hist\u00f3rico seja poss\u00edvel, devemos compreender que a hist\u00f3ria \u00e9 aberta e aberta \u00e0 a\u00e7\u00e3o divina, de modo que n\u00e3o seria correto esperar que o processo hist\u00f3rico seguisse uma ordem de <em>necessidade<\/em> hist\u00f3rica. O futuro \u00e9 mais do que o presente pode produzir, no sentido de que n\u00e3o \u00e9 um mero subproduto do que aconteceu antes. Por isso n\u00e3o devemos jamais crer em uma ideologia ou pr\u00e1xis como se tal fosse uma garantia do futuro:<\/p>\n<blockquote><p>Agora, prestai aten\u00e7\u00e3o, v\u00f3s que dizeis: Hoje ou amanh\u00e3 iremos a tal cidade, l\u00e1 passaremos um ano, negociaremos e teremos lucro.<\/p>\n<p>No entanto, n\u00e3o sabeis o que acontecer\u00e1 no dia de amanh\u00e3. O que \u00e9 a vossa vida? Sois como uma n\u00e9voa que aparece por pouco tempo e logo se dissipa.<\/p>\n<p>Em vez disso, dev\u00edeis dizer: Se o Senhor quiser, viveremos e faremos isto ou aquilo.<\/p>\n<p>Mas vos orgulhais da vossa arrog\u00e2ncia. Todo orgulho como esse \u00e9 maligno.<a href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref19\"><strong>[19]<\/strong><\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>Ilustrando a resposta com o trecho do ap\u00f3stolo Tiago, afirmamos: o fim da hist\u00f3ria \u00e9 <em>d\u00e1diva<\/em> e <em>transcend\u00eancia<\/em>. Ele \u00e9 antecipado analogicamente pelas transforma\u00e7\u00f5es pen\u00faltimas que experimentamos em nossa miss\u00e3o, e que ser\u00e3o incorporadas por Deus na grande renova\u00e7\u00e3o da terra, mas s\u00e3o todas <strong>subescatol\u00f3gicas<\/strong>. E isso nos leva ao pr\u00f3ximo ponto:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"4\">\n<li><strong>A A\u00e7\u00e3o Transformadora se d\u00e1 no horizonte do J\u00c1\/AINDA N\u00c3O: Realismo Missional (Horizonte Escatol\u00f3gico)<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Agostinho considerava que a cidade de Deus est\u00e1 \u201cmisturada\u201d com a cidade do homem, na era presente. H\u00e1 uma presen\u00e7a dos poderes do mundo vindouro, mas tamb\u00e9m uma ambiguidade, pois a reden\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 completa. N\u00e3o podemos entender que o pecado j\u00e1 foi eliminado da nossa vida e do mundo, embora devamos viver do ponto de vista da promessa divina. Para expressar essa ambiguidade, temos empregado a no\u00e7\u00e3o de <strong>sinais subescatol\u00f3gicos<\/strong> do reino.<\/p>\n<p>Esse conceito merece explana\u00e7\u00e3o; mas penso que uma ilustra\u00e7\u00e3o bastar\u00e1. Consideremos a ressurrei\u00e7\u00e3o de L\u00e1zaro; foi, sem d\u00favida nenhuma, um prod\u00edgio. E como o pr\u00f3prio Jesus indicou, uma demonstra\u00e7\u00e3o de que ele era &#8220;A Ressurrei\u00e7\u00e3o e a Vida&#8221;. Ainda assim, o fruto da presen\u00e7a da \u00e1rvore da vida, que era Cristo, manifestava-se ali de forma incompleta e, ainda, tempor\u00e1ria. Pois ainda que ressuscitado por Jesus, l\u00e1zaro ainda deveria morrer e aguardar a ressurrei\u00e7\u00e3o final. E o mesmo se aplicaria a todas as curas que Jesus realizou; nenhuma delas seria um dom absolutamente permanente.<\/p>\n<p>Essa l\u00f3gica \u00e9 bem clara no tratamento dado pelo ap\u00f3stolo Paulo aos dons espirituais. Muito embora ele reconhe\u00e7a que s\u00e3o, todos, dons do Espirito Santo, ele n\u00e3o hesita em ensinar, em 1Cor\u00edntios 13, que cada um desses dons passaria, ao final, sendo que apenas permaneceriam, na manifesta\u00e7\u00e3o daquele que \u00e9 perfeito, a F\u00e9, a Esperan\u00e7a e o Amor. Tendo isso em mente, o te\u00f3logo Richard Gaffin, de Westminster, cunhou a feliz express\u00e3o &#8220;subescatol\u00f3gico&#8221; para denotar aqueles dons ou sinais de gra\u00e7a divina que presentificam o escatol\u00f3gico e o sinalizam, mas n\u00e3o s\u00e3o sua plena efetividade. Na vida Crist\u00e3, por exemplo, n\u00e3o s\u00e3o os dons espirituais, nem os trabalhos e realiza\u00e7\u00f5es que obtemos historicamente, a presen\u00e7a pura do <strong>eschaton<\/strong>, mas o fogo da f\u00e9, da Esperan\u00e7a e do Amor no centro da alma &#8211; os dons imortais, que revelam presen\u00e7a da imortalidade. \u00c9 por isso, tamb\u00e9m, que a mera capacidade de operar sinais miraculosos, embora sinalize os poderes do mundo vindouro, n\u00e3o \u00e9 prova inconteste da pot\u00eancia da imortalidade.<\/p>\n<p>Aplico a mesma l\u00f3gica ao discurso da transforma\u00e7\u00e3o: as obras de f\u00e9 e de justi\u00e7a que realizamos no mundo hoje, incluindo os trabalhos de transforma\u00e7\u00e3o social, econ\u00f4mica, pol\u00edtica e cultural, s\u00f3 podem ser, por sua natureza, sinais subescatol\u00f3gicos do reino. Eles n\u00e3o s\u00e3o o reino, mas a evid\u00eancia da presen\u00e7a do reino. O reino \u00e9 &#8220;justi\u00e7a, paz, e alegria no Esp\u00edrito Santo&#8221;. O reino est\u00e1 onde est\u00e1 o poder da nova cria\u00e7\u00e3o, e ele s\u00f3 \u00e9 presente onde h\u00e1 f\u00e9, esperan\u00e7a e amor.<\/p>\n<p>Essa distin\u00e7\u00e3o entre o escatol\u00f3gico e o subescatol\u00f3gico pode nos auxiliar na pr\u00e1tica de uma esp\u00e9cie de &#8220;realismo missional&#8221;.\u00a0O realismo missional \u00e9 essa atitude que se mant\u00e9m entre os extremos do triunfalismo e do cinismo, afirmando que uma cura substancial pode ser experimentada hoje, mas sem excessos ut\u00f3picos, e sempre de forma <em>anal\u00f3gica e antecipat\u00f3ria<\/em>. Nesse sentido, \u00e9 preciso, literalmente, \u201cacalmar o cora\u00e7\u00e3o\u201d e conviver com a ambiguidade da hist\u00f3ria na era presente. Esse realismo deve nos levar a um cuidado extremo e respons\u00e1vel para com nossos deveres p\u00fablicos.<\/p>\n<p>Considere-se, por exemplo, a atitude revolucion\u00e1ria que, nos sonhos ut\u00f3picos, disp\u00f5e-se a cuspir sobre tradi\u00e7\u00e3o e institui\u00e7\u00f5es devido \u00e0 sua \u00f3bvia falibilidade, ignorando os riscos culturais e para a seguran\u00e7a e bem estar das pessoas enquanto se promove, irresponsavelmente, uma \u201ccrise escatol\u00f3gica\u201d baseada na indu\u00e7\u00e3o da crise social e na desestabiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Quanto contemplamos a hist\u00f3ria a partir do presente, notamos que paix\u00f5es irracionais e um tipo de desespero do infinito, manifesto na concupisc\u00eancia contra as formas da finitude, guiava os revolucion\u00e1rios em atos destrutivos institucionalmente, socialmente, e moralmente, e com alt\u00edssimo custo humano. Aquele que deseja lan\u00e7ar-se em lutas pela transforma\u00e7\u00e3o social, deve faz\u00ea-lo com humildade e sem ansiedades ut\u00f3picas; acima de tudo, deve ter certeza de que a for\u00e7a que o move n\u00e3o \u00e9 o vazio da aus\u00eancia do para\u00edso, mas a presen\u00e7a do descanso divino em sua alma, nas virtudes teologais da f\u00e9, da esperan\u00e7a e do amor.<\/p>\n<p>Sobre essa tenta\u00e7\u00e3o de fundir o horizonte escatol\u00f3gico com o horizonte da a\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica humana, expressa-se de forma quase insuper\u00e1vel o grande te\u00f3logo cat\u00f3lico Henri de Lubac, uma das fontes do Vaticano II, em seu trabalho sobre a rela\u00e7\u00e3o entre Natureza e Gra\u00e7a:<\/p>\n<blockquote><p>Devemos, ent\u00e3o, cuidar para n\u00e3o confundir &#8220;o progresso deste mundo&#8221; (em si mesmo um termo muito ambivalente) com a &#8220;nova cria\u00e7\u00e3o&#8221;. Devemos evitar escorregar da convers\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o, pela qual o &#8216;novo homem&#8217; \u00e9 nascido em Cristo, com o \u00a0desdobramento da \u00a0hist\u00f3ria (dial\u00e9tica ou n\u00e3o) que carrega em si &#8216;como num ventre&#8217; as sociedades do futuro. N\u00e3o devemos falhar em distinguir como coisas muito diferentes a \u00a0busca de boa organiza\u00e7\u00e3o social, ou a determina\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica de maior sucesso, e o princ\u00edpio do Reino de Deus; eles s\u00e3o duas ordens de realidade diferentes. (De Lubac: A Brief Catechesis on Nature &amp; Grace. Ignatius Press, 1980, p. 101-102).<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>IV. O Realismo Missional como Modelo de \u201cPresen\u00e7a Transformadora\u201d<\/strong><\/p>\n<p>A Miss\u00e3o Evang\u00e9lica \u201cCat\u00f3lica\u201d tem a fun\u00e7\u00e3o de, como \u201csal da terra\u201d, de equilibrar as tend\u00eancias reacion\u00e1rias e revolucion\u00e1rias em um processo genuinamente progressivo, respondendo dinamicamente ao avan\u00e7o hist\u00f3rico, em di\u00e1logo com as \u201cvanguardas\u201d e com o conservadorismo.<\/p>\n<p>Mas exatamente pela perspectiva de uma hist\u00f3ria <strong>sub specie aeternitatis<\/strong>, de uma ordem temporal normativa, e de uma vis\u00e3o realista da pol\u00edtica, deve recusar-se a abandonar a peregrina\u00e7\u00e3o para fixar-se em uma situa\u00e7\u00e3o temporal.<\/p>\n<p>Temos, assim, o grande desafio descrito por James Davison Hunter como a \u201cPresen\u00e7a Fiel\u201d \u2013 que eu esticaria um pouco mais, contra esse grande analista social contempor\u00e2neo, e descreveria como \u201cPresen\u00e7a Transformadora\u201d. Tal presen\u00e7a consistiria de uma confronta\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel e consciente dos desafios imediatos do processo hist\u00f3rico, mas abdicando de qualquer controle sobre esse processo ou de alian\u00e7as com for\u00e7as que supostamente teriam o poder de controlar esse processo. Em outros termos: mais do que um projeto de \u201ctransforma\u00e7\u00e3o\u201d, a Igreja de Jesus deveria apresentar ao mundo um projeto de \u201cdemonstra\u00e7\u00e3o\u201d. Essa demonstra\u00e7\u00e3o n\u00e3o deixaria de mostrar impacto transformacional, mas um princ\u00edpio metodol\u00f3gico de recusa sistem\u00e1tica do pragmatismo do poder e do utilitarismo moral deveria qualificar todos os seus movimentos p\u00fablicos, para que sua alma jamais fosse vendida a projetos de poder.<\/p>\n<p>Tal qual Abra\u00e3o, o evangelicismo-cat\u00f3lico n\u00e3o deve se furtar \u00e0s guerras que se apresentam, em nome da justi\u00e7a e dos oprimidos, como quando este reuniu seus valentes para combater reis invasores; mas como Abra\u00e3o, que se recusou a fazer Alian\u00e7as com o Rei de Sodoma, n\u00e3o devemos buscar seguran\u00e7a terrena prometendo o que n\u00e3o podemos prometer a programas ideol\u00f3gicos, partidos pol\u00edticos, sonhos de reorganiza\u00e7\u00e3o social ou projetos nacionais.<\/p>\n<p>Nem devemos olhar para tr\u00e1s, se os anjos nos convocam a abandonar a cidade dos homens. Pois h\u00e1 sempre outro futuro al\u00e9m do \u00f3bvio presente.<\/p>\n<p>**************************************************<\/p>\n<p><strong>Acompanhe o restante da discuss\u00e3o:<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/2015\/06\/26\/sobre-o-dilema-estetico-sentimental-da-politica-evangelica-contemporanea\/\" target=\"_blank\">1. O problema do Sentimentalismo na Pol\u00edtica Evang\u00e9lica<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/2015\/07\/11\/os-evangelicos-progressistas-e-o-caso-da-cruz-de-espinal\/\" target=\"_blank\">2. O Caso da Cruz de Espinal<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/2015\/06\/26\/sobre-o-dilema-estetico-sentimental-da-politica-evangelica-contemporanea\/\" target=\"_blank\">3. O &#8220;ponto cego&#8221; na teologia de Miss\u00e3o Integral<\/a><\/p>\n<p>4. A Miss\u00e3o e a Linguagem da Transforma\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>5<a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/2014\/11\/05\/a-visao-crista-do-estado-e-o-principe-moderno\/\" target=\"_blank\">. O Pr\u00edncipe Moderno e a Vis\u00e3o Crist\u00e3 do Estado<\/a><\/p>\n<p>6<a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/guilhermedecarvalho\/2014\/10\/27\/920\/\" target=\"_blank\">. Sobre as Intoxica\u00e7\u00f5es Pol\u00edticas<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>**************************************************<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a>\u00a0Ren\u00e9 Padilla, <em>Miss\u00e3o Integral: o Reino de Deus e a Igreja<\/em>. Vi\u00e7osa: Ultimato, 2014:20.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Ibid, 27-28.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> <em>We are concerned, however, that both the goals and the process of transformation should be seen in the light of the Good News about Jesus, the Messiah. We commit ourselves and urge other Christian believers to reject the cultural and social forces of secularism, which so often shape our idea of a good society. We believe that notions alien to God&#8217;s plan for human living are often more powerful in forming our opinions about what is right for a nation than the message of Scripture itself<\/em><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> According to the biblical view of human life, then, transformation is the change from a condition of human existence contrary to God&#8217;s purpose to one in which people are able to enjoy fullness of life in harmony with God (John 10:10; Col. 3:8-15; Eph. 4:13)<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> There are a number of themes in Bible, which help us focus on the way we understand transformation. The doctrine of creation speaks of the worth of every man, woman, and child, of the responsibility of human beings to look after the resources of nature (Gen. 1:26-30) and to share them equitably with their neighbors. The doctrine of the Fall highlights the innate tendency of human beings to serve their own interests, with the consequences of greed, insecurity, violence, and the lust for power. &#8220;God&#8217;s judgement rightly falls upon those who do such things&#8221; (Rom. 2:2). The doctrine of redemption proclaims God&#8217;s forgiveness of sins and the freedom Christ gives for a way of life dedicated to serving others by telling them about the Good News of Salvation, bringing reconciliation between enemies, and losing one&#8217;s life to see justice established for all exploited people.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Through application of the Scriptures, in the power of the Spirit, we seek to discern the true reality of all sociocultural situations. We need to learn critically from both functionalist and conflict approaches to human culture. The &#8220;functionalist socio-anthropology&#8221; approach emphasizes the harmonious aspect of different cultures and champions a tolerant attitude to the existing structures. This position is often adopted in the name of &#8220;scientific objectivity.&#8221; By contrast, the &#8220;conflict&#8221; approach exposes the contradictory nature of social structures and makes us aware of the underlying conflict of interests. We must remember that both approaches come under the judgement of God.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Karl Marx, Teses sobre Feuerbach, 1845<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Quaderni, 2:1437; 3:1828. Apud: Esteve Morera, <em>Gramsci&#8217;s Historicism: A Realist Interpretation.<\/em> Routledge Revivals; Routledge (2012 [1990]).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Ibid (Pos 1146).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Ibid (Pos 1155).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> Ibid (Pos 1214).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> Ibid (Pos 1219).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> Ibid (Pos 1337).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.insurgencia.org\/a-luta-lgbt-como-estrategia-para-a-construcao-de-uma-sociedade-socialista\/<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a> Como observa Hobsbawn, a perspectiva totalizante n\u00e3o era inerente \u00e0 an\u00e1lise da natureza e desenvolvimento do capitalismo, mas \u201cde uma discuss\u00e3o filos\u00f3fica, na realidade escatol\u00f3gica, sobre a natureza e o destino do\u00a0 homem. A ideia \u2013 fundamental para Marx a partir de ent\u00e3o \u2013 de que o proletariado era uma classe que n\u00e3o poderia se libertar sem libertar a sociedade como um todo surgiu como \u2018uma dedu\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica e n\u00e3o como um produto da observa\u00e7\u00e3o\u2019\u201d. Eric Hobsbawn, <em>Como Mudar o Mundo: Marx e o Marxismo<\/em>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2011:111.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a> Padilla (2014:26). Muito embora em seu livro Padilla se esforce \u00a0por deixar claro que n\u00e3o deve ser feita uma redu\u00e7\u00e3o da evangeliza\u00e7\u00e3o aos aspectos temporais da miss\u00e3o, suas formula\u00e7\u00f5es permanecem inst\u00e1veis ao reunir os elementos temporais e o eterno assumindo uma imposs\u00edvel equival\u00eancia qualitativa, e falhando em compreender que nossa concep\u00e7\u00e3o de miss\u00e3o e salva\u00e7\u00e3o precisa reproduzir nela mesma a dualidade Criador-criatura cristalizada na Cristologia cl\u00e1ssica e a natureza teoc\u00eantrica da ordem temporal (ou: o fato de que ela incansavelmente aponta para al\u00e9m de si mesma, para a sua fonte eterna de sentido).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\">[17]<\/a> 2Co 4.16-18<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref18\" name=\"_ftn18\">[18]<\/a> Hb 11.8-10<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref19\" name=\"_ftn19\">[19]<\/a> Tg 4.13-16<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Em 2005 um grupo de amigos se reuniu para \u00a0discutir novos rumos para a reflex\u00e3o evang\u00e9lica sobre Cristianismo e Cultura e, particularmente, sobre as limita\u00e7\u00f5es e possibilidades da teologia da miss\u00e3o integral. Desses encontros surgiu o livro &#8220;Cosmovis\u00e3o Crist\u00e3 e Transforma\u00e7\u00e3o&#8221;, publicado pela editora Ultimato em 2006. 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